4 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO - Naquela Noite no Bar






NAQUELA NOITE NO BAR
PEDRO LUSO DE CARVALHO






Na penumbra do bar,
misterioso mundo,
mentiras, juras feitas
em segredo mantidas.

Seara dos amantes,
pela paixão enlaçados –
tempo fugaz da noite,
na penumbra do bar.

De casais, silhuetas.
Os cristais a tinir.
Sussurros estendidos.
Lembrança ficará?

Curta é essa noite,
breve é a paixão,
como as rosas vermelhas,
esquecidas nas mesas.

Restam sombras no bar,
ficam sons de promessas.
Nessa noite que morre
não há centelha do amor.



 *   *   *




20 de nov de 2017

DRUMMOND – Entre Bandeira e Oswald de Andrade




[PEDRO LUSO DE CARVALHO]
  

No ano de 1987 a editora Record publicou Tempo, vida, poesia, com o subtítulo de Confissões no rádio,  2ª edição, de Carlos Drummond de Andrade.

Na apresentação do livro Drummond esclarece que os temas aí abordados foram levados ao ar pela PRA-2, Rádio Ministério da Educação e Cultura, com apresentação de sua amiga Lya Cavalcanti, numa série de programas dominicais.

Drummond diz ainda que a matéria, objeto dessas entrevistas com Lya Cavalcanti, foi publicada no Jornal do Brasil, com algumas modificações.

Mais tarde deu-se a divulgação desse “papo radiofônico”, como era chamado pelo poeta, com a sua publicação em livro pela Record. Com o êxito do livro, a editora fez uma segunda edição.

Segue um desses “papos entre Lya e Drummondd”, intitulado Entre Bandeira e Oswald de Andrade, (In Andrade, Carlos Drummond de. Tempo, vida, poesia. 2ª ed. Rio de Janeiro, 1987, p. 99-103):


ENTRE BANDEIRA E OSWALD DE ANDRADE
(Drummond)


– Vocês, modernistas mineiros, não deviam gozar de muita consideração no meio conservador da província, mas tinham o bafejo, o apoio intelectual dos modernistas do Rio e São Paulo, não é mesmo?

– De fato, eles não davam muita confiança, e o aspecto saudável dessa relação é que não havia paternalismo de um lado e lisonja ou servilismo de outro. Contávamos especialmente com a simpatia de Manoel Bandeira, Mario de Andrade e Ribeiro Couto, mais velhos e mais bem informados do que nós, o que não impedia que os tratássemos sem cerimônia e até com certa petulância de galinhos de briga. Certa vez Bandeira fez na Revista do Brasil, da fase carioca, restrições ao livro de um poeta nosso amigo, Austen Amaro. Tanto bastou para que João Alphonsus, no Diário de Minas, desancasse rijamente o já então nosso mestre pernambucano: “Se Manoel Bandeira gosta de criticar exibindo ruindades, por que deixou passar as de Mário de Andrade, quando falou do Losango Cáqui?” A resposta de Bandeira, em carta aberta na mesma revista, é de uma humildade de santo e uma doçura de anjo: “Vamos fazer um acordo, João Alphonsus: me dê a sua simpatia, tire a sua admiração. Me queira bem, João Alphonsus.” João entregou os pontos: “Mais cedo do que eu esperava” – confessou ele, de público – “me arrependi  de ter escrito aquele medonho artigo. Infelizmente, é assim que a gente aprende a viver e a gostar daqueles que merecem ser amados além de admirados. Disponha do meu coração.”

– Até parece coisa de namorados.

– De fato, nós envolvíamos o fato literário num halo afetivo, embora isso não nos privasse de ser rigorosos com o objeto da nossa afeição. A aproximação intelectual gerava amizade. A amizade acabava prevalecendo sobre a vida literária. Movida por essa concepção, topei uma briga com Oswald de Andrade. Briga, aliás, que o tempo foi diluindo. Oswald não era homem de brigar para sempre. Gostava de variar de inimigos.

