20 de set. de 2020

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I





PEDRO LUSO DE CARVALHO


ALBERTO MORAVIA nasceu na cidade de Roma, Itália, a 22 de novembro de 1907, onde morreu, em 26 de setembro de 1990. No registro civil recebeu o nome de Alberto Pincherle. Passou parte de sua juventude tratando de uma tuberculose óssea. Como a doença manteve-o de cama durante cinco anos, entre os nove e os dezessete anos, até 1924, seus estudos regulares não passaram de nove anos.
O primeiro livro de Moravia foi Gli indifferenti (Os indiferentes); parte dele foi escrito quando ainda estava de cama, doente. Concluiu o livro em 1925, e o viu publicado em 1929, com vinte e um anos de idade. Na Itália, o livro foi muito bem aceito. Sobre essa aceitação, assim se manifestou Moravia a The Paris Review:
Foi, com efeito, um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana. A maior, na verdade; o posso dizê-lo com toda modéstia. Jamais houve coisa igual. Livro algum, certamente, nos últimos cinquenta anos, foi acolhido com tão unânime entusiasmo e excitação”.
Moravia deu ênfase ao fato de que Gli indifferenti (Os indiferentes) teve uma recepção sem precedentes, e que não houve nenhum outro que a ele se assemelhasse em toda sua carreira – desde essa época -, como não aconteceu a nenhum outro escritor.
Além da grande atenção que o romance Gli indifferenti despertou na Europa, também teve excelente receptividade nos Estados Unidos, na sua segunda tradução; o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”
MoraviaO escritor disse que com esse livro (Os indiferentes) não teve nenhuma intenção de reagir contra coisa alguma; já a crítica entendeu que o romance contém um crítica acerba contra a burguesia romana, como dos valores burgueses em geral; Moravia disse que não é nada disso, e que se trata apenas de um romance; se alguma crítica há, não é intencional.
Para Moravia, “a função do escritor não é, de qualquer modo, criticar, mas apenas de criar personagens vivos; não mais que isso. Escrevo para divertir-me, para entreter os outros e para exprimir-me”.
Depois constatamos que Moravia abriu uma exceção ao escrever La Mascherata, peça teatral, que, contrariando o que se constituiu em regra em sua ficção, isto é, de escrever romances, contos ou peça teatral sem qualquer crítica social; La Mascherata, é, na verdade, uma peça crítica. A ideia de escrevê-la surgiu em 1936, quando Moravia esteve no México; o cenário hipano-americano inspirou-lhe uma sátira.
De volta à Itália, a ideia permanceu; em 1940 foi para Capri para escrever La Mascherata. Em Roma, dirigiu-se ao Ministério da Cultura para obter licença para publicá-la, mas a obra foi censurada; logo depois, Mussolini autorizou a sua publicação. Decorrido um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945.
Declarou Moravia não ser moralista, mas, em outro momento, disse: “Uma obra de arte, por outro lado, tem uma expressão representativa e expressiva. Nessa representação, as ideias do autor, seus juízos, o próprio autor, acham-se comprometidos com a realidade. Eu suponho, colocando as coisas dessa maneira, que sou, afinal de contas, até certo ponto, um moralista. Nós todos o somos, todo homem é um moralista à sua própria maneira, mas, além disso, ele é muitas outras coisas”.
O inteesse de Moravia pelo teatro começou cedo, quando era jovem. Sempre leu peças teatrais, a maioria delas de Shakespeare, Molière, Goldoni, Lope de Vega, Calderón. Para o teatro escreveu, entre outras peças, uma adaptação de seu primeiro romance, Gli indeppenti, e a peça para o teatro, La Mascherata.
Em suas leituras é atraído pela tragédia, que, para ele, é a maior de todas as formas de expressão artística, como o teatro é a mais completa das formas literárias. Lamenta que não mais exista o drama contemporâneo, que o drama moderno não exista mais – para ele existe apenas nas representações, mas não tem sido escrito.
Ainda sobre o drama, disse Moravia que nenhum escritor moderno criou o drama – a tragédia – no sentido mais profundo da palavra; nem mesmo O'Neill, Shaw, Pirandelo... “A base do drama é a linguagem, a linguagem poética”. Dá realce de que mesmo Ibsen, o maior dos dramaturgos modernos – que se valeu da linguagem cotidiana – não conseguiu criar o verdadeiro drama.




