16 de nov de 2011

GUIMARÃES ROSA – Parte II

João Guimarães Rosa

                      por  Pedro Luso de Carvalho


          Como vimos na primeira parte deste trabalho, formado, Guimarães Rosa iniciou-se no exercício da medicina. Foi dedicado e respeitado pelos pacientes da pequena Itaguara, cidade pobre de Minas, seu Estado. Nesse período, um fato marcou-lhe profundamente: morreu a pessoa que estava sob seus cuidados, e, à vista disso, não sabia que resolução tomar. Ao lado do morto, o padre já esperava para encomendar-lhe a alma, enquanto o jovem médico ainda lhe aplicava injeções e mais injeções como se isso pudesse ressucitá-lo. Passou uma noite terrível. Em casa, mais tarde, muito aflito e sem jantar fechou-se no seu quarto, tomado por preocupações de represálias. Para seu alívio, soube depois que todos os parentes e amigos do morto reconheceram sua luta para salvá-lo.

        Deixou Itaguara dois anos mais tarde. De volta a Belo Horizonte ingressou na Força Pública como médico voluntário na Revolução Constitucional de 1932. Posteriormente passou a exercer esse cargo após sua aprovação por concurso público. Tempos depois transferiu-se para Barbacena, na condição de oficial-médico do 9º Batalhão de Infantaria.

        Com a vida mais calma e com a segurança que passa a ter com a efetivação no cargo, em 1934, sobra-lhe tempo para dedicar-se também à leitura e ao estudo das línguas, embora não se descuide da medicina. “Estudava línguas para não me afogar completamente na vida do interior” - confessa o escritor. Seus estudos do idioma russo foram aperfeiçoados em Barbacena com um soldado russo da polícia militar de Minas. Depois estudou com cadetes e antigos oficiais do exército tzarista, que faziam parte do Coro dos Cossacos do Juban e do Don, que estiveram nessa cidade.

        Nessa época, um amigo seu, que tinha consciência dos seus conhecimentos sobre línguas estrangeiras, sugeriu-lhe: “Se você gosta tanto de estudar línguas, por quê não faz concurso para o Itamaraty?” Depois de pensar sobre esse conselho, decidiu-se a prestar concurso. E, para essa empreitada, comprou livros e entregou-se aos estudos. Assim, em 1934 submeteu-se, no Rio de Janeiro, ao concurso do Itamaraty. Foi aprovado em segundo lugar.

        Em que pese os muitos compromissos que tinha nessa nessa época, em nenhum momento deixou de estar atento à literatura. Escreveu contos e versos; estes foram reunidos no livro Magna, com o qual em 1936 concorreu ao prêmio da Academia brasileira de Letras. Obteve boa classificação, mas, por fim, resolveu que não o publicaria. Magna permaneceu inédito por 60 anos, por exclusiva vontade do escritor-poeta. Sua publicação deu-se apenas em 1997, ou seja, 30 anos após sua morte.

        No ano de 1937 Guimarães Rosa econtrava-se no Rio de Janeiro, distante de sua terra e tomado de saudade; e foi nessa época que escreveu os contos de Sagarana – o título ainda não definitivo era Sezão -, nos quais mostra seu estilo vigoroso; também neles aparece sua capacidade descritiva quando mostra a beleza selvagem da paisagem mineira. Nesses contos de Sagarana aparecem com a mesma força a vida das fazendas, a vida dos vaqueiros e dos criadores de gado. A gente simples que aparece nos contos, vividas ou imaginadas, estão ligadas à sua infância e mocidade. 

        Além do estilo da escrita, da descrição da paisagem e da vida na região, a literatura ganha com a riqueza da linguagem desses contos que compõem o livro Sagarana; linguagem essa que se constitui numa marca do escritor; com ela o escritor fala da gente simples do sertão e faz um registro inédito na nossa literatura, que atingirá o seu ápice com Grande Sertão:Veredas. [Não exagerou o poeta Ferreira Gullar quando disse, num programa de televisão apresentado neste semestre de 2011, que qualquer pessoa que pretenda escrever nos mesmos moldes de Guimarães Rosa está fadado ao fracasso.]
Graciliano Ramos

      Nesse mesmo ano de 1937 Guimarães Rosa inscreveu-se com Sagarana ao Prêmio Humberto de Campos, instituído na época pela editora José Olimpio; sua intenção era a de ganhar o concurso, mas não apenas isso, queria, também, saber o que pensavam de sua obra, como a avaliavam; para ele a opinião da comissão julgadora era muito importante, já que não conhecia escritores, e assim não tinha o ensejo da troca de ideias. Ainda mais sabendo que dentre os jurados encontravam-se Marques Rebelo e Graciliano Ramos. Em 1938, nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo, o escritor segue para a Europa. Aí, recebe a notícia de que Maria Perigosa, de Luís Jardim, fora o livro premiado nesse concurso.

        Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, é Guimarães Rosa internado, com Cícero Dias, Cyro de Freitas Vale e outros, em Baden-Baden. Aproxima-se de Cícero Dias, com quem faz amizade, e acaba por lhe mostrar os originais de Sagarana. O pintor gosta do livro, e anima Guimarães Rosa a publicá-lo.

        Libertado mais tarde com os outros, em troca de diplomatas alemães, o escritor retorna à América do Sul; depois de rápida passagem pelo Rio, segue para Bogotá, como secretário de Embaixada, de onde volta em 1944. Um ano depois, retoma os originais de Sagarana, e em cinco meses de trabalho árduo e contínuo refaz inteiramente o livro, suprimindo duas histórias. Em 1946, o volume é publicado pela editora Universal, com grande sucesso: recebe o prêmio da Sociedade Felipe d'Oliveira, e é aclamado como uma das mais importantes obras de ficção aparecidas no Brasil nos últimos anos.


        NOTA: Para acessar a continuação deste trabalho, clicar em Guimarães Rosa - Parte III





REFERÊNCIAS:
PEREZ, Renard. Esccritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.
VESSONI BITTENCOURT, Patricia. Paulo Cesar Lopes. João Guimarães Rosa. São Paulo: Expressão Popular, 2008.


                                                                   *  *  *  *  *  *