24/08/2007

[Conto] PEDRO LUSO / À Espera de seu Algoz


[Espaço do Conto]

À ESPERA DE SEU ALGOZ

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por Pedro Luso de Carvalho
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No quarto às escuras, em noite chuvosa, Mariana olhava absorta através da janela. As luzes da rua clareavam parte da cama em desalinho e alguns livros sobre o velho baú. Curvou-se para ver na calçada o relógio entre os ramos das árvores. Mariana apertou os olhos, e pareceu-lhe que os ponteiros haviam se duplicado pelos efeitos das sombras.
Assustou-se ao ver que já passavam das dez, e que ficou ali por mais de quatro horas. Paralisada, em vão tentou reagir, quando teve um pressentimento de que Orestes iria cumprir sua ameaça. Tomada pelo medo e sem força, aos solavancos puxou o ar dos pulmões.

Prostrada, seu coração antes em disparada batia agora descompassado. Tinha consciência de que logo tudo acabaria. Contava os minutos, que pareciam séculos. Na rua, o silêncio somente era quebrado pelo ruído de algum carro sobre o asfalto molhado.

Caiu após uma tontura. No chão, suas mãos seguravam os joelhos próximos ao rosto, em busca de refúgio. Mariana ouviu a porta ranger. Uma batida seca, quase inaudível, denunciava que a porta havia sido aberta e, após, fechada por dentro.
Depois, o barulho de passos vindo em sua direção. Ainda encolhida no assoalho, sem esperança, Mariana aguardava o desfecho. De repente, uma lâmina zuniu na escuridão, e uma dor lancinante provocou-lhe apenas um grunhido de ave ferida.





3 comentários:

Clara Mazini disse...

Talvez a pior espera seja a certa. Não poder fugir do inevitável - como nesse texto.
Imagino que beleza esse encontro de tantos mestres. Cortázar, em particular, é um dos meus preferidos.!

CESAR CRUZ disse...

Forte este conto! Parabéns, Pedro.
Gosto de achar coisas assim, boas e perdidas, por aqui.

Abraço
Cesar

Gabriel Fernandes disse...

Que maldade, Pedro! Fiquei aqui, sentado na minha cadeira, a respiração suspensa, o coração apreensivo, enquanto meus olhos percorriam as linhas insensíveis do seu conto até se encontrarem com o fio da lâmina rija, fria, inescapável. Parabéns.
Abraço,
Gabriel Fernandes