– Conte como foi isto.

– Foi durante a efervescência do movimento antropofágico, em 1929. O órgão dessa corrente era a Revista de Antropofagia, de São Paulo, dirigida pelo Antônio de Alcântara Machado, que lhe imprimia o seu próprio feitio inclinado ao humorismo, sem entretanto dar-lhe caráter polêmico. Oswald, tendente à radicalização, escreveu-me pedindo comunicar  à turma de Minas o novo rumo da revista, decidido por ele. E explicou: “Não houve transformação e sim ortodoxia. O Alcântara não entendeu o sentido do movimento, pensou que era troça e durante meses publicou inutilidades amenas. Evidentemente errei em tê-lo convidado para dirigir a revista. Agora a coisa é outra. Estão à frente Raul Bopp e Oswaldo Costa, cunhambebes autênticos e leais. Mandem coisas. Diga aos Cataguases* que contamos com eles.”

 – Não havia nisso muita política literária?

– A carta era macia, mas o tom da revista, em sua nova fase, era antes de intimidação. Num de seus números havia mesmo esta pergunta: “Os rapazes de Minas precisam se decidir. Será que a literatura é questão de amizade?” Respondi em meu nome que, para mim, efetivamente, toda a literatura não valia uma boa amizade. Com isso queria dizer (e Oswald percebeu muito bem) que não concordava com os ataques ferozes ao Alcântara e ao Mário de Andrade, os quais de uma hora para outra haviam passado de pessoas ótimas a indesejáveis. Acrescentei, com certa má-criação, que a antropofagia não era um movimento decente, e que eu não aderia.

– Aí pegou fogo?

– A reação de Oswald foi divertida. Publicou minha resposta com este título: “Cartas na mesa – Os Andradas se dividem.” Já em número seguinte, respondendo a Ascenso Ferreira, que se dizia antropofagista, mas ressalvava sua admiração por Mário de Andrade, Oswaldo Costa dizia ao pernambucano: “A sua carta não tem razão de ser, Ascenso; é uma carta de sentimento, coisa para além da antropofagia e que eu desconheço graças a Freud, a Jesus de Pirapora e a Exu. Nesse ponto você se põe de acordo com esse cretino do Drummond...” Mais tarde, Oswaldo Costa deixaria a literatura pelo jornalismo. Oswald continuou o mesmo menino-grande, muito mais piadista que o Alcântara, e anos depois caímos nos braços um do outro. No fundo, ele era necessitado de carinho, como toda gente, mas disfarçava essa necessidade sob a capa de trocista e provocador. Sua antropofagia era uma atitude intelectual. Com a idade e a doença, tirou a máscara, apareceu o homem sensível e desarmado.

– Em que consistiam afinal os princípios da antropofagia? Esta é uma conversa de rádio, convém informar.

– Partindo de costumes alimentares de nossos índios, Oswald elaborou uma espécie de interpretação histórica, a que pretendia ser também doutrina sociológica de base filosófica. Segundo ele, o homem é apenas um elo na cadeia universal de devoração. Os males do mundo vieram do dia em que o guerreiro vitorioso deixou de comer o adversário para fazê-lo escravo, instituindo assim o trabalho e a moral dos escravos.

– E como se manifestava isso em literatura?

– Comendo-se uns aos outros, como você viu.




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 * Aos rapazes do grupo e da revista Verde, da cidade mineira de Cataguases.



*  *  *


10 de set de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Noite




     A NOITE
       – PEDRO LUSO DE CARVALHO


A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.
É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.
Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.
A cidade dorme
com suas feridas expostas.



