17 de jan de 2011

E. P. PICCOLI – Essas coisas na vida de um guasca



                      por  Pedro Luso de Carvalho 


      Conheci o escritor Elbio Prates Piccoli há alguns anos, no apartamento de meu sogro, quando este comemorava seu aniversário. Enquanto as mulheres conversam na sala de visitas, nós, os homens, conversávamos na biblioteca. Na ocasião, o sogro dirigiu-se a mim, e disse: “Pedro, apresento-lhe o Coronel Piccoli”. Após essa apresentação, sentamo-nos, então, para não importunarmos os demais convivas, que aí se encontravam. Logo fui dizendo ao Coronel (esse era o tratamento que os familiares da Taís, minha mulher, dispensavam-lhe – era a sua patente de militar) que já o conhecia de vista, de ouvir falar, e, principalmente, pelos seus livros. Sabia de sua inteira dedicação à literatura a partir de 1974.

        Na seqüência dessa conversa, o Coronel Piccoli falou-me de seu interesse pela literatura, que vinha de sua infância, e apontou-me seus escritores favoritos: Guimarães Rosa, Mário Palmério, Anton Tchekhov, Dostoiévski, William Faulkner, e outros que seguiu nomeando na agradável conversa. Contou-me, um tanto constrangido, que estava escrevendo um difícil trabalho sobre a obra de Faulkner, por se tratar de um dos mais importantes romancistas norte-americano.

        Não terminamos nossa conversa antes que o Piccoli voltasse a abordar o prêmio Prêmio Jornal de Letras, que recebera em 1975. Disse-me ele que o seu conto premiado foi “Essas coisas na vida de um guasca”, que fora originalmente publicado em Sant'Ana do Livramento, sua cidade natal, no livro 1º Mutirão Literário de Sant'Ana do Livramento, ed. A Platéia, s/d. 

        No dia seguinte, o escritor telefonou-me para dizer que havia deixado esse livro, com o seu conto (“Essas coisas na vida de um guasca”), no apartamento de meu sogro, em cujo livro escreveu esta dedicatória: “Para o meu prezado amigo Pedro Luso ofereço a modesta participação de fls. 23/30. Piccoli. Poa, 12/nov 82”.

        SUAS PRINCIPAIS OBRAS: a) Mealheiros de estórias - 1º lugar no gênero conto do I Congresso Universitário de Literatura, promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1976, co-edição Editora da UFRGS/Editora Garatuja, Porto Alegre, 1977; b) Momentos - livro de contos, com destaque para o conto Essas coisas na vida de um guasca, 2º lugar no I Prêmio Nacional de Contos, promoção conjunta do Jornal de Letras e da Distribuidora Imprensa, Rio de Janeiro, em 1975, AGE Editora, Porto Alegre, 1996; c) Cara de Bronze – romance, que foi merecedor de Menção Honrosa no “I Prêmio Nacional José Lins do Rêgo” e vencedor do IX Prêmio Guimarães Rosa, em 1983 - Tchê Editora, Porto Alegre, 1988. Piccoli também participou de antologias de contos publicadas em vários centros do Brasil.

        A Comissão Julgadora, que concedeu o IX Prêmio Nacional de romance “Guimarães Rosa”, em 1983, Minas Gerais, ao escritor Elbio Prates Piccoli, assim se manifestou: “O romance Cara de Broze afigurou-se à comissão o de mais bem acabada realização. A história do camponês Bertoldo encontra neste romance um trabalho lingüístico e literário pouco comum na moderna ficção brasileira. Este romance, entre nós de difícil e rara realização literária, vive num mínimo de escritos brasileiros (...) resgata a melhor tradição literária vigente entre nós”. 

        Elbio Prates Piccoli nasceu em Sant'Ana do Livramento, cidade que faz fronteira com o Uruguai, no ano de 1925, e morreu em 28 de novembro 2009, em Porto Alegre, aos 84 anos de idade.

        Antes de transcrevermos  Essas coisas na vida de um guasca, conto que integra o seu livro de contos Momentos, Porto Alegre, AGE, p. 41-45, vamos ler o que Sérgio Jochyman, romancista e dramaturgo gaúcho, escreveu no jornal Folha da Tarde, em 12.11.1976, sobre Elbio Prates Piccoli: “Ele escreve pela mesma razão que o sabiá canta. É seu modo de ser”. 

