31 de mar. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Hemoptise








   HEMOPTISE                    
   – PEDRO LUSO DE CARVALHO



Vi o homem sonolento
no quarto sombrio.
Olhos vítreos,
pálido rosto
marcado
por rugas precoces –
prenúncio da morte
esperada,  
lenitivo da dor.

Tosse prestes a romper
a azulada veia,
desenhada
por mão
de espectral ser
no marmóreo
rosto do homem.

Corpo esquálido,
denúncia da luta inútil
pela inútil vida
do homem.
De súbito, a hemoptise,
cone de ventre ávido
e impiedoso – 
sangue manchando
os sonhos
e afogando a vida.




*  *  *
   



24 de mar. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO – A Noite




     A NOITE
       – PEDRO LUSO DE CARVALHO


A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.
É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.
Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.
A cidade dorme
com suas feridas expostas.



*   *   *




14 de mar. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Ausência


Vincent Van Gogh 

 



AUSÊNCIAS 

- Pedro Luso de Carvalho




Do alto, urubus espreitam

em sinistros voos,

neste tempo de ausências

e de sofrimento.


Sob os telhados, corpos inertes,

presos à paredes vazias ,

tendo na boca um gosto amargo

do inevitável fel .


No breu das noites estendidas,

sem estrelas e sem luz,

demônios surdamente conspiram

tempo de ausências e dor.


Nas casas há tantas janelas

sem luz e sem paisagens

há jardins de murchas rosas,

em meio ao desespero.


Neste tempo de ausências e dor

vento forte, em lufadas,

percorre funéreo caminho

entre tumbas e ciprestes.




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4 de mar. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - O Novo Coronavírus

 




      O NOVO CORONAVÍRUS

                 -  Pedro Luso de Carvalho




Do velho coronavírus não lembro,

mas se presume que  existiu,

certamente sem a fúria do novo

que contamina a muitos e mata.



O que sei é que o vírus veio em bando,

está o vírus aqui, ali, acolá,

invisível em todos os lugares,

na mão estendida, no abraço, no beijo.



Mas agora se tem mais fome e luto.

Com tanta morte não se tem descanso,

em especial com os tantos pobres,

pois riscos para os ricos são menores.



Depois que esse vírus for derrotado

ficarão ecos das agônicas dores,

do denodado trabalho dos médicos,

e enfermeiras – ciência e doação.





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26 de fev. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - A Mulher e o Algoz




                                                                                


A MULHER E O ALGOZ
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
      


Quarto às escuras. Noite chuvosa.
No desalinho da cama, absorta,
 a mulher olha através da janela.

Da rua, nesga de luz clareia livros
sobre o velho baú. Na calçada, iluminado
entre ramos de árvores, o relógio:

longos ponteiros, duplicados
pelo efeito das sombras. Mulher
paralisada: dos pulmões puxa o ar

que falta, e sente a ameaça mortal.
Aterrorizada, coração descompassado,
desmaio. Passam minutos, horas

ou séculos – resta o desfecho. Na rua,
silêncio e ruído de carros alternam-se
sobre o asfalto molhado.

Lívida, no chão busca refúgio:
rosto entre os joelhos – domínio
do medo. Na porta, forte batida

transpassa-a (barulho de passos,
escuridão, mulher encolhida
no assoalho, desesperançada).

De repente, no frio da noite,
lâmina zune no breu: dor lancinante.
Grunhido de ave ferida.




  *  *  *


23 de fev. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Naquela Noite no Bar






NAQUELA NOITE NO BAR
PEDRO LUSO DE CARVALHO





Na penumbra do bar,
misterioso mundo,
mentiras, juras feitas
em segredo mantidas.

Seara dos amantes,
pela paixão enlaçados –
tempo fugaz da noite,
na penumbra do bar.

De casais, silhuetas.
Os cristais a tinir.
Sussurros estendidos.
Lembrança ficará?

Curta é essa noite,
breve é a paixão,
como as rosas vermelhas
esquecidas nas mesas.