*   *   *




17 de ago de 2017

LIMA BARRETO – Talento e Rebeldia



      
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

LIMA BARRETO é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Nasceu no dia 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, onde morreu, em 1 de novembro de 1922, com 41 anos. Iniciou os seus estudos aos seis anos, no Liceu Popular Niteroiense; aos onze anos concluiu os preparatórios no Colégio Pedro II; passou a estudar na Escola Politécnica; viu-se obrigado a interromper o curso, deixando, pois, de receber o diploma de bacharel, para ajudar no sustento da família, por ser ele o filho mais velho, depois que seu pai foi acometido de grave doença mental. Para atingir esse objetivo, Afonso Henriques de Lima Barreto prestou concurso público para a Secretaria da Guerra; aprovado, foi nomeado para o cargo de terceiro-oficial.
Uma vez efetivado para o cargo, na Secretaria da Guerra, Lima Barreto passou a colaborar em pequenos jornais de estudantes. Aí começaria a sua carreira de escritor. Nessa época, encontrava-se indeciso quanto à escolha do gênero literário, se ensaio ou ficção. Depois de ter desistido de um projeto de escrever uma história da escravidão no Brasil, decidiu que seria romancista, e como tal se distinguiria pelo talento e honestidade, colocados em suas obras: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Numa e a Ninfa (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e Sonhos (1920), Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), entre outros; estas duas últimas obras foram publicadas depois da morte do autor.
Essa vigorosa obra passou a ser recebida com respeito pela crítica literária. Manoel Bandeira escreveu sobre Lima Barreto: “Incorreto de linguagem, mas penetrante na observação dos costumes e da paisagem urbana e suburbana de sua cidade natal”. Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas e Bagatelas, o romancista caiu no esquecimento de forma inexplicável. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Os movimentos para a reabilitação do escritor merece um texto à parte, que poderá ser abordado neste espaço, em outra ocasião. Por enquanto, ficaremos com este texto, falando da vida e da obra de Lima Barreto, que, ainda jovem, lia na Biblioteca Nacional e na Escola Politécnica, onde estudava os volumes de Descartes, Condillac, Condorcet, Kant, Spencer e Comte. Em especial, o livro que mais o influenciou nessa fase de aprendizado: “Discurso do Método”, de Descartes.
Sobre o seu primeiro livro, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pretendeu, simplesmente, diz o próprio romancista, mostrar que “um rapaz nas condições de Isaías, com todas as disposições, pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito”. E, diz mais, na mesma carta: “Não sei como me saí da empresa. Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquele que me surgiu para lutar contra a indiferença, a má vontade dos nossos mandarins literários”.
O fato de ser ele mulato, neto de escravos, filho de uma escrava e de um português, levou-o a sentir o peso do preconceito racial, sentimento esse que viria contribuir para que ele se tornasse um escritor profundo, bem diferente dos demais escritores de sua época, na sua maioria. Naqule tempo, o preconceito que existia no Brasil era muito mais intenso que nos dias atuais, sem dúvida. Mas mesmo assim Veiga Miranda publicou um artigo em São Paulo sobre Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e discordou do escritor: “Estamos muito longe dos Estados Unidos. Poder-se-ia dizer antes que uma dose de mulatice até influi favoravelmente na carreira do indivíduo”.
Lima Barreto não deixou de responder a Veiga Miranda, e o fez de forma clara e irrefutável: “Quanto ao preconceito de cor, diz o senhor que ele não existe entre nós. Houve sempre uma quizília que se ia fazendo preconceito quando o Senhor Rio Branco tratou de “eleganciar” o Brasil. Isto não se prova, sei bem; mas se não tenho provas judiciais, tenho muito por onde concluir. Porque aí, em São Paulo, e em Campinas também, há sociedades de homens de cor? Hão de ter surgido devido a algum impulso do meio, tanto que no resto do Brasil não as há”. Quanto a não haver sociedades de gente de cor fora de São Paulo e de Campinas, como diz Lima, este não poderia dizer o mesmo se tivesse vivido em torno dos anos 50 em diante, quando essas sociedades eram, e talvez ainda sejam, encontradas em outros Estados da União, como, por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
 Luiz Ricardo de Leitão, autor de Lima Barreto, o rebelde imprescindível, Editora Expressão Cultural, São Paulo, 2006, faz uma interessante comparação entre Machado de Assis e Lima Barreto, na apresentação de seu livro, e, a certa altura do texto, faz referência à cor e ao preconceito, pelo fato de que ambos os escritores eram mulatos; diz Leitão: “No entanto, não deixemos que os preconceitos turvem a nossa visão: em um país que só reverencia a casa-grande, os dois mulatos simbolizam em suas raízes a ironia maior da jovem nação, cuja cultura mais refinada nasce sob o signo da miscigenação. Antonio Francisco Lisboa, dito o “Aleijadinho”, na plástica; padre José Maurício, na música; Machado e Lima, na prosa de ficção: todos eles nos revelam que, sem o sincretismo, as elites de Pindorama não teriam do que se orgulhar no grande palco do mundo ocidental...”.
