23 de ago de 2016

MOZART - Parte IV



PEDRO LUSO DE CARVALHO

No texto sobre a vida e a obra de Mozart dissemos, no final da na terceira postagem, que na rápida estada de Wolfgang e de seu pai, Leopold, em Milão, o jovem músico submeteu-se a um teste para o sinfonismo classicista, que na época florescia na Alemanha e na Áustria.
Dissemos, também, que a junta era composta por importantes músicos milaneses, entre os quais Giovanni Battista Sammartini, que foi um dos construtores da sinfonia e o principal responsável pela transposição das formas instrumentais barrôcas, herdadas da tradição italiana, representada por Corelli, Torelli e Vivaldi.
Em 1770, nos três meses que passou em Bolonha, Wolfgang aprendeu com o Padre Giambattista Martini os segredos do contraponto. Foi admitido no círculo de músicos famosos e tornou-se membro da Academia Filarmônica Bolonhesa, rompendo, como esse seu ato, o regulamento da Academia, que para isso exigia a idade mínima de 21 anos.
A prova que fez ante a junta, para conquistar esse título, deveu-se à sua criação de uma fuga a quatro vozes em apenas meia hora, além de contrapontear em quatro partes uma sinfonia de três linhas. A junta examinadora ficou atônita com a proeza do jovem músico de apenas catorze anos. Então, uma aura de mito começou a envolver Wolfgang em virtudes de suas façanhas na Itália.
Em Roma, depois de ter ouvido uma única vez o “Miserere” de Gregorio Allegri, Wolfgang de volta a estalagem em que estava hospedado transcreveu essa peça, que a guardava na memória. Depois dessa transcrição, foi novamente à Capela Sistina para conferir sua partitura com a execução original; aí, fez as correções necessárias e deixou o recinto com as folhas escondidas no chapéu.
Daí em diante o “Miserere”, que até então era monopólio do Papa, foi divulgado e caiu no domínio público. Além de ter destruído o tabu que cercava o “Miserere” de Gregorio Allegri, o Papa não só perdoou a audácia de Wolfgang Mozart, como concedeu-lhe a “Cruz do Esporim de Ouro”, pelo surpeendente feito. Em Salzburgo, o Arcebispo Scharattenbach também homenageou Wolfgang promovendo-o a Mestre de Capela.
Já homem feito e assinando suas composições com o nome de Wolfgang Amadeus Mozart, sua obra avolumava-se com concertos, sinfonias, sonatas, óperas, missas e peças sacras mais curtas, minuetos e divertimentos ('divertimenti')
Mozart havia amadurecido em Salzburgo, com decepções e amarguras. O novo Arcebispo Hyeronimus, Conde de Colloredo, humilhava-o a ponto de obrigá-lo a fazer suas refeições com a criadagem, ao lado de cozinheiros e copeiros.
A Imperatriz Maria Teresa, que dizia que “os músicos que se põem a rodar pelo mundo à maneira de pedintes não contribuem para a boa fama da profissão”, impedia seu filho Ferdinando, Duque da Lombardia, de tomar Mozart a seu serviço.
Nessa época, a intenção de Wolfgang era continuar com suas viagens pela Europa, acompanhado de seu pai e de sua irmã; mas, ante a ameaça de demissão, caso insistissem em viajar, Leopold, com 58 anos, temendo perder o seu cargo optou por permancer em Salzburgo, o mesmo ocorrendo com sua filha Nannerl.
Wolfgang então decidiu viajar com sua mãe. Juntos visitaram Munique, Augsburgo, Paris, Estrasburgo e Mannhein. Além de suas apresentação, tinha a esperança de encontrar um emprego fixo. Os aristocratas, no entanto, não lhe deram o apoio esperado, por considerá-lo um “criado foragido”. Restava ao gênio eventuais apresentações em recitais e algumas aulas que ministrava.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.



REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
KEIEGER, eDINO. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.