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
PATRICK, Julian. Grandes escritores. Tradução de Livia Almeida e Pedro Jorgensen Junior. Rio de Janeiro: Sextante, 2009.




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27 de jul. de 2020

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte II




- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Na primeira parte deste trabalho discorri sobre Gli indifferenti (Os indiferentes), o primeiro romance de Alberto Moravia, escrito quando o escritor ainda estava de cama, doente, e que foi concluido em 1925, cuja publicação deu-se somente em 1929, quando contava vinte e um anos de idade. Disse também que “Gli indifferenti” foi um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana; e que o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”

Também fiz referência à peça La Mascherata, escrita por Moravia em Capri, no ano de 1940, obra que foi censurada pelo Ministério da Cultura de Mussolini; e que em seguida o líder fascista – Duce, como era conhecido - autorizou a sua publicação, e que, decorrido apenas um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945. Agora, saindo dessas duas obras - o primeiro romance e a primeira peça para o teatro -, o enfoque será o cinema.

Para o cinema, o pouco que escreveu não lhe agradou. Maravia pergunta-se: “até que ponto permitirá o cinema a expressão plena?” Diz que “a câmara é um instrumento menos completo que a pena, mesmo que nas mãos de Eisenstein. Jamais poderá exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo”. Mas admite ser o cinema espetacular, transbordando de vida.

Para Moravia, o trabalho para o cinema não é inteiramente penoso, mas é exaustivo. Para ele, quem escreve para o cinema não passa de um homem-ideia, ou um cenarista; não passa de um subalterno. Não sente satisfação em escrever para o cinema – o nome do escritor não aparece sequer nos cartazes, depois de executar uma tarefa amarga.

Depois, Moravia fala do cinema como arte impura: “todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração da gente torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente da gente se acostuma para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se.” Para Moravia, escrever para o cinema sequer vale o que é pago ao escritor, a menos que necessite do dinheiro.

Esse tratamento que o cinema dispensa ao escritor, cujo trabalho é recebido com certo descaso, como se queixa Moravia, não se trata de um caso isolado, ao contrário, ao longo do tempo foi uma constante, como se vê por alguns exemplos dignos de registro. Um desses registros é feito pela escritora norte-americana Dorothy Parker, que também escreveu para o cinema, em entevista que concedeu à The Paris Review, em Nova York:

“O dinheiro de Hollywood não é dinheiro – diz Parker. É neve congelada, derrete em sua mão, e você fica na mesma. Não posso falar de Hollywood. Foi um horror para mim, e é um horror olhar para trás. Não consigo compreender como pude aguentar. Quando saí de lá, não conseguia nem me referir ao lugar pelo nome. “Lá”, eu falava”.

Dorothy Parker diz mais sobre sua relação com o cinema, quando a entrevistadora pergunta se Hollywood destrói o talento do artista: “Não, não. Acho que ninguém no mundo baixa o nível do que escreve. Mesmo que produzam lixo – diz Parker -, os escritores de Hollywood não baixam o nível. Aquilo é o máximo que podem dar. Se você vai escrever, não finja que baixou o nível. Vai ser o melhor que você pode fazer, e é isso que mata.”

Na sua fala sobre a precária situação do escritor que escreve para o cinema, Dorothy Parker, além de falar de seu caso pessoal, cita o que se passou nesse tipo de relacionamento com o célebre Scott Fitzgerald, e diz que o mal de Hollywood são as pessoas – e acrescenta: “Como o diretor que põe o dedo na cara de Fitzgerald e reclama: 'Eu paguei. Então, você precisa nos pagar'”. Parker diz que foi terrível com Scott; “se você o visse, ficaria doente”. Diz que quando o autor de The Great Gatsby (O grande Gatsby) morreu “ninguém foi ao seu enterro, nenhuma alma, sequer mandaram uma flor. (...) Foi nojento o que fizeram com Scott”.

Depois desses exemplos de desconsideração para com o escritor, pela Sétima Arte, o tema sobre Alberto Moravia, é retomado, deixando o cinema e retornando à Literatura. Outro livro famoso de Moravia, o romance La Romana, que se destinava ao gênero conto, que não passaria de quatro páginas, quando Moravia começou a escrevê-lo, em 1º de novembro de 1945. Passado alguns meses sentiu que se tratava de um romance, e quando o personagem da história fugiu de seu controle, sentiu que a inspiração não era autêntica.