Voltemos à obra de Lima. Quando Lima Barreto publicou Recordações do Escrivão Isaías Caminha já havia concluído o romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Portanto, poderia ter publicado qualquer um desses romances, mas deixou este último para mais tarde, preferindo fazer sua estréia com o primeiro (Recordações do Escrivão Isaías Caminha), com essa motivação: “Era um tanto cerebrino o Gonzaga de Sá – diz Lima -, muito calmo e solene. Pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo, não que ele te escandalize, mas que te desagrade. Como contigo, eu terei grande desgosto que isso aconteça a outro amigo”.
 Lima Barreto prossegue explicando o por que de sua preferência pelo Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para sua estreia como romancista: “Espero que esse primeiro movimento, muito natural seja seguido de um outro de reflexão em que vocês considerem bem que não foi só o escândalo, o egotismo e a charge que pus ali. Peço que não te esqueças daqueles versos que pus no alto do primeiro capítulo, quando o comecei a publicar:
        Mon coer profond ressemble à ces voûtes d'église
        Où le moindre bruit s'enfle em une immense voix,
e então hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples fatos não dizem, segundo o nosso Taine, de modo a esclarecê-los melhor, dar-lhes importância, em virtude do poder da forma literária, agitá-los porque são importantes para o nosso destino. Querendo fazer isso e fazer compreender aos outros que há importância na questão que eles tratam com tanta ligeireza, não me afastei da literatura conforme concebo e perpetuam os nossos mestres Taine e Brunetièro, mas temo que não tivesse conseguido bem o escopo e tu hás de me perdoar o desastre pela ousadia e tentativa”.
Podemos compreender, com o texto supra, que o escritor não estava interessado na arte pela arte; tampouco em seus artifícios verbais; ao contrário, a sua literatura tinha um endereço certo, qual seja, ir ao encontro do público, provocando-o para que este lhe dissesse sobre drama íntimo de cada um. Lima Barreto queria conhecer todos os sentimentos que envolvem a sociedade, suas quizilas todas, com o objetivo de analisar esse fenômeno social. Como ele próprio dizia, buscava “a solidariedade humana, mais do que nenhuma outra coisa, interessa o destino da humanidade”.
Sobre a má qualidade das edições das obras de Lima Barreto temos o depoimento do conceituado crítico literário, Francisco de Assis Barbosa, que escreveu o prefácio para o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, 7ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1978:
“É bem de ver que Lima Barreto – escreve Barbosa -, tanto em vida, como depois de morto, por vários fatores, que não vem a pelo comentar, foi maltratado pelas edições das suas obras. Daí o grande problema que tínhamos pela frente, apresentar o escritor tal como ele foi, e não mutilado ou deformado, como vinha sendo, dando azo às críticas injustas, feitas de boa ou de má fé, pelos que fingem ignorar ou insistem em desconhecer a mensagem renovadora do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Ao cabo de um trabalho penoso é nosso dever reconhecer, com uma ponta de orgulho, não nos termos equivocado na escolha de nossos colaboradores”.
Os colaboradores, a que se refere Assis Barbosa, para o plano de publicação das obras de Lima Barreto, cuja coleção abrange dezessete volumes, são: o filólogo Antônio Houaiss e o professor de português Manoel Calvalcânti Proença. E, para cada uma das obras que integram a referida coleção, foi escolhido, por Barbosa alguns dos escritores brasileiros mais importantes para escrever o respectivo prefácio. Portanto, ficamos muito a dever ao homem culto que foi Francisco de Assis Barbosa e aos seus ilustres colaboradores (Houaiss e Proença), bem como aos ilustres escritores que aceitaram escrever os prefácios para cada uma das obras de Lima Barreto.
Os dezessete volumes, que compõem a referida coleção das obras de Lima Barreto, são: I - Recordações do Escrivão Isaías Caminha, prefácio de Francisco de Assis Barbosa; II - Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance, prefácio de M. De Oliveira Lima; III - Numa e Ninfa, romance, prefácio de João Ribeiro; IV - Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance, prefácio de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde); V - Clara dos Anjos, romance, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda; VI - Histórias e Sonhos, contos, prefácio de Lúcia Miguel Pereira; VII - Os Bruzundangas, sátira, prefácio de Osmar Pimentel; VIII - Coisas do Reino de Jambon, sátira, prefácio de Olívio Montenegro; IX - Bagatelas, artigos, prefácio de Astrogildo Pereira; X - Feiras e Mafuás, artigos e crônicas, prefácio de Jackson de Figueiredo; XI - Vida Urbana, artigos e crônicas, prefácio de Antônio Houaiss; XII - Marginália, artigos e crônicas, prefácio de Agrippino Grieco; XIII – Impressões de Leitura, crítica literária, prefácio de M. Cavalcanti Proença; XIV - Diário Íntimo, memórias, prefácio de Gilberto Freire; XV - O Cemitério dos Vivos, memórias e fragmentos, prefácio de Eugêgio Gomes; XVI - Correspondência, ativa e passiva, primeiro volume, prefácio de Antônio Noronha Santos; XVII - Correspondência, ativa e passiva, segundo volume, prefácio de B. Quadros.


REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
LEITÃO, Luiz Ricardo. Lima Barreto, o rebelde imprescindível. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2006.
LIMA BARRETO. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Prefácio de Francisco de Assis Barbosa. 7ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.




*  *  *                                                                                       

23 de jul de 2017

[Conto] DYONELIO MACHADO – Ronda das gotas




                      – PEDRO LUSO DE CARVALHO


DYONELIO MACHADO nasceu em Quaraí, RS, em 1895, e faleceu em Porto Alegre, em 1985. Foi médico, escritor, músico e pintor. Passou a ser conhecido como escritor ao receber o Prêmio Machado de Assis, em 1935, pelo seu romance Os ratos, hoje um dos modernos clássicos da literatura brasileira. Depois publicou, entre outros: Um pobre homem, O louco de Cati, Os deuses econômicos, Prodígios, Sol subterrâneo, Desolação, Passos perdidos, Ele vem do fundão, Endiabrados, Nuanças.

Segue o conto Ronda das gotas de Dyonelio Machado (in Rodízio de contos. Org. por Arnaldo Campos, Charles Kiefer e Laury Maciel. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985, p. 46-48):


                                                 RONDA DAS GOSTAS
                                      
                                               -- DYONÉLIO MACHADO           

               

A pequenita foi, pé ante pé, até a porta que abria para o corredor. Estendeu um olhar longo para o fundo da casa, para se certificar de que não era observada, e voltou, tranquila, para o seu lugar, na sala da frente.

Subiu de novo à janela.

Era num primeiro andar.

Chovia.

Alice divertia-se vendo a chuva cair.

Bem à altura dos seus olhos, uns pingos grossos, redondos, deslizavam, suspensos dos cabos eletrolíticos que margeavam a rua num e noutro lado.

Vinham uns atrás dos outros. Aproveitavam um declive do fio, doce e curvo como um seio, e precipitavam-se, velozes, como se brincassem “de pegar”.

Alguns, pesados, destacavam-se, como grandes pérolas hialinas, antes de atingir o seu fim – que era a junção do arame que, à altura da sua porta, distribuía a energia elétrica à casa.

