15 de set de 2016

MOZART - Parte VII (Final)




PEDRO LUSO DE CARVALHO

Na última postagem deste trabalho (Mozart – Parte VI), dissemos que o músico deligou-se do Arcebispo Colloredo, depois que Leopold, seu pai, tentou convencê-lo, sem sucesso, a manter o seu emprego em Salzburgo. E que se mudou para Viena, onde casou com Constanze Weber. E que, depois, passou a empreender viagens em busca de novos recitais. Então, viajou para Praga, Dresden Leipzig e Berlim.
Nessa nova empreitada, Mozart teve de suportar fracassos, que foram intercalados com triunfos eventuais. Constaze, a esposa, incentivava-o para que continuasse compondo. Para o músico, no entanto, esse seria o início de uma jornada permeada de sofrimentos. Teria que enfrentar as dificuldades financeiras e as doenças que viriam agravar sua saúde, já muito debilitada. (Mozart, reconhecido como mestre da melodia, que com simplicidade e graça construiu sua música com pureza e elegância, continuou pobre toda a vida, pelo fato de não ter sido dotado de talento para os negócios.)
No ano de 1784, filiou-se na Maçonaria. No verão de 1785, escreveu Música Fúnebre dos Pedreiros Livres, para os funerais de um irmão maçom. Aliás, o tema sobre a morte não ficaria restrito a essa música; Mozart escreveria mais tarde o magnífico Requiem, que deixaria inacabado, e que seria completado por seu fiel discípulo Süssmayer, que possuia inteiro conhecimento das intenções do mestre. (Walsegg fez executar a obra em Wiener-Neustadt a 14 de dezembro de 1793, sendo reconhecida a autoria de Mozart.)
O pensamento sobre a morte, aliás, não deixou Mozart, nos seus últimos anos de vida. Pensava continuamente na morte. Embora sempre se mostrasse alegre previa talvez um fim prematuro. A carta de 4 de abril de 1787 ao pai – a última que lhe escreveu -, deixa tranparecer um Mozart obstinado pela música.
A Flauta Mágica foi estreada no teatro Schicaneder, a 30 de setembro de 1791; o próprio Mozart regeu as duas primeiras récitas. Não teve o êxito esperado pelo composistor. O motivo do frio acolhimento, talvez tivesse como causa a complexidade do texto; mas não demorou para que a ópera conquistasse o público. A Flauta Mágica constituiu-se no primeiro êxito de Mozart, com mais de cem apresentações na época.
Com o êxito indiscutível de sua ópera Rapto no serralho (1782), no entanto, parecia assegurado o triunfo de Wolfgang, que encarava agora com otimismo o futuro. Em fins do verão de 1783, o músico e a esposa passaram três meses em companhia do pai, em Salzburgo. Na primavera de 1785, Leopod visitou o casal em Viena; essa foi a última vez que se viram pai e filho (Leopold faleceu no dia 22 de maio de 1787).
Um ano antes dessa última visita de Leopold a Wolfgang, Constanza havia dado à luz a um menino, Raimund Leopold, a 17 de junho de 1784; o filho morreu a 19 de agosto seguinte; talvez esse fato fosse o prenúncio dos sofrimentos pelos quais passaria Mozart, que, nessa época, já havia conquistado o posto de um dos maiores mestres da arte lírica. (Dois dos três filhos de Mozart sobreviveram. O mais velho, Karl, tentou música por algum tempo, deixando-a para ingressar no serviço público; viveu a maior parte do tempo na Itália, morrendo em Milão. O mais novo, Franz Xavier Wolfgang, teve vida menos feliz; foi bom pianista, mas compositor medíocre.)
Enfermo, como evidentemente estava, em 1791 Constanza não teve escrúpulos em deixá-lo mais uma vez, e ir para Baden, em busca de “cura” e de prazeres. Chamaram-na em meados de novembro. Mozart encontrava-se já confinado na cama, donde nunca mais se ergueria. O seu espírito absorvia-se em A Flauta Mágica, que ansiava por ouvir mais uma vez, e no ainda inacabado Requiem.
