19 de mar. de 2026

ERNEST HEMINGWAY - Sua Obra & Influências



PEDRO LUSO DE CARVALHO

ERNEST HEMINGWAY iniciou sua carreira como repórter do Kansas City Star, com a idade de 17 anos. Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, Hemingway juntou-se a uma unidade de ambulância voluntária no exército italiano, como motorista. Servindo na linha de frente, foi ferido gravemente, e, para recuperar-se dos ferimentos sofridos, permaneceu por considerável tempo em hospitais. Depois de seu retorno aos Estados Unidos, passou a trabalhar como repórter para jornais canadenses e americanos, um deles, o Toronto Star Weekly, na cobertura da guerra franco-turca, que o levou a retornar à Europa. Mais tarde fixou residência em Paris.
No ano de 1923, Hemingway publicou o seu primeiro livro, The Stories and Ten Poems, numa edição de 300 exemplares; em 1924, saiu a coletânea In Our Time, com 18 contos curtos. Em 1925 publicou a sátira The Torrents of Spring. Em 1926 publicou o romance The Sun Also Rises (O sol também se levanta), em 1927, o seu segundo livro de contos, Nen Without Woman, destacando-se, entre eles, The Killers e The Undefeated, que foram considerados os melhores exemplos do conto moderno.
O reconhecimento, pela crítica literária, chegou a Hemingway com a publicação do romance A Farewell to Arms (Adeus às armas), em 1929. Os seus contos foram reunidos no livro The First Forty-Nine, em 1938. Já o romance mais longo do escritor foi publicado em 1940, cuja história se passa na Guerra Civil Espanhola, For Whom the Bell Tolls (Por quem os sinos dobram). Além dessas obras, publicou: Across the River and Into the Trees (1950), Old man and the Sea (O velho e o mar), em 1952 - que lhe deu o Prêmio Pulitzer, em 1953, e o Prêmio Nobel de 1954 -, Adventures of a Young Man (1962), Islands in the Stream (1970) e The Garden of Eden (O jardim do Éden), em 1986.
A respeito de Old man and the Sea (O velho e o mar), assim se manifesta Mário Vargas Llosa, no seu livro A verdade das mentiras, depois de ter se referido à luta de um velho pescador, que depois de ficar oitenta e quatro dias sem pescar, trava uma luta titânica de dois dias e meio contra um peixe gigantesco, que, preso a seu pequeno bote, depois de um combate não menos heroico, vem a perdê-lo no dia seguinte para os vorazes tubarões do Caribe:
Essa é uma situação clássica nas obras de ficção de Hemingway: a aventura de um homem que enfrenta, num combate sem trégua, um adversário implacável, liça graças a qual, seja derrotado ou vitorioso, atinge um valor mais alto de orgulho e de dignidade, um maior coeficiente humano. Mas em nenhum de seus romances ou contos anteriores esse tema recorrente de sua obra se materializou com a perfeição que atingiu nesse relato, escrito em Cuba, em 1951, num estilo diáfano, com uma estrutura impecável e tanta riqueza de alusões e significados como o de seus melhores romances de fôlego” (...) Sem deixar de ser uma bela e comovedora obra de ficção, esse relato é também uma representação da condição humana, segundo a visão que dela postulava Hemingway”.
Em entrevista concedida a The Paris Review, Hemingway respondeu a muitas perguntas feitas pelo entrevistador, não a todas as perguntas, esquivando-se daquelas que achava que não eram inteligentes ou que eram importunas. Para os leitores de Hemingway, ou para os que simplesmente se interessam pelas opiniões sobre literatura, escolhemos partes dessa entrevista. O entrevistador pergunta a Hemingway se na década de vinte, quando o escritor vivia em Paris, ele contou com algum ‘sentimento de grupo’ em companhia de outros escritores e artistas; esta foi a resposta:
“Não. Não havia sentimento de grupo. Tínhamos respeito uns pelos outros. Eu respeitava uma porção de pintores, alguns deles de minha própria idade, outros mais velhos: Gris, Picasso, Braque, Monet, que ainda viviam, bem como a uns poucos escritores, como, por exemplo, Joyce, Ezra e a boa Stein...”
Sobre a pergunta feita, se é influenciado sobre o que está lendo, quando escreve, respondeu:
