19 de out. de 2021

[Poesia] OS VIGARISTAS / Pedro Luso de Carvalho

 




         OS VIGARISTAS

                 – Pedro Luso de Carvalho




Que saibam vocês guardar segredo

das tristes coisas que vou contar,

tristes casos, sem nenhum enredo,

a ninguém fará rir nem chorar.



Pode causar medo a história,

todos somos reféns de bandidos

(triste caminhar, luta inglória)

visíveis todos ou escondidos.



Vigaristas vis do parlamento

gente educada e bem vestida

roubam todos com descaramento,

míseros, pensam ter eterna vida.






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4 de out. de 2021

(Poesia) OS DESPREZADOS – Pedro Luso de Carvalho

 




OS DESPREZADOS

      – Pedro Luso de Carvalho





A ninguém conte o segredo,

a esperança saiu porta afora,

meteu-se em becos imundos,

breus de torpezas, vis becos

de pervertidos, condenados

todos, sentença irrecorrível,

saldo de vidas consumidas,

acre cheiro, vício de pedra

fumaça a revoltear espiral,

escultura para os túmulos,

renúncia insultuosa à vida,

da crueldade retrato, chaga

do país à mostra sem recato.





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24 de set. de 2021

[Poesia] ACONTECE COMIGO - Pedro Luso de Carvalho

 

Candido Portinari - A Descoberta da Terra / 1941




ACONTECE COMIGO

               – Pedro Luso de Carvalho





Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Minha vida tem sido assim,

há sempre alguma bruma,

há sempre alguma tristeza,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

Esta dor em meu peito,

a desgraça tão presente,

o país que não se inveja,

sem que possa explicar o que seja.



Alguma coisa acontece comigo

sem que possa explicar o que seja.

O meu desejo de partir,

para na distância viver,

paz há quem anteveja,

sem que possa explicar o que seja.




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15 de set. de 2021

(Poesia) COFRES E LADRÕES / Pedro Luso de Carvalho

 

Congresso Nacional / Brasília




COFRES E LADRÕES

                        -  Pedro Luso de Carvalho





Feche bem essa porta, meu filho,

há muitos ladrões lá fora.

Feche bem essa porta, meu filho,

se entrarem nada sobrará

do que temos.

(Ratos vêm roer nossos pés.)



Sabe onde se escondem os ladrões

dos nossos cofres, meu filho?

Escondem-se em palácios forrados,

tapetes dourados tecidos em ouro

e prata, embriagados pelo poder.



Mas logo tudo passará, meu filho,

essas bocas ilustres dos ladrões

de fala fácil, enganosa fala,

não mais terão o que dizer.



Ouve o vento bater na janela,

meu filho, ouve o suave vento

de harpa tangida, nosso alento,

único discurso para ouvirmos.





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4 de set. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Lembranças

 



          LEMBRANÇAS

                      – Pedro Luso de Carvalho





Música – sonoras notas lembram Bach

na igreja – reflexão

e religiosidade,

minhas asas para o voo.



Verei da altura, do nublado céu, a cidade

natal, quase esquecida na serra,

São Joaquim

minha primeira objeção.



Dia Santo de São Pedro, neve

na manhã

branca

a tecer tapete no chão.



Lembranças avivadas com a sonata

de Bach, som

e solo do violoncelo

aplanando meu caminho.





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29 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - O quarto esquecido

Edward Hopper - O Quarto 1906 / Whitney Museum

 




O QUARTO ESQUECIDO

               – Pedro Luso de Carvalho




Há um quarto de dormir

na casa desperta,

neste dia claro,

sem lembranças.


Há um quarto de dormir,

quarto esquecido

feito amor velho

trocado por novo amor.





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25 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Os sonhos perdidos

 




     OS SONHOS PERDIDOS

                     – Pedro Luso de Carvalho




No enigma da noite,

no nevoeiro intenso na cidade,

garimpa a mulher.



No coração mantém

da infância os tantos sonhos,

dourados sonhos.



Sabe ela dos sonhos,

sabe que os sonhos nada valem

para sobreviver.



Tem o corpo para exibir,

habituais clientes, bolsos cheios,

virão atraídos.



No facho de luz,

homem leva na mão o dinheiro –

o preço do prazer.






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15 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – A Terra Ferida

 

Obra: Fazenda do Brejinho / João Batista da Costa



A TERRA FERIDA

           – Pedro Luso de Carvalho





Caminho por esta pobre terra

seca, carente de cuidado,

de amor carente.



Pisaram-te, pobre terra, pés

que te feriram a alma,

interminável dor.



Meus olhos tuas seivas veem

o alimento que guardas

para matas e rios.



As tuas fontes, pobre terra,

teus riachos e cascatas

haverás de cuidar.



Tenhas cuidado com o homem,

predador de mórbida avidez

(dele sejas a sepultura).



Verás crescer tuas florestas,

os rios refletirem do céu

o azul, rumo ao mar.






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1 de ago. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - Ansiedade do artista

 

                                            
Jackson Pollock - Expressionismo Abstrato





     ANSIEDADE DO ARTISTA

                          – Pedro Luso de Carvalho





Fantasmas cercam o artista

na noite, quase madrugada.

No ateliê vestido de quadros

ainda ecoa o estampido da arma.



Na ânsia de criar, o artista fere

a tela virgem com o sangue

do homem – dançam pincéis

com tantas tintas no alvo tecido.



