29 de mar de 2010

RADUAN NASSAR / Um Clássico Moderno




por Pedro uso de Carvalho


Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama, SP, onde passou sua infância. Seus pais, imigrantes libaneses, mudaram-se com a família, ainda na adolescência de Raduan, para a capital paulista, onde cursou direito e filosofia na USP. Também exerceu o jornalismo como diretor de um pequeno jornal da capital, Jornal do Bairro. Estreiou na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Três anos depois, 1978, publica a novela Um copo de cólera, obra que foi escrita em 1970. Logo depois dessa edição, Raduan abandona a literatura.


A Companhia Das Letras publicou em 2003, Lavoura arcaica, em sua 3ª edição, 18ª reimpressão. Sobre Lavoura arcaica; por ocasião do seu lançamento, em 1975, assim se manifestou disse Alfredo Bosi: “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”. Como disse Octávio Lanni: "Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim.”


Quanto à novela Um copo de cólera, que, como vimos, foi publicada em 1978, e depois editada pela Companhia das Letras, em 2002, em sua 5ª edição, 12ª reimpressão. A história, contada pelo autor de forma singular - a segunda obra clássica de Raduan Nassar -, comprova a sua genialidade pela densidade e pela atmosfera de sua linguagem, que dá à novela. A crítica a considera uma das mais importantes narrativas de nossa literatura moderna. Depois de publicar Um copo de cólera, Raduan Nassar desiste de escrever e passa a dedicar-se à atividade rural.


Mais tarde, cerca de vinte anos, aparece o seu livro Menina a caminho; são contos reunidos de Raduan, escritos nos anos 60 e 70, e que somente em 1997 foram publicados. Essa excelente obra, Menina a caminho (que é o título do primeiro conto do livro, e foi a primeira obra de ficção de Raduan), teve a sua 2ª edição (3ª reimpressão) pela Companhia das Letras, em 2002. Os contos, que compõem o livro, 83 págs., são: Menina a caminho, 'Hoje de madrugada, O vento seco, Aí pelas três da tarde e Mãozinhas de seda. Depois da leitura desses contos, a sensação que sentimos é a de que faremos uma releitura do livro, não para fazermos alguma apreciação crítica, mas, simplesmente, para sentirmos de novo o prazer que essas histórias nos proporcionaram.


Quanto ao fato de Raduan Nassar ter deixado de escrever, ainda tão jovem, e depois de ter publicado com sucesso um romance e uma novela, obras que deram novo fôlego à literatura brasileira – dois livros ontológicos - muitas perguntas tem sido feitas por escritores, leitores e críticos literários, ao longo dos anos, sobre os motivos que levaram Raduan a deixar de escrever. O próprio Raduan nunca chegou a esclarecer de forma convincente por que tomara essa decisão. Aliás, ele diz não saber como tudo terminou.


Por tudo o que dissemos, acho oportuno abordarmos a entrevista (rara) concedida pelo escritor à revista CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, número 2, setembro de 1996 (na época dessa entrevista, fazia doze anos que Raduan havia deixado de escrever). É interessante dizer que a matéria desse número 2, da revista, foi integralmente dedicada a Raduan Nassar, na qual está incluida a intrevista com o escritor, que CADERNOS dá o título de Conversa, cuja introdução (parte ) é a seguinte:


“Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário – noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à platéia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou tema afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.”


Como é nossa intenção transcrever apenas um pequeno trecho da entrevista, de forma aleatória, principalmente no que diz respeito à renúncia de Raduan em escrever, vamos à primeira pergunta de "CADERNOS DA LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever? Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei”.


Pergunta de “CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário? Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.”


Pergunta de “José Paulo Paes (da revista): Em entrevistas, você tem manifestado um relativismo radical em matéria de valores a ponto de dizer que não há criação artística ou literária que se compare a uma criação de galinhas. Esse relativismo estaria ligado à sua condição de ex-estudante de filosofia, ou representaria a destilação de uma experiência de vida? Ou um traço de seu temperamento? Raduan: Acho que tem um pouco de cada coisa, mas desconfio que tenha mais do meu temperamento, ou precisamente da minha falta de temperança. Se eu fosse um sujeito equilibrado, eu não teria tido a liberdade de fazer aquela afirmação. Só desequilibrados é que descobrem que este mundo não tem importância. O bom senso seria uma prisão.”


A revista pergunta, por “Octávio Lanni: Lavoura arcaica não é um romance sobre a família patriarcal ou a crise da família patriarcal. É um romance sobre a danação, a vida humana como uma danação sem fim. A busca da realização, emancipação ou redenção é muito mais o caminho da danação. Você concorda com essa leitura? Raduan: Estou mais é sendo informado dessa sua leitura. Se o Lavoura passa a idéia de que a vida humana é uma danação sem fim, nesse caso a narrativa não é de se jogar fora. Só que essa danação poderia acontecer no âmbito de uma família patriarcal, em crise ou não. Seja como for, talvez a gente concorde nisso: nenhum grupo, familiar ou social, se organiza sem valores; como de resto, não há valores que não gerem excluídos. Na brecha larga desse desajuste é que o capeta deita e rola.”


Pergunta de “CADERNOS: Por que essa atitude de recusa radical em relação à teorias literárias? Você acredita que um autor possa dispensá-las? Raduan: Suponho que exista em toda obra uma teoria subjacente do autor, podendo ser apreendida pelos que eventualmente se interessem por ela. Mas quando um escritor faz a exposição da sua teoria, para suprir de significados uma poética que não consegue falar por ela mesma, acontece aí um evidente deajuste. A poética pretende ser revolucionária por desestruturar a linguagem convencional, só que seu autor, para explicá-la, acaba se socorrendo da mesma linguagem que usamos para pedir um copo d'água, o que é o fim da picada. Ou então a teoria tem cumulativamente caráter programático com o claro objetivo de arregimentar seguidores. Mas, nesse caso, o miolo da questão é outro. Seria mais sensato então que esse escritor fundasse um partido político. Sem rodeios.”


Pergunta de “CADERNOS: Mas as teorias não poderiam estar propondo inovações? Raduan: Acho que um texto efetivamente inovador, como tantos na história, pode acontecer sem alarde. Lima Barreto, que foi vítima de uma assassinato cultural em vida, como já disseram, reduzido que foi ao silêncio quase absoluto, desencadeou mudanças na linguagem narrativa antes de 22. Aliás, a melhor literatura brasileira não tem sido produzida aqui neste Estado, por que São Paulo faz tanto barulho.”
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Por fim, esta pergunta: “CADERNOS: Atualmente suas peocupações são outras. O tempo se encarregou de dispersar seu grupo de amigos e você acabou trocando a literatura pela atividade rural. Como é sua vida hoje? Raduan: Hoje minha vida é fazer no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever. Além disso, tem em comum com a literatura o fato de eu não saber por quê. Então, é fazer, fazer, fazer.”


Assim terminamos a transcrição de apenas sete perguntas/respostas do total de setenta, que integram a entrevista. Por fim fazemos duas recomencações a quem possa ler esta matéria: primeira, leiam a obra desse extraordinário escritor, que é Raduan Nassar: Lavoura arcaica (romance), Um copo de cólera (novela), Menina a caminho (contos); segunda recomendação: procurem ler CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, núnero 2, setembro de 1996, de onde extraimos trechos da referida entrevista, que compõem parte deste texto (o problema será encontrar a revista; mas vale a pena tentar).




REFERÊNCIA:
DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, nº 2, setembro de 1996.