E essa mudança ocorreu porque Moravia não se valeu de notas para escrever La Romana. Aliás, o escritor nunca se valeu de anotações para escrever suas obras, o fazia de antemão. “Confio na inspiração, que, às vezes, vem e, às vezes, não. Mas não fico sentado à espera dela. Trabalho todos os dias”.

A história de La Romana deveu-se a uma mulher chamada Adriana, que o escritor conheceu, e que lhe inspirou; nada mais além da inspiração, pois, como disse o escritor, a viu apenas uma vez; então, imaginou tudo, inventou tudo. Moravia escreveu esse livro duas vezes, depois, numa terceira vez, trabalhou o livro de forma minuciosa, com muito cuidado, até o momento em que ficou satisfeito com a obra. A personagem Adriana tornou-se uma das melhores, dentre as personagens que criou.

Segue um trecho do romance de Moravia, La Romana:

[...] Já outras vezes tinha reparado que a cama ficava encostada numa porta de comunicação com o quarto ao lado. Assim que apaguei a luz, vi que os dois batentes da porta estavam separados e deixavam filtrar uma fresta vertical de luz. Levantei-me nos cotovelos sobre o travesseiro, meti a cabeça entre os arabescos de ferro batido da cabeceira da cama e colei o olho na fresta. Não era curiosidade, pois já sabia o que poderia ver e ouvir, mas sim o medo dos meus pensamentos e da solidão que me levavam a procurar, embora espionando, companhia do quarto ao lado. Mas por um bom pedaço, não vi ninguém. Diante da fresta havia uma mesa redonda; a luz do lustre caia do alto sobre a mesa. Atrás da qual, numa sombra fechada entrevia o reflexo de um espelho de armário. Porém, ouvia vozes: eram as conversas de sempre, que já conhecia de cor, as perguntas costumeiras sobre a cidade natal, a idade, o nome. A voz da mulher era tranquila e reticente, a do homem, apressada e ansiosa. Falavam num canto do quarto, talvez já estivessem na cama [...]”

Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I.



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REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira.          2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 p. 84-90.
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review.            Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus,                  2001,   p. 87-88.
 MORAVIA. Alfredo. A Romana. Tradução de Maria Colasanti. 1ª ed.                 Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 361.





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3 de abr. de 2020

[Poesia] EDGAR ALLAN POE / Ulalume



             por Pedro Luso de Carvalho
       
         Sobre o genial escritor Edgar Allan Poe (1809-1849) escrevi três textos, que se encontram postados neste espaço, quais sejam: Edgar Allan Poe e sua Antologia de Contos; O Corvo e Annabel Lee. Num desses textos, fiz menção ao seguinte fato: no ano de 1847, o escritor norte-americano tem algumas de suas histórias traduzidas para o francês, por Charles Baudelaire (1821-1867), dentre eles um dos famosos contos de Poe, qual seja, A Queda da Casa de Usher; Baudelaire também escreve o prefácio das obras de Poe. Eis um trecho do prefácio de Baudelaire:

        “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.

        Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado Os Sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado”.

        A consagração de Poe, dois anos antes de sua morte, deveu-se não apenas ao conto, mas também aos seus brilhantes ensaios e aos seus poemas magistrais. Efetivamente, a imaginação de Poe era extraordinária, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à excelência literária de sua obra. Mas, assim não entendiam os pseudos intelectuais da época, que não compreendiam a grandiosidade da obra de Poe. Para os críticos europeus, até o ano de 1847, quando Baudelaire traduziu Poe, os Estados Unidos tinham uma literatura de segunda categoria..

       
        Julio Cortázar menciona os motivos da tardia aceitação da obra de Poe pelos norte-americanos, qual seja, de estarem os Estados Unidos atrelados à literatura do século XVIII, com “péssimos romances e poemas, ensaios triviais ou extravagantes, contos insípidos”; e mais: que entre os anos de 1830 e 1850 os Estados Unidos estavam iniciando sua história literária, e que os poucos escritores de talento eram: James Russel Lowell, Hawthorne, Emerson e Longfellow.