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14 de ago de 2016

MOZART - Parte III


                   – PEDRO LUSO DE CARVALHO
No texto sobre a vida e a obra de Mozart, dissemos, na última postagem (segunda parte), que a família MOZART foi recepcionada em Londres pelo Rei Jorge III, e que o menino Wolfgang tocou para o monarca; e que Wolfgang e Nannerl foram recebidos pela elite londrina com grande entusiasmo nos inúmeros recitais que deram.
Dissemos, ainda, que Leopold, que se encontrava doente, deixou Londres com os filhos para repousar em Chelsea, onde Wolfgang conheceu Johann Christian Bach, filho mais novo de Johann Sebastian Bach (Christin Bach estava com 28 anos de idade).
Embora fosse grande a diferênça de idade entre eles, Wolfgang e Christin Bach tornaram-se amigos. E foi por intermédio de Christin Bach que Wolfgang teve a oportunidade de conhecer a produção contemporânea de ópera, música sinfônica e música de câmara. Também teve o ensejo de assistir às solenes apresentações das obras de Haendel.
Nas cinco sonatas e nas duas sinfonias que Wolfgang Amadeus Mozart escreveu nessa época, no início de 1764, transparece claramente a influência que sofreu de Johann Christian Bach e de Haendel.
No outono de 1764, o esquecimento viria mais uma vez - como já acontecera em Viena -, em virtude de Leopold ter se retirado de Londres para tratar de sua saúde. Embora já restabelecido, tentou inutilmente obter novos recitais para Wolfgang e Nannerl. Para a família Mozart, todo o êxito até então obtido passou a ser coisa do passado.
Leopold compreendeu então que deveria deixar Londres, o que foi facilitado em razão do aconselhamento do embaixador da Holanda, junto à Côrte de Jorge III. Já nos Países-Baixos, mais propriamente em Haia, Wolfgang compôs duas árias, um madrigal para vozes mistas, uma sonata e uma sinfonia.
Da Holanda a família Mozart empreendeu novamente as excursões, e levaram a efeito apresentações em Gand, Antuérpia, Haarlem, Amsterdam, Utrecht, Malines e Vallencienes. Depois estiveram mais uma vez na França: Paris Dijon e Lyon, Daí foram para a Suíca; suas apresentações se deram em Genebra, Lausanne, Berna, Zurique e Schaffhausen.
E, uma vez de volta a Salzburg, Leopold e os filhos, Wolfgang e Narnnerl, estiveram ainda em Biberach, Ulm, Augsburgo e Munique. O retorno à casa deu-se em 1765. A jornada de Wolfgang no exterior fez com que aumentasse muito sua produção musical.
De volta à sua casa, longe de compromissos com apresentações, encontrou tempo e sossêgo para compor mais ainda; e teve mais tempo para estudar, sob a orientação de seu pai. Em 1766, Wolfgang Mozart compôs: seis sonatas, três peças sacras, uma cena para orquestra e duas séries de variações para cravo: a primeira sobre a ária “Laatons Juichen” de Graff e a outra baseada na canção de “Guilherme de Nassau”.
No ano seguinte, setembro de 1767, Leopold e seu filhos, Wolfgang e Nannerl, retornaram a Viena. Wolfgang estava com onze anos de idade. Justamente nessa época, a capital estava tomada pela varicela. Por precaução, a família retirou-se para a propriedade do Conde Podstsky, na região de Olmutz, mas mesmo assim os irmãos foram acometidos pela doença.
Em princípio de 1978 a família Mozart regressou a Viena. O propósito de Leopold de levar a efeito novos recitais, com o esperado êxito e o consequente lucro, como já acontecera em outros importantes centros europeus, foi frustado, uma vez que não obteve o apoio dos imperadores.
Essa estada em Viena, sem o êxito esperado, deu, no entanto, grande proveito a Wolfgang pelas relações travadas com o famoso librelista Metastásio, e por ter tido a oportunidade de conhecer o Dr. Mesmer, famoso por seus conhecimentos de ocultismo e pela prática da hipnose. Wolfgang também conquistou a simpatia do Príncipe Arcebispo de Salzburgo, que foi por ele contratado para servir na Capela Arquiepiscopal.
Depois, com licença do arcebispo, Wolfgang e o pai partiram para a Itália, o país da ópera. Aí os grandes mestres cultivavam a música vocal. Wolfgang visitou várias cidade, passando quase despercebido.
Embora pouco notado, em 5 de janeiro de 1770, obteve grande êxito num recital que deu na Academia Musical de Verona. Nessa época Wolfgang estava com catorze anos de idade. A Academia prestou ao jovem Mozart uma importante homenagem elegendo-o Mestre de Capela Honorário da Instituição.
Na rápida estada de Wolfgang e de Leopold em Milão, o jovem músico submeteu-se a um teste para o sinfonismo classicista, que florescia na Alemanha e na Áustria. A junta era compostas por importantes músicos milaneses, entre os quais Giovanni Battista Sammartini, um dos construtores da sinfonia e o principal responsável pela transposição das formas instrumentais barrocas, herdadas da tradição italiana, representada por Corelli, Torelli e Vivaldi.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.
Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte I


REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
MASSARANI, Renzo. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.


