13 de out de 2011

STEINBECK – Pensamentos a esmo sobre cães a esmo




               por  Pedro Luso de Carvalho


        Antes de ter lido John Steinbeck, vi alguns de seus romances adaptados por Hollywood. Daí para os livros foi um pulo. Isso faz muito tempo, quando ainda não me encontrava absorvido pelos livros jurídicos, na universidade.

        As obras de Steinbeck, adaptadas para o cinema foram: As vinhas da ira, dirigido pelo célebre John Ford e interpretado por Henry Fonda, John Carradine e Jane Dawell; esta recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ratos do deserto, adptado em 1939, teve como intérpretes Lon Chaney Junior e Burgess Meredith e foi indicada para o Osmar em quatro categorias. Vidas amargas, (ou A leste do Éden) foi imortalizada por uma das poucas atuações de James Dean no cinema e teve como diretor Elia Kazan. O Henry's full house, que se constitui em cinco roteiros independentes, teve cada história apresentada pelo próprio Steinbeck, que sempre esteve distante das câmeras. 

        A obra de Steinbeck, que retrata os meios populares da California, ainda serve nos dias que correm como modelo da cultura norte-americana e se mantém como um documento social e marco da literatura. Isto se deve ao realismo presente em seus livros, bem como às suas experiências em técnicas de narrativas ricas em simbolismo e uma elaboração mítica com a força da voz naturalista. O pronunciamento de Anders Osterling, em 1962, quando fez a entrega do prêmio Nobel da Literatura a Steinbeck, diz bem sobre a importância desse escritor:

        “Entre os mestres da literatura moderna, Steinbeck, mais que nenhum outro, continua ele mesmo independente por sua posição e por sua obra. Há nele uma tendência e um humor macabro que, até certo ponto, compensa seus temas muitas vezes cruéis. Sua simpatia se dirige sempre para o oprimido, o inadaptado, o infeliz; gosta de opor à alegria simples da vida à sede brutal e cínica do dinheiro”. 

        No Brasil, a Record publicou alguns romances de Steinbeck, quais sejam: A pérola, O menino e o alazão, O curto reinado de Pepino IV, O Vale sem fim, Viajando com Charley, O filho desejado e, mais recentemente, As vinhas da ira, em 1999, já na sua 9ª edição. Com As vinhas da ira Steibenck recebeu o Prêmio Pulitzer. Esse romance já havia sido publicado no Brasil pela Abril Cultura, em 1972, integrando a coleção Os imortais da literatura universal.

        John Steinbeck nasceu em 1902, em Salinas, na California. Aluno da Universidade de Stanford, deixou os estudos para se dedicar a empregos variados. Trabalhou em plantações, na rodovia de Big Sur e na indústria de sardinha, cenário de várias de suas obras. Depois de tentar a vida como escritor free lance em Nova York, retornou à terra natal. A popularidade chegou aos 33 anos, com Tortilha Flat – que abriu caminho para o sucesso de As vinhas da ira e Vidas amargas (A leste do Éden) . Foi correspondente na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã. Recebeu o prêmio Nobel de Literatura de 1962 e morreu em 1968. (Dados biográficos de Jackson J. Benson, autor da biografia John Steinbeck, Writer ganhadora do prêmio Pen West USA de não-ficção.)

english bull terrier
        Além dos romances acima mencionados como as principais obras de Steinbeck, outros integram a lista de suas principais obras: Pastagens do céu, 1932; Boêmios errantes, 1935; Luta incerta, 1936; Ratos e homens, 1937; The sea of Cortez, 1941; A longa noite sem lua, 1942; A rua das ilusões perdidas, 1945; Os náufragos do autocarro, 1947; A leste do Éden, 1952 e O inverso de nossa desesperança, 1961.

        Segue a crônica Pensamentos a esmo sobre cães a esmo, de John Steinbeck, (In A América e os americanos. Tradução de Maria Beatriz de Medina. organizado por Susan Shillinglaw e Jackson J. Benson. São Paulo: Record, 2004, p. 173-175):


                    PENSAMENTOS A ESMO SOBRE CÃES A ESMO


        Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento de nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou sua percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu descansar um pouco sem ser pertubado por animais sorrateiros. Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão "venatório" etc. e, finalmente, diz: "Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas". Quanta sabedoria havia aqui. O câozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

        O cachorro em nossos dias, mudou de função. É claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para suas complicadas profissões, mas em nossa população total de cachorros estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, mas de longe a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou uma mulher. Uma platéia para os tímidos.Um filho para quem não tem filhos. Nas ruas de Nova York, entre as sete e nove da manhã, a gente vê a lenta procissão de cachorro e dono seguindo da rua para a árvore, para o hidrante, para a cesta de lixo. São de apartamento. São levados à rua duas vezes por dia e, embora seja um clichê, é espantoso como dono e cachorro se parecem. Chegam a andar igual, a ter o mesmo tipo de cabeça.