        Exemplo desse cuidado com sua obra é o seu imortal poema O Corvo, que foi traduzido inúmeras vezes para vários idiomas; para o idioma português, a tradução foi feita por dois mestres da literatura: o brasileiro Machado de Assis e o português Fernando Pessoa. As primeiras traduções de O Corvo, foram feitas pelos franceses Baudelaire e Mallarmé. Outros poemas, como Ulalume, Annabel Lee, Tamerlão, Os Sinos e Al Aaraaf, entre outros, gozam de igual celebridade. Para quem não conhece ULALUNE, esta é a oportunidade para ler esse excelente poema de Edgar Allan Poe.

            


         ULALUME



Era o céu de um cinzento funerário
e a folhagem, fanada, morria,
a folhagem, crispada, morria;
era noite, no outubro solitário
de ano que já me não lembraria;
ficava ali bem perto o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem perto, o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir.


Lá, uma vez, por um renque titânico

de ciprestes, vagueei, em desconsolo.
Era então o meu peito vulcânico
qual torrente de lava que no solo
salta, vinda dos cumes de Yaanek,
nas mais longínquas regiões do pólo,
que ululando se atira do Yaanek
nos panoramas árticos do pólo.


Tristonha e gravemente conversamos,

mas a idéia era lassa e vazia
e a memória traidora e vazia;
que o mês era de outubro não lembramos,
nem soubemos que noite fugia.
(Ai! A noite das noites fugia!)
Não recordamos a lagoa de Auber
(e já fôramos lá, certo dia);
não pensamos no charco úmido de Auber
nem no bosque assombrado de Weir.


Quando a noite ia já desmaiada

e as estrelas chamavam pela aurora,
pálidos astros apontando a aurora,
eis que surge, no extremo da estrada,
uma luz fluida, nebulosa; e fora
dela se ergue um crescente recurvo,
diadema de Astarté, que se alcandora.
“Menos fria que Diana é essa estrela”,
digo, “a girar num éter feito de ais.
Viu o pranto, que a mágoa revela,
nas faces em que há vermes imortais
e, por onde o Leão se constela,
vem mostrar o caminho aos céus, letais
caminhos para a paz dos céus letais;
a despeito do Leão, vem-nos ela
iluminar, com olhos triunfais;
das cavernas do Leão, vem-nos ela,
cheia de amor nos olhos triunfais.”


Mas diz Psique, tremendo de aflição:

“Dessa estrela, por Deus, desconfia!
Desse estranho palor desconfia!
É preciso fugir de luz tão fria!
Apressemo-nos! Voemos, então!”
E, perdidas de tanta agonia,
suas asas se inclinavam para o chão;
soluçava e, de tanta agonia,
as plumas rastejavam pelo chão,
tristemente roçando pelo chão.


“Isso”, falei, “é um sonho de criança!

Oh! sigamos a luz que facina,
mergulhemos na luz cristalina!
É um clarão de beleza e de esperança
o que vem dessa luz sibilina.
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!
Guie-nos, pois, essa estrela, que ilumina
nossa estrada, com toda a confiança;
que nos guie para onde se destina.
Nessa estrela tenhamos confiança,
pois nas sombras, assim, volteia e dança!”


Dou um beijo a Psique, que a conforta,

impedindo que o medo se avolume,
que a dúvida, a tristeza se avolume,
e da estrela seguimos o lume
a té que nos deteve uma porta
de tumba, e uma legenda nessa porta.
“Doce irmã”, perguntei, “dessa porta
que tragédia a legenda resume?”
“Ulalume!” - responde-me. “Ulalume!”
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”


E me vi de tristezas referto,

como a folhagem seca que morria,
a folhagem fanada que morria!
E exclamei: “Era outubro, decerto,
e era esta mesma, há um ano, a noite fria
em que vim, a chorar, aqui perto,
fardo horrível trazendo, aqui perto!
Nesta noite das noites, sombria,
que demônio me arrasta aqui tão perto?
Bem reconheço agora o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem vejo o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir!”.



(Tradução de Osmar Mendes)




19 de fev. de 2020

BEIJO-FLOR – Carlos Drummond de Andrade


PEDRO LUSO DE CARVALHO

Carlos Drummond de Andrade, o mineiro nascido na pequena cidade de Itabira, fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma Poesia. Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma Poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Não se podia negar que ali se via um grande poeta, como poderia ser aquilatado nos livros que se seguiriam a este, como: Brejo das Almas, 1934; Sentimento do Mundo, 1940; A Rosa do Povo, 1945; Claro Enigma, 1951. Tais obras dariam a Drummond a posição de um dos maiores poetas brasileiro.
Segue o poema Beijo-flor, de Carlos Drummond de Andrade (in Menino antigo / Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, p. 33):


BEIJO-FLOR
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


O beijo é flor
no canteiro
ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo
e colhido
na calma do jardim
nenhum beijo beijado
(como beijar o beijo?)
Na boca das meninas
e é lá que eles estão
suspensos
invisíveis.