“Não, desde que Joyce estava escrevendo Ulisses. A influência dele não foi direta. Mas, naquela época, quando as palavras que conhecíamos nos estavam interditas, e tínhamos que lutar para encontrar uma única palavra, a influência de sua obra foi o que mudou tudo, fazendo com que nos fosse possível romper com certas restrições”.
A seguir respondeu à pergunta sobre as influências de pessoas contemporâneas suas, em sua obra, bem como qual foi a contribuição de Gertrude Stein, de Ezra Pound e de Max Perkins. Essa última parte da pergunta deixou Hemingway agastado, porque o entrevistador visava tocar num assunto que não lhe era agradável, qual seja, os comentários que intelectuais e críticos literários faziam na época, em Paris, de que, na ficção, foi orientado por Gertrude Stein e Ezra Pound, tanto que, irritado, disse ao entrevistador:
“Acaso essa espécie de conversa o entedia? Esta bisbilhotice literária retrospectiva – este lavar de roupa suja depois de transcorridos trinta e cinco anos – causa-me náuseas. Seria diferente se se procurasse dizer toda a verdade. Isso teria algum valor”.
Hemingway, no entanto, responde parte da pergunta:
Miss Stein escreveu com certa prolixidade e considerável inexatidão a respeito de sua influência sobre minha obra. Foi-lhe necessário fazer isso, depois que ela aprendeu a escrever diálogos, num livro intitulado The Sun Also Rises (O sol também se levanta). Eu gostava muita dela e pareceu-me esplêndido que houvesse aprendido a escrever conversação. Quanto a Ezra, era extremamente inteligente quanto aos assuntos que realmente sabia. Aqui é mais simples e melhor agradecer a Gertrude Stein por tudo que aprendi com ela, reafirmar minha lealdade a Ezra Pound como a um grande poeta e a um amigo leal, e dizer que me interessava tanto por Max Perkins, que jamais consegui aceitar o fato de que ele morreu.
Depois, o entrevistador quis saber quais os antecedentes literários, aquele de quem mais aprendeu. Hemingway, então, passou a enumerá-los:
Mark Twain, Flaubert, Stendhal, Bach, Turguieniev, Tolstoi, Dostoievski, Tchekhov, Andrew Marvell, John Donne, Maupassant, o bom Kipling, Thoreau, o Capitão Marryat, Shakespeare, Mozart, Quevedo, Dante, Virgílio, Tintoretto, Hieronymus Bosch, Brueguel, Patinir, San Juan de la Cruz, Góngora... Levaria um dia inteiro para lembrar-me de todos. Pareceria, ademais, que eu estaria procurando demonstrar uma erudição que não possuo, ao invés de estar apenas procurando lembrar todos aqueles que exerceram influência sobre minha vida e minha obra (...).
É novamente Vargas Llosa quem fala a respeito do livro escrito por Hemingway, Paris é uma festa, na sua obra citada:
Livro patético – canto do cisne – pois foi o último livro que escreveu -, esconde sob a enganosa pátina das recordações de sua juventude, a confissão de uma derrota. Aquele que começou assim, na Paris dos loucos anos de 1920, tão talentoso e tão feliz, tão criador e tão vital, aquele que em poucos meses foi capaz de escrever uma obra prima – O sol nasce sempre – ao mesmo tempo que espremia todos os sucos suculentos da vida – pescando truta e vendo touros na Espanha, esquiando na Áustria, apostando nos cavalos em Saint-Cloud, bebendo os vinhos e licores de La Closerie – já está morto, é um fantasma que trata de se agarrar à vida mediante aquela prestidigitação antiquíssima inventada pelos homens para, ilusoriamente, prevalecer contra a morte: a literatura.
Eric Nepomuceno, no seu livro Hemingway na Espanha, diz:
A última cidade que viu na vida foi Ketchum, em Idaho, um estado do norte dos Estados Unidos, entre Washington e Oregon à esquerda de Montana e Wyoming à direita, na fronteira com o Canadá (...). Seu último trabalho foram os textos que tentaram recuperar suas épocas de Paris, talvez a última cidade que ele conseguiu conservar intacta na memória, mesmo nos tempos em que a memória andava cada vez mais magra: dois meses antes de disparar a velha ‘Boss’ de dois canos na testa, ele ainda corrigia e armava as sobras da alegria e da felicidade.
Ernest Miller Hemingway, nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: suicídio.


REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
NEPOMUCENO, Eric. Hemingway na Espanha. A outra pátria. Porto Alegre: L&PM Editores, 1991, p. 15.
VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães. 2ª ed. São Paulo: Editora ARX, 2005, p. 246, 248.


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17 de nov. de 2025

SUSAN SONTAG – Uma Entrevista





              - Pedro Luso de Carvalho

O primeiro livro de ficção de Susan Sontag, O benfeitor, foi publicado no Brasil em 1963 pela L&PM, com a tradução de Ana Maria Capovilla. Essa editora já havia publicado seus livros de ensaio e crítica: Contra a interpretação, Sob o signo de Saturno e A doença como metáfora. Sontag publicou ao todo 15 livros, entre eles os romances The Benefactor, Death Kit e The Volcano Lover; publicou também uma coletânea de contos e três coletâneas de ensaios.
Versátil, Sontag escreveu e dirigiu quatro filmes: Duets for Cannibals, Brother Carl, Promised Land e Unguided Tour (de 1969 a 1983). Também editou e apresentou textos de Antonin Artaud, Roland Barthes e Danilo Kis. Mais ainda: escreveu prefácios para os livros de Robert Walser, Marina Tsvetayeva, Machado de Assis e Juan Rulfo, entre outros, no período de 1982 a 1995.
Susan Sontag foi uma das mais importantes intelectuais dos Estados Unidos. Nasceu em Nova Iorque, em 1933, e criou-se no Arizona e Carolina do Sul, tendo-se formado em 1951 na Universidade de Chicago. Recebeu dois títulos de Mestre na Universidade de Harvard: Inglês, em 1954, e Filosofia, em 1955.
Sua vida acadêmica, como professora de Filosofia e de História da Religião, foi até o início dos anos 60. Viveu em Paris por um ano, depois passou a residir em Nova Iorque, com retornos frequentes à Europa. Dentre os prêmios que ganhou destaque-se: National Book Critics Circle Award, com Photography, em 1977.
Segue trechos da entrevista que Susan Sontag concedeu a Edward Hirsch para The Paris Review, entrevista essa que se estendeu por três dias, no seu apartamento em Manhattan, no mês de julho de 1994 (In Plimpton, George. The Paris Review. Escritoras e a arte da escrita. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001):
Hirsch pergunta se ela se incomoda se a chamam de intelectual.
SONTAG: Bom, a gente não gosta de ser chamada de coisa alguma. E essa palavra tem mais sentido para mim como adjetivo do que como substantivo, embora eu suponha que se refira sempre a alguém extravagante e sem graça – especialmente se for mulher. Isso me torna ainda mais engajada em minhas polêmicas contra os clichês comuns sobre os intelectuais que fala de coração versus cabeça, sentimento versus intelecto e assim por diante.
Que mulheres foram importantes para a senhora?
SONTAG: Muitas. Sei Shonagon, Jane Austen, George Eliot, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marina Tsvetayeva, Anna Akhmatova, Elizabeth Bishop, Elizabeth Hardwick… a lista não acaba. Do ponto de vista cultural as mulheres são uma minoria, e com minha consciência de pertencer à minoria, eu me regozijo com as contribuições das mulheres. Com minha consciência de escritora, me regozijo com quaisquer escritores que admire, sejam mulheres ou homens.
Hirsch diz-lhe que a sua impressão é de que sua ideia madura (Sontag) de uma vocação é mais europeia do que americana.
SONTAG: Não tenho tanta certeza. Acho que é minha marca particular. Mas é verdade que, vivendo na segunda metade do século XX, posso satisfazer meus gostos europeus sem propriamente me expatriar e ainda passar boa parte de minha vida adulta na Europa. Esse tem sido meu jeito de ser americana. Como Gertrud Stein observou: ‘Para que servem as raízes se você não pode carregá-las com você?’ Pode-se dizer que isso é muito judeu, mas é americano também.
Existe alguma coisa que a ajude a começar a escrever?
SONTAG: A leitura – que raramente está relacionada com o que estou escrevendo, ou desejando escrever. Leio muito sobre história da arte, história da arquitetura, musicologia, livros acadêmicos sobre vários assuntos. E poesia. Começar é, em parte, ganhar tempo, ganhar tempo lendo e/ou escutando música, o que me dá energia e também me angustia. Sinto-me culpada por não estar escrevendo.
Ficou antiquado pensar-se que o propósito da literatura é de nos educar sobre a vida?
SONTAG: Bem, de fato ela nos educa sobre a vida. Não seria a pessoa que sou, não compreenderia o que compreendo se não fossem alguns livros. Estou pensando na grande questão da literatura russa do século XIX: como se deveria viver? Um romance que merece ser lido é um aprendizado do coração. Alarga o sentido das possibilidades humanas, do que é a natureza humana, do que acontece no mundo. É um criador de vida interior.
A literatura provoca êxtase?
SONTAG: Certamente, mas menos confiável do que o da música e da dança: a literatura tem mais a ver com a cabeça. Precisamos ser rigorosos com os livros. Só quero ler o que vou querer reler – essa é a definição de um livro que vale a pena.
A senhora sempre volta atrás e relê seus trabalhos?
SONTAG: Só para rever traduções. Não, de modo algum. Não sou curiosa. Não sou apegada à obra que já está pronta. E também porque não quero reconhecer que tudo é sempre igual. Talvez eu sempre relute em reler qualquer coisa que tenha escrito há mais de dez anos porque isso destruiria minha ilusão de que estou sempre começando. É isso que é mais americano em mim: sempre sinto que é um novo começo.
No final da entrevista da qual foi transcrita apenas parte dela, como disse acima, Edward Hirsch, da The Paris Review, pergunta à escritora: A senhora pensa muito no público que vai ler seus livros?
SONTAG: Não ouso. Não quero. Mas, de qualquer modo, não escrevo porque existe um público, mas escrevo porque existe a literatura.
Susan Sontag foi casada com Philip Rieff (1950), sociólogo e crítico cultural, e professor das Universidades de Berkeley e Harvard, entre outras, e ficou conhecido pelos seus estudos sobre Freud e sobre a ética na cultural ocidental; do casamento, que durou nove anos, nasceu um filho, David Rieff, jornalista e analista de política internacional. A escritora morreu em Nova Iorque, em 28 de dezembro de 2004 - 19 dias antes de completar 71 anos.