O artista anseia esquecer

o dia de fúria, esquecer a arma

municiada na mão tensa –

sentença irrecorrível.



Nos contornos de lúgubres figuras,

compostas em grandes telas, homens

e mulheres assombram – a criança

transborda alegria num universo de cores.





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23 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Uma trégua

José Cesário / Costa do Mar


 

       UMA TRÉGUA

                 Pedro Luso de Carvalho




Deixo esvair-se em mim

toda energia,

cessar da ação o ardor.



Trégua aos tensos músculos

nessa luta,

clamando por paz.



Que possa eu a paz merecer,

repouso do espírito,

até o retorno à barbárie.



Volto ao império dos músculos,

espírito vencido,

soldado de guerra perdida.





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15 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO - A Revolta da Natureza

 




A REVOLTA DA NATUREZA

                    – Pedro Luso de Carvalho




Haverá uma noite em que a Natureza

rejeitada, explodirá em tantos trovões

quanto bastem para o acerto de contas,

pelos impensados atos dos homens.



Os trovões explodirão vezes repetidas,

seguidos de muitos relâmpagos, fachos

penetrantes de luz, para que os homens

enlouqueçam – condenação merecida.



A terra ficará então ressecada e sem frutos,

os rios adormecidos em seus míseros leitos,

os lagos apenas pequenos pontos d’água,

as florestas serão cemitérios de riquezas.



Os oceanos com suas histórias de navios

e de gente, serão o túmulo maior, o céu

ficará toldado por corrosiva fuligem,

do sol não mais existirá calor e brilho.




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4 de jul. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Desilusão





 

          DESILUSÃO

                         – Pedro Luso de Carvalho





João, pobre João! Preso a esse amor

intenso e sem tréguas, por Maria.

Tanta procura e tantos afagos!

(Beija-flor no ar saciando a sede.)



João, pobre João! Não vês os excessos?

Terás tu, João, o amor de Maria?

Volta de teus voos em escuras nuvens

e verás o rumo que tomou Maria.



Consola-te, João! Agora te resta deitar

na cama, no mesmo lugar que Maria dormia,

que algum calor terá sobrado do corpo

da amada, para aquecer tuas noites de frio.





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21 de jun. de 2021

[Poesia] PEDRO LUSO – Os meus fantasmas


George Grozs / Eclipse do Sol  - 1926 




OS MEUS FANTASMAS

                   – Pedro Luso de Carvalho





No telhado, a chuva batuca

e dança com pés alados

na fenda da noite.

Não dormirei,

fantasmas aninham-se em minha mente.

Mas os enfrentarei,

não me assustam ameaças e artimanhas.

Quanto ao ideal 

e ao sonho,

não serei acusado

de frustrá-los.

Mas ainda ouço

burburinho dos fantasmas enlouquecidos.

O dia vencerá a noite,

a chuva verá secar todas as suas lágrimas.

Amanhece! Na casa sonolenta,

raios de luz penetram

através da vidraça.





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15 de jun. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO – Soneto da penúria


Cândido Portinari / Os Retirantes - 1944



SONETO DA PENÚRIA

                   – Pedro Luso de Carvalho




Na cidade há gente com fome,

mulheres e homens maltrapilhos

gente desconhecida, sem nome,

para a sociedade empecilhos.



Essa sofrida vida, que vemos,

nódoa que em nós está grudada

enreda para que a derrotemos

com nosso canto, nossa toada.



Não deixemos que a fome mate

gente à míngua de esperança,

ajuda seja nó que não desate.



Que não venham para enganar,

sempre fazem, habitual usança.

Fome, quer o faminto matar.





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4 de jun. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO - A tempestade

 





A TEMPESTADE

- Pedro Luso de Carvalho





No meio da tarde escurece

a cidade.

Nuvens de bronze reunidas

no meio da tarde.



O vento varre calçadas e ruas

no meio da tarde.

Caiem árvores e arbustos

prenúncio de tempestade.



Há gente com medo na tarde,

no meio da tarde,

dia que se fez noite

a tempestade o açoite.



A tempestade parou na tarde,

no meio da tarde.

Em casas, onde a água entrou,

danos tantos, a poucos poupou.




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26 de mai. de 2021

(Poesia) PEDRO LUSO - Este não é o meu país



Otto Dix - Os Notívagos 1927/1928




ESTE NÃO É O MEU PAÍS

                 - Pedro Luso de Carvalho





Honra me ensinaram a ter

Desonra é o que vejo no país

Astúcia e maldade também

De venais políticos a ganância

Deles somos todos reféns

Podem subtrair subtraem



Honra me ensinaram a ter

Desonra é o que vejo no país

Todos agora são estranhos

Agora aqui tudo é diferente

Não é o que foi a minha casa

Nem a escola onde me instrui



Não conheço mais este país

Em que país terei crescido

Onde aprendi moral e ética?

Lições de casa e da escola

Dos pais e dos professores

Honra me ensinaram a ter



Desonra é o que vejo no país

Aqui é sistêmica a corrupção

Tiram o que temos sem pejo

Políticos de todas as frestas

Legam insegurança e medo

Marca da violência o sangue



Aqui a morte está no semáforo

Também pode estar na praia

Na avenida pode estar

Pode estar também na praça

A morte está em mãos nervosas

No apertar do gatilho a desgraça.





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