Restam sombras no bar,
ficam sons de promessas.
Nessa noite que morre
não há centelha do amor.



 *   *   *




16 de fev. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Ventania






VENTANIA
– Pedro Luso de Carvalho


Da Patagônia, esse vento – esse frio
congelante – veio rasgar minhas veias
com garras mortais.

Vejo, através da vidraça, assombrado,
o dia sumir – escuridão repentina,
noite no dia – gélido terror.

No telhado da casa, às escuras, barulho
horrendo de passos, de um ser estranho,
vindo de estranho mundo.

O fantasmagórico vento não cessa,
com seu uivar de fera faminta.
Preso à janela, curvado de medo,

ouço o zunir do vento – guerreiro
feroz – a derrubar postes e fios,
que no chão agonizam, retorcidos.  



*  *  *




13 de fev. de 2021

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte II




- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Na primeira parte deste trabalho discorri sobre Gli indifferenti (Os indiferentes), o primeiro romance de Alberto Moravia, escrito quando o escritor ainda estava de cama, doente, e que foi concluido em 1925, cuja publicação deu-se somente em 1929, quando contava vinte e um anos de idade. Disse também que “Gli indifferenti” foi um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana; e que o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”

Também fiz referência à peça La Mascherata, escrita por Moravia em Capri, no ano de 1940, obra que foi censurada pelo Ministério da Cultura de Mussolini; e que em seguida o líder fascista – Duce, como era conhecido - autorizou a sua publicação, e que, decorrido apenas um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945. Agora, saindo dessas duas obras - o primeiro romance e a primeira peça para o teatro -, o enfoque será o cinema.

Para o cinema, o pouco que escreveu não lhe agradou. Maravia pergunta-se: “até que ponto permitirá o cinema a expressão plena?” Diz que “a câmara é um instrumento menos completo que a pena, mesmo que nas mãos de Eisenstein. Jamais poderá exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo”. Mas admite ser o cinema espetacular, transbordando de vida.

Para Moravia, o trabalho para o cinema não é inteiramente penoso, mas é exaustivo. Para ele, quem escreve para o cinema não passa de um homem-ideia, ou um cenarista; não passa de um subalterno. Não sente satisfação em escrever para o cinema – o nome do escritor não aparece sequer nos cartazes, depois de executar uma tarefa amarga.

Depois, Moravia fala do cinema como arte impura: “todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração da gente torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente da gente se acostuma para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se.” Para Moravia, escrever para o cinema sequer vale o que é pago ao escritor, a menos que necessite do dinheiro.

Esse tratamento que o cinema dispensa ao escritor, cujo trabalho é recebido com certo descaso, como se queixa Moravia, não se trata de um caso isolado, ao contrário, ao longo do tempo foi uma constante, como se vê por alguns exemplos dignos de registro. Um desses registros é feito pela escritora norte-americana Dorothy Parker, que também escreveu para o cinema, em entevista que concedeu à The Paris Review, em Nova York:

“O dinheiro de Hollywood não é dinheiro – diz Parker. É neve congelada, derrete em sua mão, e você fica na mesma. Não posso falar de Hollywood. Foi um horror para mim, e é um horror olhar para trás. Não consigo compreender como pude aguentar. Quando saí de lá, não conseguia nem me referir ao lugar pelo nome. “Lá”, eu falava”.

Dorothy Parker diz mais sobre sua relação com o cinema, quando a entrevistadora pergunta se Hollywood destrói o talento do artista: “Não, não. Acho que ninguém no mundo baixa o nível do que escreve. Mesmo que produzam lixo – diz Parker -, os escritores de Hollywood não baixam o nível. Aquilo é o máximo que podem dar. Se você vai escrever, não finja que baixou o nível. Vai ser o melhor que você pode fazer, e é isso que mata.”

