01/09/2009

T. S. ELIOT - Os Homens Ocos




             por  Pedro Luso de Carvalho


       T. S. Eliot, é o nome literariamente adotado por Thomas Stearns Eliot. O escritor norte-americano nasceu em St. Louis, Missouri. Estudou na Universidade de Harvard, onde concluiu o curso de medicina, em 1910. E depois, também em Harvard, doutorou-se em Filosofia. Mais tarde, tornar-se-ia um dos poetas modernos mais discutidos na Europa e nos Estados Unidos. Eliot também foi responsável por importantes ensaios, e, como dramaturgo, por peças de teatro, dentre elas, Assassinato na Catedral (1935).

        Em 1914, Thomas Eliot passou a residir na Inglaterra. Após a deflagração da Primeira Guerra Mundial, lecionou filosofia na conceituada universidade de Oxford. Com 25 anos, Eliot resolveu que não mais voltaria a morar nos Estados Unidos. Quando contava com 39 anos de idade, no ano de 1927, tornou-se cidadão britânico. Em 1948 , recebeu o Premio Nobel de Literatura. A sua morte, em 4 de janeiro de 1965, na Inglaterra, deixaria uma importante lacuna na literatura.

        No trabalho que publicamos em 25.08.2009, que se encontra postado abaixo deste, intitulado T. S. ELIOT - POESIA E TEATRO, não foi publicado, na oportunidade, nenhum de seus poemas, mas o faremos hoje com “Os homens ocos”, poema de 1925, traduzido por Ivan Junqueira.


                            OS HOMENS OCOS - T. S. ELIOT

                                                         "A penny for the Old Guy"
                                                         (Um pêni para o Velho Guy)


         Nós somos os homens ocos
         Os homens empalhados
         Uns nos outros amparados
         O elmo cheio de nada. Ai de nós!
         Nossas vozes dessecadas,
         Quando juntos sussurramos,
         São quietas e inexpressas
         Como o vento na relva seca
         Ou pés de ratos sobre cacos
         Em nossa adega evaporada
         Fôrma sem forma, sombra sem cor
         Força paralisada, gesto sem vigor;
         Aqueles que atravessaram
         De olhos retos, para o outro reino da morte
         Nos recordam - se o fazem - não como violentas
         Almas danadas, mas apenas
         Como os homens ocos
         Os homens empalhados.

                      II

         Os olhos que temo encontrar em sonhos
         No reino de sonho da morte
         Estes não aparecem:
         Lá, os olhos são como a lâmina
         Do sol nos ossos de uma coluna
         Lá, uma árvore brande os ramos
         E as vozes estão no frêmito
         Do vento que está cantando
         Mais distantes e solenes
         Que uma estrela agonizante.
         Que eu demais não me aproxime
         Do reino de sonho da morte
         Que eu possa trajar ainda
         Esses tácitos disfarces
         Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
         E comportar-me num campo
         Como o vento se comporta
         Nem mais um passo
         - Não este encontro derradeiro
         No reino crepuscular

                    III

         Esta é a terra morta
         Esta é a terra do cacto
         Aqui as imagens de pedra
         Estão eretas, aqui recebem elas
         A súplica da mão de um morto
         Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
         E nisto consiste
         O outro reino da morte:
         Despertando sozinhos
         À hora em que estamos
         Trêmulos de ternura
         Os lábios que beijariam
         Rezam as pedras quebradas.

                    IV

        Os olhos não estão aqui
         Aqui os olhos não brilham
         Neste vale de estrelas tíbias
         Neste vale desvalido
         Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
         Neste último sítio de encontros
         Juntos tateamos
         Todos à fala esquivos
         Reunidos na praia do túrgido rio
         Sem nada ver, a não ser
         Que os olhos reapareçam
         Como a estrela perpétua
         Rosa multifoliada
         Do reino em sombras da morte
         A única esperança
         De homens vazios.

                    V

         Aqui rondamos a figueira-brava
         Figueira-brava figueira-brava
         Aqui rondamos a figueira-brava
         Às cinco em ponto da madrugada
         Entre a idéia
         E a realidade
         Entre o movimento
         E a ação
         Tomba a Sombra
         Porque Teu é o Reino
         Entre a concepção
         E a criação
         Entre a emoção
         E a reação
         Tomba a Sombra
         A vida é muito longa
         Entre o desejo
         E o espasmo
         Entre a potência
         E a existência
         Entre a essência
         E a descendência
         Tomba a Sombra
         Porque Teu é o Reino
         Porque Teu é
         A vida é
         Porque Teu é o
         Assim expira o mundo
         Assim expira o mundo
         Assim expira o mundo
         Não com uma explosão, mas com um suspiro.