        Segue o conto de Elbio Prates Piccoli, que lhe deu o 2º lugar no I Concurso Nacional de Contos, Prêmio Jornal de Letras/Distribuidora Imprensa, RJ, 1975:



              ESSAS COISAS NA VIDA DE UM GUASCA



        A enorme cicatriz na cara do guasca – dessas deixadas por lanho de facão que depois de cruzados ferros acima das cabeças, chispando lâmina em lâmina, escorrega e desce, um relâmpago, e rasga desde a raiz da guedelha na fonte, do lado direito, passando entre os olhos, no cavalete do nariz, abrindo sulco na bochecha do lado esquerdo, até embaixo da orelha salvante a carótida, talho de mais de palmo – inturgesceu-se junto com seus pensamentos. Essas coisas na vida de um qüera largado: partir para abrir a cancela do mundo, meter-se em revoluções; gauderiar perdidamente, de cambada e bilotagem com outros cupinudos em pombal de beira de estrada, em farromeiros farranchos; voltar depois, estragado, aperreado, lonqueado, aporreado, vazia dos dobrões e bolivianos a guaiaca, e só uns putas quatis-baianos!... Bateu a binga e pôs fogo no palheiro. A montada quieta, à sombra da reboleira, só espaventando a laçaços de cola, das suas virilhas, importunas varejeiras sequiosas do sudor e dos traços de sangue.

        Sob o puxado do rancho, a isso de umas cem braças para dentro do cercado, a mulher lavava roupas na tina. Ele se distraía na espreita, debruçado em forquilha de araçá, qual que estátua de gaúcho assim destroçada da intempérie e dos malevas ladrões, já desfalcado das boleadeiras, permutado o pala por roto bichará, despilchado das doblas da bombacha e dos arreios, restados mesmo de seus o trabuco, o punhal e as esporas. Franziu-se na testa quando, na esteira dos latidos e festejos do cachorro, o pequenote surgiu, encarapitado no pilungo puxador da pipa-de-arrasto, vencendo a dobra do terreno em lançante para o arroio.

        A verberação do sol no pedregulho do caminho produziu-lhe alguma cosquilhação nas vistas, porquanto baixou a aba do sombreiro a modo de protegê-las, ou do testemunho de Deus se a imagem nas suas pupilas do guri diligenciando subida da pipa para o jirau. Baforava o crioulo, mordido e babujado, irresoluto entre arrimar-se ou fazer cara-volta, brincando às mãos com uma ponta das rédeas ora de relhaços nas palmas ora nas formigas encarreiradas nos ramos do arbusto. 

        A mulher movimentou-se para o varal, desentrouxando e estendendo lençóis.

       Aí ele decidiu-se. As chilenas iam riscando lento ruído cansado de carretilhas no trilho, passada a porteira, espavorindo gafanhotos e libelinhas, e logo atrás o modorro pisoteio das patas do cavalo. O cusco alertara-se, de orelhas e olfato, e armou a primeira carreira, ladrando; parou, a pouco mais de dois tiros de laço, farejando interrogações; agachou-se, de barriga no pasto; lambia-se, hesitante; afinal, meneando ancas e a cauda peluda, cabeça humildosa, rumou no trotezito ao encontro do recém-chegado.

        Recostado à tronqueira do curralete, o viajante viu como ela se afligia de recolher para a casa a dois outros pequeninos. No peito do guasca o coração martelou mais forte; uma desconfiança trincou-lhe dentes de jaguatirica na alma.

       Viraçãozinha da banda do nascente fazia olorosas as boninas ao gozo da ressolana, embriagando a passarada no retouço dos ares e do arvoredo. O vestido dela panejava – e ele lembrou-se do estandarte revolucionário – e os cabelos envolviam como pendões de trigal acossado da ventania. Nele, as listas pretas e brancas do poncho dobrado sobre o ombro e as peiteiras abertas do jaleco engolfavam-se em ondulações.

        Desencafuando-se do entre-paus, arrastou o gasto solado das botas até onde ela, abraçado a si o ginete do mancarrão pipeiro, esperando. Encorujado no topo de sua estatura, era tronco de coronilha estorricado de raio, parava-se ali, em frente da mulher, estaqueado num espanto, espiava a porta do rancho. No depoisinho, volveu-lhe uma expressão vincada pelo desprezo, prescrutando no fundo dos seus olhos azuis: Isaltina...? Ela desencorajava-se de sorrir, pateta da surpresa, encobria a falta de dentes com a ponta do avental; e inferia, dos trajes farrapentos, do desaprumo dele, os desperdícios provocados por cinco anos de geadas e soalheiras a deus-dará.