Na sua fala sobre a precária situação do escritor que escreve para o cinema, Dorothy Parker, além de falar de seu caso pessoal, cita o que se passou nesse tipo de relacionamento com o célebre Scott Fitzgerald, e diz que o mal de Hollywood são as pessoas – e acrescenta: “Como o diretor que põe o dedo na cara de Fitzgerald e reclama: 'Eu paguei. Então, você precisa nos pagar'”. Parker diz que foi terrível com Scott; “se você o visse, ficaria doente”. Diz que quando o autor de The Great Gatsby (O grande Gatsby) morreu “ninguém foi ao seu enterro, nenhuma alma, sequer mandaram uma flor. (...) Foi nojento o que fizeram com Scott”.

Depois desses exemplos de desconsideração para com o escritor, pela Sétima Arte, o tema sobre Alberto Moravia, é retomado, deixando o cinema e retornando à Literatura. Outro livro famoso de Moravia, o romance La Romana, que se destinava ao gênero conto, que não passaria de quatro páginas, quando Moravia começou a escrevê-lo, em 1º de novembro de 1945. Passado alguns meses sentiu que se tratava de um romance, e quando o personagem da história fugiu de seu controle, sentiu que a inspiração não era autêntica.

E essa mudança ocorreu porque Moravia não se valeu de notas para escrever La Romana. Aliás, o escritor nunca se valeu de anotações para escrever suas obras, o fazia de antemão. “Confio na inspiração, que, às vezes, vem e, às vezes, não. Mas não fico sentado à espera dela. Trabalho todos os dias”.

A história de La Romana deveu-se a uma mulher chamada Adriana, que o escritor conheceu, e que lhe inspirou; nada mais além da inspiração, pois, como disse o escritor, a viu apenas uma vez; então, imaginou tudo, inventou tudo. Moravia escreveu esse livro duas vezes, depois, numa terceira vez, trabalhou o livro de forma minuciosa, com muito cuidado, até o momento em que ficou satisfeito com a obra. A personagem Adriana tornou-se uma das melhores, dentre as personagens que criou.

Segue um trecho do romance de Moravia, La Romana:

[...] Já outras vezes tinha reparado que a cama ficava encostada numa porta de comunicação com o quarto ao lado. Assim que apaguei a luz, vi que os dois batentes da porta estavam separados e deixavam filtrar uma fresta vertical de luz. Levantei-me nos cotovelos sobre o travesseiro, meti a cabeça entre os arabescos de ferro batido da cabeceira da cama e colei o olho na fresta. Não era curiosidade, pois já sabia o que poderia ver e ouvir, mas sim o medo dos meus pensamentos e da solidão que me levavam a procurar, embora espionando, companhia do quarto ao lado. Mas por um bom pedaço, não vi ninguém. Diante da fresta havia uma mesa redonda; a luz do lustre caia do alto sobre a mesa. Atrás da qual, numa sombra fechada entrevia o reflexo de um espelho de armário. Porém, ouvia vozes: eram as conversas de sempre, que já conhecia de cor, as perguntas costumeiras sobre a cidade natal, a idade, o nome. A voz da mulher era tranquila e reticente, a do homem, apressada e ansiosa. Falavam num canto do quarto, talvez já estivessem na cama [...]”

Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I.



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REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira.          2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 p. 84-90.
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review.            Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus,                  2001,   p. 87-88.
 MORAVIA. Alfredo. A Romana. Tradução de Maria Colasanti. 1ª ed.                 Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 361.





