7 de set de 2013

[Literatura] PROSPER MÉRIMÉE - Novelas completas



   
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Não tenho dúvida de que a releitura de uma obra de boa qualidade é sempre melhor que a sua primeira leitura; tive essa comprovação, mais uma vez, após a segunda leitura que fiz das Novelas Completas, de Prosper Mérimée, com tradução do poeta Mário Quintana. Essa obra é composta de 18 histórias (contos e novelas); destaco, dentre os contos: Mateus Falcone e Tamango; e, dentre as novelas: Colomba e Carmen; tais obras, no meu entender, podem ser comparadas aos melhores textos de Anton Tchekhov e de Guy de Maupassant.

O livro Novelas Completas contém, além dos contos e novelas do escritor francês, um ensaio intitulado “Prosper Mérimée”, escrito por Émile Faguet. No que diz respeito ao ensaio de Faguet sobre Mérimée e sua obra, escolhi alguns trechos, que considerei importantes (o texto é de quinze páginas), que podem interessar aos que são afeitos à a literatura, em especial, ao conto e à novela.

Uma breve nota sobre ÉMILE FAGUET, escritor e crítico literário francês: nasceu em 17 de dezembro de 1847, em Paris. Lecionou literatura francesa na Sorbonne, desde 1897 até a sua morte, no dia 7 de junho de 1916. Crítico literário com estilo próprio e de independência na abordagem de seus temas, destacou-se com as obras que escreveu sobre Corneille, La Fontaine, Flaubert, Nietzsche, Honoré de Balzac, Histoire de la littérature française (2 vols.) e Jean-Jacques Rousseau (5 vols.), entre outras obras com enfoque político e moral sobre o liberalismo, anticlericalismo, socialismo, pacifismo e feminismo, a partir de uma visão tradicionalista.

O ensaio de Émile Faguet sobre Prosper Mérimée, está dividido em quatro partes; a primeira é intitulada de SUA ÍNDOLE E A FORMA DO SEU ESPÍRITO; nesta parte, Émile Faguet diz que Mérimée “Possuía a qualidade essencial do homem de sociedade, a compostura. Isso quer dizer que ele se privava de tudo que era espontâneo, desconfiava sempre do primeiro impulso. O primeiro impulso do homem é o do sentimento, e o segundo é o da desconfiança. Não tendo a desconfiança sorrateira e medrosa dos néscios, Mérimée, cortês e tranquilamente, suspeitava de tudo, ou, antes, não se fiava em nada. Lembra-te de desconfiar, era sua divisa. É preciso ser honnête homme e duvidar, dizia ainda”.

Na segunda parte, do ensaio, cujo título é SUA ARTE, Faguet fala da curiosidade de Mérimée pela literatura russa, e diz que o escritor prestou-lhe grande serviço, por ter sido o primeiro a torná-la conhecida. Mérimée apreciava na literatura russa o seu estilo sucinto; admirava Puchkin, dizendo ser ele o Byron russo. Sobre a arte de Puchkin, assim se manifestava Mérimée: Não conheço obra mais tensa, se for possível usar esta expressão como um elogio... nenhum verso, nenhuma palavra a suprimir... entretanto, tudo é simples, natural (...).

Ainda sobre os escritores russos, diz Émile Faguet: “O que Mérimée aprecia em Gogol, é o Inspetor, as Almas Mortas, isto é a sua singular acuidade de observação, e a arte de fazer saltar aos olhos o gesto ou a palavra característica de uma paixão, sem falar no humour e o gosto amargo de sátira que, no fundo, existem em Mérimée como no romancista ucraniano. Mas em presença de Taras Bulba (de Gogol) já hesita. Encontra aí alguma coisa de sistemático, de “romanesco”, um “enredo trivial”, quer dizer, uma imaginação de segunda mão: é o que, justamente, não pode suportar”. Faguet transcreve o que Mérimée diz sobre o motivo que o leva se empolgar por Turguenev; para ele, Turguenev “tem a faculdade de condensar suas observações e de dar-lhes uma forma precisa”; mas, não fica só no elogio; pergunta a si mesmo se Turguenev não se estenderá demais “em descrições, muito fiéis provavelmente, mas que poderiam se abreviadas?”

Nessa parte de seu ensaio, Faguet dá realce à importância da psicologia na obra de Mérimée, e a forma correta com que a aplica nas suas histórias: “Sua psicologia é de qualidade rara. Ela não visa a profundidade (o que precisamente reflete o seu amor ao real: ele teria medo de que o seu esforço para penetrar demais acabasse substituindo a observação pela imaginação, e que daí resultasse um romance sentimental); ela é exata, fina, segura, e como que dosada a cada instante. Compõe-se de fatos miúdos, muito precisos, pouco numerosos, bem escolhidos, e que concordam”.

Ainda sobre a psicologia de Mérimée, prossegue Faguet: “É o que permite a Mérimée, que gosta de histórias maravilhosas, atingir o extraordinário sem deixar de permanecer na realidade. Esse poeta, que é um materialista, descreve um maravilhoso todo especial, um maravilhoso que não é simbólico. Compreendeu perfeitamente que é muito difícil ao romance não ser romanesco, não admitir o extraordinário, arrastar-se eternamente sobre a nudez trivial da realidade (...) Isso que é conhecer bem as duas condições opostas e essenciais do romance, que só pode interessar pela verdade, seduzir pelo extraordinário, satisfazer plenamente pelo acordo dessas duas partes”.

Na terceira parte de O ESCRITOR, expõe Faguet: “É no seu estilo que Mérimée se mostra homem social mais do que qualquer outro domínio. A elegância do homem correto consiste em não se distinguir de pessoa alguma, nem pelo traje, nem pelo procedimento, nem pelo tom de voz, nem por um jeito especial na maneira de falar. Sentir-se-ia desolado se alguém, um dia, introduzido no seu círculo, observasse que ele fala bem. Assim, quando publicava um livro, não era para que um folhetinista qualquer ficasse embasbacado ante uma página e declarasse: Mas como está bem escrito! Deve-se falar e escrever de tal maneira que ninguém perceba, pelo menos a um primeiro contato, que se fala e se escreve de um modo diferente”.

Na quarta parte do ensaio, ainda sobre Mérimée, diz Émile Faquet que “Mérimée teve a recompensa que o seu feitio preferiria. Tem sido apreciado discreta e intimamente pelas pessoas de gosto apurado. Não tem sido agitado brutalmente no tumulto das discussões de escolas literárias. Não tem sido atacado por ninguém, nem louvado com grandes explosões e admirado com grande mobilização de adjetivos, o que para ele teria sido um sofrimento inqualificável. Sua glória é de bom quilate, como seu caráter, seu espírito e seu estilo: não foi sobrelevada nem menosprezada; não teve impulso brusco, nem queda, nem eclipse. Mérimée entrou na posteridade como se entra num salão, sem discussão nem estrépito, sendo acolhido como o maior, sem efusões vãs, e aí se instalou confortavelmente em bom lugar de onde jamais será banido”.


Prosper Mérimée nasceu no dia 28 de setembro de 1803, em Paris, e morreu em 23 de setembro de 1870, em Cannes, aos 67 anos de idade.




REFERÊNCIA
MÉRIMÉE, Prosper. Novelas completas. Tradução de Mário Quintana. Estudo sobre Posper Mérimée, por Émile Faguet. Tradução de Elza Lima Ribeiro. Porto Alegre: 2ª ed. Editora Globo, 1960.
LAROUSSE, Petit. Dictionnaire Encyclopédique Pour Tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1960.



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