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2 de dez. de 2019

FERNANDO PESSOA – Qualquer Música...



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FERNANDO PESSOA nasceu em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888. Teve um único irmão, Jorge, mais novo que ele, que morreu em 1894, com apenas um ano de idade. Antes de completar seis anos, o menino Fernando ficou órfão de pai. Em 1896, já com oito anos, passou a morar em Durban, na África, com a família, a mãe e o padrasto Miguel Rosa. Aí, o padrasto assume o cargo de cônsul de Portugal.
Dez anos, foi o tempo que residiu nesse continente, período em que adquiriu a base de sua cultura literária (Milton, Shelley, Shakespeare, Tennyson, Pope e outros). As aulas recebidas em Durban foram ministradas na língua inglesa.
Na África, nasceram os seus primeiros poemas, assinando-os com os nomes de Alexander Search e Robert Anon, enquanto realizava os seus estudos; o primário numa escola de freiras irlandesas, e o secundário na Durban High School.
Em 1905, regressou sozinho a Lisboa, onde  redescobre sua cultura e literatura: Cesário Verde, Antônio Nobre, Antero de Quental, Camilo Pessanha, Mas quem o influenciou fortemente foi Camões, embora tenha demonstrado pouco interesse pelo criador de Os Luzíadas, fato que se deve a sua ânsia de superar o mestre – o “pai” , – como diz Harold Bloom, autor de The anxiety of influence.
Segue o poema Qualquer música..., de Fernando Pessoa (in Poesia. 1918 – 1930 / Fernando Pessoa. Edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine . – São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 285):    


QUALQUER MÚSICA...
– FERNANDO PESSOA  


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música  – guitarra,
Viola, harmónio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa, que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
... Que eu não sinta o coração!


5-10-1927

REFERÊNCIA:
MOISÉS, Carlos Felipe. Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos. São Paulo: Editora Escrituras, 2005. (Coleção Ensaios Transversais.)


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18 de mai. de 2019

EZRA POUND - A Arte da Poesia



       
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


EZRA POUND foi educado na Universidade de Pensilvânia e no Hamilton College. O seu primeiro livro foi publicado em 1908, em Veneza, Itália. Escreveu cerca de 90 volumes de poesia, crítica e traduções de importantes poetas. Além de suas próprias obras, Erza Pound – que definiu a boa literatura como “linguagem carregada de sentido até o último grau possível” –  publicou James Joyce, foi uma espécie de protetor de T.S. Eliot, incentivou Yeats a ousar mais na sua poesia, mostrou a importância da concisão a Hemingway.

Em tempo algum foi negada a importância de Pound, como professor e como divulgador das artes. “Seus ensaios literários, suas cartas, seu estudo da poesia provençal intitulado The Spirit of Romance e o fascinante ABC da literatura – diz Michael Dirda – tudo isso ainda causa um verdadeiro impacto: os textos  são ao mesmo tempo acadêmicos, iconoclastas e divertidos, como podemos notar na constatação de que A França assumiu a liderança intelectual europeia quando reduziu a hora das aulas nas universidades para cinquenta minutos ”.

Extraí de A Arte da Poesia, livro de ensaios de Ezra Pound, o texto que tem por título Linguagem; sem dúvida, a intenção de Pound era a de ajudar os mais novos a desenvolver a arte da escrita, já que ele é aquele “artista mais tarimbado buscando ajudar outro artista mais jovem”, como dizia de si mesmo. Ezra Pound – poeta, músico e ensaísta de invejável erudição – foi um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX.

Em A Arte da Poesia, no seu capítulo Linguagem, Pound ensina aos jovens escritores, poetas principalmente, como se deve tratar a difícil arte da prosa e da poesia:  “Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado”.

Diz mais, Pound, no capítulo Linguagem: “Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se do obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã”.

“Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música – diz Pound – ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano. Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la”.

