17 de set de 2009

DINHEIRO APLICADO EM AÇÕES



por Pedro Luso de Carvalho

Enquanto aguardava a partilha de uma pequena herança, em ação de inventário que tramitava numa das Varas de Família e Sucessões do Foro Central de Porto Alegre, meu cliente, um dos herdeiros, não saia do banco que elegeu para fazer suas futuras aplicações monetárias, buscando entender os meandros da Bolsa de Valores, para, no mínimo, duplicar o dinheiro que logo passaria aplicar.


De posse de seu formal de partilha, não titubeou: destinou tudo o que recebeu em ações, de médio e longo prazo. Resultado: transcorrido um pouco mais de três anos, o dinheiro sumiu, na sua integralidade. Hoje, esse incauto aplicador em ações vive as amarguras que são próprias de quem não tem mais perspectivas. É mais um número nesse caos.


Essa história que contam, que uma aplicação financeira em ações de empresas sólidas - principalmente para longo prazo -, traz resultados de ganho garantido, não é engodo recente, pelo contrário, vem de muitos anos. É o que encontramos na obra O Fim dos Ricos, do Professor Honorário do Colégio de França e Representante da França nos Nações Unidas, Alfred Sauvy, com tradução de Roberto Cortes de Lacerda e Helena da Rosa Cortes de Lacerda, publicado pela Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1977. O demógrafo, antropólogo e historiador da economia francesa, Alfred Sauvy (1898-1990), foi quem cunhou a expressão "Terceiro Mundo", que a usou para classificar, no âmbito da economia política, os países pobres; países esses que, ainda hoje, são chamados pelos políticos e por alguns economistas, de “países em desenvolvimento”, num eufemismo mal-intencionado.


Vejamos, pois, o que Sauvy escreveu, em 1975, quando a Editora Calmann-Lévy, de Paris, França, editou Le fin des riches: “O difícil, como se sabe, não é tanto ganhar dinheiro, mas conservá-lo. Tradicionalmente, aquele que economiza, isto é, adia um consumo, tem intenção de efetuá-lo mais tarde, com, até mesmo, um pequeno suplemento. Se a soma anual é suficiente, o proprietário pode viver sem fazer nada”.


“Entretanto, o capitalista - prossegue Sauvy -, na acepção de alguém que vive de rendas, desapareceu. Desde os anos 20, quando a esperança insensata do “retorno a como era antes” se dissipou, aqueles que poupam se voltaram para os valores “reais”, que são as ações. Mas visto que, com o passar do tempo, o cálculo se apresentava cada vez mais decepcionante, foi preciso procurar outra coisa. Se bem que uma sociedade por ações possua, sem dúvida, “valores reais”, fábrica etc, uma ação nunca é mais do que um papel. Antes da nacionalização das estradas de ferro, as companhias tinham um ativo enorme, mas o valor das estações, vias, oficinas, material rolante etc, não tinha qualquer sentido mercantil, até mesmo... a estação de Perpignan, tão grata a Salvador Dali”.


Conclui, Sauvy: “O incansável poupador que, por função, segrega incansavelmente o seu suco, procurou verdadeiros “valores reais”, para conservar o fruto do seu suor ou da sua massa cinzenta. Muitas soluções se apresentaram a essa formiga”. O autor termina esse capítulo, falando sobre o ouro, Picasso, pedra e terra. Possivelmente, voltaremos a esse assunto mais tarde.

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