10 de jun de 2008

ASTOR PIAZZOLLA & O NOVO TANGO

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por Pedro Luso de Carvalho

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Astor Pantaleón Piazzolla, nasceu em Mar del Plata, Argentina, em 11 de março de 1921 e morreu em 4 de julho de 1992, em Buenos Aires. Astor Piazzolla foi bandeonista, pianista, maestro, arranjador e compositor, e passou para a História como o criador do Novo Tango, este, contudo, sem ter deixado de ser tango; mudou-lhe, seu criador, a forma de expressão. Daí ter se tornado uma referência da música universal, como gênio incontestável, que é, cujas composições são executadas nos dias atuais, como, aliás, vêm ocorrendo há muitos anos, por concertistas de renome, orquestras de câmara e orquestras sinfônicas.
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Num rápido retrospecto da vida de Piazzolla, vemos que o músico passou a viver em Nova York em 1924, para onde seus pais haviam se mudado. Em 1929 passou a estudar bandoneon, e em 1932 compôs o seu primeiro tango. Teve uma breve participação com Gardel, como ator infantil, no seu filme El dia que me quieras. De volta a Mar del Plata, em 1936, passou a atuar em conjuntos locais. Daí mudou-se para Buenos Aires onde, depois de passar por várias orquestras, passou a integrar a famosa orquestra de Aníbal Troilo, aí permanecendo até o ano de 1944, como bandeonista - também foi arranjador e, ocasionalmente, pianista. Em 1946 formou sua própria orquestra, ainda com o tango tradicional.
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Nessa época, quando alguém perguntava a Astor Piazzolla quem era o maior intérprete do tango, ele tinha pronta a sua resposta: “Gardel é o maior de todos”. Sem dúvida, esse admirável músico sabia o que estava afirmando, pois Gardel era, e ainda é o mais importante intérprete do tango - para muitos o seu criador. Lembro-me de uma conversa que tive, há alguns anos, com um dos maestros da Orquestra Sinfônica de Porto alegre, que atualmente vive em Buenos Aires, sua terra natal, sobre Carlos Gardel; eu estava curioso para saber o que esse músico erudito diria sobre o tango, e, especialmente, sobre Gardel. Disse-me o maestro ser um apreciador do tango, e que isso não conflitava com a sua formação de músico erudito, e que, no seu entender, Carlos Gardel é insuperável.
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Nessa ocasião, fiquei pensando no poderia dizer Carlos Gardel sobre Astor Piazzolla, se o tivesse acompanhado depois que este deixou o tango tradicional para abrir-lhe um novo caminho, sem, no entanto abandoná-lo, mas para dar nova roupagem ao tango; e logo pensei numa possível resposta de Gardel: “Piazzolla é o maior de todos”. Nesse caso hipotético certamente Gardel estaria fazendo uma justa apreciação sobre o músico e poeta criador do Novo Tango, que levou o tango tradicional aos seus limites, do ponto de vista estético.
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Voltando ao início da difícil empresa de Piazzolla, vemos que as dificuldades desafiaram a determinação do criador do Novo Tango, mas a resistência à sua música por críticos e músicos, não foi suficientemente forte e decisiva para impedir que seu espírito inovador levasse à frente o seu empreendimento. Piazzolla impôs a sua música, depois de resistir a ação dos conservadores. A sua música não ficou apenas nos limites da Argentina, alçou vôo para o Estados Unidos, onde encontrou boa recepção pelo mundo do jazz, daí passou para a Europa e Japão. No Brasil, também teve, e tem muitos admiradores..
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Passagem interessante na vida de Piazzolla deu-se nos primeiros anos de 1950, quando o músico teve que decidir sobre com qual instrumento ficaria, bandoneón ou piano; e também se passaria a dedicar-se à música clássica, com a qual já tinha intimidade, como músico e compositor. Foi pensando nessa mudança de gênero que Piazzolla mudou-se para a França, quatro anos mais tarde, para freqüentar o Conservatório de Paris, onde conheceu a professora Nadia Boulanger; esta, depois de ter tido um maior contato com o instrumentista e compositor, aconselhou-o a desenvolver sua música tendo por base o tango e o bandoneon. .
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Não demorou muito para que os amantes da música viessem a dar razão a musicóloga. Em 1955, gravou em Paris, com a Orquestra da Ópera de Paris, com Martial Solal ao piano e Piazzolla ao bandoneon, 16 temas, sendo que 14 deles eram de sua autoria: Nonino, Marrón y azul, Chau, Paris, Bandó, Picasso, entre outros. [Nonino foi composta antes de ‘Adiós Nonino; esta famosa e emocionante composição foi escrita por Piazzolla, depois da morte de seu pai, para dele se despedir.]

