1 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Ansiedade do artista

 

                                            
Jackson Pollock - Expressionismo Abstrato





     ANSIEDADE DO ARTISTA

                          – Pedro Luso de Carvalho





Fantasmas cercam o artista

na noite, quase madrugada.

No ateliê vestido de quadros

ainda ecoa o estampido da arma.



Na ânsia de criar, o artista fere

a tela virgem com o sangue

do homem – dançam pincéis

com tantas tintas no alvo tecido.



O artista anseia esquecer

o dia de fúria, esquecer a arma

municiada na mão tensa –

sentença irrecorrível.



Nos contornos de lúgubres figuras,

compostas em grandes telas, homens

e mulheres assombram – a criança

transborda alegria num universo de cores.





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23 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Uma trégua

José Cesário / Costa do Mar


 

       UMA TRÉGUA

                 Pedro Luso de Carvalho




Deixo esvair-se em mim

toda energia,

cessar da ação o ardor.



Trégua aos tensos músculos

nessa luta,

clamando por paz.



Que possa eu a paz merecer,

repouso do espírito,

até o retorno à barbárie.



Volto ao império dos músculos,

espírito vencido,

soldado de guerra perdida.





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15 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - A Revolta da Natureza

 




A REVOLTA DA NATUREZA

                    – Pedro Luso de Carvalho




Haverá uma noite em que a Natureza

rejeitada, explodirá em tantos trovões

quanto bastem para o acerto de contas,

pelos impensados atos dos homens.



Os trovões explodirão vezes repetidas,

seguidos de muitos relâmpagos, fachos

penetrantes de luz, para que os homens

enlouqueçam – condenação merecida.



A terra ficará então ressecada e sem frutos,

os rios adormecidos em seus míseros leitos,

os lagos apenas pequenos pontos d’água,

as florestas serão cemitérios de riquezas.



Os oceanos com suas histórias de navios

e de gente, serão o túmulo maior, o céu

ficará toldado por corrosiva fuligem,

do sol não mais existirá calor e brilho.




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4 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Desilusão





 

          DESILUSÃO

                         – Pedro Luso de Carvalho





João, pobre João! Preso a esse amor

intenso e sem tréguas, por Maria.

Tanta procura e tantos afagos!

(Beija-flor no ar saciando a sede.)



João, pobre João! Não vês os excessos?

Terás tu, João, o amor de Maria?

Volta de teus voos em escuras nuvens

e verás o rumo que tomou Maria.



Consola-te, João! Agora te resta deitar

na cama, no mesmo lugar que Maria dormia,

que algum calor terá sobrado do corpo

da amada, para aquecer tuas noites de frio.





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21 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Os meus fantasmas


George Grozs / Eclipse do Sol  - 1926 




OS MEUS FANTASMAS

                   – Pedro Luso de Carvalho





No telhado, a chuva batuca

e dança com pés alados

na fenda da noite.

Não dormirei,

fantasmas aninham-se em minha mente.

Mas os enfrentarei,

não me assustam ameaças e artimanhas.

Quanto ao ideal 

e ao sonho,

não serei acusado

de frustrá-los.

Mas ainda ouço

burburinho dos fantasmas enlouquecidos.

O dia vencerá a noite,

a chuva verá secar todas as suas lágrimas.

Amanhece! Na casa sonolenta,

raios de luz penetram

através da vidraça.





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15 de jun. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO – Soneto da penúria


Cândido Portinari / Os Retirantes - 1944



SONETO DA PENÚRIA

                   – Pedro Luso de Carvalho




Na cidade há gente com fome,

mulheres e homens maltrapilhos

gente desconhecida, sem nome,

para a sociedade empecilhos.



Essa sofrida vida, que vemos,

nódoa que em nós está grudada

enreda para que a derrotemos

com nosso canto, nossa toada.



Não deixemos que a fome mate

gente à míngua de esperança,

ajuda seja nó que não desate.



Que não venham para enganar,

sempre fazem, habitual usança.

Fome, quer o faminto matar.





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4 de jun. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO - A tempestade

 





A TEMPESTADE

- Pedro Luso de Carvalho





No meio da tarde escurece

a cidade.

Nuvens de bronze reunidas

no meio da tarde.



O vento varre calçadas e ruas

no meio da tarde.

Caiem árvores e arbustos

prenúncio de tempestade.



Há gente com medo na tarde,

no meio da tarde,

dia que se fez noite

a tempestade o açoite.



A tempestade parou na tarde,

no meio da tarde.

Em casas, onde a água entrou,

danos tantos, a poucos poupou.




