11 de mar de 2009

[Poesia] PEDRO LUSO - A Mulher e o Algoz




                                                                                
 [ESPAÇO DA POESIA]


A MULHER E O ALGOZ
 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
      


Quarto às escuras. Noite chuvosa.
No desalinho da cama, absorta,
 a mulher olha através da janela.

Da rua, nesga de luz clareia livros
sobre o velho baú. Na calçada, iluminado
entre ramos de árvores, o relógio:

longos ponteiros, duplicados
pelo efeito das sombras. Mulher
paralisada: dos pulmões puxa o ar

que falta, e sente a ameaça mortal.
Aterrorizada, coração descompassado,
desmaio. Passam minutos, horas

ou séculos – resta o desfecho. Na rua,
silêncio e ruído de carros alternam-se
sobre o asfalto molhado.

Lívida, no chão busca refúgio:
rosto entre os joelhos – domínio
do medo. Na porta, forte batida

transpassa-a (barulho de passos,
escuridão, mulher encolhida
no assoalho, desesperançada).

De repente, no frio da noite,
lâmina zune no breu: dor lancinante.
Grunhido de ave ferida.




  *  *  *