15/02/2008

RAINER MARIA RILKE & A Religião





por Pedro Luso de carvalho

O menino René (quando adulto mudou seu nome para Rainer) que até os cinco anos de idade teve a educação de menina imposta por sua mãe, que perdera antes dele uma filha recém nascida, anos mais tarde se tornaria um dos mais importantes escritores de língua alemã, dedicado à prosa e, em especial, à poesia. O menino nasceu em Praga, na época parte do Império Austro-Húngaro, em 4 de dezembro de 1875, e foi registrado com o nome de René Karl Wilhelm Josef Maria Rilke.


Mas antes que se tornasse esse expressivo escritor, poeta de renome, muitos obstáculos criariam dificuldades para o seu desenvolvimento, sendo que um fato de grande significado, que o marcaria para sempre, foi a religiosidade que lhe impusera sua mãe Sophie, desde a mais tenra idade. Sua mãe, uma religiosa fanática educou-o para que seguisse os ensinamentos da Igreja Católica, sempre atenta para que a presença de Deus fosse uma constante em sua vida.


A infância infeliz de Rilke deveu-se também à separação de seus pais; Sophie Entz oriunda de uma rica família pequeno-burguesa sentia-se decepcionada com o casamento que fizera com Joseph Rilke, ex-oficial e inspetor ferroviário, homem simples e rude para os padrões de sua família. O que mais contribuiu, no entanto, para o sofrimento do menino foi o arrebatamento religioso de sua mãe, que mais tarde o levaria a afastar-se do cristianismo, com forte recusa de Cristo e da Igreja.


O que foi dito sobre o arrebatamento religioso de Sophie, pode ser aquilatado pela carta que ela, sua mãe, lhe escrevera em 1922, quando Rilke já contava com 47 anos: “À meia-noite na mesma hora em que nascera nosso Salvador – e já que era noite de sexta-feira para sábado -, você se tornou um filho de Maria, com a bênção da madona misericordiosa”.


A fase escolar de Rilke foi de tal forma tormentosa que, quando estudou em internato militar (1886-1891), no dia em que completou dezenove anos escreveu uma carta para sua amiga Valerie von David Rohnfeld fazendo-lhe um retrospecto de sua vida:


“Você conhece a história sem brilho de minha infância falha, e conhece também aquelas pessoas que carregam a culpa por eu não conseguir guardar nada ou quase nada de agradável daqueles dias de minha formação (...) Na minha forma infantil de compreensão, acreditava que minha paciência me aproximava do mérito de Jesus Cristo. Certa vez, ao receber uma forte tapa no rosto, tão forte que meus joelhos tremeram, disse ao meu agressor injusto – posso ouvir ainda hoje – em voz baixa: ‘Eu tolero isto porque Cristo também tolerou, em silêncio, sem lamentação, e enquanto você me batia eu rezava a meu bom Deus para que te perdoasse’...


E Rilke continua com sua carta para Valerie: “Então fugi, recuando até o último vão da janela, segurando minhas lágrimas para que somente à noite, quando pairasse a respiração regular dos garotos no amplo dormitório, elas rompessem impetuosas e calorosamente. E na noite em que se comemoravam os anos de meu nascimento, não sei quantos, ajoelhei-me na cama e, de mãos postas, pedi pela morte. Naquele tempo, uma doença me pareceria um sinal certo de elevação, só que ela não vinha. Em compensação, começou a se desenvolver naquela época o impulso de escrever, que mesmo no seu princípio, ainda ingênuo, já me servia de consolo”.


O fato de Rilke não se defender ante essa agressão, não respondendo com qualquer meio de defesa, quer física, quer verbal, denota que assumia o papel de Cristo, sentindo-se legitimado religiosamente, e, com isso, onde deveria estar presente a autopreservação via em seu lugar assentar-se um sentimento de masoquismo, posição essa que o fazia sofrer, até que, adulto, despede-se do culto de Cristo e de sua Igreja, aos dezoito anos, um ano ante de escrever a carta para sua amiga Valerie, quando fez, em 2 de abril de 1893, sua Confissão de Fé, como se vê no primeiro verso do poema:

Vós cristãos piedosos de boca para fora,
a mim julgais ateu e ides embora
para longe de mim,
só porque diferente de vós todos
não me deixo levar pelos engodos
das armadilhas do cristianismo.


Como mudou no tocante à religiosidade, Rilke passou a traçar o seu próprio caminho como escritor, passando do simbolismo para a busca do que significariam a arte e a morte, com suas obras, entre outras: Livro de horas, Elegias de Duíno, Sonetos a Orfeu, (para muitos críticos o seu melhor livro de poemas) Os cadernos de Malte Laurides Brigge (seu único romance).


Pela expressividade de sua obra, de modo especial seus livros de poemas, voltaremos em outra oportunidade a falar de Rilke, sob outro ângulo, sem a abordagem feita neste artigo, que esteve limitada a alguns fatos de sua infância e de sua religiosidade, a influência de sua mãe, bem como seu afastamento de Cristo e da Igreja. Também muito se pode dizer de sua vida, sua formação cultural, seu relacionamento com a intelectual e escritora Lou Andréas-Salomé, seu casamento com Clara Westhoff, etc.


Rainer Maria Rilke acometido de leucemia, morreu no sanatório de Valmont, na Suíça, no dia 2 de janeiro de 1926, aos 51 anos.



REFERÊNCIAS:
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil, 1979.
KUSCHEL, Karl-Josef. Os escritores e as escrituras. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

Nenhum comentário:

Postar um comentário