10 de fev de 2008

PEDRO LUSO / O Presunçoso




         O PRESUNÇOSO
                – PEDRO LUSO DE CARVALHO


Nosso tema sobre a presunção foi em parte inspirado no pensamento de Jean de la Bruyère. O filósofo nasceu no ano de 1645, em Paris, e morreu em 1696, em Versalhes. Sua obra, Os Caracteres, foi concebida segundo uma tradução do grego Teofrasto. Nela La Bruyère retrata a sociedade francesa, às vezes de forma cruel, numa época em que esta passava por uma transformação plena, com a decadência das tradições morais e culturais. La Bruyère passou a integrar a Academia Francesa em 1693.
Diz Alcântara Silveira, tradutor e responsável pela introdução do livro Os Caracteres: “A sociedade francesa, sob o reinado de Luís XIV, teve em La Bruyère o seu melhor pintor, às vezes amargo, às vezes satírico, às vezes revoltado. Mais eloquente que La Fontaine, Boileau ou Molière”. (in, Jean de La Bruyère. Os Caracteres. São Paulo: Editora Cultrix, 1965).
La Bruyère escreve sobre o presunçoso: “O estúpido é um presunçoso exagerado. O presunçoso cansa, aborrece, enjoa, desagrada; o estúpido desagrada, exaspera, irrita, ofende: começa por onde o outro termina. O presunçoso está entre o estúpido e o tolo: compõe-se de um e de outro”.
Posto isso, vêm-nos à mente a pergunta: o que nos pode oferecer a pessoa presunçosa, se para ela o mundo externo – o mundo das outras pessoas – praticamente não existe? Nada pode ser esperado dessa pessoa presunçosa porque para ela somos apenas os ‘outros’, pessoas de pouca importância. O presunçoso lembra-se de nós apenas quando planeja auferir lucro às nossas custas.
Uma das características do presunçoso é a capacidade que têm para impor suas ideias, pela necessidade interior de mostrar-se importante; descobre ao longo dos anos técnicas para envolver as pessoas – alvos de suas ações. Obstinado, não mede esforços para atingir seus objetivos. Artista na arte de convencer, de impor suas falsas verdades, não se importa com o mal que possa causar às pessoas que o cercam. O seu “Eu” é grande demais para que possa pensar em outras pessoas, que não seja ele próprio.
É sabido que quem se deixar influenciar pelo presunçoso sempre terá o que perder, e não pense, em nenhum momento, que terá alguma coisa a ganhar com ele, que, como diz La Bruyère, é pessoa que jamais elogia, que censura sempre, que não está contente com ninguém, e que, por isso, é pessoa com quem ninguém simpatiza.


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