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8 de set. de 2025

FRANZ KAFKA & Sua Obra




–  Pedro Luso de Carvalho

FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte, quando seu talento criativo foi reconhecido por nomes importantes, dentre eles o poeta inglês W.H. Auden, que assim manifestou sua admiração pelo escritor tcheco: “se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Schakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria”.
Outros nomes importantes ligados à literatura também deram seu depoimento sobre Kafka, como ocorreu com o renomado ensaísta George Steiner; para ele, “Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época”. O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, “Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka”.
Parte da obra de Kafka foi traduzida do idioma alemão, no qual se expressava, para o espanhol; o célebre escritor argentino Jorge Luis Borges traduziu O processo, que foi publicado pela Editora Losada, de Buenos Aires, em 1939; uma nova edição dessa obra deu-se somente no ano de 1962. Antes dessa edição, a Editora Losada publicou A metamorfose, em 1943.
Jorge Luis Borges, admirador de Kafka, disse que “Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para registrá-las de maneira definitiva bastavam-lhe algumas frases (...). O argumento e o ambiente são o essencial, não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia de seus contos sobre as novelas longas”.
No decorrer dos anos a obra de Kafka foi traduzida para muitas línguas, tendo uma sólida aceitação; no ano de 1961, Harry Järv levantou em torno de cinco mil títulos compondo a bibliografia de Kafka. A divulgação da obra de Kafka, no entanto, foi cheia de obstáculos nos 20 anos que transcorreram após sua morte; Max Brod, amigo e seu testamenteiro, lutou incansavelmente para divulgar a obra de Kafka, contrariando o pedido do escritor para que destruísse todos os seus livros, que ainda não haviam sido publicados. Não saberia dizer qual o número de títulos bibliográficos existentes até o ano de 2007, mas, não tenho dúvida, é bem maior que o relacionado por Järv.
A obra de Kafka começou a ser conhecida na França em 1928, quando eram publicados em revistas apenas pequenos trechos de seus livros; em 1933 a ed. Gallimard publicou O processo; a partir daí nomes importantes como Aldous Huxley, André Gide, Hermam Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros escritores e ensaístas, passaram a dar atenção à genialidade de Kafka, e a contribuir para a divulgação de sua obra.
A escritora Tânia Franco Carvalhal faz referência a esse reconhecimento, dizendo que “Esta informação de Brod ratifica a popularidade de Kafka entre homens de letras que, sob a égide de Proust, de Joyce e do escritor tcheco, representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo. Muitos críticos vão situar Kafka nas origens de toda a literatura contemporânea e Claude Mauriac preferirá considerá-lo como a fonte de toda a literatura contemporânea”.
Albert Camus, conhecedor da obra de Kafka, socorreu-se dele para explicar o tema do absurdo contido na sua obra Le Mythe de Sisiphe, em 1939. Camus analisando a obra de Kafka disse que o segredo do escritor tcheco encontra-se na contradição que se vê no trecho de O processo, em que a sua personagem Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.
As obras-primas de Kafka, O Processo (1925), e O Castelo (1926) foram publicadas postumamente graças aos esforços empreendidos por Max Brod. No período precedente foram publicados: Descrição de uma luta (1905), Diários (início em 1910), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), Contemplação (1912), Narração do espólio (1914-24), Na colônia penal (1914), Amérika ou O desaparecido (1914), Um médico rural (1918), A grande muralha da China (1918), Carta ao pai (1919); Um artista da fome ( 1922-24), O foguista (1923), A construção (1923 ), e alguns contos e novelas escritos nos anos 20: Poseidon, De noite, Do problema da lei, Investigação de um cão (1922), Uma mulherzinha (1923).
Com o passar dos anos, Franz Kafka torna-se mais conhecido do público leitor, graças ao reconhecimento de sua genialidade por escritores, ensaístas e críticos de renome, fato esse que encoraja frequentes reedições de seus livros, como é o caso de Desaparecido ou Amerika, publicado pela Editora 34, em 2004, com a tradução e posfácio de Suzana Kampff Lages.
Enfatiza Suzana Kampff Lages, no seu posfácio, que “O desaparecido ou Amerika, como ficou conhecida esta obra de Franz Kafka, conforme o título dado pelo amigo e editor póstumo, Max Brod, é um romance inacabado, ou melhor, um fragmento de romance. Concebido na primavera de 1912, é composto por fragmentos de uma história que se queria – nas palavras do próprio Kafka – dickenseana, ou seja, inspirada num exemplar do tradicional modelo do romance realista, por um lado, e por outro, uma história projetada para o infinito”.
Aproveito o ensejo para render homenagens a outro importante tradutor de Franz Kafka, do alemão para o português: Modesto Carone, escritor, ensaísta, e professor de literatura, tendo lecionado nas universidades de Viena, São Paulo e Campinas. Dentre as obras de Kafka, que traduziu, uma delas, O processo, o Prêmio Jabuti de Tradução de 1989.
Encerro com um trecho do ensaio de Harold Bloom, intitulado Kafka: Paciência Canônica e “Indestrutibilidade”, in O Cânone Ocidental: “Tudo que parece transcendente em Kafka é na verdade uma gozação, mas fantástica; a gozação que emana de uma grande doçura de espírito. Embora adorasse Flaubert, ele possuía uma sensibilidade muito mais delicada que a do criador de Emma Bovary. E, no entanto suas narrativas, curtas e longas, são quase invariavelmente brutais nos acontecimentos, tonalidades e provações. O terrível vai acontecer. A essência de Kafka pode ser transmitida em muitos trechos, e um deles em sua famosa carta à extraordinária Milena. Apesar de agonizantes como frequentemente são, suas cartas estão entre as mais eloquentes de nosso século”.