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8 de fev. de 2021

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I





PEDRO LUSO DE CARVALHO


ALBERTO MORAVIA nasceu na cidade de Roma, Itália, a 22 de novembro de 1907, onde morreu, em 26 de setembro de 1990. No registro civil recebeu o nome de Alberto Pincherle. Passou parte de sua juventude tratando de uma tuberculose óssea. Como a doença manteve-o de cama durante cinco anos, entre os nove e os dezessete anos, até 1924, seus estudos regulares não passaram de nove anos.
O primeiro livro de Moravia foi Gli indifferenti (Os indiferentes); parte dele foi escrito quando ainda estava de cama, doente. Concluiu o livro em 1925, e o viu publicado em 1929, com vinte e um anos de idade. Na Itália, o livro foi muito bem aceito. Sobre essa aceitação, assim se manifestou Moravia a The Paris Review:
Foi, com efeito, um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana. A maior, na verdade; o posso dizê-lo com toda modéstia. Jamais houve coisa igual. Livro algum, certamente, nos últimos cinquenta anos, foi acolhido com tão unânime entusiasmo e excitação”.
Moravia deu ênfase ao fato de que Gli indifferenti (Os indiferentes) teve uma recepção sem precedentes, e que não houve nenhum outro que a ele se assemelhasse em toda sua carreira – desde essa época -, como não aconteceu a nenhum outro escritor.
Além da grande atenção que o romance Gli indifferenti despertou na Europa, também teve excelente receptividade nos Estados Unidos, na sua segunda tradução; o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”
MoraviaO escritor disse que com esse livro (Os indiferentes) não teve nenhuma intenção de reagir contra coisa alguma; já a crítica entendeu que o romance contém um crítica acerba contra a burguesia romana, como dos valores burgueses em geral; Moravia disse que não é nada disso, e que se trata apenas de um romance; se alguma crítica há, não é intencional.
Para Moravia, “a função do escritor não é, de qualquer modo, criticar, mas apenas de criar personagens vivos; não mais que isso. Escrevo para divertir-me, para entreter os outros e para exprimir-me”.
Depois constatamos que Moravia abriu uma exceção ao escrever La Mascherata, peça teatral, que, contrariando o que se constituiu em regra em sua ficção, isto é, de escrever romances, contos ou peça teatral sem qualquer crítica social; La Mascherata, é, na verdade, uma peça crítica. A ideia de escrevê-la surgiu em 1936, quando Moravia esteve no México; o cenário hipano-americano inspirou-lhe uma sátira.
De volta à Itália, a ideia permanceu; em 1940 foi para Capri para escrever La Mascherata. Em Roma, dirigiu-se ao Ministério da Cultura para obter licença para publicá-la, mas a obra foi censurada; logo depois, Mussolini autorizou a sua publicação. Decorrido um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945.
Declarou Moravia não ser moralista, mas, em outro momento, disse: “Uma obra de arte, por outro lado, tem uma expressão representativa e expressiva. Nessa representação, as ideias do autor, seus juízos, o próprio autor, acham-se comprometidos com a realidade. Eu suponho, colocando as coisas dessa maneira, que sou, afinal de contas, até certo ponto, um moralista. Nós todos o somos, todo homem é um moralista à sua própria maneira, mas, além disso, ele é muitas outras coisas”.
O inteesse de Moravia pelo teatro começou cedo, quando era jovem. Sempre leu peças teatrais, a maioria delas de Shakespeare, Molière, Goldoni, Lope de Vega, Calderón. Para o teatro escreveu, entre outras peças, uma adaptação de seu primeiro romance, Gli indeppenti, e a peça para o teatro, La Mascherata.
Em suas leituras é atraído pela tragédia, que, para ele, é a maior de todas as formas de expressão artística, como o teatro é a mais completa das formas literárias. Lamenta que não mais exista o drama contemporâneo, que o drama moderno não exista mais – para ele existe apenas nas representações, mas não tem sido escrito.
Ainda sobre o drama, disse Moravia que nenhum escritor moderno criou o drama – a tragédia – no sentido mais profundo da palavra; nem mesmo O'Neill, Shaw, Pirandelo... “A base do drama é a linguagem, a linguagem poética”. Dá realce de que mesmo Ibsen, o maior dos dramaturgos modernos – que se valeu da linguagem cotidiana – não conseguiu criar o verdadeiro drama.




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
PATRICK, Julian. Grandes escritores. Tradução de Livia Almeida e Pedro Jorgensen Junior. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.




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