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8 de ago de 2016

MOZART – Parte II




PEDRO LUSO DE CARVALHO


Na postagem de MOZART - Parte I, dissemos que Leopold Mozart aspirava para seus filhos, Wolfgang e Nannerl, uma sólida posição na música europeia, e que, para isso, teria que empreender excursões, contratar professores qualificados e buscar espaços para suas apresentações em grandes plateias; assim, uma vez atingido tal objetivo, teria também, como retorno desse trabalho, o alentado lucro pecuniário, além de prestígio social.
E, para iniciar tal empreendimento, Leopold fez a sua escolha: Munique, capital da Baviera. Aí seus dois filhos fariam, fora de Salzburgo, as primeiras exibições. A recepção pelo Eleitor Maximiliano, para um recital com grande repercussão foi a certeza de que a escolha de Leopold foi acertada.
O pai-empresário sentiu-se encorajado com o êxito. Foi estímulo suficiente para uma viagem mais ambiciosa: Viena, o núcleo de reunião de vários Estados germânicos. Não só a Capital do Império, mas o centro da vida artística internacional. Leopold não poderia esperar outra coisa de seus filhos que não a fama e a fortuna.
Em setembro de 1762, Leopold partiu com Wolfgang e Narnnerl para a metrópole. Na bagagem levaram um cravo para que o filho e a filha pudessem exercitar-se com o rigor imposto pelo pai. A conquista do mundo musical vienense era a meta para Leopold e seus filhos.
Em Linz, ocorreu um contratempo: Wolfgang foi acometido de forte gripe, que o deixou enfraquecido, mas acabou por recuperar-se. Não tardou para que viesse sofrer outras doenças de maior gravidade, que afetaram seu organismo. Cuidados foram tomados na convalescênça do menino, que se distraía compondo e escrevendo várias peças importantes, entre elas o Allegro em Si Bemol, para cravo ou Clavicórdio – I.K. 3 e Minueto em Fá Maior, para cravo ou Clavicórdio – I.K.6.
Leopoldo comprazia-se com o resultado dos recitais dados por Wolfgang e Nannerl. No mês de outubro de 1762, a refinada sociedade vienense era unânime em pródigos elogios a ambos. Tanto foi o sucesso dos recitais que logo a Côrte Imperial os convidou para que alí se apresentassem. O recital no palácio Schoenbrunn resultou em grande prestígio para Wolfgang Mozart. Mas, novamente, teve a saúde abalada. Uma escarlatina levou-o à cama. E, sem novas apresentações, Wolfgang logo foi esquecido por Viena.
A escarlatina foi debelada, embora tenha deixado sequelas, tais como: debilidade física e distúrbios renais crônicos; essa doença viria encurtar a vida do gênio. No mesmo ano de 1762, Mozart, Nannerl e o pai retornaram a Salzburgo. Aí o jovem iria repousar e tratar-se. Nessa pausa, o pai aproveitaria para refazer seus projetos musicais para os filhos.
Em junho de 1763, Leopold retornou com os filhos a Munique, que os recebeu com agrado. Tiveram mais uma recepção na Côrte, na qual o Príncipe Von Zweibrücken acolheu- os e deu-lhes proteção. Assim foi aberto o caminho para que Wolfgang e Nannerl dessem vários recitais na cidade. Depois apresentaram-se em Augsburgo, cidade natal de Leopold, mas aí, nos três recitais que deram, não tiveram o mesmo êxito.
Em agosto de de 1763, a família Mozart chegou em Frankfurt, Alemanha, onde foi bem recebida pelos círculos culturais. Nessa cidade, num dos seus cinco recitais Wolfgang e Nannerl lotaram todos com salões e foram aplaudidos efusivamente. Numa dessas apresentações encontrava-se o jovem Goethe, que mais tarde falaria da honra que teve em conhecer Wolfgang.
O êxito de Wolfgang e Nannerl iria desestabilizar emocionalmente Leopold. Exibicionista e tomado pela vaidade, Leopod almejava agradar o público, e esquecia-se de revelar o valor artístico dos filhos. Na época em que os Mozart haviam alcançado grandes êxitos nas suas excursões, o menino Wolfgang, estava oito anos de idade e Nannerl, com treze anos.
Após um recital para o Príncipe Carlos de Lorena e sua Côrte, Leopold e seus filhos deixaram Bruxelas e viajaram para a França, levando uma carta de recomendação para Melchior Grimm, secretário do Duque de Orléans. Desta forma foram introduzidos no mundo aristocrático parisiense, quando o nome de Mozart já era conhecido pelos reis de França.
Em 1764, Wolfgang e Nannerl, que já haviam visitado o palácio de Versalhes, a convite do rei de França, apresentaram-se durante uma grande recepção à mais alta aristocracia francesa, oferecida pela Côrte, pela passagem do ano. No final do ano de 1764, Wofgang Amadeus Mozart havia composto quatro sonatas para violino e cravo, ou clavicórdio. Em Paris, durante a estada da família, as primeiras obras de Wofgang começaram a ser publicadas.
Depois de terem deixado Paris, dirigiram-se a Londres, onde foram recebidos pelo Rei Jorge III, que ofereceu ao menino partituras de George Wagenseil, Johann Christin Bach, Christian Abel e Haendel, todas muito difíceis para ele, que não os conhecia. Wonfgang executou para o rei todas as peças com perfeição na sua primeira leitura. Depois improvisou no órgão que se encontrava no salão, uma bela variação sobre a ária de Haendel, que acabava de conhecer e de tocar para o monarca. Assim, após inúmeros recitais, a Côrte inglesa rendeu-se ao talento do menino Wolfgang.
Leopold, que se encontrava doente, deixou Londres com os filhos, para repousar em Chelsea, onde Wolfgang conheceu Johann Christin Bach, filho mais novo de Johann Sebastian Bach.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart. (Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em: MOZART – ParteIII.)


REFERÊNCIAS:
ANSTETT, J. Ph. Galeria de Homens Ilustres. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905.
CAMARGO GUARNIERI. Grandes Compositores da Música Universal.Nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.
             
