16 de nov de 2010

J. D. SALINGER – Sob o fogo da crítica

                                                                               

        
            por Pedro Luso de Carvalho


        O famoso recluso J. D. Salinger antes de dedicar-se à literatura passou rapidamente pelas universidades de Nova York e Columbia. Depois que retornou da Segunda Guerra Mundial suas histórias foram publicadas regularmente pela revista The New Yorker; com isso tornou-se bastante conhecido, principalmente nos Estados Unidos. Escreveu um único romance, O apanhador no campo de centeio, um clássico da adolescência (1951); e os contos e novelas curtas, Nine stories (1953); Fanny and Zooey (1961); Carpinteiro, levantem bem alto a cumeeira (1963); Seymour: Uma Apresentação(1963).

        Em quatro dos cinco livros de Salinger, figuram como personagens principais e recorrentes a Família Glass, constituída por Buddy (alter ego de Salinger), Seymour, Boo Boo, Franny e Zooey Glass, todos irmãos. A novela Franny & Zooey, que está dividida em duas partes, e está destinada a um público sem qualquer envolvimento com o profissionalismo literário, para o qual dedica o seu livro: “Se ainda resta um leitor amador no mundo – ou alguém que simplesmente leia por ler -, peço a ele ou a ela, com indizível afeição e gratidão, para dividir a dedicatória deste livro em quatro com minha mulher e meus filhos”.

        J. D. Salinger tornou-se um escritor de sucesso popular. Estudantes de níveis inferiores do meio acadêmico colocaram-no em alto pedestal; no entanto, intelectuais de gosto literário mais sofisticados desprezavam o escritor. No seu conto Seymour: An Introduction (Seymour: Uma Apresentação), em 1963, Salinger manifesta-se sobre a aristocracia intelectual da época, chamando-a de “uma nobreza de orelhas de lata”. E quando outro livro seu, Franny and Zooey passou da New York para o livro, abriu-se uma janela para que essa aristocracia fizesse sua contestação, como adiante se verá.

        Norman Mailer, que descreveu Salinger como o “preferido de todos”, chegou a dizer: Parece que sou o único a achar que ele não é mais que a maior cabeça a continuar no curso primário...claro que essa opinião não pode advir de nada mais amável que inveja. Salinger teve a sabedoria de escolher temas que são confortadores (...); mas já que o mundo está agora num estado de desconforto agudo, não acho que a sabedoria dele seja respeitável.

        Não tardou muito para que George Steiner tivesse seguido a mesma linha de Norman Mailer, fazendo sua denúncia de que a “indústria Salinger” era em grande parte causada pelo próprio Salinger. Assim se manifestou Steiner:

        Os jovens gostaram de ler sobre os jovens. Salinger escreve sucintamente... Ele nada exige de seus leitores em termos de cultura ou interesse político... Salinger lisonjeia a ignorância mesmo e a superficialidade moral de seus jovens leitores. Sugere-lhes que ignorância formal, apatia política e um vago sentimento de tristeza são virtudes. É aí que entra o uso engenhoso e um tanto deturpado que ele faz do zen. O zen está na moda. Gente que nem sequer tem os rudimentos de conhecimento necessários à leitura de Dante, nem a fibra de Schopenhauer exige, compra logo o último livro sobre zen.

        Essa declarações de Mailer e de Steiner, que demonstram aversão pelos jovens leitores de Salinger, logo o atingem. Vê-se que o sucesso comercial dos livros de Salinger não têm boa sustentação. O escritor manipulava os sentimentos desse público jovem: gostos, manias, apatia carência e tudo mais contavam com a compreensão de Salinger. Este tinha por objetivo a fama e a riqueza (ser amado, também estava nos seus planos).

