20 de fev de 2011

HORACIO QUIROGA – “Edgar Allan Poe”

   Horacio Quiroga / Edgar Allan Poe     
                   
                 por  Pedro Luso de Carvalho
                 
        
        Em novembro de de 2007 publiquei uma matéria sobre a Antologia de Contos de Edgar Allan Poe, ocasião escrevi sobre sua vida e sobre seus poemas, dando destaque tanto à sua ficção como à sua poesia, que o tornaram admirado pelos intelectuais franceses da época, dentre eles Charles Baudelaire, que foi o principal divulgador de sua obra, tanto ficcional como poética, na França e em parte da Europa. Depois disso, fiz a apresentação e transcrição dos seguintes poemas de Poe: Annabel Lee, em janeiro/2008; O Corvo, em julho/2008; Ulalume, em janeiro2010; A Cidade no Mar, em maio/2010; A Marie-Louise Shew, em agosto/2010; Os Sinos, em novembro/2010. 

        Agora, para esta postagem, escolhi o texto de Horacio Quiroga, denominado “Edgar Allan Poe / A honestidade artística”, in A Galinha Degola e outros contos, seguido de Heroísmos (Biografias exemplares), publicado pela L&PM POCKET, reimpressão em agosto de 2008 (1ª edição em outubro de 2002), com tradução de Sergio Faraco, p. 114-116. 

        Horacio Quiroga, nascido em Salto, Uruguai, em 1878, e falecido em Buenos Aires, Argentina, em 1937, escreveu cerca de duzentos contos, que foram publicados em revistas, no período que compreende os anos de 1907 a 1921. Foi o responsável pela modernização do gênero literário de narrativa curta castelhano (conto), cujo modelo retórico se impôs. 

        O crítico literário Pablo Rocca faz a seguinte observação no seu posfácio à Galinha degolada, sobre o modelo retórico de Quiroga: “Trata-se do mesmo modelo que, em inglês, foi pensado e praticado por seus mestres Edgar Allan Poe ou Bret Harte: aquele que elimina os elementos acessórios do relato, sopesando o efeito e a potência expressiva de cada uma das palavras em espaço tão avaro (...)”.  

        Embora seduzido pelo conto, Quiroga também escreveu bons romances, como, por exemplo, História de uma amor louco ("Historia de un amor turbio"), traduzido por Serio Faraco e publicado pela Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998.

        Feito esse parêntesis, para a apresentação de Horacio Quiroga, para quem não o conhecia, passo a transcrever o seu texto intitulado EDGAR ALLAN POE / A HONESTIDADE ARTÍSTICA, in verbis:

        Ultimamente foram achados documentos – diz Quiroga - nos quais se constata que o trabalho literário de Poe era pago à razão de cinqüenta cêntimos de dólar a página impressa. Se seus contos menos conhecidos tinham, em média, quinze páginas, e os mais famosos apenas dez ou doze, a média geral era de seis dólares por conto, isto é, quinze pesos.

        Um dos mais extraordinários gênios que o mundo conheceu, quase sem ascendentes e sem sucessor algum – só e isolado na história literária como um diamante -, este homem de inteligência profunda até a vertigem, vivia, comia, vestia e mantinha suas relações interpessoais à razão de um peso por cada página que escrevesse.

        O caso não é único. De Homero a Leonhard Frank, passando por Bethoven (quando vendia sua quinta sinfonia por vinte e cinco pesos), o gênio adquire seus privilégios em detrimento do bem-estar. Se por um lado não causa espécie tal fenômeno, que de certo modo é biológico, surpreende, por outro, a honestidade de Poe, que limitou seus grandes contos a doze páginas, ganhando com eles não mais do que seis pesos, quando lhe teria sido tão fácil aumentá-los para vinte ou cem páginas.

        Admita-se que, com seis pesos, matava a fome de seis dias, e que nas noites correspondentes pudesse dormir num colchão de lã. Com Poe tudo é possível. O que não se admite é que essa renda também lhe fosse suficiente para beber o que bebia.

        São conhecidas as fraquezas do escritor. Não houve paraíso artificial que não visitasse nem serpente que não lhe devolvesse fielmente as visitas na forma de delirium tremens. Fome de comer e sede de álcool, estroinices desatinadas e o mais que se ignora dessa extravagante criatura, tudo devia ser fatal e mesquinhamente coberto pelos seis pesos de cada conto.

        Se para Poe a necessidade de álcool, éter, ópio, era tão orgânica quanto se supõe, poucas torturas teriam sido iguais àquelas que sofria quando a escassez de meios lhe permitia comer e beber, mas não embriagar-se. Nessas horas teria dado uma fortuna, se a tivesse, por uma gota de álcool. Admire-se, por isso, a honestidade mais do que heróica, o pudor mais do que divino do escritor quando, escrevendo um conto, terminava-o no momento preciso, na décima página, ainda que transtornado pela ânsia de beber.

      Vontade, confiança, decoro, tudo no grande contista naufragou, menos a honradez artística. Aumentando um pouco aqueles contos de excepcional sobriedade poderia ter alimentado folgadamente a besta do álcool. Ninguém como ele teria facilidade para tanto. Hoje, no entanto – sem pressões ou necessidades, e se a temos basta encompridar um conto, que de conto só tem o nome -, nos lembramos de Poe mais pelas bebedeiras do que pela honestidade. 

                                                            (by Horacio Quiroga)


[Para acessar meus outros textos sobre Edgar Allan Poe, basta clicar em:  Antologia de Contos ,  Annabel Lee, O Corvo, Ulalume, A Cidade no Mar, A Marie-Louise Shew, Os Sinos.]