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2 de ago de 2016

MOZART – Parte I




PEDRO LUSO DE CARVALHO

WOLFGANG AMADEUS MOZART, nome que mais tarde o músico passaria a usar. Foi registrado com o nome de Joannes Chrysostomus Wofgangus Theophilus Mozart. Nasceu em Salzburgo, Áustria, a 27 de janeiro de 1756. Filho de Leopold Mozart, músico da Côrte, e de Ane Marie Pertl Mozart. Aos cinco anos de idade, Wolfgang Amadeus iniciava sua carreira de compositor.
Na sua infância e juventude, Leopold Mozart (o pai) morava com a família na pequena cidade de Augsburgo, Áustria. Como seus pais, modestos artesãos, não podiam pagar seus estudos artísticos, estudou por conta própria. Mais tarde foi levado para Salzburgo por seu padrinho, que era cônego, para estudar teologia. Era sua intenção torna-se sacerdote. Por dois anos, estudou na Universidade de Teologia e Lógica. Ao final desse tempo, resolveu levar adiante o seu plano para tornar-se músico, mesmo com o prejuízo sofrido com o corte da mesada, pelo seu padrinho, que ficou desgostoso com essa decisão.
Ao deixar a universidade, o jovem Leopold Mozart conseguiu emprego como secretário do Conde Thurn; com isso, passou a dedicar-se ao estudo da música com seriedade, compondo músicas sacras e uma ópera, que foi apresentada na universidade. Com a repercussão obtida com a sua ópera, Leopold foi contratado para tocar na orquestra do Príncipe Arcebispo.
Leopold também passou a dar aulas de violino para os meninos da capela. Depois, conheceu a filha do administrador do castelo de Saint Gilgen, Anne Marie Pertl, com quem se casou. Daí em diante, passou a ter uma vida estável e com conforto. Do casamento, nasceu Marianne, carinhosamente chamada de “Nannerl”. O casal e a filha formavam uma família feliz.
Foi nesse ambiente alegre e harmônico que nasceu Wolfgang Amadeus Mozart. O menino, esperto e brincalhão, era apenas Wolfgang, ou carinhosamente chamado pelos seus familiares de “Wolferl”. Aos quatro anos de idade, o menino Wolfgang descobriu o cravo. O menino acompanhava os exercícios no cravo, nas aulas ministradas a sua irmã, Nannerl; Nannerl era cinco anos mais velha que Wolfgang. Para ele, a música parecia um agradável brinquedo.
O interesse de Wolfgang pela música não passou despercebido por seu pai. Leopold, então, passou a ensinar música ao filho, que aprendia com extrema facilidade e com prazer. Escolhia, para as suas lições, músicas para o cravo. Mas, o inquieto menino não se limitava a elas, e aventurava-se a executar músicas de sua própia criação. No início, Wolfgang contentava-se com a improvisação, mas, depois, sempre que lhe ocorriam idéias melódicas, fazia anotações.
Não tardou para que Leopold, seu pai e professor, se convencesse de que o filho possuía uma rara musicalidade. O pai já estava certo de que seu filho era dotado de um talento incomum para a música. Também sabia que não podia negligenciar nos estudos musicais do filho. Então, decidiu fazer com que o talento de Wolfgang fosse desenvolvido mais intensamente, e com os métodos que se faziam necessários ao estudo da música mais refinada.
A música, em Salzburgo, era tratada com muita seriedade, mas isso não era o suficiente para que Wolfgang pudesse alcançar o desenvolvimento pretendido pelo pai; este, viu que o melhor caminho para atingir o objetivo que almejava eram as viagens, os professores melhor qualificados e as platéias mais refinadas. Para isso, Leopold entendeu que deveria apressar-se em deixar Salzburgo, com Wolfgang e Nannerl, já que almejava um aprimoramento musical para ambos os filhos.
Leopold não apenas aspirava uma sólida posição na música européia para Wolfgang, mas, também, tinha consciência de que esse desenvolvimento ajudaria a ganhar mais dinheiro e prestígio social, além de outras vantagens. E para colocar seu plano em execução, Leopold abandonou vários de seus afazeres, para fazer com que Wolfgang passasse a estudar sob um rigoroso e sistemático regime.
Também estava nos planos de Leopold, buscar aperfeiçoamento musical para sua filha, Nannerl Mozart, cinco anos mais velha que Wolfgang. Nannerl já era, nessa época, uma instrumentista exímia. O cravo era o instrumento que dominava. Sendo assim, escursões, professores qualificados e grandes plateias abririam caminho para os irmãos Mozart. E satisfazia a ambição de Leopold.
Para acessar a segunda parte deste trabalho, clicar em MOZART – Parte II




REFERÊNCIAS:
CAMARGO GUARNIERI. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.
AUGÉ, Claude. Petit Larousse. Dictionnarire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris, 1966.





