14 de jul de 2008

RUI BARBOSA – O que escrevo não é literatura




por Pedro Luso de carvalho



Rui Barbosa de Oliveira, dito Rui, nasceu em Salvador, BA, em 1849, e faleceu em Petrópolis, RJ, em 1923. Foi jurisconsulto, escritor, jornalista, orador e político. Foi brilhante em todas essas áreas. Rui deu início à campanha abolicionista no Diário da Bahia, prosseguindo-a em O País e no Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro. Em 1878 iniciou-se na política como deputado à Assembléia Provincial baiana, carreira que trilhou até 1920, quando passou a integrar a Corte Permanente Internacional de Justiça, instalada em Haia, na Holanda. Foi membro fundador e o segundo presidente da Academia Brasileira de Letras.


Rui escreveu obras de extraordinária importância, como: Queda do Império (1889), Carta de Inglaterra (1896), Parecer sobre a redação do Código Civil (1902), Discurso no Colégio Anchieta (1903), Oração aos Moços (1920), entre outras. Rui escreveu Oração aos Moços para ser pronunciada por ocasião da formatura da turma de 1920, da Faculdade de Direito de São Paulo, da qual foi seu paraninfo. Por motivos de saúde, não pode comparecer à colação de grau, sendo lido o discurso pelo Professor Reinaldo Porchat.


O prefácio escrito por Edgard Batista Pereira para Oração aos Moços mostra-nos fatos relacionados com a obra e a vida de Rui, nessa época em que escreveu o discurso, bem como fala da insistência do jurista em dizer que o que escrevia não era literatura. Diz Batista Pereira [trechos mais importantes do aludido prefácio]:


“Agosto de 1918, Rui se insurgiu contra a denominação de literário que lhe havia pretendido dar ao jubileu. “Qual é”, pergunta ele, “na minha existência, o ato da sua consagração essencial às letras?... Traços literários não lhe minguam, mas em produtos ligeiros e acidentais – prossegue Rui – , como o Elogio do Poeta, a respeito de Castro Alves; a oração no centenário de Marquês de Pombal; o ensaio acerca de Swift; a crítica do livro de Balfour; o discurso do Liceu de Artes e Ofícios, sobre o desenho aplicado à arte industrial; o discurso do Colégio Anchieta; o discurso do Instituto dos Advogados; o parecer e a réplica acerca do Código Civil; umas duas tentativas de versão homométrica da poesia inevitável de Leopardi; a adaptação do livro de Colkins e outros artigos esparsos de jornais, literários pelo feitio ou pelo assunto”.


E, no afã de demonstrar que sua obra não era literária, Rui conclui: “Tudo o mais demonstra que esses cinqüenta anos me não ocorreram na contemplação do belo, nos laboratórios d’arte, no culto das letras. Tudo o mais está evidenciado que a minha vida toda se desdobra nos comícios e nos tribunais, na imprensa militante ou na tribuna parlamentar, em oposições ou revoluções, em combate a regimes estabelecidos e organização de novos regimes, o que ela tem sido, a datar do seu primeiro dia, a datar do brinde político a José Bonifácio, em 13 de agosto de 1868, é uma vida inteira de ação, peleja e apostolado”.

Edgard Batista Pereira se pergunta e responde a ele próprio, nesse texto do prefácio de Oração aos Moços: “Teria sido por orgulho que Rui declinava dos lauréis da arte para só reivindicar os da política? Não. Levantava contra uma denegação evidente de justiça o protesto que estava implícito numa frase de Nabuco: É tão próprio chamar a Rui de artista como a Krupp, o fabricante de canhões. A comparação é precisa. Ninguém no Brasil os forjou de tão grosso calibre quanto os que ajudaram a arrasar a fortaleza do cativeiro e a derrubar o regime monárquico”.


Batista Pereira vai mais longe, dizendo que chamar o jubileu de Rui de literário seria o mesmo que chamar de cívico ao de Machado de Assis, acrescentando, mais adiante: “Tudo que lhe saia da pena, pela propriedade, pelo esmero, pela harmonia, pelo inesperado fulgor das imagens, trazia a marca da perfeição. Porém a sua meta era outra: a defesa do direito e da liberdade”.




REFERÊNCIAS:
BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. Prefácio de Edgard Batista Pereira. Rio de Janeiro: Edições Ouro, 19-. Direitos cedidos pela Casa de Rui Barbosa.