10 de jun. de 2022

[Poesia] BUSCO UMA PÁTRIA – Pedro Luso de Carvalho





BUSCO UMA PÁTRIA

                 – Pedro Luso de Carvalho





Busco uma pátria,

pátria verdadeira, para amar,

para dar por ela minha vida,

se dela precisar.



Busco uma pátria,

pátria sóbria, uma só bandeira,

sem cor vermelha de sangue,

de paz seja sua cor.



Busco uma pátria,

pátria, para a ela me entregar,

cantar o hino com galhardia

envolto na bandeira.



Busco uma pátria,

pátria, patriota teu quero ser,

a todos, com orgulho dizer:

esta é minha pátria!



Busco uma pátria,

pátria, por onde começarei

esta minha penosa busca,

se luz me falta?





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20 de mai. de 2022

(Poesia) A NOITE - Pedro Luso de Carvalho

 




A NOITE


                     – Pedro Luso de Carvalho




A janela do quarto,

na semiobscuridade,

bate repetidamente.



É o vento

trazendo lembranças

e fantasmas

das lonjuras do tempo.



Vento forte

quebrando a solidão

do bronze das estátuas,

esquecidas

nas praças desertas.



A cidade dorme

com suas feridas expostas.






            * * *





29 de abr. de 2022

[Poema] POR ONDE ANDEI – Pedro Luso de Carvalho

 

Alberto da Veiga Guinard - Paisagem Imaginária / 1947



POR ONDE ANDEI

                     – Pedro Luso de Carvalho





Em tudo tocaram os meus pés,

pelos caminhos por onde andei:

no nobre jacarandá,

na preciosa esmeralda,

no viscoso barro, também pisei.



Pela ventura de ter o que preciso

se merecido não sei – não pensei

no desperdício, nem nas bocas secas

de sede e fome de tantos esfarrapados

aqui vivendo à sombra de rota bandeira.





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10 de abr. de 2022

[Poesia] A MINHA PARTIDA – Pedro Luso de Carvalho

 




A MINHA PARTIDA

               – Pedro Luso de Carvalho




Estou de malas prontas,

esses tenros raios de sol

são sinal.


Não sei para onde irei,

será meu guia o vento

da Patagônia.


Terei o caminho limpo

para os tantos passos,

tanta dor.


Ouvirei o que me dirá

no caminho, o vento

da Patagônia.


Espero que me conduza

para onde houver paz

e justiça.


Eis que surge o vento forte

e, com voz firme, me diz:

vamos partir.




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17 de mar. de 2022

Poesia] A MULHER E O TEMPO – Pedro Luso de Carvalho

 



    A MULHER E O TEMPO

              Pedro Luso de Carvalho




Não me esqueci. Foi em Uruguaiana,

naquela fazenda, há muitos anos.

Chora a mulher, ao despedir-se.

O homem promete um dia voltar.



A mulher mantém-se corajosa.

Aceita dos dias os açoites

para que jamais morra a esperança. –

Espera que seu homem não demore.



Da ausência, toma nota a mulher.

Os anos que passam são anotados,

tudo escreve com miúdas letras

nas margens gastas de um velho livro.



Num dia de vento, sente o engodo,

num momento de meditação,

no seu quarto de tristeza e preces:

não voltará o seu esperado homem.



Naquelas margens gastas do livro,

a mulher não faz mais anotações,

alheia com o passar do tempo –

já não tem mais por quem esperar.



Ficaram no rosto da mulher

as tantas marcas cruéis do tempo.

Da longa espera, o aniquilamento –

nada mais há para ser lembrado.






            * * * *




 

10 de mar. de 2022

[Poesia] PRIMAVERA – Pedro Luso de Carvalho

 

Chalé da Praça 15 - 2014 - Érico Santos / Porto Alegre - Brasil




PRIMAVERA

           – Pedro Luso de Carvalho





De onde vem esse vento,

que a tudo espanta

e que leva dos varais

encardidas consciências –

roupas surradas

feito esperança perdida?



Para que serve esse vento

assim, feito remorso

e pecado?

Para que serve esse vento

com ruído de agouro

e de morte?



Esse vento veio roubar

do tempo, o inverno

frio, feito maldade,

e levar a tristeza, gelo d’alma,

para setembro florir

na Primavera.





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22 de jan. de 2022

[Poesia] O VENTO MALDITO – Pedro Luso de Carvalho

 




      O VENTO MALDITO

                      - Pedro Luso de Carvalho



De onde vem este vento pleno

de mau agouro? Virá das tumbas

de tempos remotos? – Gélido frio

perpassa-me o corpo.

Maldito vento, por que não cessas

e voltas para teus mortos?

Ou será teu desejo levar-me

contigo como troféu?

A quem servirá minh’alma?

Troféu algum valerá trabalho

tamanho para essa viagem

das trevas, vento maldito

com presságio de morte.

Não vês que ainda tenho sonhos,

tenho amores para amar,

injustiças para corrigir?

Vai-te daqui, vento agourento!

