8 de set de 2016

MOZART – Parte VI





PEDRO LUSO DE CARVALHO

Dissemos, na quinta postagem deste trabalho sobre a vida e a obra de Mozart, que, em 1780 Carlos Teodoro, Eleitor Palatino da Baviera, encomendou-lhe uma ópera para o canaval de Munique; e que, em razão desse fato, o Arcebispo de Salzburgo deu permissão ao músico para empreender viagem a Munique. A ópera, Idomeno, Rè di Creta, foi apresentada a 29 de janeiro de 1781. Leopold e Nannerl puderam assistir à estréia de Idomeno, graças à ausência de do Arcebispo, que viajara para Viena.
Idomeno foi recebida com entusiasmo pelos músicos e pelos conhecedores da música -, mas não pelo público -, e teve grande importância para fixar a reputação de Mozart, na Alemanha, como compositor de ópera; contudo, a popularidade por ele conquistada não foi duradoura. Mais tarde, Mozart alterou alguns trechos da ópera, visando dar-lhe mais vigor, pelo que se sabe. Em Dresde, no ano de 1854, a ópera foi encenada novamente, mas, sem sucesso. Idomeno foi, até a morte de Mozart, a sua composição predileta.
Depois dessa estréia, Wolfgang teria de retornar a Salzburgo, e deixar o agradável ambiente de Munique. Ficava indignado só em pensar no seu retorno. Pensava permanecer em Munique por mais algum tempo, mas recebeu uma convocação do Arcebispo Colloredo chamando-o a Viena. Na esperança de apresentar-se nas festas da Côrte Imperial, o músico partiu imediatamente. Mas, isso não aconteceu. O Arcebispo queria apenas mantê-lo na condição de criado.
Mozart, que se encontrava insatisfeito com essa situação, viu somar-se à insatisfação o comportamento agressivo do Arcebispo, que o detratou com insultos na presença de subalternos da Côrte. Tal fato levou Mozart, nesse ano de 1781, a cortar os laços que o prenderam por muito tempo ao seu pai e ao protetor deste, o Príncipe Arcebispo de Salzburgo. Mozart, que, como escreve Ernest Newman, “nessa época estava com 25 anos de idade, libertava-se da tutela paterna , despia a libré de músico da Corte de Salzburgo, e entrava na última década de sua vida, que para ele devia ser tão gloriosa como artista e tão cheia de desgostos e misérias como homem”.
Em Viena, Mozart passou a residir como inquilino da viúva Weber (que nenhum parentesco tinha compositor alemão Carl Maria Von Weber). Alguns meses depois, compôs a ópera O Rapto no Serralho; para essa composição, Mozart foi inspirado por um encontro que teve com Haydn, no final do ano de 1781. Anos mais tarde, 1818, Weber (Carl Maria Von Weber) apresentou O Rápido do Serralho em Dresde, sob sua própria regência. Num artigo seu, que antecedeu essa apresentação, Weber recomendou a obra a seus concidadãos.
Disse Weber, no seu artigo, que O Rápido do Serralho oferece uma quadro “que representa para todo o homem os alegres anos de sua juventude, anos cujas flores ele nunca mais colherá... Ouso afirmar – prossegue Weber – que no Serralho Mozart atingiu o cume de sua experiência artística, à qual tão-somente foi necessário acrescentar depois a experiência do mundo. A humanidade tinha o direito de esperar dele várias outras óperas semelhantes a Bodas de Fígaro e Dom Giovanni, mas nem com a melhor vontade do mundo escreveria ele jamais um outro Rápido do Serralho”.
A estréia da ópera (O Rápido do Serralho) deu-se um mês antes do casamento de Mozart com Constanze Weber, o qual foi celebrado a 4 de agosto de de 1782. Constanze era filha filha da viúva Weber (o pai de Constanze era um antigo bilheteiro do Teatro Nacional de Viena), e era irmã de Aloysia Weber, cantora famosa, de quem antes Wolfgang fora apaixonado. As irmãs eram muito diferentes, uma da outra. Aloysia tinha, além da beleza, dotes artísticos. Constanze não tinha tais dotes, mas era simples, alegre, sincera, leal e parecia corresponder ao amor que Wofgang lhe dedicava.
Depois da breve lua-de-mel do casal, Mozart arranjou vários alunos, filhos de nobres e de famílias ricas, que voltavam de férias, no outono. Com isso, ficou premido por seus compromissos. Tais compromissos, no entanto, não impediram que continuasse compondo sem cessar: obras didáticas, cinco peças sacras, a Sinfonia nº 35 em Ré Maior – I. K. 385 (“Haffner”), uma serenata instrumental, três marchas e um minueto para orquestra, três concertos, a Fantasia em Ré Maior, para Piano – I. K. 397 e várias outras peças. Até então, compusera cerca de 280 obras, abrangendo desde as missas até os pequenos minuetos.
Em 1783, um ano após o casamento, nasceu o primeiro filho de Wolfgang e Constanze. O músico fez questão de batizá-lo em Salzburgo, na Igreja de São Paulo. De passagem por Linz, no regresso a Viena, atendeu a uma sugestão do Conde Thurn e compôs a Sinfonia nº 36, em Dó Maior – I. K. 425 (“Linz”). Até novembro de 1784, compôs grande número de outras peças. Nesse ano, uma tragédia abalou profundamente o compositor: a morte de seu filho. Uma espécie de prenúncio dos anos de sofrimento que se seguiriam.
A ópera As Bodas de Fígaro, composta em 1786, ao mostrar nobres e servos lutando pelo mesmo ideal e revelar a força de nova classe, a burguesia, foi considerada subversiva pelo imperador. Mozart viu-se repudiado pela Côrte e pelo público burguês. Encontrava-se individado e atormentado pelas freqüentes doenças de sua mulher. Além de Constanze, também o compositor estava com sua saúde em declínio.
Wolfgang retomou a vida errante de músico independente. Viajou para Praga, Dresden Leipzig e Berlim. Não deixou de compor. Enormes fracassos eram intercalados com triunfos eventuais. Constanze era dedicada, e não deixava de incentivá-lo. Mozart não perdia o ânimo; escreveu quartetos e trios, compôs Uma Brincadeira Musical, para Orquestra – I. K. 522, a Pequena Serenata Noturna, para Cordas – I. K. 525, e ainda quintetos e sonatas, além da extraordinária ópera Don Giovanni. Essas composições renderam o suficiente para que o compositor se mantivesse com sua mulher.
Na próxima postagem, continuaremos com a vida e a obra de Wolfgang Amadeus Mozart.



REFERÊNCIAS:
NEWMAN, Ernest. História da Grande Óperas. Tradução de Antônio Ruas. 6ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1957.
ALMEIDA, Alberto Soares de. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.




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