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Piazzola retornou a Argentina e passou a dirigir a Orquestra de Bandoneon y Cordas, com suas novas composições, com as quais começou a trilhar o seu novo gênero, que passaria a ser conhecido como Novo Tango: Tango del Ángel', e Melancólico Buenos Aires. Nessa época, o repertório de Piazzolla ainda era composto de tangos tradicionais, com suas adaptações, e com tangos atuais na época, de outros músicos: Negraça, de Osvaldo Pugliese, Del bajo fondo de José e Osvaldo Tarantino, Vanguardista, de José Bragato.
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Nessa época, Piazzolla formou o seu Octeto Buenos Aires, formado com músicos do mais alto nível, apresentando ao público um tango que até o momento lhe era desconhecido. Para muitos, esse Octeto constituiu-se no ápice de sua carreira. Com esse octeto gravou apenas dois long-plays, com grandes tangos tradicionais, com suas devidas reinterpretações, tais como: El Marne, Los mareados, Mi refugio e Arrabal.
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Piazzolla retornou a Nova York em 1958, onde passou por muitas dificuldades. De todos os contratempos pelos quais passou, teve como saldo positivo a experiência que fez com jazz-tango, que, parece, não dele não se agradou, possivelmente pelas concessões comerciais que fez com tal experiência. Em 1960 Piazzolla retornou a Buenos Aires e formou o Quinteto Nuevo Tango (bandoneon, piano, violino, guitarra elétrica e contrabaixo); este, que se somou a outros conjuntos que foram fundamentais em sua carreira, foi aclamado por parte do público, e, em especial, pelos universitários.
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Com o passar do tempo, os músicos do ‘Quinteto Nuevo Tango’ foram sendo substituídos. Seu repertório era variado, incluindo tangos de Piazzolla, como Adiós, Nonino, Decarísimo, Calambre, Los poseídos, Introducción al ángel, Muerte del ángel, Revirado, Buenos Aires Hora O e Fracanapa, entre outros. Integrava o Quinteto Nuevo Tango, Héctor de Rosas, com quem Piazzolla viria fazer inesquecíveis versões de Milonga triste e tangos como Cafetín de Buenos Aires", Maquillaje, Nostalgias e Cuesta abajo, entre outros. Em 1963, Piazzolla retornou ao octeto com o ‘Nuevo Octeto’, que embora não tenha se igualado ao Quinteto, deu-lhe experiência para incluir a flauta, a percussão e a voz nos seus futuros conjuntos .
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Nos intensos anos vividos por Piazzolla, têm relevo as experiências de 1965, com o concerto do Quinteto com a Philarmonic Hall of New York, quando o público veio a conhecer a Serie del Diablo, além da Serie del Ángel, e de La mufa. Em Buenos Aires, Piazzolla gravou uma série de composições da melhor qualidade sobre poemas e textos de Jorge Luis Borges, com o cantor Edmundo Rivero e o ator Luis Medina Castro. Nesse mesmo ano gravou Verano porteño; este, o primeiro dos tangos antológicos que passariam a integrar as Cuatro Estaciones. Essa obra foi gravada no Brasil pela Orquestra de Câmara de Blumenau”.
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Piazzolla dá início a um novo empreendimento com o poeta Horacio Ferrer; dessa parceria nasceu a opereta María de Buenos Aires (na qual se destaca Fuga y misterio); depois, criam muitos tangos. Em 1969 lançaram músicas que se tornariam famosas, como Balada para un loco e Chiquilín de Bachín, ambas também gravadas com a cantora Amelita Baltar e com o cantor Roberto Goyeneche. Em 1972, Piazzolla gravou a sua excelente peça, Concierto para quinteto; dada em que formou o Conjunto 9, com quem gravou Música contemporánea de la ciudad de Buenos Aires, que transcendeu a discussão do que seria o tango..
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Mais uma vez Piazzolla deixa a Argentina, agora para uma temporada na Itália, onde lançou Balada para mi muerte, com a contora Milva, Libertango e a comovente Suite troileana, que escreveu em 1975, quando ainda se encontrava abalado pela notícia da morte de Aníbal Troilo. Três anos após, compôs e gravou com orquestra, músicas dedicadas ao campeonato mundial de futebol realizado na Argentina, quando o país vivia os dias sangrentos da ditadura militar, imposta em 1976; a Seleção Argentina sagrou-se campeã mediante manipulação política dos militares. Para muitos, Piazzolla cometeu um erro imperdoável ao homenagear esse campeonato.
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Em 1979, novamente com seu quinteto, apresentou, entre outras peças, Escualo. Nessa época, e nos anos que se seguiram, Piazzolla uniu-se a outros excelentes músicos como George Moustaki (para Moustaki compôs as belíssimas músicas Hacer esta canción e La memoria), Gerry Mulligan e Gary Burton. Dentre outra atuações com o quinteto, destaca-se a inesquecível apresentação em 1987 no Central Park de Nova York.
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Lembro-me quando, acompanhado de minha mulher, estive na apresentação de Piazzolla e seu Sexteto (o último que formou), quando se apresentou no Teatro da Universidade Federal de Porto alegre, em fins dos anos 80. Sem dúvida, um privilégio para nós. Aí ouvimos suas músicas inesquecíveis, as mesmas que ainda ouço pela Rádio da Universidade, por CDs e DVDs, tais como:
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Contrabajeando, Tanguísimo, La calle 92, Oblivion, Años de soledad, Los pájaros perdidos, Lunfardo, Bailongo, Vuelvo al Sur, Adios nonino, Otoño porteño, Balada para un loco Libertango, Melancólico Buenos Aires, Tango del Ángel, Balada para mi muerte, L’Evasion, Tangata de Alba, Milonga del Ángel, No quiero outro, Bíyuya, Lunfardo, Escualo, Chiquilín de Bachín, Meditango, Lãs quatro estaciones porteñas, entre outras.



REFERÊNCIA:
PIAZZOLLA, Astor, por Julio Nudler, Disponível em Todo Tango: Acesso em 10 de jun.2008.