                             
                                              (Tradução de Ivan Junqueira)



13 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Muito forte e expressivo esse poema! Confesso que não conhecia nada de T.S Eliot, a não ser algumas frases atribbuídas a ele. Pronto, graças a ti, já sou um iniciado!

Obrigado!
abç
Cesar Cruz

CESAR CRUZ disse...

Pedro, este segundo comentário é para ler e deletar, ok? Só aviso de blogueiro pra blogueiro. Esqueceste uma preposição na revisão, sobrou! No 1º parágrafo:
"em na" Universidade de Harvard

No 3º parágrafo:

25.080.2009

mas que raio de mês de agosto mais estranho é este? arara!

abraço!

Barbara Bastos disse...

Adorei tudo. Parabéns pelas imagens e pela delicadeza e pelo talento com que escreves os textos aqui postados.
Também tenho um blog. Lá coloco minhas ideias, opiniões, criações...desde já convido vc a conhecer.

Passarei sempre por aqui.

Bjs
Barbara

CESAR CRUZ disse...

Que é isso, meu amigo! Foi só um erro de digitação que pesquei... Quem sou eu pra revisar um texto teu! Eu venho aqui é para aprender, isso sim!

abç

Sônia Brandão disse...

Que bela escolha. Parabéns!

José Carlos Brandão disse...

Gostei de ver aqui Os Homens Ocos!
Foi um dos primeiros poemas de T. S. Eliot que li, junto a Conversa Galante, lá por 1964. Gostava muito dos Homens Ocos... depois conheci os Quatro Quartetos, depois a Terra Desolada, e ainda Quarta-Feira de Cinzas... Tive um gosto particular por essa Quarta-Feira de Cinzas. Quando escrevi meu primeiro livro, estava lendo e relendo os Quatro Quartetos (a minha poesia não deve ter nada dele, mas estava à sombra de um mestre).
É preciso, enfim, ler T. S. Eliot. Não basta, não podemos nos contentar com qualquer poesia apressada que topamos no caminho. É preciso ouvir - ouvir! - os mestres.
Grande abraço.

Doroni Hilgenberg disse...

Pedro,
Ainda não conheço a obra desse
escritor, mas estou com vontade.

Nesse poema. St Eliot, disseca a solidão da alma dos homens ocos
através sonhos perdidos e de suspiros que axpiram um mundo impossivel talvez.
bjs

antonior disse...

Olá Pedro!

Obrigado por estas publicações estimulantes sobre Eliot. Na verdade nunca dei atenção específica ao seu trabalho. Quando, acidentalmente, encontrava referências, conforme as circunstâncias, enquadrava-as, comodamente, na zona dos conhecimentos que ficam por ali. Agora ao ler este poema, concluo que algo mais interessante do que me pareceu antes, me foi passando ao lado. Por isso usei o adjectivo "estimulante" e agradeci. Já está nas minhas intenções de leitura para breve.

Um abraço.

VejaBlog - Seleção dos Melhores Blogs/Sites do Brasil! - disse...

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cristinasiqueira disse...

Oi Pedro,

Li,reli até aquele ponto em que o poema me pegou e enredou com gosto.Daí Eliot caminha deslizante e termina:"Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro."
Passar por aqui é dar-se o tempo para aprender não só literatura mas arte - civilização,gentileza,ética,
estética,gramática,revisão,erudição
e desculpe pela palavra chula a mim me desperta Tesão.
Tesão pelo conhecimento.Aprendo muito.
Obrigada.

Cris

PS-Tem nova postagem

Efigênia Coutinho disse...

Pedro,
grandiosa postagem e ainda com os belíssimos versos .

Como você foi feliz neste evento do
T. S. Eliot, mundialmente conhecido e reconhecido pelo seu trabalho neste mundo cultural,
Efigênia Coutinho

Ricardo Antonio Lucas Camargo disse...

O interessante é que a referência aos "homens ocos" toma como ponto de partida a qualificação de o personagem de Joseph Conrad, Marlow, em "Coração das trevas", oferta a um empregado graduado numa Companhia de exploração de marfim, muito cioso dos livros de contabilidade e cheio de ódio profundo pelos nativos. E é este empregado que, pela primeira vez, pronuncia o nome de Kurtz. Na voz de Barbra Streisand, a música de Andrew Lloyd Webber intitulada "Memory" é sobre poema de T. S. Eliot.

Anônimo disse...

as ultimas palavras aparecem no anime High School Of The Dead. último episodio.