Os mais valentes, porém, triunfavam daquela distância. Às vezes, mesmo, dois ou três, retardados pelo aclive que agora o fio apresentava e que era necessário vencer, fundiam-se num só, que brilhava um momento, enorme, majestoso, e ruía, depois, pesadamente.

Como se vê, era assaz animado o espetáculo.

Ordinariamente, nem bem acompanhava até o termo do seu percurso essa gota, já outras muitas, cinco ou seis – uma multidão – despontavam à sua esquerda, pelo outro lado da janela – cujo retângulo cinzento, naquele dia triste de chuva, limitava o seu mundo visual.

Alice batia festivamente as palmas, quando os seus pingos chegavam ao fim de sua jornada e ficavam ainda luzindo, antes de se diluírem, aprisionados na malha tosca que a extremidade do fio de ligação fazia, ao enroscar-se no cabo principal.

Alice interessava-se particularmente pela sorte das pequeninas gotas, quando estas se precipitavam no espaço. A princípio era um simples intumescimento claro da massa escura do condutor. Depois, com a chegada de outras, maiores, iam crescendo, definindo-se, até tomar o vulto das demais e seguir-lhes o mesmo caminho, como quem diz o mesmo destino, despencando-se, finalmente, em meio do trajeto ou no seu fim, mas sempre despencando-se.

Para as crianças, como em geral para os simples e sábios, tudo tem vida. Para as crianças, especialmente, tudo possui uma expressão humana.

Para Alice, pois, os pingos menores eram crianças, como ela, e os pingos maiores – adultos – os pais. Certamente eram pais extremosos aquelas gotas grossas que vinham tomar nos seus braços fortes as gotas pequeninas, como que abandonadas, coitaditas, no meio da estrada fria...

Ao passar pela sua frente, Alice vaticinava, secretamente, o futuro de cada gota: esta chegará... esta não chegará... Dir-se-ia uma pequenina bruxa, postada no caminho da vida, a profetizar para uma humanidade também pequenina, mas igualmente atingida da incerteza e inconstância de nosso destino...

A representação repetia-se. Alice desejá-la-ia mais variada. Já a enfarava, pois.

Tinha, porém, uma outra curiosidade, agora. Superior ao prazer que lhe dava a passagem ininterrupta das gotas: era descobrir-lhes a origem!

Onde nasceriam? Longe dali? Na outra janela? – E Alice curvava tristemente a pequenina fronte ao peso desse grande mistério, como o homem igualmente, ante o tenebroso problema da sua própria origem...

Uma esperança, porém, atravessou-lhe o craniozinho esbraseado! Fez-se-lhe uma luz! Talvez fosse na casa vizinha! Cada casa possuía certamente as suas gotas, que nasciam e morriam dentro do espaço que vai de uma à outra! Era lógico! – E Alice da mesma forma que os homens, corria sofregamente atrás dos enganos da lógica, na necessidade de engendrar a unidade que não existe no universo, mas que constitui a única condição da sua explicação humana...

O seu objetivo agora era temerário. O banquinho sobre que se achava, e que constituíra até aí o seu posto rudimentar de observação, seria totalmente ineficaz para a acompanhar na arrojada empresa. Afastou-se, então, como quem ia munir-se de um aparelho mais adiantado. Voltou, pouco depois, com uma cadeira, enorme, de braços.

Fez a substituição e subiu.

Estendeu o olhar, com metade do corpo para fora.

Ela julgara que iria surpreender as gotas na sua origem definida e palpável: uma mão potente, depositando-as, facilmente, sobre o fio, já feitas, com vida e aquela sua forma, original e caprichosa.

Decepção!... Sobre o cabo, nada de extraordinário. As pequenas gotas de água pareciam surgir por si, no meio dum mistério, ao mesmo tempo simples e profundo, assegurando-se, bem assim, pelo esforço próprio, o estado esferoidal que as distinguia...