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21 de jul de 2016

REO M. CHRISTONSON – Capitalismo Democrático



PEDRO LUSO DE CARVALHO

O norte-americano Reo Millard Christonson, professor de Ciência Política da Universidade de Oxford, Ohio (Miami University), escreveu, com seus colaboradores Alan S. Engel, Dan N. Jacobs, Mostafa Rejai e Herbert Waltzer, todos dessa instituição, o livro Ideologia & Política Moderna, em 1971 (publicada no Brasil em 1974), obra que não perdeu a sua importância e atualidade. Cada um de seus autores escolheu uma determinada área, de acordo com sua experiência especialização.
Desse livro, escolhemos para este trabalho o Capítulo 7, denominado O Capitalismo Democrático, escrito pelo professor Reo M. Christonson, no qual relata que, com a desintegração do feudalismo a sociedade viu-se na emergência de preparar-se para uma ideologia democrática, para uma sociedade urbanizada e industrializada. Diz o autor: “Contudo, interpretações diferentes das compatibilidades de vários sistemas econômicos com a idéia democrática – e com noções gerais de justiça – levaram a subideologias de grande importância. Duas delas capitalismo democrático e socialismo democrático (...).”
O capitalismo, diz Reo M. Christonson se refere “basicamente a um sistema econômico e não político; o termo estabeleceu-se com uma série de ideias políticas que suplementam e reforçam o sistema”. Esclarece o autor que existem tantas definições de ‘capitalismo’ quantos são os autores que escreveram sobre o assunto. Em razão desse número de definições, Christonson aconselha a ater-se à definição do The New Internacional Dictionary, de Webster: “... é um sistema econômico caracterizado pela propriedade privada, de pessoa física ou jurídica, dos bens de capital, por investimentos determinados por decisão privada e não pelo controle estatal, e por preços, produção e distribuição de bens determinados principalmente pelo mercado livre”.
Após ter mencionado Webster sobre o conceito de capitalismo, Christonson chama a nossa atenção para a palavra inserida, como diz, com muita propriedade pelos lexicógrafos, qual seja, o vocábulo “principalmente”, na última frase, uma vez que todos os sistemas capitalistas têm alguma propriedade pública e algum investimento feito por decisões públicas e não privadas.
No subtítulo do Capítulo 7, O Credo Econômico, Christonson destaca os aspectos centrais do sistema capitalista, na sua forma clássica: “...são o predomínio da propriedade privada; a dinâmica do motivo de lucro; a existência de mercado livre; a presença de competição”. O autor ressalta, mais adiante: “Impelidos e disciplinados pelas leis da oferta e procura, homens reajustam perpetuamente seus esforços econômicos a fim de dar a contribuição que proporcione o máximo de recompensa pessoais e simultaneamente satisfaça as necessidades de outros”.
Para encerrar esse subtítulo, Credo Econômico, o Prof. Christonson traz o ensinamento do célebre economista John Kenneth Galbrait, na época titular da cátedra de Economia da Harvard University: “Existe algo de admiravelmente libertário e democrático nesse processo. Não é difícil compreender por que, entre os devotos, o mercado, não menos que o Cristianismo e o Zen Budismo, desperta tão formidável sentimento espiritual”.
Depois de ter falado sobre o Credo Econômico, Christonson passa a abordar o segundo subtítulo do Capítulo 7, O Credo Político; diz o escritor: “Capitalismo como se observou anteriormente, é um sistema econômico, não político. Contudo, com o desenvolvimento do capitalismo surgiu um corpo sustentador de ideias políticas”. Christonson passa a demonstrar os três conceitos que acompanharam o crescimento do capitalismo:
O primeiro - diz Christonson – de que havia a presunção de que a propriedade privada não devia ser regulada, pois é o meio pelo qual o indivíduo promove o bem-estar econômico tanto seu próprio como de sua sociedade”. Christonson conclui esse primeiro conceito: “Abusos surgirão temporariamente no sistema capitalista, mas como o mercado tem os seus próprios e sutis meios de corrigir os erros, o governo deve conter seus bem-intencionados impulsos (...) Segundo este conceito, o papel do governo reduziu-se às dimensões tradicionais de manter lei e ordem, garantir a santidade do contrato (de particular importância para o capitalismo), proporcionar proteção contra ameaças externas, regular a moeda e arrecadar impostos”.
Quanto ao segundo conceito, Reo M. Christonson expõe: “... a descentralização de poder econômico era considerada como a melhor defesa contra seu abuso”. Completa o autor: “Sob o capitalismo, nenhum indivíduo pode explorar o consumidor ou seus empregados por muito tempo”. Esclarece a seguir, que se não for atendido tal preceito, os empregados podem procurar outro trabalho se, onde trabalham, preços e salários forem injustos. Aduz o autor: “E como o governo não controla os meios de produção, não pode forçar prontamente homens a submeterem-se à injustiça pelo recurso à pressão econômica. Quando nenhuma pessoa ou instituição possui grande poder econômico, ficam muito diminuídas as possibilidades e opressão publica ou privada”.
Por fim, o terceiro conceito, como diz Christonson: “[...] a desigualdade de riqueza era considerada um estado de coisa normal e desejável. É a inspiração por desigualdade e sua realização que permite ao sistema funcionar e lhe dá vitalidade. Riqueza naturalmente gravita em direção àqueles que servem melhor às necessidades da sociedade, e pobreza torna-se o justo destino daqueles que pouco contribuem. As recompensas são assim distribuídas de acordo com uma espécie de sistema natural de justiça”. Christonson conclui dizendo que se acreditava que o sistema de mercado era a maneira mais democrática e organizar uma ordem econômica.

