8 de set de 2009

ERICH FROMM - A ADAPTABILIDADE DO HOMEM





por Pedro Luso de Carvalho



Escolhemos para esta publicação um texto de Erich Fromm, um dos mais destacados psicanalistas e ensaístas contemporâneos. Fromm estudou Sociologia e Psicanálise nas Universidades de Heidelberg, Frankfurt e Munique. Por ser descendente de judeus, e antevendo, com a ascensão do nazismo, o que mais tarde viria acontecer na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), emigrou para os Estados Unidos em 1932, tornando-se cidadão norte-americano. Seus livros ainda são traduzidos em muitos países. Deu interpretação própria às finalidades da terapêutica, aprofundando-se no estudo sobre a necessidade de ajustar o indivíduo ao meio social e cultural. Erich Fromm nasceu em Frankfurt am Main, em 23 de março de 1900, e faleceu em Muralto, Suíça, em 18 de março de 1980.


Segue, pois, um trecho do livro Análise do Homem (Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1960), trecho este que tem por título Natureza e Caráter do Homem, no qual Erich Fromm inicia-o com ênfase na situação humana, dizendo:


“Um indivíduo representa a raça humana: ele é um exemplo específico da espécie humana. Ele é “ele” e é “todos”; ele é um indivíduo com suas peculiaridades e, nesse sentido, sem igual, mas ao mesmo tempo é representativo de todas as características da raça humana. Sua personalidade individual é determinada pelas peculiaridades da existência humana, comum a todos os homens. Por isso, o exame da situação humana deve preceder o da personalidade”.


E, no título A Debilidade Biológica do Homem, diz Fromm: “O primeiro elemento que diferencia o homem da existência animal é negativo: a ausência relativa, no homem, de uma regulação instintiva do processo de adaptação ao mundo que o rodeia. O modo de adaptação do animal a seu mundo é sempre o mesmo; se o seu equipamento instintivo não mais estiver apto a fazer face a um meio em transformação, a espécie perecerá. O animal pode adaptar-se a condições mutáveis modificando-se a si próprio – aloplasticamente.

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Desta maneira, ele vive harmoniosamente - escreve Fromm -, não na acepção de ausência de luta, mas na de que seu equipamento herdado torna-o uma parte fixa e imutável de seu mundo: ou ele se adapta ou morre. “Quanto menos completo e rígido for o equipamento instintivo dos animais, tanto mais desenvolvido será seu cérebro e, por conseguinte, sua capacidade de aprendizagem”.


A seguir, Fromm diz que o homem está em parte em desvantagem em relação aos animais e traça uma comparação com o homem, desprovido que é desse instinto para adaptar-se, com a mesma intensidade que os animais: “O aparecimento do homem pode ser definido como tendo ocorrido no ponto do processo da evolução em que a adaptação instintiva atingiu seu mínimo. Ele aparece, porém, com novas qualidades que o diferenciam do animal: sua consciência de si mesmo como entidade independente, sua capacidade de lembrar o passado, de visualizar o futuro, e de indicar objetos e atos por meio de símbolos; sua razão para conceber e compreender o mundo; e sua imaginação, graças à qual ele alcança bem além do limite de seus sentidos. O homem é o mais inerme dos animais, mas esta mesma debilidade biológica é a base de sua força, a causa primordial do desenvolvimento de suas qualidades especificamente humanas”.


E no que diz respeito à condição gregária do homem, contrária, pois, a uma vida alienada, longe de seus semelhantes, diz Erich Fromm: “O homem é sozinho e, ao mesmo tempo, relacionado com outros. Ele é sozinho por ser uma entidade original, não idêntica a outrem, e cônscio do próprio ‘eu’ como uma entidade independente. Ele tem de ficar sozinho quando precisa julgar ou tomar decisões exclusivamente baseado no poder de seu raciocínio. E, no entanto, ele não suporta ficar sozinho, desligado de seus semelhantes. Sua felicidade depende da solidariedade que sente com os outros homens, com as gerações passadas e futuras”.

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