        John Updike escreveu com certo embaraço no New York Times: Assim como Hemingway procurava as palavra para as coisas em movimento, Salinger procura palavras para coisas transmutadas em subjetividade. Sua ficção, com aquela bravata um tanto soturna, aquele humor, aquela morbidez, aquela esperança deturpada mas persistente, combina no tom e na forma com a vida americana atual. (Dentre os intelectuais de peso, Updike era o único que não apontava deficiências em Salinger).

        Alfred Kazin, que dizia que Salinger tinha um talento considerável, embora não se sentisse à vontade com seu pedantismo, escreveu um artigo para The New Yorker: O vasto público de Salinger, estou convencido, não se fundamenta apenas no vasto número de jovens que reconhecem seus problemas emocionais na ficção dele e sua rebeldia frustrada na linguagem sofisticada que ele manipula com tanta perícia. Baseia-se, principalmente, no vasto número de pessoas que nossa sociedade liberou para se considerarem infinitamente sensíveis, espiritualmente solitárias, talentosas, e cujo sofrimento decorrem de terem voltado a consciência apenas para si mesmas, de terem se desinteressado por uma sociedade à qual acham que entendem bem demais, de terem esgotado a esperança, a confiança e a curiosidade no mundo propriamente dito.

        Joan Didion publicou na National Review um texto crítico no qual chamou o conto 'Fanny and Zooey' de “definitivamente especioso”; e diz mais: Por mais brilhantemente apresentado que seja (e é), por mais assombrosamente correto que seja o ritmo de seus diálogos (e é), Fanny and Zooey é definitivamente especioso, e o que o torna especioso é a tendência de Salinger a lisonjear a trivialidade inerente a cada um de seus leitores, sua predileção por ensinar como se deve viver. O que dá ao livro esse enorme poder de atração é exatamente a matéria de auto-ajuda: isso emerge em última instância como Pensamento Positivo para a classe média alta, como Dobre sua Energia e Pense sem Cansar para garotas da Sarah Lawrence.

        Leslie Fiedler concordava com a crítica de Didion. Em seu texto crítico para Partisan Review, disse Fiedler: Salinger obviamente fala para os mais limpos, mais bem-educados, mais bem vestidos, mais bem alimentados e mais lidos dos jovens carentes (e quem não é carente?): não sendo drogados, bichas, nem mesmo boêmios da alta, seus protagonistas andam por uma trilha limitada de um lado pela escola e do outro pelo lar. Eles têm família e professores em vez de amantes e amigos, e suas crises tendem a se definir em termos de se devem ou não voltar para Vassar, Princeton, Dana Hall ou St. Marks no segundo semestre. A angústia deles é improvavelmente inspirada por perguntas do tipo: “Será que o garoto de Harvard com quem vou sair no fim de semana 'realmente' compreende o que é poesia?” ou “Será possível que no fim das contas o meu professor de inglês odeie literatura”.

       Consta que, dentre as críticas dirigidas a Salinger, a que mais o irritou foi a escrita por Mary McCarthy, no seu artigo intitulado “O Circuito Fechado de J. D. Saliger”, publicado pela primeira vez no Observer de Londres, e depois na Harper's: E quem são esses garotos prodígios – escreve Mary McCarthy – a não ser o próprio, dividindo-se e multiplicando-se como a ameba original... confrontar-se com as sete faces de Salinger, todas sábias e amáveis e simples, é fitar um lago narcísico assustador. O mundo de Salinger não contém nada a não ser Salinger...

        J. D. Salinger (Jerome David Salinger) nasceu a 1 de janeiro de 1919, Manhattan, Nova York, e morreu em Cornish, New Hampshire (EUA), no dia 27 de janeiro de 2010.




REFERÊNCIAS;
PATRICK, Julian. 501 Grande escritores. Trad. Livia Almeida e Pedro Jorsensen Junior. Rio de Janeiro: Editora Sextante, s/d.HAMILTON, Ian. Em busca de J. D. Salinger. Trad. Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Casa Maria Editorial, 1990, p. 185-189.]