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26 de mai. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO - Este não é o meu país



Otto Dix - Os Notívagos 1927/1928




ESTE NÃO É O MEU PAÍS

                 - Pedro Luso de Carvalho





Honra me ensinaram a ter

Desonra é o que vejo no país

Astúcia e maldade também

De venais políticos a ganância

Deles somos todos reféns

Podem subtrair subtraem



Honra me ensinaram a ter

Desonra é o que vejo no país

Todos agora são estranhos

Agora aqui tudo é diferente

Não é o que foi a minha casa

Nem a escola onde me instrui



Não conheço mais este país

Em que país terei crescido

Onde aprendi moral e ética?

Lições de casa e da escola

Dos pais e dos professores

Honra me ensinaram a ter



Desonra é o que vejo no país

Aqui é sistêmica a corrupção

Tiram o que temos sem pejo

Políticos de todas as frestas

Legam insegurança e medo

Marca da violência o sangue



Aqui a morte está no semáforo

Também pode estar na praia

Na avenida pode estar

Pode estar também na praça

A morte está em mãos nervosas

No apertar do gatilho a desgraça.





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17 de mai. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – A Inútil Espera

 

Jack B. Yeats - Obra: The Night Gone / 1947



   A INÚTIL ESPERA

            – Pedro Luso de Carvalho





Na longa espera dói-me o peito

ferido por tantas esperas

em meio às fotografias

amareladas

do velho álbum

sobre a escrivaninha.



Pressenti na inútil espera

a ruptura dos elos

vidas perdidas

com sonhos tantos

acalentados

encanto e desencanto.



Naquela tarde quase noite

me vi no vidro da janela

refletido

a dor refletida no espelho.



Vi lá fora a silhueta da mulher

na densa névoa

fazia-me acenos de despedida –

ausência e lembrança eternizavam-se.






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11 de mai. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO – A Alma do Homem

 

Iberê Camargo - Obra / O Grito  1984




    A  ALMA DO HOMEM

             – Pedro Luso de Carvalho 




Sobre a cama o corpo frágil,

não mais o corpo forte e ágil,

do tempo vítima.



Na desordem do quarto, o ágio,

mas vem raios de luz, apanágio,

numa paz legítima.



Havia um plano para a noite,

para o mortal plano, o açoite

ao homem implica.



Esperança do homem feneceu,

forças findas na noite, no breu.

Morre, a alma fica.





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30 de abr. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – O Pedido de uma Mãe




 

O PEDIDO DE UMA MÃE

              Pedro Luso de Carvalho




Mulher altiva, vaidade viva

ante de mim, vitrina do luxo,

as mãos asas em voo de pássaro.



Veio de minas de diamantes,

ou da escuridão do mar profundo,

ou de raio com trovão, a aflição?



Senti que dela nada ouviria.

Feito coração a boca pintada,

semiabertos os lábios mudos.



Pago pelo trabalho que peço,

moça, por amor deixei meu filho –

com amargura, falou a mulher.



A juventude tirou-me o tempo,

fiquei com fugidias lembranças

do filho, que à justiça imploro.





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19 de abr. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Vento de Outono

 




VENTO DE OUTONO

              - Pedro Luso de Carvalho




Sentado no banco, úmido ainda

pelo sereno, da noite lágrimas.

Outono pródigo em folhas secas,

ensinança da vida e do tempo.



Deixo que o vento sopre suave,

com as folhas faça redemoinhos,

para o inverno guarde suas forças –

será ciclones e tempestades.



Imóvel no banco do jardim,

às minhas indagações retomo,

rosário interminável de dúvidas.

Para me iluminar, onde há luz?



Fiz aquilo que pude fazer,

o percurso foi curto, bem sei.

Pouco visível o andar do tempo,

a deixar o seu rastro no espelho.





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11 de abr. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Solidão

 




    SOLIDÃO

        - Pedro Luso de Carvalho



Vejo, de onde estou, o homem

marcado pelo tempo, no banco

descolorido pela maresia.



O mar recebe afagos do sol.

As ondas brindam o homem

com a água tépida do mar.



O homem aperta os olhos gastos,

para além do horizonte – quer saber

o que lhe espera nas lonjuras.



As horas se sucedem. Apaga-se o brilho

do sol, e apenas se ouve o rumor repetido

das ondas, que se encrespam na praia.






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31 de mar. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Hemoptise








   HEMOPTISE                    
   – PEDRO LUSO DE CARVALHO



Vi o homem sonolento
no quarto sombrio.
Olhos vítreos,
pálido rosto
marcado
por rugas precoces –
prenúncio da morte
esperada,  
lenitivo da dor.

Tosse prestes a romper
a azulada veia,
desenhada
por mão
de espectral ser
no marmóreo
rosto do homem.

Corpo esquálido,
denúncia da luta inútil
pela inútil vida
do homem.
De súbito, a hemoptise,
cone de ventre ávido
e impiedoso – 
sangue manchando
os sonhos
e afogando a vida.




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