21 de out de 2013

SIMONE DE BEAUVOIR - Na Força da Idade



   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


Em Na força da idade, traduzida por Sérgio Milliet, Simone de Beauvoir, dá continuidade à narração de suas memórias como fez em Memórias de uma moça bem comportada. Dessa obra, La force de l’âge, transcrevo um interessante trecho no qual a escritora enfatiza a avidez de Sartre pelo conhecimento, avidez da qual também compartilhava com ele. Aí, Beauvoir faz referência à sua conceituada obra, O Segundo Sexo, e dá ênfase à concepção das teorias de Sartre, bem como a sua relutância em aceitá-las, algumas vezes, na forma em que as transmitia a ela, não deixando de reconhecer, no entanto, “que havia algo mais fecundo nos seus exageros”, como diz no referido trecho (In BEAUVOIR, Simone. Na Força da Idade. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1961, págs. 36-37):

Menos entregue à literatura do que Sartre era, como ele, ávida de saber; mas ele punha muito mais obstinação do que eu, em correr atrás da verdade. Tentei mostrar em Le Deuxième Sexe por que a situação da mulher a impede ainda hoje de atacar o mundo pela raiz; desejava conhecê-lo, exprimi-lo, mas nunca pensara em arrancar-lhe os segredos últimos pela força de meu cérebro. Demais, naquele ano eu estava demasiado absorvida pela novidade de minhas experiências para sacrificar muito à filosofia.
 Limitava-me a discutir as idéias de Sartre. Mal nos encontrávamos na estação de Tours ou de Austerlitz e já ele me agarrava: “Tenho uma nova teoria”. Escutava-o atentamente, mas não sem certa desconfiança. Pagniez pretendia que as belas construções de seu camarada assentavam amiúde em um sofisma escondido; quando uma idéia de Sartre me desagradava eu procurava “o sofisma de base”; mais de uma vez achei-o; assim foi que desmantelei certa “teoria do cômico” a que, de resto, Sartre pouco ligava. Noutros casos ele me encarniçava; a ponto de não hesitar em desprezar o bom senso quando eu o acuava.
 Ele fazia questão, já o disse, de salvar a realidade deste mundo; afirmava que ela coincide exatamente com o conhecimento que o homem tem dela; se houvesse integrado no mundo os próprios instrumentos desse conhecimento, sua posição fora mais sólida, mas ele recusava-se a acreditar na ciência, a tal ponto que de uma feita eu o impeli a sustentar que os ácaros e outros animaizinhos invisíveis a olho nu simplesmente não existiam.
 Era absurdo, ele o sabia, mas não deu o braço a torcer porque sabia também que, quando se tem nas mãos uma evidência, cumpre apegar-se a ela contra tudo e contra todos, contra a própria razão, ainda que seja incapaz de justificá-la. Compreendi mais tarde que para fazer descobertas o essencial é não perceber, aqui e acolá, luzes que os outros não suspeitam, e sim se atirar a elas não dando importância a mais coisa nenhuma; eu acusava então Sartre de leviandade, mas dava-me conta assim mesmo de que havia algo de fecundo em seus exageros do que em meus escrúpulos.
  

      *  *  *