O músico iniciou a composição da ópera Flauta Mágica, por encomenda de seu amigo Emanuel Schicaneder, cantor, ator e empresário. Essa obra prima de Mozart nasceu de um conto de fadas. O público recebeu a ópera com grande entusiasmo. Em homenagem a Mozart, Schicaneder mandou reformar e ampliar seu teatro, decorando-o com figuras dos personagens da ópera.
Com a finalidade de que Mozart pudesse manter uma existência condigna, um grupo de húngaros ofereceu-se para contribuir anualmente com uma elevada quantia em dinheiro. Tal oferta, no entanto, chegava tarde demais: acometido por uma nefrite crônica, que desde a infância o consumia, Mozart renunciava à vida, deixando de lutar contra a doença. Mesmo doente, o músico compunha obsessivamente, não vendo o que se passava ao seu redor.
Com o progressivo inchamento das pernas, Mozart viu-se obrigado a recolher à cama. Não tinha mais condições de andar. Mesmo em tais condições, não se separava da partitura de um Requiem encomendado pelo Conde Franz von Walsegg - para o músico, tal encomenda era como a encarnação da morte.
O estado de saúde de Mozart agravou-se no dia 4 de dezembro de 1791. No quarto, encontravam-se presentes Constanze, Schicaneder e seu discípulo Süssmayer; estes atenderam ao seu pedido para que cantassem trechos do Réquiem, do qual escrevera duas partes completas e esboçara as três seguintes (Süssmayer se encarregaria de concluir a obra.) Quando iniciaram a interpretação de Lacrymosa, Mozart chorou mansamente e seus dedos deixaram cair a partitura que a mantinha zelosamente. À uma hora da madrugada de 5 de dezembro de 1791, Wolfgang Amadeus Mozart estava morto. (No mês seguinte, 27 de janeiro, completaria 35 anos de idade.)
Ao amandecer, sob um céu ameaçador, o modesto caixão foi conduzido pelas ruas por dois homens, tendo a acompanhá-los o fiel discípulo Süssmayer. Na igreja de Santo Estêvão, outras pessoas juntaram-se ao cortejo. Segundo consta, entre elas achavam-se Schicaneder, Albrechtberger (que se tornaria professor de Beetthoven), o Barão Van Swieten (para quem Mozart fizera uma nova orquestração de O Messias de Haendel) e Antonio Salieri – a personalidade mais influente, na época, em Viena, de quem Mozart fôra o mais sério rival.
Mas a violenta nevasca e o impiedoso vendaval fizeram-nos desistir da longa marcha até o cemitério. Somente os dois carregadores prosseguiram, depositando o corpo na capela mortuária, de onde foi removido, à tarde, para ser enterrado em vala comum.
Somente em 1808 é que Constanza visitou o cemitério, procurando localizar a sepultura do marido, com a intenção de colocar uma cruz sobre ela; ninguém soube informar-lhe o local. (O lugar da sepultura que até hoje se desconhece.)
De Wofgang Amadeus Mozart restava somente o nome e a história de uma vida inteiramente consagrada à música. Legou-nos obras de valor inestimável, dentre elas: Rapto no Serralho (1782), Bodas de Fígaro (1786), Don Giovanni (1787), Assim Fazem Todas (1790), Flauta Mágica (1791), de admiráveis sinfonias, sonatas e concertos, obras de música religiosa e de música de câmara, e um magnífico Requiem.


REFERÊNCIAS:
NEWMAN, Ernest. História da Grande Óperas. Tradução de Antônio Ruas. 6ª ed. Porto Alegre: Editora Globo, 1957.
MASSARANI, Renzo. Grandes Compositores da Música Universal, nº 20. São Paulo: Abril Cultural, s/d.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique. Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larrousse. 1966.




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