16 de ago de 2011

ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte II

Moravia e Pier Paolo Pasolini


                       por Pedro Luso de Carvalho


        Na primeira parte deste trabalho discorri sobre Gli indifferenti (Os indiferentes), o primeiro romance de Alberto Moravia, escrito quando o escritor ainda estava de cama, doente, e que foi concluido em 1925, cuja publicação deu-se somente em 1929, quando contava vinte e um anos de idade. Disse também que Gli indifferenti  foi um dos maiores êxitos de toda a moderna literatura italiana; e que o o New York Times disse que Moravia era “um dos escritores contemporâneos verdadeiramente importantes, tão imparcial, observador, nada sentimental, e humano como Stendhal.”

        Também fiz referência à peça La Mascherata, escrita por Moravia em Capri, no ano de 1940, obra que foi censurada pelo Ministério da Cultura de Mussolini; e que em seguida o líder facista – Duce, como era conhecido - autorizou a sua publicação, e que, decorrido apenas um mês, o livro foi retirado de circulação, e só voltou às livrarias depois da Libertação, em 1945. Agora, saindo dessas duas obras - o primeiro romance e a primeira peça para o teatro -, o enfoque será o cinema.  

        Para o cinema, o pouco que escreveu não lhe agradou. Maravia pergunta-se: “até que ponto permitirá o cinema a expressão plena?” Diz que “a câmara é um instrumento menos completo que a pena, mesmo que nas mãos de Eisenstein. Jamais poderá exprimir tudo aquilo, digamos, que Proust era capaz de fazê-lo”. Mas admite ser o cinema espetacular, transbordando de vida.

        Para Moravia, o trabalho para o cinema não é inteiramente penoso, mas é exaustivo. Para ele, quem escreve para o cinema não passa de um homem-ideia, ou um cenarista; não passa de um subalterno. Não sente satisfação em escrever para o cinema – o nome do escritor não aparece sequer nos cartazes, depois de executar uma tarefa amarga.

        Depois, Moravia fala do cinema como arte impura: “todo o processo não passa de cortar e deixar secar. A inspiração da gente torna-se rançosa, quando se trabalha no cinema – e, o que é pior ainda, a mente da gente se acostuma para sempre a procurar truques e, ao fazê-lo, acaba por arruinar-se, por destruir-se.” Para Moravia, escrever para o cinema sequer vale o que é pago ao escritor, a menos que necessite do dinheiro.

         Esse tratamento que o cinema dispensa ao escritor, cujo trabalho é recebido com certo descaso, como se queixa Moravia, não se trata de um caso isolado, ao contrário, ao longo do tempo foi uma constante, como se vê por alguns exemplos dignos de registro. Um desses registros é feito pela escritora norte-americana Dorothy Parker, que também escreveu para o cinema, em entevista que concedeu à The Paris Review, em Nova York:  

        “O dinheiro de Hollywood não é dinheiro – diz Parker. É neve congelada, derrete em sua mão, e você fica na mesma. Não posso falar de Hollywood. Foi um horror para mim, e é um horror olhar para trás. Não consigo compreender como pude aguentar. Quando saí de lá, não conseguia nem me referir ao lugar pelo nome. “Lá”, eu falava”. 

       Dorothy Parker diz mais sobre sua relação com o cinema, quando a entrevistadora pergunta se Hollywood destrói o talento do artista: “Não, não. Acho que ninguém no mundo baixa o nível do que escreve. Mesmo que produzam lixo – diz Parker -, os escritores de Hollywood não baixam o nível. Aquilo é o máximo que podem dar. Se você vai escrever, não finja que baixou o nível. Vai ser o melhor que você pode fazer, e é isso que mata.”

        Na sua fala sobre a precária situação do escritor que escreve para o cinema, Dorothy Parker, além de falar de seu caso pessoal, cita o que se passou nesse tipo de relacionamento com o célebre Scott Fitzgerald, e diz que o mal de Hollywood são as pessoas – e acrescenta: “Como o diretor que põe o dedo na cara de Fitzgerald e reclama: 'Eu paguei. Então, você precisa nos pagar'”. Parker diz que foi terrível com Scott; “se você o visse, ficaria doente”. Diz que quando o autor de The Great Gatsby (O grande Gatsby) morreu “ninguém foi ao seu enterro, nenhuma alma, sequer mandaram uma flor. (...) Foi nojento o que fizeram com Scott”. 

       Depois desses exemplos de desconsideração para com o escritor, pela Sétima Arte, o tema sobre Alberto Moravia, é retomado, deixando o cinema e retornando à Literatura. Outro livro famoso de Moravia, o romance La Romana, que se destinava ao gênero conto, que não passaria de quatro páginas, quando Moravia começou a escrevê-lo, em 1º de novembro de 1945. Passado alguns meses sentiu que se tratava de um romance, e quando o personagem da história fugiu de seu controle, sentiu que a inspiração não era autêntica. 

        E essa mudança ocorreu porque Moravia não se valeu de notas para escrever La Romana. Aliás, o escritor nunca se valeu de anotações para escrever suas obras, o fazia de antemão. “Confio na inspiração, que, às vezes, vem e, às vezes, não. Mas não fico sentado à espera dela. Trabalho todos os dias”. 

         A história de La Romana deveu-se a uma mulher chamada Adriana, que o escritor conheceu, e que lhe inspirou; nada mais além da inspiração, pois, como disse o escritor, a viu apenas uma vez; então, imaginou tudo, inventou tudo. Moravia escreveu esse livro duas vezes, depois, numa terceira vez, trabalhou o livro de forma minuciosa, com muito cuidado, até o momento em que ficou satisfeito com a obra. A personagem Adriana tornou-se uma das melhores, dentre as personagens que criou. 

        Segue um trecho do romance de Moravia, La Romana:

        [...] Já outras vezes tinha reparado que a cama ficava encostada numa porta de comunicação com o quarto ao lado. Assim que apaguei a luz, vi que os dois batentes da porta estavam separados e deixavam filtrar uma fresta vertical de luz. Levantei-me nos cotovelos sobre o travesseiro, meti a cabeça entre os arabescos de ferro batido da cabeceira da cama e colei o olho na fresta. Não era curiosidade, pois já sabia o que poderia ver e ouvir, mas sim o medo dos meus pensamentos e da solidão que me levavam a procurar, embora espionando, companhia do quarto ao lado. Mas por um bom pedaço, não vi ninguém. Diante da fresta havia uma mesa redonda; a luz do lustre caia do alto sobre a mesa. Atrás da qual, numa sombra fechada entrevia o reflexo de um espelho de armário. Porém, ouvia vozes: eram as conversas de sempre, que já conhecia de cor, as perguntas costumeiras sobre a cidade natal, a idade, o nome. A voz da mulher era tranquila e reticente, a do homem, apressada e ansiosa. Falavam num canto do quarto, talvez já estivessem na cama [...]”

         Para acessar a primeira parte deste trabalho, basta clicar em ALBERTO MORAVIA & Sua Obra – Parte I.




REFERÊNCIAS:
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982 p. 84-90.
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p. 87-88.
MORAVIA. Alfredo. A Romana. Tradução de Maria Colasanti. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 361.