     REFERÊNCIAS:

BLOOM, Harold. O cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 431.
CARVALHAL, Tânea Franco. A Realidade em Kafka. Porto Alegre: ed. Movimento, 1973.
KAFKA, Franz. O Diário Íntimo de Kafka. Nova Época Editorial, [198-?].
IZQUIERDO, Luis. Conhecer Kafka e a sua obra. Tradução de Manuel Mota. São Paulo: ed.Ulisseia, [198-?].
KAFKA, Franz. Descrição de uma luta. Rio de Janeiro: ed. Nova Fronteira, 1985.
KAFKA, Franz. O desaparecido ou Amérika. Trad. e posfácio de Suzana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004.
KAFKA, Franz. Narrativa do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia Das Letras,2002.



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26 de ago. de 2025

MOZART - Parte VII (Final)




     - Pedro Luso de Carvalho

Na última postagem deste trabalho (Mozart – Parte VI), dissemos que o músico deligou-se do Arcebispo Colloredo, depois que Leopold, seu pai, tentou convencê-lo, sem sucesso, a manter o seu emprego em Salzburgo. E que se mudou para Viena, onde casou com Constanze Weber. E que, depois, passou a empreender viagens em busca de novos recitais. Então, viajou para Praga, Dresden Leipzig e Berlim.
Nessa nova empreitada, Mozart teve de suportar fracassos, que foram intercalados com triunfos eventuais. Constaze, a esposa, incentivava-o para que continuasse compondo. Para o músico, no entanto, esse seria o início de uma jornada permeada de sofrimentos. Teria que enfrentar as dificuldades financeiras e as doenças que viriam agravar sua saúde, já muito debilitada. (Mozart, reconhecido como mestre da melodia, que com simplicidade e graça construiu sua música com pureza e elegância, continuou pobre toda a vida, pelo fato de não ter sido dotado de talento para os negócios.)
No ano de 1784, filiou-se na Maçonaria. No verão de 1785, escreveu Música Fúnebre dos Pedreiros Livres, para os funerais de um irmão maçom. Aliás, o tema sobre a morte não ficaria restrito a essa música; Mozart escreveria mais tarde o magnífico Requiem, que deixaria inacabado, e que seria completado por seu fiel discípulo Süssmayer, que possuia inteiro conhecimento das intenções do mestre. (Walsegg fez executar a obra em Wiener-Neustadt a 14 de dezembro de 1793, sendo reconhecida a autoria de Mozart.)
O pensamento sobre a morte, aliás, não deixou Mozart, nos seus últimos anos de vida. Pensava continuamente na morte. Embora sempre se mostrasse alegre previa talvez um fim prematuro. A carta de 4 de abril de 1787 ao pai – a última que lhe escreveu -, deixa tranparecer um Mozart obstinado pela música.
A Flauta Mágica foi estreada no teatro Schicaneder, a 30 de setembro de 1791; o próprio Mozart regeu as duas primeiras récitas. Não teve o êxito esperado pelo compositor. O motivo do frio acolhimento, talvez tivesse como causa a complexidade do texto; mas não demorou para que a ópera conquistasse o público. A Flauta Mágica constituiu-se no primeiro êxito de Mozart, com mais de cem apresentações na época.
Com o êxito indiscutível de sua ópera Rapto no serralho (1782), no entanto, parecia assegurado o triunfo de Wolfgang, que encarava agora com otimismo o futuro. Em fins do verão de 1783, o músico e a esposa passaram três meses em companhia do pai, em Salzburgo. Na primavera de 1785, Leopod visitou o casal em Viena; essa foi a última vez que se viram pai e filho (Leopold faleceu no dia 22 de maio de 1787).
Um ano antes dessa última visita de Leopold a Wolfgang, Constanza havia dado à luz a um menino, Raimund Leopold, a 17 de junho de 1784; o filho morreu a 19 de agosto seguinte; talvez esse fato fosse o prenúncio dos sofrimentos pelos quais passaria Mozart, que, nessa época, já havia conquistado o posto de um dos maiores mestres da arte lírica. (Dois dos três filhos de Mozart sobreviveram. O mais velho, Karl, tentou música por algum tempo, deixando-a para ingressar no serviço público; viveu a maior parte do tempo na Itália, morrendo em Milão. O mais novo, Franz Xavier Wolfgang, teve vida menos feliz; foi bom pianista, mas compositor medíocre.)
