
por Pedro Luso de Carvalho
Nosso tema sobre a presunção foi em parte inspirado no pensamento de Jean de la Bruyère, que nasceu no ano de 1645, em Paris, e morreu em 1696, em Versalhes. Sua obra, Os Caracteres, foi concebida segundo uma tradução do grego Teofrasto. Nela, La Bruyère retrata a sociedade francesa, às vezes de forma cruel, numa época em que esta passava por uma transformação plena, com a decadência das tradições morais e culturais. La Bruyère passou a integrar a Academia Francesa em 1693.
Alcântara Silveira foi responsável pela introdução e tradução do livro Os Caracteres, que, a certa altura, diz: ‘A sociedade francesa, sob o reinado de Luís XIV, teve em La Bruyère o seu melhor pintor, às vezes amargo, às vezes satírico, às vezes revoltado. Mais eloqüente que La Fontaine, Boileau ou Molière. (...) O tom polêmico de Os Caracteres despertou nos leitores franceses do século XVII interesse incomum”. Essa tradução de Alcântara Silveira foi baseada no texto organizado e anotado por Julien Benda para a sua publicação pela editora Gallimard, Paris, em 1951.
Quanto ao tema O Presunçoso objeto deste artigo, vejamos o significado dos vocábulos presunção e presunçoso no Dicionário Aurélio: Presunção. Vaidade, orgulho; pretensão. Diz também o Aurélio o significado da palavra Presunçoso: Que ou aquele que tem ou denota presunção; pretensioso. Visto, pois, ambos os significados, presunção e presunçoso - substantivo e adjetivo –, vejamos agora o que diz La Bruyère sobre esse sentimento:
“O estúpido é um presunçoso exagerado. O presunçoso cansa, aborrece, enjoa, desagrada; o estúpido desagrada, exaspera, irrita, ofende: começa por onde o outro termina. O presunçoso está entre o estúpido e o tolo: compõe-se de um e de outro”.
Posto isso, vêm-nos à mente a pergunta: o que podem oferecer-nos as pessoas presunçosas, se para elas o mundo externo – o mundo das outras pessoas – praticamente não existe? Nada pode ser esperado dessas pessoas presunçosas, porque para elas somos apenas os ‘outros’, pessoas de pouca importância. Lembram-se de nós apenas quando suas mentes doentias necessitam ter alguém para sentar no banco dos réus, nos seus ‘julgamentos’, nos quais, ávidos, prolatam suas sentenças condenatórias sobre nossas ações e nossos descaminhos.
Uma das características dessas pessoas é a capacidade que têm para impor suas idéias, pela necessidade interior de mostrar-se importante; descobrem ao longo dos anos técnicas para envolver as pessoas - alvos de suas ações. Obstinados, não medem esforços para atingir seus objetivos. Artistas na arte de convencer, de impor suas falsas verdades, não se importam com o mal que podem causar às pessoas que o cercam. O seu “Eu” é grande demais para pensar nos outros.
E, quem se deixa influenciar por esse tipo de pessoa, em muitos casos perdem valores duramente conquistados; tornam-se dependentes de seus conselhos, e, em conseqüência, perdem o seu livre arbítrio. Para quem observa de longe suas ações - no afã de impor suas idéias - percebe que essas pessoas na realidade são frágeis, e, mesmo assim conseguem se impor, mesmo que a pessoa influenciada tenha melhor qualificação que elas. Quando isso ocorre, pode-se dizer que se deu a “absorção pelo fraco”. O que quer dizer: o mais forte sucumbiu à ação do mais fraco, o presunçoso.
Para encerar, citemos novamente La Bruyère: “Se você observa com cuidado quem são as pessoas que jamais elogiam, que censuram sempre, que não estão contentes com ninguém, reconhecerá que são as mesmas com quem ninguém simpatiza”.
Alcântara Silveira foi responsável pela introdução e tradução do livro Os Caracteres, que, a certa altura, diz: ‘A sociedade francesa, sob o reinado de Luís XIV, teve em La Bruyère o seu melhor pintor, às vezes amargo, às vezes satírico, às vezes revoltado. Mais eloqüente que La Fontaine, Boileau ou Molière. (...) O tom polêmico de Os Caracteres despertou nos leitores franceses do século XVII interesse incomum”. Essa tradução de Alcântara Silveira foi baseada no texto organizado e anotado por Julien Benda para a sua publicação pela editora Gallimard, Paris, em 1951.
Quanto ao tema O Presunçoso objeto deste artigo, vejamos o significado dos vocábulos presunção e presunçoso no Dicionário Aurélio: Presunção. Vaidade, orgulho; pretensão. Diz também o Aurélio o significado da palavra Presunçoso: Que ou aquele que tem ou denota presunção; pretensioso. Visto, pois, ambos os significados, presunção e presunçoso - substantivo e adjetivo –, vejamos agora o que diz La Bruyère sobre esse sentimento:
“O estúpido é um presunçoso exagerado. O presunçoso cansa, aborrece, enjoa, desagrada; o estúpido desagrada, exaspera, irrita, ofende: começa por onde o outro termina. O presunçoso está entre o estúpido e o tolo: compõe-se de um e de outro”.
Posto isso, vêm-nos à mente a pergunta: o que podem oferecer-nos as pessoas presunçosas, se para elas o mundo externo – o mundo das outras pessoas – praticamente não existe? Nada pode ser esperado dessas pessoas presunçosas, porque para elas somos apenas os ‘outros’, pessoas de pouca importância. Lembram-se de nós apenas quando suas mentes doentias necessitam ter alguém para sentar no banco dos réus, nos seus ‘julgamentos’, nos quais, ávidos, prolatam suas sentenças condenatórias sobre nossas ações e nossos descaminhos.
