8 de abr de 2009

HISTÓRIA SOCIAL - Sérgio Buarque de Holanda






- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Antônio Cândido escreveu "O Significado de Raízes do Brasil, título do prefácio para a 13ª edição de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicada pela Livraria José Olympio Editora, em 1979. A 1ª edição dessa obra, reconhecida por muitos críticos como uma das obras mais importantes produzidas no Brasil, foi publicada em 1936. Diz Antônio Cândido, na sua brilhante apresentação de Raízes do Brasil:
A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.
Prossegue Antônio Cândido:
Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo. Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos penetrante e antecipadora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais.
Mais um trecho do importante do prefácio do mestre Antônio Cândido:
Para nós há trinta anos atrás, Raízes do Brasil trouxe elementos como estes, fundamentando uma reflexão que nos foi da maior importância. Sobretudo porque o seu método repousa sobre um jogo de oposições e contrastes, que impede o dogmatismo e abre campo para a meditação de tipo dialético. Num momento em que os intérpretes do nosso passado ainda se preocupavam sobretudo sobre os aspectos de natureza biológica, manifestando, mesmo sobre aparência de contrário, a fascinação pela “raça” herdada dos evolucionistas, Sérgio Buarque de Holanda puxou a sua análise para o lado da psicologia e da história social, com um senso agudo das estruturas. Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico, o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do presente.
Mais diante, Antônio Cândido analisa a posição adotada por Sérgio Buarque de Holanda, no que diz respeito à política:
E do ponto de vista político, que, sendo o nosso passado um obstáculo, a liquidação das “raízes” era um imperativo do desenvolvimento histórico. Mais ainda: em plena voga das componentes lusas avaliadas sentimentalmente, percebeu o sentido moderno da evolução brasileira, mostrando que ela se processaria conforme uma perda crescente das características ibéricas, em benefício dos rumos abertos pela civilização urbana e cosmopolita, expressa pelo Brasil do imigrante, que há quase três quartos de século vem modificando as linhas tradicionais.
No que respeita ao prefácio de Raízes do Brasil, ficamos com mais este trecho escrito por Antônio Cândido:
Finalmente, deu-nos instrumentos para discutir os problemas da organização sem criar no louvor do autoritarismo e autorizou a interpretação dos caudilhismos, que então se misturavam às sugestões do fascismo, tanto entre os integralistas (contra os quais é visivelmente dirigida uma parte do livro) quanto entre outras tendências, que dali a pouco se concretizariam no Estado Novo. Com segurança, estarmos entrando naquele instante na fase aguda da crise de decomposição da sociedade tradicional. O ano era 1936. Em 37, veio o golpe de Estado e o advento da fórmula ao mesmo tempo rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. O Brasil de agora deitava os seus galhos, ajeitando a seiva que aquelas raízes tinham recolhido. São Paulo, dezembro de 1967. Antônio Cândido.
Adiante mencionaremos os prêmio mais importantes concedidos a Sérgio Buarque de Holanda, bem como a relação de sua obra. O seu primeiro livro, Raízes do Brasil, (1936), foi uma obra que nasceu clássica, segundo o professor e ensaísta Antônio Cândido. Entre os anos de 1950 a 1953 Sérgio Buarque de Holanda escreveu para para a Folha de S. Paulo. O Premio Edgard Cavalheiro foi-lhe outorgado pelo Instituto Nacional do Livro em 1957, pela sua obra Caminhos e Fronteiras. No ano seguinte, com a tese "Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e na Colonização do Brasil", foi aprovado em concurso público para a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - USP. (Formou-se na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1925.)
Os livros que Sérgio Buarque de Holanda produziu, depois de Raízes do Brasil (1936), foram: Cobra de Vidro (1944); Monções (1945. 2ª ed. 1976); A Expansão Paulista do Século XVI e Começo do Século XVII (1948)”; Índios e Mamelucos na Expansão Paulista, (1949); Antologia dos Poetas Brasileiros na Fase Colonial. Revisão Crítica de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira (1952); “Le Brésil dans la Vie Américaine (em Le nouveau monde et l'Europe - IXes. Recontres Internationales de Genève) Neuchatel" (1955); Caminhos e Fronteiras (1957. 2ª ed., 1975); Visão do Paraíso . Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil (1958); História Geral da Civilização Brasileira (direção da obra de VII vols.; o último, Do Império à República, foi totalmente escrito por Sérgio Buarque de Holanda (1972); Brasil-Império (em 'Tres Lecciones Inaugurales, Buarque, Romano, Savelle), Santiago do Chile 1963).”
Obras Didáticas escritas por Sérgio Buarque de Holanda: História do Brasil, em colaboração com Tarqüinio de Souza (1944); História do Brasil – 1. Das Origens à Independência. 2. Da Independência aos Nossos Dias. Para a área de Estudos Sociais, Ensino de 1º grau - em colaboração com Carla de Queiróz, Sílvia Barbosa Ferraz e Vigílio Noya Pinto (1972-1974, 2 vols.); História da Civilização. Área de Estudos Sociais. 7ª e 8ª séries do 1º grau (antigas 3ª e 4ª séries ginasiais (em contribuição com a mesma equipe acima mencionada (1975).
Como reconhecimento da importância de seu trabalho em prol da cultura, Sérgio Buarque de Holanda recebeu o premio Intelectual do Ano, em 1979.
Sérgio Buarque de Holanda nasceu na cidade de São Paulo, em 11 de julho de 1902, onde faleceu, em 24 de abril de 1982. Dentre os seus sete filhos, dois tornaram-se famosos: Miúcha e Chico Buarque.





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