Enfermo, como evidentemente estava, em 1791 Constanza não teve escrúpulos em deixá-lo mais uma vez, e ir para Baden, em busca de “cura” e de prazeres. Chamaram-na em meados de novembro. Mozart encontrava-se já confinado na cama, donde nunca mais se ergueria. O seu espírito absorvia-se em A Flauta Mágica, que ansiava por ouvir mais uma vez, e no ainda inacabado Requiem.
O músico iniciou a composição da ópera Flauta Mágica, por encomenda de seu amigo Emanuel Schicaneder, cantor, ator e empresário. Essa obra prima de Mozart nasceu de um conto de fadas. O público recebeu a ópera com grande entusiasmo. Em homenagem a Mozart, Schicaneder mandou reformar e ampliar seu teatro, decorando-o com figuras dos personagens da ópera.
Com a finalidade de que Mozart pudesse manter uma existência condigna, um grupo de húngaros ofereceu-se para contribuir anualmente com uma elevada quantia em dinheiro. Tal oferta, no entanto, chegava tarde demais: acometido por uma nefrite crônica, que desde a infância o consumia, Mozart renunciava à vida, deixando de lutar contra a doença. Mesmo doente, o músico compunha obsessivamente, não vendo o que se passava ao seu redor.
Com o progressivo inchamento das pernas, Mozart viu-se obrigado a recolher à cama. Não tinha mais condições de andar. Mesmo em tais condições, não se separava da partitura de um Requiem encomendado pelo Conde Franz von Walsegg - para o músico, tal encomenda era como a encarnação da morte.
O estado de saúde de Mozart agravou-se no dia 4 de dezembro de 1791. No quarto, encontravam-se presentes Constanze, Schicaneder e seu discípulo Süssmayer; estes atenderam ao seu pedido para que cantassem trechos do Réquiem, do qual escrevera duas partes completas e esboçara as três seguintes (Süssmayer se encarregaria de concluir a obra.) Quando iniciaram a interpretação de Lacrymosa, Mozart chorou mansamente e seus dedos deixaram cair a partitura que a mantinha zelosamente. À uma hora da madrugada de 5 de dezembro de 1791, Wolfgang Amadeus Mozart estava morto. (No mês seguinte, 27 de janeiro, completaria 35 anos de idade.)
Ao amanhecer, sob um céu ameaçador, o modesto caixão foi conduzido pelas ruas por dois homens, tendo a acompanhá-los o fiel discípulo Süssmayer. Na igreja de Santo Estêvão, outras pessoas juntaram-se ao cortejo. Segundo consta, entre elas achavam-se Schicaneder, Albrechtberger (que se tornaria professor de Beetthoven), o Barão Van Swieten (para quem Mozart fizera uma nova orquestração de O Messias de Haendel) e Antonio Salieri – a personalidade mais influente, na época, em Viena, de quem Mozart fora o mais sério rival.
Mas a violenta nevasca e o impiedoso vendaval fizeram-nos desistir da longa marcha até o cemitério. Somente os dois carregadores prosseguiram, depositando o corpo na capela mortuária, de onde foi removido, à tarde, para ser enterrado em vala comum.
Somente em 1808 é que Constanza visitou o cemitério, procurando localizar a sepultura do marido, com a intenção de colocar uma cruz sobre ela; ninguém soube informar-lhe o local. (O lugar da sepultura que até hoje se desconhece.)
De Wofgang Amadeus Mozart restava somente o nome e a história de uma vida inteiramente consagrada à música. Legou-nos obras de valor inestimável, dentre elas: Rapto no Serralho (1782), Bodas de Fígaro (1786), Don Giovanni (1787), Assim Fazem Todas (1790), Flauta Mágica (1791), de admiráveis sinfonias, sonatas e concertos, obras de música religiosa e de música de câmara, e um magnífico Requiem.


REFERÊNCIAS:
NEWMAN, Ernest. História da Grande Óperas. Tradução de Antônio Ruas. 6ª ed. Porto
 Alegre: Editora Globo, 1957.
MASSARANI, Renzo. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo:
 Abril Cultural, s/d.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique. Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Librairie
 Larrousse. 1966.




