30 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte I

           


                    por  Pedro Luso de Carvalho


        O presente trabalho, que passo a escrever sobre o grande escritor russo Liev Tolstói, será publicado em três postagens ou mais, a partir desta, com um pequeno intervalo de alguns dias, entre uma e outra parte. Inicio esta primeira parte com o relato de Máximo Gorki, outro importante escritor russo, sobre a notícia da morte de Tolstói:

        “Morreu Liev Tolstói. Chegou um telegrama e, nele, com as palavras mais banais está dito: faleceu. Isto foi um golpe no coração – diz Górki –, berrei de mágoa e de tristeza, e agora, num estado meio louco, imagino-o tal como o conheci, como o vi, e tenho uma vontade dolorosa de falar sobre ele. Vejo-o deitado no ataúde – como uma pedra lisa no fundo de um regato e, em sua barba grisalha, provavelmente, esconde-se silenciosamente seu sorriso ilusório e alheio a todos. E as mãos dele, finalmente, repousam uma sobre a outra, ao acabar seu trabalho de condenado”.

        Ao ler o que aí escreveu Gorki, in Tres Russos, lembrei-me da narrativa de Stefan Zweig sobre a súplica feita por Turguieniev, outro expoente da literatura russa, às véspera de sua morte, súplica essa para que Tolstói desistisse da ideia de abandonar a literatura, como havia sido anunciado, que o faria. Apesar de moribundo, Turguieniev segura a caneta, ou antes, o lápis – porque suas mãos enfraquecidas pela morte próxima não podem sustentar uma caneta – e se dirige a Tolstói, o mais grandioso gênio de sua pátria para lhe fazer uma pungente invocação: “Que esta seja – escreve Turguieniev – a última e sincera súplica de um moribundo. Voltai à literatura! É o vosso verdadeiro dom. Ouvi a minha prece, grande escritor da terra russa”.
        Foi vã a súplica de Turguieniev, que temia que Tolstói desperdiçasse seu tempo e seu talento com especulações religiosas. A respeito, escreve Stefan Zweig, in Tolstói: “A 27 de junho de 1883, Tolstoi, ao qual Turguieniev considera como o maior escritor de seu país, se afastou da literatura para se aproximar de uma “ética mística”, até ser completamente absorvido por ela; ele que sabia melhor do que ninguém retratar a natureza e o homem, conserva agora sobre sua mesa somente a Bíblia e tratados de teologia”.

        Máximo Górki permanecia ali, ao lado do seu amigo morto: “Lembro-me de seus olhos agudos – escreve Górki -, que viam através de tudo, o movimento dos dedos que sempre pareciam esculpir alguma coisa no ar, suas conversas, seus gracejos, as palavras mujiques prediletas e a voz indefinível. E vejo quanta vida abraçou este homem, quão inteligente, acima do humano, e temível ele era”.

         Em o Três russos, ainda falando sobre as lembranças, Górki diz que Tolstói “Uma noite, ao crepúsculo, apertando os olhos e mexendo as sobrancelhas, ele lia o seu Padre Sérgio, onde se descreve como uma mulher ia seduzir um eremita; leu até o fim, levantou a cabeça e, fechando os olhos, pronunciou claramente: - Escreveu bem, velho, bem! Isso foi dito de uma maneira tão surpreendentemente simples, a admiração com a beleza foi tão sincera – diz Górki -, que nunca vou esquecer o enlevo que não pude, não soube expressar, mas reprimi-lo, também, custou-me um esforço enorme. Até meu coração parou, mas depois de tudo em volta ficou vivificante, fresco e novo”. (Mais tarde, comentarei essa obra referida por Górki, Padre Sérgio, de Liev Tolstói, editada pela Cosac Naify, São Paulo, 2001.

        Para finalizar esta primeira parte de Liev Tolstói, acho interessante citar um trecho de André Maurois, que disse que “Tolstói foi um dos maiores criadores do romance na história da literatura. Descendia de uma velha família da aristocracia russa; encontrou no berço um domínio, uma fortuna. Todos os meios sociais lhe estavam abertos. Nunca foi obrigado a escrever e publicar por necessidade do dinheiro.

        (...) Na carreira literária – diz Maurois-, Tolstói conheceu imediatamente o sucesso. Desde as suas primeiras obras, os críticos e os romancistas mais velhos como Turguieniev o saudaram como um mestre. A partir de Guerra e Paz é o grande escritor da terra russa, o primeiro, numa época em que a literatura de seu país impressiona pela riqueza. As maiores obras nascem dos maiores sofrimentos. As lutas de multidões em Guerra e Paz e as lutas de sentimentos em Anna Karenina estão envoltas numa atmosfera de angústia que é aquela em que vive Tolstói”.

        Nos próximo trabalho farei a abordagem do período mais difícil da vida de Tolstói, a partir da época em que, aos cinquenta anos de idade, abandona a literatura. “A vida parou e se tornou inquietante”. Ele se apalpa – diz Stefan Zweig - e pergunta o que lhe aconteceu. Por que esta melancolia repentina , estas angústias que se apoderam dele? Por que não existe mais nada que o alegre ou comova? Sente somente que o trabalho lhe é aborrecido, que sua mulher se lhe torna estranha e seus filhos indiferentes. O desgosto da vida, toedium vitae se apossa dele. Fecha no armário seu fuzil de caça, receoso de que o desespero o faça virar contra si.

        Para ler a segunda parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte II.




REFERENCIAS:
GÓRKI, Máximo. Tres Russos. Tradução de Klara Gourianova. 1ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006.
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant. Tradução de Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1967.
ZWEIG, Stefan. Tolstoi. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Ediora, 1961.



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