Quanto à influência a que o jovem escritor não precisa esquivar-se, Pound faz esta advertência: “Não permita que a palavra influência signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

Obra poética principal de Ezra Pound: Os Cantos, que começou a aparecer em 1917, sendo que a sua última parte – Thrones – foi publicada em 1959. Seus poemas curtos foram reunidos no volume intitulado Personae, que foi publicado em 1926, com edição aumentada em 1950.

Ezra Pound nasceu a 30 de outubro de 1885, na cidade de Hailey, Idaho, EUA, e morreu no dia 01 de novembro de 1972, em Veneza, Itália, onde vivia com sua filha.




REFERÊNCIA:
DIRDA, Michael. O prazer de ler os clássicos. Tradução de Rodrigo Neves. São Paulo: Editora WMF. Martins Fontes, 2010.
POUND,Ezra. Arte da Poesia. Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.


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28 de mar. de 2019

FRANZ KAFKA & Sua Obra




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

FRANZ KAFKA nasceu em Praga no dia 3 de julho de 1883; vítima de tuberculose, morreu em 3 de junho de 1924, no Sanatório de Keerling, perto de Viena; foi enterrado em Praga, no Cemitério de Straschinitz. Nessa época Kafka era conhecido apenas por um círculo de amigos; sua obra somente seria conhecida 20 anos após sua morte, quando seu talento criativo foi reconhecido por nomes importantes, dentre eles o poeta inglês W.H. Auden, que assim manifestou sua admiração pelo escritor tcheco: “se eu tivesse que escolher o autor que tem para com nossa época aproximadamente a mesma relação que Dante e Schakespeare para com a sua, Kafka é o primeiro nome em que eu pensaria”.
Outros nomes importantes ligados à literatura também deram seu depoimento sobre Kafka, como ocorreu com o renomado ensaísta George Steiner; para ele, “Nenhuma outra voz testemunhou de maneira mais fiel à natureza de nossa época”. O escritor francês Paul Claudel, que não ficou distante da comparação feita por Auden, afirmou que, “Ao lado de Racine, que para mim é o melhor de todos os escritores, há um: Franz Kafka”.
Parte da obra de Kafka foi traduzida do idioma alemão, no qual se expressava, para o espanhol; o célebre escritor argentino Jorge Luis Borges traduziu O processo, que foi publicado pela Editora Losada, de Buenos Aires, em 1939; uma nova edição dessa obra deu-se somente no ano de 1962. Antes dessa edição, a Editora Losada publicou A metamorfose, em 1943.
Jorge Luis Borges, admirador de Kafka, disse que “Duas ideias, ou melhor, duas obsessões regem a obra de Franz Kafka: a subordinação é a primeira, e o infinito a segunda. A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de situações intoleráveis. Para registrá-las de maneira definitiva bastavam-lhe algumas frases (...). O argumento e o ambiente são o essencial, não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica. Daí a primazia de seus contos sobre as novelas longas”.
No decorrer dos anos a obra de Kafka foi traduzida para muitas línguas, tendo uma sólida aceitação; no ano de 1961, Harry Järv levantou em torno de cinco mil títulos compondo a bibliografia de Kafka. A divulgação da obra de Kafka, no entanto, foi cheia de obstáculos nos 20 anos que transcorreram após sua morte; Max Brod, amigo e seu testamenteiro, lutou incansavelmente para divulgar a obra de Kafka, contrariando o pedido do escritor para que destruísse todos os seus livros, que ainda não haviam sido publicados. Não saberia dizer qual o número de títulos bibliográficos existentes até o ano de 2007, mas, não tenho dúvida, é bem maior que o relacionado por Järv.
A obra de Kafka começou a ser conhecida na França em 1928, quando eram publicados em revistas apenas pequenos trechos de seus livros; em 1933 a ed. Gallimard publicou O processo; a partir daí nomes importantes como Aldous Huxley, André Gide, Hermam Hesse, Thomas Mann, Virginia Wolf, Albert Camus, além de outros escritores e ensaístas, passaram a dar atenção à genialidade de Kafka, e a contribuir para a divulgação de sua obra.