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15 de ago. de 2025

MOZART – Parte VI





– Pedro Luso de Carvalho

Dissemos, na quinta postagem deste trabalho sobre a vida e a obra de Mozart, que, em 1780 Carlos Teodoro, Eleitor Palatino da Baviera, encomendou-lhe uma ópera para o carnaval de Munique; e que, em razão desse fato, o Arcebispo de Salzburgo deu permissão ao músico para empreender viagem a Munique. A ópera, Idomeno, Rè di Creta, foi apresentada a 29 de janeiro de 1781. Leopold e Nannerl puderam assistir à estreia de Idomeno, graças à ausência de do Arcebispo, que viajara para Viena.
Idomeno foi recebida com entusiasmo pelos músicos e pelos conhecedores da música -, mas não pelo público -, e teve grande importância para fixar a reputação de Mozart, na Alemanha, como compositor de ópera; contudo, a popularidade por ele conquistada não foi duradoura. Mais tarde, Mozart alterou alguns trechos da ópera, visando dar-lhe mais vigor, pelo que se sabe. Em Dresde, no ano de 1854, a ópera foi encenada novamente, mas, sem sucesso. Idomeno foi, até a morte de Mozart, a sua composição predileta.
Depois dessa estreia, Wolfgang teria de retornar a Salzburgo, e deixar o agradável ambiente de Munique. Ficava indignado só em pensar no seu retorno. Pensava permanecer em Munique por mais algum tempo, mas recebeu uma convocação do Arcebispo Colloredo chamando-o a Viena. Na esperança de apresentar-se nas festas da Corte Imperial, o músico partiu imediatamente. Mas, isso não aconteceu. O Arcebispo queria apenas mantê-lo na condição de criado.
Mozart, que se encontrava insatisfeito com essa situação, viu somar-se à insatisfação o comportamento agressivo do Arcebispo, que o detratou com insultos na presença de subalternos da Corte. Tal fato levou Mozart, nesse ano de 1781, a cortar os laços que o prenderam por muito tempo ao seu pai e ao protetor deste, o Príncipe Arcebispo de Salzburgo. Mozart, que, como escreve Ernest Newman, “nessa época estava com 25 anos de idade, libertava-se da tutela paterna , despia a libré de músico da Corte de Salzburgo, e entrava na última década de sua vida, que para ele devia ser tão gloriosa como artista e tão cheia de desgostos e misérias como homem”.
Em Viena, Mozart passou a residir como inquilino da viúva Weber (que nenhum parentesco tinha compositor alemão Carl Maria Von Weber). Alguns meses depois, compôs a ópera O Rapto no Serralho; para essa composição, Mozart foi inspirado por um encontro que teve com Haydn, no final do ano de 1781. Anos mais tarde, 1818, Weber (Carl Maria Von Weber) apresentou O Rápido do Serralho em Dresde, sob sua própria regência. Num artigo seu, que antecedeu essa apresentação, Weber recomendou a obra a seus concidadãos.
Disse Weber, no seu artigo, que O Rápido do Serralho oferece uma quadro “que representa para todo o homem os alegres anos de sua juventude, anos cujas flores ele nunca mais colherá... Ouso afirmar – prossegue Weber – que no Serralho Mozart atingiu o cume de sua experiência artística, à qual tão-somente foi necessário acrescentar depois a experiência do mundo. A humanidade tinha o direito de esperar dele várias outras óperas semelhantes a Bodas de Fígaro e Dom Giovanni, mas nem com a melhor vontade do mundo escreveria ele jamais um outro Rápido do Serralho”.
A estreia da ópera (O Rápido do Serralho) deu-se um mês antes do casamento de Mozart com Constanze Weber, o qual foi celebrado a 4 de agosto de de 1782. Constanze era filha filha da viúva Weber (o pai de Constanze era um antigo bilheteiro do Teatro Nacional de Viena), e era irmã de Aloysia Weber, cantora famosa, de quem antes Wolfgang fora apaixonado. As irmãs eram muito diferentes, uma da outra. Aloysia tinha, além da beleza, dotes artísticos. Constanze não tinha tais dotes, mas era simples, alegre, sincera, leal e parecia corresponder ao amor que Wofgang lhe dedicava.
Depois da breve lua-de-mel do casal, Mozart arranjou vários alunos, filhos de nobres e de famílias ricas, que voltavam de férias, no outono. Com isso, ficou premido por seus compromissos. Tais compromissos, no entanto, não impediram que continuasse compondo sem cessar: obras didáticas, cinco peças sacras, a Sinfonia nº 35 em Ré Maior – I. K. 385 (“Haffner”), uma serenata instrumental, três marchas e um minueto para orquestra, três concertos, a Fantasia em Ré Maior, para Piano – I. K. 397 e várias outras peças. Até então, compusera cerca de 280 obras, abrangendo desde as missas até os pequenos minuetos.
Em 1783, um ano após o casamento, nasceu o primeiro filho de Wolfgang e Constanze. O músico fez questão de batizá-lo em Salzburgo, na Igreja de São Paulo. De passagem por Linz, no regresso a Viena, atendeu a uma sugestão do Conde Thurn e compôs a Sinfonia nº 36, em Dó Maior – I. K. 425 (“Linz”). Até novembro de 1784, compôs grande número de outras peças. Nesse ano, uma tragédia abalou profundamente o compositor: a morte de seu filho. Uma espécie de prenúncio dos anos de sofrimento que se seguiriam.
A ópera As Bodas de Fígaro, composta em 1786, ao mostrar nobres e servos lutando pelo mesmo ideal e revelar a força de nova classe, a burguesia, foi considerada subversiva pelo imperador. Mozart viu-se repudiado pela Corte e pelo público burguês. Encontrava-se endividado e atormentado pelas frequentes doenças de sua mulher. Além de Constanze , também o compositor estava com sua saúde em declínio.
Wolfgang retomou a vida errante de músico independente. Viajou para Praga, Dresden Leipzig e Berlim. Não deixou de compor. Enormes fracassos eram intercalados com triunfos eventuais. Constanze era dedicada, e não deixava de incentivá-lo. Mozart não perdia o ânimo; escreveu quartetos e trios, compôs Uma Brincadeira Musical, para Orquestra – I. K. 522, a Pequena Serenata Noturna, para Cordas – I. K. 525, e ainda quintetos e sonatas, além da extraordinária ópera Don Giovanni. Essas composições renderam o suficiente para que o compositor se mantivesse com sua mulher.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.