Uma das características dessas pessoas é a capacidade que têm para impor suas idéias, pela necessidade interior de mostrar-se importante; descobrem ao longo dos anos técnicas para envolver as pessoas - alvos de suas ações. Obstinados, não medem esforços para atingir seus objetivos. Artistas na arte de convencer, de impor suas falsas verdades, não se importam com o mal que podem causar às pessoas que o cercam. O seu “Eu” é grande demais para pensar nos outros.
E, quem se deixa influenciar por esse tipo de pessoa, em muitos casos perdem valores duramente conquistados; tornam-se dependentes de seus conselhos, e, em conseqüência, perdem o seu livre arbítrio. Para quem observa de longe suas ações - no afã de impor suas idéias - percebe que essas pessoas na realidade são frágeis, e, mesmo assim conseguem se impor, mesmo que a pessoa influenciada tenha melhor qualificação que elas. Quando isso ocorre, pode-se dizer que se deu a “absorção pelo fraco”. O que quer dizer: o mais forte sucumbiu à ação do mais fraco, o presunçoso.
Para encerar, citemos novamente La Bruyère: “Se você observa com cuidado quem são as pessoas que jamais elogiam, que censuram sempre, que não estão contentes com ninguém, reconhecerá que são as mesmas com quem ninguém simpatiza”.
REFERÊNCIA:
ENSER, James, Arte: pintura a óleo sobre tela [pintor belga (1860 - 1949)]
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopedique Pour Tous. Paris: Librairie Larousse, 1966.
LA BRUYÈRE, Jean de. Os Caracteres. Trad. de Alcântara Silveira. São Paulo: Editora Cultrix, 1965.
ENSER, James, Arte: pintura a óleo sobre tela [pintor belga (1860 - 1949)]
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopedique Pour Tous. Paris: Librairie Larousse, 1966.
LA BRUYÈRE, Jean de. Os Caracteres. Trad. de Alcântara Silveira. São Paulo: Editora Cultrix, 1965.
3 comentários:
Pedro Luso
Antes de tudo dizer de como é oportuna esta sua postagem!
Jean de la Bruyère, que tive o prazer de conhecer através da sua cultura e da sua generosidade em nos transmitir conhecimento, em doses homeopáticas, leves e cativantes, forma melhor de despertar o interesse de quem quer aprender, esbarra num tema difícil, por delicado, aliás como tudo o que se refere ao ser humano.
Este ser humano, do qual somos parte e que ainda não conseguimos decifrar.
Vejo a presunção como um terrível obstáculo ao nosso convívio, a um convívio salutar, onde quer que seja, porque o presunçoso perde a educação e a ética pelo caminho, em busca de fazer valer suas idéias, muitas vezes (desculpe-me), de jerico.
Desse defeito de caráter, que agride e machuca as outras pessoas, muitas vezes, o presunçoso já tomou conhecimento, mas, ou por fraqueza, ou por maldade, não busca corrigir-se.
Quando será que homens que se mostram perfeitamente adaptados a nossa sociedade e, satisfeitos com ela, vão entender que existem ao seu redor outras pessoas que no mínimo, pela peculiaridade das relações, merecem respeito e liberdade, sendo que o que menos importa nessas circunstancias é uma opinião isolada?
Imaginando uma situação de fato, se hoje ocorresse com a minha participação, o ter que me defrontar com alguém que por ser “o presunçoso”, tentasse cercear as minhas idéias impondo as suas, não me submeteria e nem perderia um segundo para dar-lhe uma resposta. É um estúpido, segundo Jean de la Bruyère e nada pior que ter que encarar um deles. Creio que para quem está enxergando a pretensão alheia, doentia, a única coisa a fazer é ignorar solenemente, do contrário, nenhuma lei o salva dos grilhões que sem saber o atam.
Também me vem à mente a ligação inevitável, antagônica, porem, entre a presunção e a democracia. Não combinam. É incoerente o sujeito ser democrata e presunçoso. Será que isto está certo?
Parabéns
Beijo
Aidinha
17 de Maio de 2009 00:20
Meu amigo, seus textos e colocações mais infomrações são de uma riqueza imensa. É preciso parar aqui, estudar, pensar, perceber e analisar. Muita coisa entendo, outras, preciso entender melhor, me concetrar para ler...
Vc é de nível muito grande para a internet, mas acredito que ainda assim, as pessoas passam por aqui certamente lêm seu texto ( será que escreci certo?) Muitos outros, aposto que têm até medo de comentar algo com você, tamanha cultura... Não, não é para todos o seu blog, e deveria ser...
Aqui temos uma aula a cada texto que você escreve, e eu prometo me dedicar mais a eles, incluindo este aqui. Agora uma da manhã, volto do jantar do niver de minha filha, e com um pouco de vinho na cabeça. Não trouxe para perto de mim, o dicionário , mas ja ví que preciso dele....
Volto amanhã.
grande beijo e obrigada por sua cultura...
CON
Bia das Letras. Graduada em Letras pela Universidade Estácio de Sá, RJ. 2008. disse...
Gostei muito, do texto e do exercício reflexivo proposto pela leitura do texto. O mundo globalizado é tão corrido que está sendo perdido o hábito de pensar, e de compartilharmos o que pensamos. Isso é nocivo à humanidade.
Parabéns.
Postar um comentário