5 de fev de 2009

DENIRA ROZÁRIO - Palavra de Poeta / Portugal

                        
               
                    por  Pedro Luso de carvalho

       A jornalista brasileira Denira Rozário escreveu o livro Palavra de Poeta – Portugal, no qual reuniu entrevistas que realizou, em Portugal, com 24 dos maiores poetas portugueses contemporâneos (17 homens e 7 mulheres), e que resultou na notável antologia de sua criação publicada pela Civilização Brasileira, em 1994. Enio Silveira, responsável pela editora, lamentou o fato de Otto Lara Rezende, um dos maiores cronistas da literatura brasileira, ter nos deixado sem ver o livro publicado. Otto Lara já havia lido e apreciado o livro anterior de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Brasil.

        Mais adiante, Denira Rozário viria escrever Palavra de Poeta - Cabo Verde e Angola, livro no qual entrevista 12 poetas cabo-verdianos, entre eles, Aguinaldo Fonseca, João Melo e José Eduardo Agualusa, o último livro da trilogia, que visou a documentar o significado de ser poeta e de escrever poesia no Brasil, em Portugal e, depois, em Cabo Verde e Angola (Editora Bertrand Brasil).

        
Escreveu Antonio Houaiss, crítico, ensaísta, filólogo e integrante da Academia Brasileira de Letras, na nota introdutória da obra Palavra de Poeta – Portugal, em 26 de maio de 1993:

        “Este inquérito, valioso, é continuação necessária, do antecedente, feito junto a poetas brasileiros altamente representativos da nossa criatividade atual. Como contrapartida daquele, este abrange nomes muito atuais e atuantes do cenário poético português contemporâneo. Como era de esperar, dada a competência da inquiridora – versátil, informada, apaixonada da matéria, avessa `uniformização, descobridora das singularidades pessoais -, há aqui um quadro sincrônico soberbo: a mesma língua manejada segundo as variações temáticas que os tempos e este Tempo oferecem [...] preciosas amostragens poetadoras, poéticas e poetizantes [...]”.

        Esse livro de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Portugal, teve um tratamento esmerado, a partir da capa, para a qual Felipe Taborda utilizou serigrafia da autora, pelas as anotações sobre a obra escritas pelo editor Ênio Silveira, culto e exigente, passando pela ‘Palavra de Antonio Houaiss’ e culminando com as entrevistas feitas com os maiores poetas de hoje e breve antologia de seus poemas.

        
Foram entrevistados por Denira Rozário os seguintes poetas: António Gedeão, Sofia de Melo Breyner Andersen, Eugênio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres Melo e Castro, Albano Martins, E. M. de Melo e Castro , António Asório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro Brito, Al Berto, Nuno Judice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luiz Miguel Nava, Fernando Pinto Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira.

        Escolhi alguns trechos da entrevista que Denira Rozário fez com Fernando Pinto Amaral (1960), escolha essa que fiz aleatoriamente: “Crítico notável, que se revela notável poeta [...], fez o curso inverso, primeiro o crítico depois o poeta, escolheu o caminho mais difícil, menos comum e de maior risco. Risco ocorreu também ao abandonar, no 4º ano, o curso de medicina, carreira considerada estável para estudar literatura. A vocação era poética, a poesia venceu [...] A vontade de escrever mais regularmente surgiu a partir de 17 anos, durante uma paixão – confessa uma tendência para amores impossíveis [...] Sobre ser poeta, cita Milan Kundera, “só o autêntico poeta sabe o que é o imenso desejo de deixar essa casa de espelhos onde reina um silêncio ensurdecedor”.
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        Em outro trecho Rozário pergunta Fernando Pinto Amaral se seria difícil falar sobre a atual poesia portuguesa, e o poeta respondeu-lhe: “Por isso remeto para o meu ensaio o Mosaico Fluido – Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, saiu pela Editora Assírio & Alvim”.

        A seguir Rozário pede ao poeta, crítico e professor que diga quais são os bons poetas portugueses e brasileiros: “Quanto aos bons poetas portugueses que leio e que aprecio, são tantos que não vale a pena enumerá-los – teria medo de esquecer alguns. Em relação aos brasileiros, gosto de ler, por exemplo, Mário de Andrade, Jorge Lima, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes. A poesia mais recente, é pena, conheço-a muito mal, pois chegam poucos livros”.

         À pergunta da entrevistadora sobre sua condição de leitor, se é organizado, respondeu-lhe que “Como leitor, sou um tanto anárquico, não leio muitos livros nem gosto de devorá-los. Estou lendo poemas do sueco Tomas Transtromer, ensaios de Walter Benjamin e um livro de contos de Paul Bowles.”

         E sobre exigir, a poesia, uma boa formação literária, disse que “A questão é complexa, visto que, a meu ver, a inspiração poética em si mesma não exige qualquer formação. Sendo inata em algumas pessoas, ela brota espontaneamente e às vezes desde cedo, por exemplo, o caso de Rimbaud. Todavia, para que os resultados sejam bons, torna-se relativamente necessário uma consciência crítica que só aparece quando há certa bagagem cultural. Por isso, concordo que é exigível alguma formação literária, mais ou menos sólida ou fluida.”

         Dentre os três poemas de Fernando J. B. Pinto do Amaral [nasceu em Lisboa, no dia 12 de maio de 1960], que integram a entrevista de Rozário, transcrevo uma delas:
 

                      

 Vagas são as promessas e ao longe,
 muito longe, uma estrela.
 muito longe, uma estrela.    
 Cruel foi sempre o seu fulgor:      

 sonâmbulas cidades, ruas íngremes,      
 passos que dei sem onde.    
 Era esse o meu reino,
 e era talvez essa      
 a voz da própria lua.      

Aí ficou gravada a minha sede.      
Aí deixei que o fogo me beijasse      
pela primeira vez.    
     
Agora tenho as mãos vazias,      
regresso e sei que nada me pertence      
 - nenhum gesto do céu ou da terra.      

Apenas o rumor de breves sombras      
e um nome já incerto que por mágoa      
não consigo esquecer.


                                  *  *  *