        As luzes do céu da tarde não eram mais intensas do que a alegria nos olhos dela. - “Anda, Fermininho, a tomá a bênça do teu pai” - “Isaltina!...” - e ele subtraía a mão às tentativas da criança por beijá-la - “...Isaltina, e essas duas? Menino e menina de nem três e quatro!” - e sua voz pautava-se grave, acusadora. “Vai, chê, porquera de ruivo nanico! Desencilha, aguateia e bota pra pastorejá o meu zaino.”

        Dela, o gesto de apontar em torno o vazio da campina, apenas povoada pela quincha e a chaminé de lata do casebre, o tímido movimento do braço, pesado de amarga submissão, antecipou sua resposta: - “A gente ficou abandonados, meu marido, sem defesa nestas lonjuras de quem chega com malas intenções. Mulher sozinha, tu sabe, é rês que qualesquer carneia!” 

        Assoviando nas cristazinhas do capim-forquilha, do alpiste, da carqueja – reclinados em respeitoso cumprimento – fazendo gemerem chorões no banhado, a aragem assentava compressas frias na febre da sua alucinação. Pendia-lhe o mango de um lado, no seguimento do membro inerte, enquanto a mão do lado do revólver amaciava, aflitiva, a borla do barbicacho.

       - “Quem sabe tu entra? Descansa. Eu preparo mate e te dou janta. E costuro, prego botões. Aí tu arresolves da nossa vida...” - brotou murmurado suave dos lábios de Isaldina. E ela se voltou, silenciando suas dores, adentrando-se em casa.

        A escuridão e os ruídos noturnos do brejal nanavam a três criaturinhas enrodilhadas num catre. Isaltina, pelas tantas e quantas, interrompia os labores de agulha e linha tão-só para espevitar o candeeiro.

        Ele, no sossego de couro acolchoado em Santa Fé, circunscrevia memórias pelas taipas – em detenças ligeiras no casco de tatu, na lonca de capivara, na pele curtida de cruzeira, na guampa dependurada – terçando armas em peleia de macho, de brutezas e de morte com o avantesma do seu orgulho. Arreceava-se de esquecer contemplação no perfil dela – o mesmo de oito anos atrás, quando esticara aramados naquela sesmaria de campo, erguera o rancho e a fora buscar na cidade, da pensão da Naná. Isaltina havia-lhe dito que Zeca e Maria do Carmo chamavam-se os dois, pagãozinhos todavia. - “Fermininho!... ah!... sangue mesmo do seu , o tal do campeiraço havia-de.”

        Ainda piscava o carijó no poleiro do tapume e ele já encilhando a montada. Isaltina, forneando pão-doce e enrolando cozido para a matula, azafamava-se embaixo do puxado; um descuido e fluíam de pingos na massa lágrimas desconsoladas, de cambulha com gotas de orvalho. Parecia até ela querendo sua saudade viajasse junto com ele. Fermininho ajudando. De correrias com o cachorro as criancinhas. E elas vieram de lá, de bênça-meu-pai, assim ele passava a perna, endireitando-se nos arreios.

         Para os lados das grotas, ao longe, por detrás dos contrafortes escuros da serrania, pegara de barrar-se vermelho o firmamento. E as coxilhas espreguiçavam-se da dormilança.

        De súbito, o ovelheiro, rosnando no meio da alacridade dos inocentes, denunciou o recorte entre as sombras que se esvaeciam, de três vultos, de a-cavalo, envindo-se no chouto desde a varanda vicinal.

        O guasca não se moqueou no brasido da incerteza. Boleou-se, num parpadeio de mocho, entregou as rédeas a Fermininho - “Desarreia o tostado, Ruivo...” - e governou: - “Pra dentro, meus filhos, co'a sua mãe!”

        Na altura do palanque, pertinho de em donde a carreta se abandonara capenga, os três chegadiços sofrenaram os rocinantes. Postado, ele alteante, feito mestre de alambrado, aguardava saudações.

        Replicou: - “Y santas! Se apeiem nomás. Les mando servir um amargo”.



                                                                                (by Elbio Piccoli)