11 de dez de 2010

JOSÉ ALBANO – Canção a Camões




                 por Pedro Luso de Carvalho

       
        
        Abordaremos a poesia de José Albano não apenas nesta edição, mas também em outras, que serão apresentadas de forma intercaladas. E em cada um desses futuros textos daremos a conhecer a posição de poetas igualmente importantes e de críticos literários, no que respeita a obra do poeta. Podemos antecipar, inclusive, alguns nomes que abordam a obra (e a vida) de José Albano; são, entre outros: Alfredo Bosi, Manoel Bandeira, Agripino Grieco, Antônio Sales, Tristão de Athayde, Braga Montenegro.

        Cumpre fazermos de plano a presentação do poeta, para os que não o conhecem, e então passarmos à sua poesia. José Albano é um dos mais importantes poetas brasileiros, embora pouco conhecido em sua pátria. Entre os poetas neoparnasianos, José Albano foi o mais aristocrático.

         Filho de família cearense abastada, e neto de barões pelo lado paterno, não encontrou dificuldades em sair do Brasil aos onze anos de idade para estudar em colégios ingleses, austríacos e franceses, tendo o privilégio de receber uma apurada formação humanística. Volta ao Brasil - Fortaleza, sua cidade natal -, já na adolescência, e tenta cursar Direito, mas a doença o impediu de continuar os estudos. Então, com ajuda do Barão do Rio Branco, seu amigo e protetor, retorna à Europa, para, depois de visitar alguns países, fixar-se na França. Aí morre o poeta no dia 11 de julho de 1923, na localidade de Montauban.

        Um dos nossos mais importantes críticos literários, Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima), “num assomo de entusiasmo”, como observa Alfredo Bosi, manifestou-se sobre a obra do poeta no seu importante ensaio, Poesia Redentora, in José Albano, Rimas. 3ª ed., Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 1993, p. 220.221:

        "A figura de José Albano é das mais indiscutíveis desse período pré-modernista, entre 1900 a 1920, em que escreveu o principal de sua estranha e puríssima obra poética, agora de novo revelada ao grande público, pela coragem editorial dos irmãos Pongetti e pela independência e bom gosto literário de Manoel Bandeira. As Rimas (Pongetti Editores, 1948) compreendendo essa deliciosa Comédia Angélica, esses maravilhosos quatro sonetes em inglês, o Triunfo que é uma obra-prima e os Dez sonetos escolhidos pelo autor, que são seguramente dos mais belos que jamais foram escritos em nossa língua e mesmo em qualquer língua humana – representam um imenso drama interior – uma incomparável realização de poesia pura''.

        Além de Rimas, o primeiro livro de José albano, publicado em Barcelona, em 1912 (no Brasil a sua edição deu-se em 1948, por Pongetti Editores), e Comédia Angélica, publicada em 1918 (quatro sonetos em inglês com tradução portuguesa, com argumento religioso e forma clássica), o poeta também publicou Antologia Poética.

        Em outras oportunidades, como dissemos acima, continuaremos com a abordagem da obra de José Albano. Agora, passemos ao poema CANÇÃO A CAMÕES, que integra o seu livro Rimas, p. 113-115:



        CANÇÃO A CAMÕES


Co'uma espada de prata e lira de ouro
Claríssimo Camões, me apareceste
No cimo do Parnaso alcantilado;
E eu, posto num enlevo duradouro,
Gravei na mente essa visão celeste
Que em numeroso verso aqui traslado;
Estavam ao teu lado
Duas Musas de cândido semblante,
Calíope que sopra na canora
Trombeta retumbante
Cujo clangor os ecos apavora;
E Euterpe que da rude e agreste avena
Tira uma melodia pura e amena.

Esta afina o instrumento donde parte
Um longo e suavíssimo gemido
Cuja tristeza eu também sinto e entendo,
E de improviso Amor vem a esta parte
E traz nas mãos teu coração ferido
Donde vermelhas gotas vão correndo.
Com ele vem o horrendo
E escuro Fado que jamais se cansa
De atormentar um generoso peito,
Alevantando a lança
Que atravessou teu coração desfeito -
E enquanto lentamente vão passando,
Ri-se o Fado cruel, geme Amor brando.

Emudecendo a frauta, eis se derrama
O som da horrível tuba que o repouso
Subitamente rompe do ar vizinho;
E eu vejo o Capitão Vasco da Gama,
Aquele grão Lusíada famoso
Que descobriu das Índias o caminho;
E (ó destino mesquinho!)
Vejo a mísera Inês tão meiga e amante,
Longe de Pedro, saüdosa dele,
Lamentar-se diante
Del-rei que ao duro sacrifício a impele:
De Vasco o Tejo está lembrado ainda,
Chora o Mondego a Inês lânguida e linda.

Eis se alça Adamastor fero e iracundo,
Como uma nuvem negra aparecendo
À frota, do naufrágio ameaçada.
Treme nos fundamentos todo o mundo,
Quando ele em tom altíssimo e tremendo
Blasfema, grita, brama, ruge e brada.
Eis surge a sublimada
Vênus superna que nasceu da escuma;
De flores se matizam as campinas,
A aragem se perfuma
E serenam as ondas neptuninas:
Protege a deusa o peito lusitano,
Conquistador da terra e do oceano.

Cessa o clangor e eu vejo ainda em sonho
Descer do empíreo angélica figura,
De ouro tingindo as nuvens e de rosa.
E no semblante plácido e risonho
Leio a felicidade branca e pura
De quem muito sofreu e agora goza:
É Natércia formosa,
Ó bom Luís, exemplo de amadores,
É tua alma gentil, encanto e vida,
Amor de teus Amores,
Sempre adorada e nunca possuída,
Ei-la que vem da luminosa parte
Para verdes mirtos coroar-te.

Da baixa terra também sobe a ver-te
Outra figura, envolta em negro luto,
Que no passado mais ditosa viste.
Do longo caminhar cansada e inerte,
De lágrimas o rosto nunca enxuto,
Suspira e nenhum peito lhe resiste:
É Lusitânia triste,
É tua ingrata mãe que ânsia secreta
De saüdades sente dentro da alma,
Mas vendo-te, ó Poeta,
A mágoa se lhe um pouco abranda e acalma.
E para que o remorso menos doa,
De imarcescíveis louros te coroa.

Canção, voa ao Parnaso
E ao Mestre amado meu que lá de cima
Me ouve cantar em venturoso enlevo,
Entrega o verso e rima
Que em tributo ofereço do que devo.
E se durares qual lhe dura o nome,
Fico que nunca o tempo te consome.



                                       (by José Albano)



REFERÊNCIAS:
ALFREDO BOSI. A Literatura Brasileira. O Pré-modernismo. Vol. V. São Paulo: Ed. Cultrix, 1966, p. 19-24.
ALBANO, José. Rimas, 3ª ed., Rio de Janeiro, Graphia Editorial, 1993 , p. 220.221.