REFERÊNCIA:
CHRISTENSON, Reo M. Ideologias & Política Moderna. São Paulo: Editora Ibrasa, 1974.


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1 de jul de 2016

[Ensaio] PEDRO LUSO – Sobre Amizade


     – PEDRO LUSO DE CARVALHO
Desde minha infância ouço pessoas dizerem, aqui e ali, que mais vale um amigo que mil parentes. Por outro lado, tenho ouvido, de uma ou de outra pessoa, a afirmação da existência de amizade entre pais e filhos; pouco ouvi, no entanto, falarem sobre a amizade entre irmãos, como coisa comum. Por esse enunciado, fica-se sabendo que o tema do qual trataremos é sobre a amizade, entre: a) pessoas sem vínculo de parentesco; b) pais e filhos; c) irmãos.
Os nossos primeiros amigos são formados na infância, e, de muitos deles, só nos separamos com a distância ou com a morte. Nessa fase da vida formamos amigos para com eles compartilharmos as brincadeiras próprias da idade, as disputas saudáveis nos esportes etc. Também na adolescência sentimos a necessidade de amigos para contarmos nossas aventuras amorosas, para termos dos amigos a confirmação ou não, de estarmos agindo da maneira certa, como, por exemplo, nas tentativas de aproximação de quem pretendemos namorar, ou apenas ‘ficar’, como se diz modernamente. Também o adolescente – homem ou mulher – necessita de amigos para falar de suas aspirações e de seus projetos; de seus amores e de suas decepções amorosas. Passadas essas duas fases – infância e adolescência –, tornam-se pessoas adultas, com família constituída ou não, com profissão para dedicar-se, sobrecarregada de compromissos, os amigos parecem ser ainda imprescindíveis, tanto que ali estão eles, os amigos formados na idade adulta, ou aqueles vindos da infância ou da adolescência.
O escritor Carlos Fuentes diz em seu livro Este é meu credo, no ensaio que faz sobre amizade:
Aquilo que não temos, encontramos no amigo. Acredito nesse benefício e o cultivo desde a infância. Nisso, não sou diferente da maioria dos seres humanos. A amizade é o grande elo inicial entre o lar e o mundo. O lar feliz ou infeliz é a aula de nossa sabedoria original, mas a amizade é a sua prova. O que recebemos da família, confirmamos na amizade. As variações, discrepâncias ou semelhanças entre a família e os amigos determinam as rotas contraditórias de nossa vida. Embora amemos nosso lar, todos passamos pelo momento inquieto ou instável do abandono (embora o amemos, embora nele permaneçamos). O abandono do lar só tem a recompensa da amizade. Mais ainda: sem a amizade externa, a morada interna desmoronaria. A amizade não disputa com a família os inícios da vida: ela os confirma, garante e prolonga. A amizade abre caminho aos sentimentos que só podem crescer fora do lar. Encerrados na casa da família, murchariam como flores sem água. Aberta as portas da casa, descobrimos formas de amor que irmanam o lar e o mundo. Essa formas se chamam amizades.
Carlos Fuentes diz que “a amizade não disputa com a família os inícios da vida: ela os confirma, garante e prolonga”. O escritor acrescenta que a “amizade abre caminho aos sentimentos que só podem crescer fora do lar”. Daí não se poder dizer que possa existir amizade entre pais e filhos, como ocorre com pessoas sem esse vínculo de sangue, que conhecemos fora do lar. Michel de Montaigne, filósofo francês, da predileção de Jean-Paul Sartre, num dos capítulos dos seus Ensaios, fala sobre o tema, com o título: Da amizade. Diz Montaigne:
Nas relações entre pais e filhos é mais o respeito que domina. A amizade nutre-se de comunicação, a qual não pode estabelecer-se nesse domínio em virtude da grande diferença que entre eles existe, de todos os pontos de vista; a esse intercâmbio de ideias e emoções poderia por vezes chocar os deveres recíprocos que a natureza lhes impôs, pois se todos os pensamentos íntimos dos pais se comunicassem aos filhos, ocorreria entre eles familiaridades inconvenientes. Mais ainda: não podem os filhos dar conselhos ou formular censuras a seus pais, o que é, entretanto, uma das primeiras obrigações da amizade.
