22 de jan. de 2022

[Poesia] O VENTO MALDITO – Pedro Luso de Carvalho

 




      O VENTO MALDITO

                      - Pedro Luso de Carvalho



De onde vem este vento pleno

de mau agouro? Virá das tumbas

de tempos remotos? – Gélido frio

perpassa-me o corpo.

Maldito vento, por que não cessas

e voltas para teus mortos?

Ou será teu desejo levar-me

contigo como troféu?

A quem servirá minh’alma?

Troféu algum valerá trabalho

tamanho para essa viagem

das trevas, vento maldito

com presságio de morte.

Não vês que ainda tenho sonhos,

tenho amores para amar,

injustiças para corrigir?

Vai-te daqui, vento agourento!

Irei contigo, mansamente,

maldito vento dos cemitérios,

quando não mais puder sentir

a dor dos homens secos pela fome.





________________________//_________________________






21 de dez. de 2021

[Poesia] A INÚTIL BUSCA - Pedro Luso de Carvalho

 




       A INÚTIL BUSCA

    - Pedro Luso de Carvalho




  Aonde encontraremos político,

  da pátria defensor denodado,

  nobreza d'alma, honra iluminada,

  com caráter em aço forjado?


Homens probos já teve o país,

esquecidos no tempo distante,

apagados seus ensinamentos:

à amada pátria, amor constante.


Presente no país a miséria,

é submetido o povo à dor,

desolado, desesperançado,

sem a coragem de vencedor.


  Desiludida está tanta gente,

  qual andrajos de nave retida,

  descrendo na imposição da lei

  persistem em terra destruída.





                          ______________________//_______________________

                         






27 de nov. de 2021

[Poesia] A CASA DE PEDRA – Pedro Luso de Carvalho

 




A CASA DE PEDRA

           – Pedro Luso de Carvalho




Por quanto tempo fiquei ali,

feito estátua, em frente à casa,

entre prédios e palacetes ?


Volto depois de muitos anos

à antiga casa de pedra –

o reino perdido da infância.


Era grande a casa de pedra,

na minha infância tão distante –

palácio de tantos brinquedos.


Ficou pequena, a minha casa

de pedra! Onde a casa de sonhos?

Sumiram juntas, casa e infância?


Lufada de vento oportuna

(sopro de algum anjo perdido)

fez-me entrar na casa de pedra.


Posso, homem de tantos caminhos,

ser de novo aquele menino

dessa casa – reino perdido?


Falta-me o fôlego. No peito

garras ferem – emoção e dor.

Levou o sonho, ave de rapina.




_______________//_______________





20 de nov. de 2021

[Poesia] DESPEDIDA / Pedro Luso de Carvalho

 

Casarios - Durval Pereira



         DESPEDIDA

                  - Pedro Luso de Carvalho



Quando parti, dormia a cidade

sob um manto espesso de névoa.

Naquela noite, venci dúvidas,

venci o medo terrificante.


Não a deixei, na noite acordando,

foi comigo, junto ao peito.

Levei junto aquela cidade

para aguçar minhas lembranças.


Na distância, tempo teria

para remoer os remorsos.

Lembro-me, hoje, daquelas ruas,

de seus intrincados segredos.


Estão na mente ruas tantas,

de amigos feitos e sumidos.

Como poderia eu esquecer

as ruas de minha cidade?


Foram as guias dos meus passos,

velhas ruas por onde andei.

Das ruas, não contei os segredos.

Quem teria interesse ouvi-los?




_______________//_______________






8 de nov. de 2021

(Poesia) O ASSALTO / Pedro Luso de Carvalho

 




      O ASSALTO

                  – Pedro Luso de Carvalho




Vi no cano da arma, túnel

fundo, sem luz,

a vida em risco,

o temor na hora do assalto.



Medo também tolda os olhos

de quem assalta

risco aumentado –

a sorte na mão crispada.



Em estranha tela, a vida

é repassada,

qual alma gêmea,

o bem e o mal praticados.



Súbito, o som do disparo,

certeiro tiro

mata o assaltante,

dever que cumpre o soldado.



Vi, naquela tarde quente,

sol refletir

na áurea cápsula,

abandonada no asfalto.





____________________//___________________







19 de out. de 2021

[Poesia] OS VIGARISTAS / Pedro Luso de Carvalho

 




         OS VIGARISTAS

                 – Pedro Luso de Carvalho




Que saibam vocês guardar segredo

das tristes coisas que vou contar,

tristes casos, sem nenhum enredo,

a ninguém fará rir nem chorar.



Pode causar medo a história,

todos somos reféns de bandidos

(triste caminhar, luta inglória)

visíveis todos ou escondidos.



Vigaristas vis do parlamento

gente educada e bem vestida

roubam todos com descaramento,

míseros, pensam ter eterna vida.






_________________________//________________________









4 de out. de 2021

(Poesia) OS DESPREZADOS – Pedro Luso de Carvalho

 




OS DESPREZADOS

      – Pedro Luso de Carvalho





A ninguém conte o segredo,

a esperança saiu porta afora,

meteu-se em becos imundos,

breus de torpezas, vis becos

de pervertidos, condenados

todos, sentença irrecorrível,

saldo de vidas consumidas,

acre cheiro, vício de pedra

fumaça a revoltear espiral,

escultura para os túmulos,

renúncia insultuosa à vida,

da crueldade retrato, chaga

do país à mostra sem recato.