Igualmente, não tinham lugar certo para nascer. O fio, molhado em toda a sua extensão, parecia constituir a grande matriz, indiferentes das gotas da chuva, que se desatavam na sua superfície, como pequenos botões de flores, desabrochando ao longo dum galho nu.

E Alice pensou então que, de todo o espetáculo, desde a origem do pingo d’água, até o seu fim, só o que havia de claro e de certo – era a sua mensagem através do retângulo cinzento da janela. Era o seu fugitivo instante de vida...

– Minha filha! Dantas! Acudam!

Alice procurava voltar-se. Só então é que viu o perigo em que se encontrava, prestes também a desabar no abismo da rua.

O homem correu. Deitou-lhe um braço enérgico e amparador. Retirou-a muito pálida da janela, onde ela, pela primeira vez, se debruçara sobre o mistério da vida e da morte...

– Minha querida filha!... Que susto tu deste na tua mãe...



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13 de jun de 2017

DOROTHY PARKER – Uma entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Dorothy Parker (Dorothy Rothschild, era o seu nome) nasceu em West End, New Jersey, em 1893. Em 1914, vendeu o seu primeiro poema para a revista Vanity Fair. Dois anos depois foi contratada pela revista Vogue; em 1917 passou a escrever crítica de teatro para Vanity Fair. Os seus contos passaram a ser publicados em 1925 pela The New Yorker, criada nesse ano; para essa mesma revista passou a escrever resenhas de livros em 1927. Dois anos depois ganhou o prêmio O. Henry pelo seu conto Big Blod, que a escritora incluiu nos seus livros de contos: After Such Pleasures (1933), Here Lies (1939) e Collected Stories (1942). Parker seguiu escrevendo contos, poemas e crítica, que foram publicados no seu país nos anos que se seguiram, sempre com grande sucesso, o que não ocorria com o que mais gostava, suas peças teatrais.
Dorothy Parker também escreveu roteiros para Hollywood, dentre eles a Star Is Born (Nasce uma Estrela), com indicação para o Oscar em 1937 (a escritora passou a detestar Hollywood, a ponto de recusar-se pronunciar esse nome, substituindo- por “lá”). A escritora foi amiga e também a contista preferida do erudito crítico literário norte-americano Edmund Wilson, autor de Axel's Castle (O Castelo de Axel).
Quando Dorothy Parker foi entrevistada pela The Paris Review, no pequeno quarto do hotel em que morava, no centro de Nova York, dentre as muitas perguntas, que lhe fez a entrevistadora da revista, uma foi se é vantagem a segurança econômica para o escritor; Parker respondeu-lhe:
"Sim. Ficar dura não faz bem nenhum, a menos que você seja uma espécie de Keats. Os que escreviam bem nos anos 20 tinham uma vida confortável. Quanto a mim, gostaria de ter dinheiro. E gostaria de ser uma boa escritora. Essas duas coisas podem se juntar, e espero que se juntem, mas, se for pedir demais, prefiro ter dinheiro. Odeio quase todos os ricos, mas acho que eu seria adorável. No momento, porém, gosto de pensar na observação de Maurice Baring: “Se você quer saber o que o Senhor pensa do dinheiro, terá apenas de olhar para aqueles a quem Ele o dá”. Sei que não ajuda muito quando o lobo bate na porta, mas é um consolo".
Dorothy Parker morreu de um ataque cardíaco no Hotel Volney, em Nova York, em 1967, aos 74 anos, deixando obras poéticas, contos e crítica literária da maior importância. No Brasil, foi publicado pela primeira vez o livro de contos Big loira e outras histórias de Nova York.
Edmund Wilson, ficcionista e crítico literário famoso, dizia sobre os contos da talentosa escritora da era do jazz dos anos 20 e 30: “Os contos de Dorothy Parker continuam hoje tão agudos e engraçados como na época em que foram escritos." E, para F. Scott Fitzgerald, Dorothy Parker era "A melhor escritora de sua geração."


REFERÊNCIA:
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p. 86.





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