A escritora Tânia Franco Carvalhal faz referência a esse reconhecimento, dizendo que “Esta informação de Brod ratifica a popularidade de Kafka entre homens de letras que, sob a égide de Proust, de Joyce e do escritor tcheco, representam etapas significativas na evolução do romance contemporâneo. Muitos críticos vão situar Kafka nas origens de toda a literatura contemporânea e Claude Mauriac preferirá considerá-lo como a fonte de toda a literatura contemporânea”.
Albert Camus, conhecedor da obra de Kafka, socorreu-se dele para explicar o tema do absurdo contido na sua obra Le Mythe de Sisiphe, em 1939. Camus analisando a obra de Kafka disse que o segredo do escritor tcheco encontra-se na contradição que se vê no trecho de O processo, em que a sua personagem Joseph K. é alguém que não se surpreende e não se deixa surpreender nos perpétuos balanços entre o natural e o extraordinário, entre o indivíduo e o universal, entre o trágico e o cotidiano, entre o absurdo e o lógico.
As obras-primas de Kafka, O Processo (1925), e O Castelo (1926) foram publicadas postumamente graças aos esforços empreendidos por Max Brod. No período precedente foram publicados: Descrição de uma luta (1905), Diários (início em 1910), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), Contemplação (1912), Narração do espólio (1914-24), Na colônia penal (1914), Amérika ou O desaparecido (1914), Um médico rural (1918), A grande muralha da China (1918), Carta ao pai (1919); Um artista da fome ( 1922-24), O foguista (1923), A construção (1923 ), e alguns contos e novelas escritos nos anos 20: Poseidon, De noite, Do problema da lei, Investigação de um cão (1922), Uma mulherzinha (1923).
Com o passar dos anos, Franz Kafka torna-se mais conhecido do público leitor, graças ao reconhecimento de sua genialidade por escritores, ensaístas e críticos de renome, fato esse que encoraja frequentes reedições de seus livros, como é o caso de Desaparecido ou Amerika, publicado pela Editora 34, em 2004, com a tradução e posfácio de Suzana Kampff Lages.
Enfatiza Suzana Kampff Lages, no seu posfácio, que “O desaparecido ou Amerika, como ficou conhecida esta obra de Franz Kafka, conforme o título dado pelo amigo e editor póstumo, Max Brod, é um romance inacabado, ou melhor, um fragmento de romance. Concebido na primavera de 1912, é composto por fragmentos de uma história que se queria – nas palavras do próprio Kafka – dickenseana, ou seja, inspirada num exemplar do tradicional modelo do romance realista, por um lado, e por outro, uma história projetada para o infinito”.
Aproveito o ensejo para render homenagens a outro importante tradutor de Franz Kafka, do alemão para o português: Modesto Carone, escritor, ensaísta, e professor de literatura, tendo lecionado nas universidades de Viena, São Paulo e Campinas. Dentre as obras de Kafka, que traduziu, uma delas, O processo, o Prêmio Jabuti de Tradução de 1989.
Encerro com um trecho do ensaio de Harold Bloom, intitulado Kafka: Paciência Canônica e “Indestrutibilidade”, in O Cânone Ocidental: “Tudo que parece transcendente em Kafka é na verdade uma gozação, mas fantástica; a gozação que emana de uma grande doçura de espírito. Embora adorasse Flaubert, ele possuía uma sensibilidade muito mais delicada que a do criador de Emma Bovary. E, no entanto suas narrativas, curtas e longas, são quase invariavelmente brutais nos acontecimentos, tonalidades e provações. O terrível vai acontecer. A essência de Kafka pode ser transmitida em muitos trechos, e um deles em sua famosa carta à extraordinária Milena. Apesar de agonizantes como frequentemente são, suas cartas estão entre as mais eloquentes de nosso século”.



REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. O cânone ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 431.
CARVALHAL, Tânea Franco. A Realidade em Kafka. Porto Alegre: ed. Movimento, 1973.
KAFKA, Franz. O Diário Íntimo de Kafka. Nova Época Editorial, [198-?].
IZQUIERDO, Luis. Conhecer Kafka e a sua obra. Tradução de Manuel Mota. São Paulo: ed.Ulisseia, [198-?].
KAFKA, Franz. Descrição de uma luta. Rio de Janeiro: ed. Nova Fronteira, 1985.
KAFKA, Franz. O desaparecido ou Amérika. Trad. e posfácio de Suzana Kampff Lages. São Paulo: Editora 34, 2004.
KAFKA, Franz. Narrativa do espólio. Trad. de Modesto Carone. São Paulo: Companhia Das Letras,2002.



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