__________________________//_________________________





24 de set. de 2021

[Poesia] ACONTECE COMIGO - Pedro Luso de Carvalho

 

Candido Portinari - A Descoberta da Terra / 1941




ACONTECE COMIGO

               – Pedro Luso de Carvalho





Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Minha vida tem sido assim,

há sempre alguma bruma,

há sempre alguma tristeza,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Esta dor em meu peito,

a desgraça tão presente,

o país que não se inveja,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

O meu desejo de partir,

para na distância viver,

paz há quem anteveja,

sem que possa explicar o que seja.




___________________//___________________





15 de set. de 2021

(Poesia) COFRES E LADRÕES / Pedro Luso de Carvalho

 

Congresso Nacional / Brasília




COFRES E LADRÕES

                        -  Pedro Luso de Carvalho





Feche bem essa porta, meu filho,

há muitos ladrões lá fora.

Feche bem essa porta, meu filho,

se entrarem nada sobrará

do que temos.

(Ratos vêm roer nossos pés.)



Sabe onde se escondem os ladrões

dos nossos cofres, meu filho?

Escondem-se em palácios forrados,

tapetes dourados tecidos em ouro

e prata, embriagados pelo poder.



Mas logo tudo passará, meu filho,

essas bocas ilustres dos ladrões

de fala fácil, enganosa fala,

não mais terão o que dizer.



Ouve o vento bater na janela,

meu filho, ouve o suave vento

de harpa tangida, nosso alento,

único discurso para ouvirmos.





____________________//____________________







4 de set. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Lembranças

 



          LEMBRANÇAS

                      – Pedro Luso de Carvalho





Música – sonoras notas lembram Bach

na igreja – reflexão

e religiosidade,

minhas asas para o voo.



Verei da altura, do nublado céu, a cidade

natal, quase esquecida na serra,

São Joaquim

minha primeira objeção.



Dia Santo de São Pedro, neve

na manhã

branca

a tecer tapete no chão.



Lembranças avivadas com a sonata

de Bach, som

e solo do violoncelo

aplanando meu caminho.





_________________________//________________________





29 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - O quarto esquecido

Edward Hopper - O Quarto 1906 / Whitney Museum

 




O QUARTO ESQUECIDO

               – Pedro Luso de Carvalho




Há um quarto de dormir

na casa desperta,

neste dia claro,

sem lembranças.


Há um quarto de dormir,

quarto esquecido

feito amor velho

trocado por novo amor.





_____________________//____________________







25 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Os sonhos perdidos

 




     OS SONHOS PERDIDOS

                     – Pedro Luso de Carvalho




No enigma da noite,

no nevoeiro intenso na cidade,

garimpa a mulher.



No coração mantém

da infância os tantos sonhos,

dourados sonhos.



Sabe ela dos sonhos,

sabe que os sonhos nada valem

para sobreviver.



Tem o corpo para exibir,

habituais clientes, bolsos cheios,

virão atraídos.



No facho de luz,

homem leva na mão o dinheiro –

o preço do prazer.






_______________________________//_______________________________






15 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – A Terra Ferida

 

Obra: Fazenda do Brejinho / João Batista da Costa



A TERRA FERIDA

           – Pedro Luso de Carvalho





Caminho por esta pobre terra

seca, carente de cuidado,

de amor carente.



Pisaram-te, pobre terra, pés

que te feriram a alma,

interminável dor.



Meus olhos tuas seivas veem

o alimento que guardas

para matas e rios.



As tuas fontes, pobre terra,

teus riachos e cascatas

haverás de cuidar.



Tenhas cuidado com o homem,

predador de mórbida avidez

(dele sejas a sepultura).



Verás crescer tuas florestas,

os rios refletirem do céu

o azul, rumo ao mar.






______________________//_______________________





1 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Ansiedade do artista

 

                                            
Jackson Pollock - Expressionismo Abstrato





     ANSIEDADE DO ARTISTA

                          – Pedro Luso de Carvalho





Fantasmas cercam o artista

na noite, quase madrugada.

No ateliê vestido de quadros

ainda ecoa o estampido da arma.



Na ânsia de criar, o artista fere

a tela virgem com o sangue

do homem – dançam pincéis

com tantas tintas no alvo tecido.



O artista anseia esquecer

o dia de fúria, esquecer a arma

municiada na mão tensa –

sentença irrecorrível.



Nos contornos de lúgubres figuras,

compostas em grandes telas, homens

e mulheres assombram – a criança

transborda alegria num universo de cores.





___________________________//_________________________





23 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Uma trégua

José Cesário / Costa do Mar


 

       UMA TRÉGUA

                 Pedro Luso de Carvalho




Deixo esvair-se em mim

toda energia,

cessar da ação o ardor.



Trégua aos tensos músculos

nessa luta,

clamando por paz.



Que possa eu a paz merecer,

repouso do espírito,

até o retorno à barbárie.



Volto ao império dos músculos,

espírito vencido,

soldado de guerra perdida.





________________________//________________________