No tocante à amizade entre irmãos a situação é semelhante à dos pais, com algumas variantes; não pelo respeito que domina nesse caso a relação entre pai e filho, ou por sentimentos nobres; ao contrário, sentimentos vis, muitas vezes, como é o caso da inveja, que, sendo desmedida, logo se têm como coadjuvante o ódio e, como consequência, a traição com as suas formas mais sórdidas; e, como o ódio do qual essas pessoas ficam impregnadas, logo se vê a prática de injustiças contra o irmão; atos que demonstram não só a discórdia, mas também um sentimento de destruição do outro, embora nem sempre consciente; sente-se isso quando se vê irmãos invejosos colocarem barreiras no relacionamento entre o irmão e seus pais, quando querem alijá-lo da família, cuja explicação seria óbvia e fácil para a psicologia.
Trazemos novamente o ensinamento de Michel de Montaigne, agora a respeito da relação entre irmãos:
É, em verdade, um belo nome e digno da maior afeição o nome de irmão; e por isso La Boétie e eu o empregamos quando nos tornamos amigos; mas na realidade, a comunidade de interesses, a partilha de bens, a pobreza de um como consequência da riqueza de outro, destemperam consideravelmente a união formal. Em devendo os irmãos, para vencer neste mundo, seguir o mesmo caminho, andar com passo igual, inevitável se torna que se choquem amiúde. Mais ainda: é a correspondência dos gostos que engendra essas verdadeiras e perfeitas amizades e não há razão para que ela se verifique entre pai e filho, ou entre irmãos, os quais podem ter gostos totalmente diferentes.
Voltemos ao tema, qual seja, a amizade – tema que não inclui pais, filhos e tampouco irmãos – com este trecho de Carlos Fuentes, in Este é meu credo, como segue:
Que sempre falta descobrir mais do que já existe. Que a amizade se colhe porque se cultiva. Que ninguém faz amigos sem fazer inimigos, mas que inimigo algum jamais alcançará a altura de um amigo. Que a amizade é uma forma de discrição: não admite a maledicência que maldiz àquela que a diz, nem a fofoca que transforma tudo em lixo. Amizade é confiança. (É mais vergonhoso desconfiar dos amigos do que enganá-los, escreveu La Rochefoucauld.) Que a amizade, para ser próxima, mostra-nos o caminho do respeito e da distância, embora a amizade permita amar e detestar as mesmas coisas.
Vejamos a lição que Carlos Fuentes aprendeu com seu dileto amigo, um dos gênios do cinema, o mexicano Luis Buñuel:
Digo ‘naturalidade passiva’ e me ocorre que, sendo o diálogo uma das celebrações da amizade, o silêncio também pode sê-lo. É um ensinamento de minha amizade com Luis Buñuel. A princípio, pensei que suas lacunas durante uma conversa geralmente muito animada fossem falha minha, e uma censura da parte dele. Aprendi que saber estar juntos sem dizer nada era uma forma superior de amizade. Era respeito. Era reverência. Era reflexão, oposta ao simples tagarelar. Não somos, instantaneamente, conversadores. Seremos, instantaneamente, filósofos... Não eram estoicos Sêneca e Manolete, ambos de Córdoba?
Embora alguns pais, orgulhosos de seus filhos, afirmem que eles são seus amigos, as lições de Fuentes e de Montaigne dizem o contrário: amigos se fazem fora do lar – os pais não serão amigos dos filhos. As amizades formam-se na escola, nos clubes, nas festas, sem a presença de quaisquer sentimentos de autoridade – autoridade que os pais usam para formar seus filhos para o mundo. O certo é que filhos criados com esmero e responsabilidade, provavelmente farão bons amigos ao longo de suas vidas.


