24 de dez de 2010

[Poesia] LUIZ DE MIRANDA – A esse amor

Luís de Miranda

                



                por Pedro Luso de carvalho


         

        Passei a conhecer a poesia de Luiz de Miranda quando dava os meus primeiros passos no exercício da advocacia. Posso afirmar que desde que li os seus primeiros poemas, passei a comprar os seus livros, sempre que os editava; na maioria das vezes, fazia-o na Feira do Livro de Porto Alegre, a maior feira de livros a céu aberto da América do Sul. 

        Pessoalmente, conheci Luiz de Miranda quando fui por ele procurado em meu escritório, para resolver um pequeno problema ligado a imóveis. Depois que minha secretária o anunciou pelo interfone, logo ela apareceu acompanhada pelo poeta, para abrir a porta da minha sala, e conduziu-o à uma cadeira em frente de minha mesa. Ali estava, pois, à minha frente, o ainda jovem Luiz de Miranda com sua barba e cabelos compridos, parecendo-se muito com a clássica figura de Shakespeare. Disse-me que vinha ao meu escritório por recomendação do escritor Sergio Faraco, seu amigo dileto. Acomodou-se calmamente na cadeira e estendeu o braço trazendo na mão o seu último lançamento: Estado de Alerta, (in Editora Movimento, Porto alegre, 1981). Folhei-o em seguida para ver se havia alguma dedicatória, e de fato havia:

Ao Pedro Luso de Carvalho, o poema como esperança. O abraço amigo, Luiz de Miranda. Porto alegre, abril de 83.

         Agradeci ao poeta pelo livro e pela dedicatória e logo passamos a tratar do assunto para o qual me procurou.

        Vejamos, a seguir, o que dizem sobre a poesia de Luiz de Miranda, alguns nomes importantes da literatura brasileira (in Antololgia de Poemas):

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”.
 
FERREIRA GULLAR: “No caso de um poeta como Luiz de Miranda, as soluções formais resultam da necessidade de formular o vivido e sentido, emoções e idéias que são expressão de um compromisso claro com seu país e o seu tempo. A poesia de Luiz de Miranda fala de nós todos”.

RAUL BOPP: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É um contribuição definitiva à literatura brasileira”.

ALCEU VALENÇA: “A poesia de Miranda é o vento Minuano que passa em voz alta e nos marca para sempre”.

GUILHERMINO CÉSAR: “De qualquer modo, penso que Memorial assinala uma vertente; reúne-se ao que de melhor existe no Brasil”.

NELSON WERNECK SODRÉ: “Luiz de Miranda sabe que a solidão é provisória e decorre de derrota, exílio, distância, saudade. Escreveu longe e perto. Sua poesia se junta a de alguns, uns poucos, que souberam ver o que viu, sentir o que ele sentiu. A época, amarga e opaca e escura, é atravessada por essa poesia como um relâmpago. Sua luz denuncia auroras. Do provisório, entrevemos o definitivo”.

JOSÉ ÉDIL DE LIMA ALVES: “Poeta comprometido com a realidade do seu país e de seu continente, ele trilha os caminhos percorridos por um Pablo Neruda, um Atahualpa Yupanqui, um Ferreira Gullar, com seu canto enérgico de protesto”.

        Passemos ao poema A ESSE AMOR, de Luiz de Miranda (in Antologia Poética, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987, p. 67):


A ESSE AMOR


        Luiz de Miranda
                    a Alice de Salles



Chegarei a esse amor
pelo próprio destrato
que ele me empresta
pelo seu avesso, o reverso
pela porta menor, retrato
de luz aquecida


Chegarei a esse amor
amando o lado opaco
que se infiltra e bruxuleia
nas quietudes mais cerradas
pelo círculo de giz, pacto
por onde renasço da cinza


Chegarei com o hálito antigo
a calça de brim
o chinelo, a bombacha
na mala da memória
e a palavra, irmã de insônia
                   cisma
que habita o desatino
com seu sopro alumbrado


Chegarei a esse amor
sem explicações ou fórmulas
com o coração aberto
na manhã de sombra



Um pouco mais da vida e da obra do poeta gaúcho, Luiz de Miranda, pode ser lido em Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_de_Miranda