Irei contigo, mansamente,

maldito vento dos cemitérios,

quando não mais puder sentir

a dor dos homens secos pela fome.





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21 de dez. de 2021

[Poesia] A INÚTIL BUSCA - Pedro Luso de Carvalho

 




       A INÚTIL BUSCA

    - Pedro Luso de Carvalho




  Aonde encontraremos político,

  da pátria defensor denodado,

  nobreza d'alma, honra iluminada,

  com caráter em aço forjado?


Homens probos já teve o país,

esquecidos no tempo distante,

apagados seus ensinamentos:

à amada pátria, amor constante.


Presente no país a miséria,

é submetido o povo à dor,

desolado, desesperançado,

sem a coragem de vencedor.


  Desiludida está tanta gente,

  qual andrajos de nave retida,

  descrendo na imposição da lei

  persistem em terra destruída.





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27 de nov. de 2021

[Poesia] A CASA DE PEDRA – Pedro Luso de Carvalho

 




A CASA DE PEDRA

           – Pedro Luso de Carvalho




Por quanto tempo fiquei ali,

feito estátua, em frente à casa,

entre prédios e palacetes ?


Volto depois de muitos anos

à antiga casa de pedra –

o reino perdido da infância.


Era grande a casa de pedra,

na minha infância tão distante –

palácio de tantos brinquedos.


Ficou pequena, a minha casa

de pedra! Onde a casa de sonhos?

Sumiram juntas, casa e infância?


Lufada de vento oportuna

(sopro de algum anjo perdido)

fez-me entrar na casa de pedra.


Posso, homem de tantos caminhos,

ser de novo aquele menino

dessa casa – reino perdido?


Falta-me o fôlego. No peito

garras ferem – emoção e dor.

Levou o sonho, ave de rapina.




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20 de nov. de 2021

[Poesia] DESPEDIDA / Pedro Luso de Carvalho

 

Casarios - Durval Pereira



         DESPEDIDA

                  - Pedro Luso de Carvalho



Quando parti, dormia a cidade

sob um manto espesso de névoa.

Naquela noite, venci dúvidas,

venci o medo terrificante.


Não a deixei, na noite acordando,

foi comigo, junto ao peito.

Levei junto aquela cidade

para aguçar minhas lembranças.


Na distância, tempo teria

para remoer os remorsos.

Lembro-me, hoje, daquelas ruas,

de seus intrincados segredos.


Estão na mente ruas tantas,

de amigos feitos e sumidos.

Como poderia eu esquecer

as ruas de minha cidade?


Foram as guias dos meus passos,

velhas ruas por onde andei.

Das ruas, não contei os segredos.

Quem teria interesse ouvi-los?




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8 de nov. de 2021

(Poesia) O ASSALTO / Pedro Luso de Carvalho

 




      O ASSALTO

                  – Pedro Luso de Carvalho




Vi no cano da arma, túnel

fundo, sem luz,

a vida em risco,

o temor na hora do assalto.



Medo também tolda os olhos

de quem assalta

risco aumentado –

a sorte na mão crispada.



Em estranha tela, a vida

é repassada,

qual alma gêmea,

o bem e o mal praticados.



Súbito, o som do disparo,

certeiro tiro

mata o assaltante,

dever que cumpre o soldado.



Vi, naquela tarde quente,

sol refletir

na áurea cápsula,

abandonada no asfalto.





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19 de out. de 2021

[Poesia] OS VIGARISTAS / Pedro Luso de Carvalho

 




         OS VIGARISTAS

                 – Pedro Luso de Carvalho




Que saibam vocês guardar segredo

das tristes coisas que vou contar,

tristes casos, sem nenhum enredo,

a ninguém fará rir nem chorar.



Pode causar medo a história,

todos somos reféns de bandidos

(triste caminhar, luta inglória)

visíveis todos ou escondidos.



Vigaristas vis do parlamento

gente educada e bem vestida

roubam todos com descaramento,

míseros, pensam ter eterna vida.






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4 de out. de 2021

(Poesia) OS DESPREZADOS – Pedro Luso de Carvalho

 




OS DESPREZADOS

      – Pedro Luso de Carvalho





A ninguém conte o segredo,

a esperança saiu porta afora,

meteu-se em becos imundos,

breus de torpezas, vis becos

de pervertidos, condenados

todos, sentença irrecorrível,

saldo de vidas consumidas,

acre cheiro, vício de pedra

fumaça a revoltear espiral,

escultura para os túmulos,

renúncia insultuosa à vida,

da crueldade retrato, chaga

do país à mostra sem recato.





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24 de set. de 2021

[Poesia] ACONTECE COMIGO - Pedro Luso de Carvalho

 

Candido Portinari - A Descoberta da Terra / 1941




ACONTECE COMIGO

               – Pedro Luso de Carvalho





Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Minha vida tem sido assim,

há sempre alguma bruma,

há sempre alguma tristeza,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Esta dor em meu peito,

a desgraça tão presente,

o país que não se inveja,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

O meu desejo de partir,

para na distância viver,

paz há quem anteveja,

sem que possa explicar o que seja.




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