14 de ago de 2013

RAINER MARIA RILKE – O poeta e a religião


                  
                        [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


RAINER MARIA RILKE nasce em Praga, quando esta integra o Império Austro-Húngaro, a 4 de dezembro de 1875. No cartório de registro civil foi averbado o  nome de René Karl Wilhelm Josef Maria Rilke. O prenome René foi mudado anos mais tarde para Rainer.

Até aos cinco anos de idade, a mãe de René impõe ao menino uma educação de menina. Esse foi o meio encontrado por ela para aplacar a dor da perda da filha recém-nascida. Tal distorção na educação do filho não impede que ele se torne um dos mais importantes escritores de língua alemã, tanto em prosa como em poesia.

O caminho que Rilke percorre até ser reconhecido como expressivo escritor impõe-lhe determinação para vencer os seus inúmeros obstáculos. Um fato de grande significado, a religiosidade que a mãe Sophie impõe a ele desde a mais tenra idade, deixa para sempre sua marca. Religiosa fanática, Sophie educa o filho de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica.

Rilke tem uma infância infeliz. Sofre com a separação dos pais, cujo casamento não pode ser sustentado pelo desnível sociocultural do casal. Sophie Entz vem de uma rica família pequeno-burguesa.  Joseph Rilke, um ex-oficial e inspetor ferroviário, é homem simples e rude para os padrões de sua família. Mas é o arrebatamento religioso da mãe que causa maior sofrimento ao menino. Mais tarde Rilke afasta-se do cristianismo, com forte recusa de Cristo e da Igreja.

O que foi dito sobre o arrebatamento religioso de Sophie, pode ser aquilatado pela carta que ela, sua mãe, lhe escreve em 1922, quando Rilke conta na época com 47 anos: “À meia-noite na mesma hora em que nascera nosso Salvador – e já que era noite de sexta-feira para sábado – você se tornou um filho de Maria, com a bênção da madona misericordiosa”.

A fase escolar é para Rilke de tal forma tormentosa que, quando estuda em internato militar (1886-1891), no dia em que completa dezenove anos escreve uma carta para sua amiga Valerie von David Rohnfeld fazendo-lhe um retrospecto de sua vida:

“Você conhece a história sem brilho de minha infância falha, e conhece também aquelas pessoas que carregam a culpa por eu não conseguir guardar nada ou quase nada de agradável daqueles dias de minha formação (...). Na minha forma infantil de compreensão, acreditava que minha paciência me aproximava do mérito de Jesus Cristo. Certa vez, ao receber uma forte tapa no rosto, tão forte que meus joelhos tremeram, disse ao meu agressor injusto – posso ouvir ainda hoje – em voz baixa: Eu tolero isto porque Cristo também tolerou, em silêncio, sem lamentação, e enquanto você me batia eu rezava a meu bom Deus para que te perdoasse...”.

Diz mais Rilke, em sua carta para Valerie: “Então fugi, recuando até o último vão da janela, segurando minhas lágrimas para que somente à noite, quando pairasse a respiração regular dos garotos no amplo dormitório, elas rompessem impetuosas e calorosamente. E na noite em que se comemoravam os anos de meu nascimento, não sei quantos, ajoelhei-me na cama e, de mãos postas, pedi pela morte. Naquele tempo, uma doença me pareceria um sinal certo de elevação, só que ela não vinha. Em compensação, começou a se desenvolver naquela época o impulso de escrever, que mesmo no seu princípio, ainda ingênuo, já me servia de consolo”.

O fato de Rilke não se defender ante essa agressão, não respondendo com qualquer meio de defesa, quer física, quer verbal, denota que assume o papel de Cristo, sentindo-se legitimado religiosamente, e, com isso, onde deveria estar presente a autopreservação via em seu lugar assentar-se um sentimento de masoquismo, posição essa que o faz sofrer, até que, adulto, despede-se do culto de Cristo e de sua Igreja, aos dezoito anos, um ano antes de escrever a carta para sua amiga Valerie, quando fez, em 2 de abril de 1893, sua Confissão de Fé, como se vê no primeiro verso do poema:

Vós cristãos piedosos de boca para fora,
a mim julgais ateu e ides embora
para longe de mim,
só porque diferente de vós todos
não me deixo levar pelos engodos
das armadilhas do cristianismo.

Como muda, no tocante à religiosidade, Rilke passa a traçar o seu próprio caminho como escritor; assim passa do simbolismo para a busca do que significaria a arte e a morte, com algumas de suas obras: Livro de horas, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu – este é considerado por muitos críticos o seu melhor livro de poemas – e Os cadernos de Malte Laurides Brigge (seu único romance).

Pela expressividade de sua obra, de modo especial seus livros de poemas, voltarei a escrever sobre Rilke  em outra oportunidade, já que neste texto a abordagem é feita sobre alguns fatos de sua infância e de sua religiosidade, bem como sobre a influência de sua mãe, e com o seu afastamento de Cristo e da Igreja. Também muito se pode dizer de sua vida, sua formação cultural, seu relacionamento com a intelectual e escritora Lou Andréas-Salomé, seu casamento com Clara Westhoff, etc.

Rainer Maria Rilke é acometido de leucemia, doença que o leva à morte no dia 2 de janeiro de 1926, aos 51 anos, no sanatório de Valmont, na Suíça.




REFERÊNCIAS:
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil, 1979.
KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras. São Paulo: Edições Loyola, 1999.



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