        Nos Estados Unidos, estilos e cães mudam. Há a alguns anos o ariedale era o mais popular. Agora é o cocker, mas o poodle está chegando lá. Há uns mil anos consigo lembrar que havia boxers por toda a parte.

        Nos Estados Unidos, tendemos a levar ao extremo raças de cães que não trabalham. Criamos colies com cabeça tão comprida e estreita que não conseguem mais encontrar o caminho de casa. O daschshund ideal é tão comprido e baixo que sua espinha cede. Nossos dobermanns são paranóicos. Desenvolvemos um boston bull com cabeça tão grande que os filhotes só podem nascer por cesariana.

        Não é sensato lamentar o cão de apartamento. Sua espectativa de vida é quase o dobro do cachorro do campo. Seu tédio, provavelmente, é muitas vezes maior. Certo dia entrei num taxi e dei o endereço de uma loja de animais. O motorista perguntou:

        - O senhor quer um cachorro? Porque eu posso lhe arrumar um cachorro. Arranjo cachorros.

        - Não é um cachorro, mas como é isso de arranjar cachorros?

        - É assim - disse o taxista. - Sábado à noite, num apartamento, tem um sujeito e a mulher secando uma garrafa de gim. Aí pela meia-noite começam a brigar. Ela diz: "Esse seu cachorro danado. Quem é que limpa a sujeira dele e leva ele pra passear e dá comida, e você só chega em casa e faz um carinho na cabeça dele". E o sujeito diz: "Não fale assim do meu cachorro". "Odeio ele, diz ela. "Tá bom colega", diz ele, "se é assim que você quer... Venha Spot", e ele e o cachorro vão pra rua. O sujeito senta num banco, pega o bicho no colo e chora, e depois os dois vão prum bar e o sujeito conta pra todo mundo que mulher nenhuma pode tratar seu amigo assim. Bem, dali a pouco eles fecham o bar e já é tarde e o efeito do álcool começa a passar e o sujeito quer ir pra casa. Aí ele entra no taxi e dá o cachorro pro motorista. Acontece comigo toda noite de sábado.

        Já tive alguns cachorros espantosos. Um que recordo com prazer foi um english setter enorme. Via coisas incompreensíveis. Latia durante horas para uma árvore, mas só para aquela árvore. Na estação das uvas só comia uvas, que colhia da parreira, uma uva de cada vez. Na estação das peras vivia de peras derrubadas pelo vento, mas não tocava em maçãs. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais transcedental. Acho que finalmente acabou desacreditando das pessoas. Pensava que eram um sonho seu. Reunia todos os cães da vizinhança e fazia-lhes conferências ou sermões silenciosos e certo dia concentrou sua atenção em mim por uns bons cinco minutos e depois foi embora. Ouvi falar dele em diferentes partes do estado. As pessoas tentavam fazê-lo ficar, mas num ou dois dias ele partia. Minha opinião era que tinha visões e tornou-se missionário. Seu nome era T-Dog. Muito tempo depois, a mais de cem quilometros de distância, vi um letreiro pintado numa cerca que dizia “T-God”. Estou convencido de que ele trocou as letras de seu nome e desde então saiu pelo mundo para levar sua mensagem a todos os cães.

        Tive todos os tipos de cachorro, mas há um que sempre quis e nunca tive. Nem sei se ainda existe. Costumava haver no mundo um english bull terrier branco. Era atarracado, mas rápido. Seu fucinho era pontudo e os seus olhos eram triangulares, de forma que sua expressão era de um riso cínico. Era amigável e nada brigão, mas se forçado a lutar era ótimo nisso. Fazia uma ideia favorável e decente de si mesmo e nunca era covarde. Era um cão pensativo, voltado para si mesmo, mas ainda assim tinha uma curiosidade enorme. Era pesado de ossos e ombros. Seu pescoço fazia um belo arco. Às vezes cortavam sua orelha, mas nunca seu rabo elevado. Era um bom cachorro para um passeio. Um cachorro excelente para dormir ao lado da cama de um homem. Era delicado em seus sentimentos. Sempre quis um deles. Me pergunto se ainda existe no mundo. 



                                                   (John Steinbeck)




REFERÊNCIAS:
STEINBECK, John. A América e os americanos. Tradução de Maria Beatriz de Medina. organizado por Susan Shillinglaw e Jackson J. Benson. São Paulo: Record, 2004, p. 173-175
STEINBECK, John. O filho desejado. Título original: Burning Bright, 1950. Apresentação. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, s/d.