REFERÊNCIAS:
NEWMAN, Ernest. História da Grande Óperas. Tradução de Antônio Ruas. 6ª ed. Porto
 Alegre: Editora Globo, 1957.
ALMEIDA, Alberto Soares de. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São
 Paulo: Abril Cultural, s/d.




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20 de jun. de 2025

MOZART - Parte V


           - Pedro Luso de Carvalho

Wolfgang Mozart partiu novamente em excursão pela Europa, visando a apresentação de novos recitais. Dessa vez, quem o acompanhou foi sua mãe. Leopold e Nannerl decidiram permancer em Salzburgo, pois temiam perder seus cargos de músicos da Corte.
Nessa viagem, o músico e sua mãe visitaram Munique, Augsburgo, Paris, Estrasburgo e Mannhein. Além de seus recitais, Wolfgang tinha a esperança de encontrar um emprego fixo. Os aristocratas, no entanto, não lhe deram o apoio esperado. Consideravam-no um “criado foragido”. Ao gênio restavam as apresentações eventuais em recitais e algumas aulas que ministrava, que lhe rendiam algum recurso pecuniário.
Wolfgang sentia-se aflito com essas dificuldades materiais, mas, mesmo assim, perseverava na composição. Escreveu obras de todos os gêneros. Durante sua estada em Mannhein, em 1777, fez uma experiência com um piano fabricado por Stein. Ficou deslumbrado com as possibilidades de sustentação de som, que os pedais proporcionavam. Escreveu, então, a Sonata para Piano, em Dó Maior – I.K. 309.
Depois dessa composição para o piano, passou a abandonar gradativamente o cravo e o clavicórdio. O piano foi então eleito o seu novo instrumento. Outra mudança deu-se na vida de Mozart, de caráter afetivo: por insistência de seus pais, mesmo estando apaixonado por Aloysia Weber, uma excelente cantora, rompeu o seu relacionamento com a jovem.
A Itália, que estava nos planos de Mozart, para, na condição de empresário de Aloysia Weber torná-la uma “prima donna”, foi substituída por Paris, para onde seguiu em companhia de sua mãe, Anne Marie Pertl Mozart, que faleceu subitamente na capital francesa, a 3 de junho de 1778. Wolfgang, desesperado, escreveu para seu pai e sua irmã, que se encontravam em Salzburgo, comunicando a morte de sua dedicada mãe.
Por contraditório que possa parecer, consolou-se com a fato de, pela primeira vez, encontrar-se livre e independente. Mozart permaneceu por alguns meses em Paris, dando lições e recitais ocasionais. Ai mantinha-se com isso e com alguma renda que lhe era alcançada por seus editores. Como não via a possibilidade de ter o sucesso que almejava, deixou Paris.
De Paris, seguiu para Mannhein, onde esperava encontrar o Eleitor e sua Corte. Como estes, encontravam-se em Munique, Mozart para lá se dirige. Em Munique, encontrou-se com Aloysia Weber, que estava com grande projeção artística. Mozart foi recebido pela jovem com frieza, famosa que estava e rodeada de admiradores. Aloysia Weber então se despede do músico com a indiferênça própria de quem se encontra no auge da fama, somando-se a isso o fato ocorrido antes, quando foi por ele desprezada.
Mozart regressa deprimido e humilhado a Salzburgo. Então socilita emprego ao Arcebispo, que o concedeu saboreando o prazer de assistir à derrota daquele que “desprezara a honra de estar a seu serviço, para correr atrás de loucos sonhos de liberdade”. Na cidade, muita gente compartilhava dessa opinião. Mozart, revoltado, dizia que “preferia tocar diante de cadeiras vazias, do que para os moradores daquela terra de mendigos”.
Apesar de todo o seu mau humor, durante o ano de 1779 Wolfgang escreveu uma obra-prima: a Missa da Coroação – I.K. 317, além de quatro peças litúrgicas, duas sonatas, três sinfonias, duas marchas orquestrais e o Divertimento para Orquestra, em Ré Maior – I. K. 334 (cujo minueto tornou-se famosissimo, em arranjos para violino e piano).
Mas enquanto o Arcebispo Colloredo não lhe dava folga justificadamente, em 1780 um fato inesperado veio livrar Mozart do ambiente mortificante que tinha em Salzburgo: Carlos Teodoro, Eleitor Palatino da Baviera, encomendou-lhe uma ópera para o canaval de Munique; esse fato impressionou o Arcebispo de Salzburgo a tal ponto que lhe permitiu viajar para Munique.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.


REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
SCHNORRENBER, Roberto. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20
São Paulo:
Abril Cultural, s/d.



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