REFERÊNCIAS:
FUENTES, Carlos. Este é meu credo. Tradução de Ebréia de Castro Alves. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002.
MONTAIGNE, Michel. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. Porto Alegre: Editora Globo, 1961.



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18 de jun de 2016

MÁRIO VARGAS LLOSA – Conversas sobre Literatura



                – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1982, a Editora Nova Fronteira lançou a 3ª edição de Os chefes, o primeiro livro de Mário Vargas Llosa, e que, por coincidência, foi o primeiro livro que li desse escritor. O conto Os chefes, que dá título ao livro, é um dos seis contos que compõem a obra, e mais a novela Os filhotes. A primeira edição desse livro deu-se em Lima, Peru, na segunda metade dos anos 50, quando o escritor contava com apenas 22 anos. Em 1958 Vargas Llosa recebeu o importante prêmio Leopoldo Alas, como o melhor livro do ano de seu país.
Depois de Os chefes, o entusiasmo pela literatura de Vargas Llosa levou-me a ler outras obras suas, as quais destaco, independentemente das datas de suas edições, e de minhas leituras: Conversa na Catedral, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador, História de Mayta, e, por último, Quem matou Palomino Molero. Atualmente, estou lendo o seu livro de ensaios literários, A verdade das mentiras, da editora ARX, 2ª edição, 2004. Na primeira edição, em 1999, o livro continha vinte e seis ensaios, e passou para trinta e seis ensaios na 2ª edição (2004).
Sobre Vargas Llosa, li também a entrevista que concedeu à Revista Playboy, feita por Ricardo A. Setti, em 1986, e que depois se transformou em livro, com edição pela Editora Brasiliense, com o título Conversas com Vargas Llosa. Antes de iniciar essa entrevista, que foi feita durante três dias - até então a mais longa que concedera, segundo sua afirmação ao entrevistador -, Setti faz um prefácio com o título Pequena história do entrevistado e da entrevista, do qual extraímos apenas algumas passagens: "Ele tem com seu país, o Peru, uma relação especialíssima – mais adúltera que conjugal, cheia de suspeita, paixão e fúria, como ele próprio define”.
Ainda no prefácio, Setti fala um pouco mais sobre o escritor: “nascido em 1936, em Arequipa, no sul do Peru, Vargas Llosa viveu na Bolívia até os oito anos de idade; só conheceu o próprio pai aos dez anos de idade, quando seus pais, separados, se reconciliaram. Filho único de uma família de classe média com ramificações pela elite peruana – seu avô materno era primo-irmão de um presidente da República, ele estudou num colégio militar (experiência marcante a ponto de lhe inspirar o primeiro romance, Batismo de fogo) antes de seguir o caminho tradicional da Faculdade de Direito na antiqüíssima Universidade de San Marcos, onde se formou numa profissão que nunca exerceria”.
Antes de transcrevermos as duas primeiras respostas de Vargas Llosa, na referida entrevista, digo da minha intenção de continuar com Conversas com Vargas Llosa, em postagens futuras, intercalando-as com outros trabalhos. Antes, porém, da sua primeira resposta à pergunta do entrevistador, lembro de outras obras de ficção do escritor, além das que nos referimos acima: O batismo de fogo, A orgia perpétua, A senhorita de Tacna, A guerra do fim do mundo e Contra o vento e maré. (É possível que não tenha mencionado todos.)
Ricardo A. Setti disse, a Vargas Llosa, ser ele um escritor famoso e que naturalmente os seus leitores no Brasil sabem o que ele escreveu e como escreve. Depois, perguntou ao escritor quais são as suas leituras, e esta foi a sua resposta: “Olha, comigo acontece desde já alguns anos uma coisa curiosa. Eu me dei conta de que leio cada vez menos os escritores vivos, e cada vez mais os mortos. Leio muito mais escritores do século XIX do que do século XX. Talvez nos últimos anos, além disso, eu esteja lendo menos literatura do que ensaístas e historiadores. Não sei bem porque. Bem, em alguns casos por razão de trabalho, mas também me ocorre uma coisa: quando se tem 15 ou 18 anos de idade, existe a impressão de que se dispõe de todo o tempo do mundo. Quando temos 50 anos, nós nos damos conta de que não dispomos de todo o tempo, e de que temos que ser muito seletivos. Talvez pó isso eu leia menos meus contemporâneos”.
Por hoje, ficaremos com a segunda resposta de Vargas Llosa à pergunta de Setti, qual seja, de quem ele gosta, dos contemporâneos, vivos ou já mortos, que lê: “Quando jovem, um autor que eu seguia de maneira sistemática era Sartre. Entre os romancistas americanos, li, sobretudo os da geração perdida – Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Dos Passos -, principalmente Faulkner. Ele é um dos poucos autores de minhas leituras de juventude que ainda se conservam vivos para mim. Nunca me senti decepcionado ao reler Faulkner, como ocorreu por vezes com Hemingway, por exemplo. Sartre é um escritor que eu não releria hoje – diante de tudo o mais que li, acho que sua obra de ficção envelheceu e se empobreceu tremendamente, e sua obra de ensaísta, que me pareceu sempre muito inteligente, considero hoje muito menos importante, com muitas contradições, equívocos, inexatidões e falácias. Isso nunca aconteceu, para mim, com Faulkner. Jamais”.

REFERÊNCIA: SETTI, Ricardo A.Conversas com Vargas Llosa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986.



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3 de jun de 2016

[Conto] NELSON RODRIGUES – Reação



PEDRO LUSO DE CARVALHO

Nelson Rodrigues foi um importante dramaturgo. Basta ler algumas de suas obras para não termos dúvida disso. São elas, Vestido de noiva (1943), Álbum de família (1945), A falecida (1953), Beijo no asfalto (1960), Toda nudez será castigada (1965).
O dramaturgo foi um homem extremamente crítico. Seus alvos eram os pequenos-burgueses, como eram chamadas as pessoas de posses. Então tirava a máscara dessas pessoas hipócritas e preconceituosas. Para elas, Nelson Rodrigues foi implacável ,com o seu senso crítico.
Nelson Rodrigues nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Escolhemos para esta postagem o conto Reação, de Nelson Rodrigues, um dos contos que compõem o livro A vida como ela é... (in A vida como ela é... / Nelson Rodrigues, Rio de Janeiro, Agir, 2006, p. 212-213), que segue, na íntegra:


REAÇÃO
NELSON RODRIGUES


Foi pontualíssima. Entrou no apartamento do marido e olhava para tudo, com uma divertida curiosidade. Virou-se para o Freitas que, ao lado, taciturno, esperava. Deixou a bolsa em cima de uma mesinha; perguntava: “Quer dizer que é aqui?” Suspira deliciada; e quer beijá-lo. Freitas, porém, a empurra, brutalmente. A moça faz espanto. “Que é isso?” Então acontece o seguinte: o rapaz corre, abre a porta; trinca os dentes:
Rua, ouviu? Rua! Tenho nojo de ti, só nojo! – e repetia, numa alucinação:
Cínica! Cínica!
Ela passou por ele sem olhá-lo, de cabeça baixa. Fugiu, apavorada, pelo corredor. Dois ou três dias depois, o Freitas era visto , de braço, com a antiga namorada do dente de ouro, residente também no Jacaré.


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