17 de ago de 2017

LIMA BARRETO – Talento e Rebeldia



      
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

LIMA BARRETO é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Nasceu no dia 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, onde morreu, em 1 de novembro de 1922, com 41 anos. Iniciou os seus estudos aos seis anos, no Liceu Popular Niteroiense; aos onze anos concluiu os preparatórios no Colégio Pedro II; passou a estudar na Escola Politécnica; viu-se obrigado a interromper o curso, deixando, pois, de receber o diploma de bacharel, para ajudar no sustento da família, por ser ele o filho mais velho, depois que seu pai foi acometido de grave doença mental. Para atingir esse objetivo, Afonso Henriques de Lima Barreto prestou concurso público para a Secretaria da Guerra; aprovado, foi nomeado para o cargo de terceiro-oficial.
Uma vez efetivado para o cargo, na Secretaria da Guerra, Lima Barreto passou a colaborar em pequenos jornais de estudantes. Aí começaria a sua carreira de escritor. Nessa época, encontrava-se indeciso quanto à escolha do gênero literário, se ensaio ou ficção. Depois de ter desistido de um projeto de escrever uma história da escravidão no Brasil, decidiu que seria romancista, e como tal se distinguiria pelo talento e honestidade, colocados em suas obras: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Numa e a Ninfa (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e Sonhos (1920), Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), entre outros; estas duas últimas obras foram publicadas depois da morte do autor.
Essa vigorosa obra passou a ser recebida com respeito pela crítica literária. Manoel Bandeira escreveu sobre Lima Barreto: “Incorreto de linguagem, mas penetrante na observação dos costumes e da paisagem urbana e suburbana de sua cidade natal”. Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas e Bagatelas, o romancista caiu no esquecimento de forma inexplicável. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Os movimentos para a reabilitação do escritor merece um texto à parte, que poderá ser abordado neste espaço, em outra ocasião. Por enquanto, ficaremos com este texto, falando da vida e da obra de Lima Barreto, que, ainda jovem, lia na Biblioteca Nacional e na Escola Politécnica, onde estudava os volumes de Descartes, Condillac, Condorcet, Kant, Spencer e Comte. Em especial, o livro que mais o influenciou nessa fase de aprendizado: “Discurso do Método”, de Descartes.
Sobre o seu primeiro livro, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pretendeu, simplesmente, diz o próprio romancista, mostrar que “um rapaz nas condições de Isaías, com todas as disposições, pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito”. E, diz mais, na mesma carta: “Não sei como me saí da empresa. Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquele que me surgiu para lutar contra a indiferença, a má vontade dos nossos mandarins literários”.
O fato de ser ele mulato, neto de escravos, filho de uma escrava e de um português, levou-o a sentir o peso do preconceito racial, sentimento esse que viria contribuir para que ele se tornasse um escritor profundo, bem diferente dos demais escritores de sua época, na sua maioria. Naqule tempo, o preconceito que existia no Brasil era muito mais intenso que nos dias atuais, sem dúvida. Mas mesmo assim Veiga Miranda publicou um artigo em São Paulo sobre Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e discordou do escritor: “Estamos muito longe dos Estados Unidos. Poder-se-ia dizer antes que uma dose de mulatice até influi favoravelmente na carreira do indivíduo”.
Lima Barreto não deixou de responder a Veiga Miranda, e o fez de forma clara e irrefutável: “Quanto ao preconceito de cor, diz o senhor que ele não existe entre nós. Houve sempre uma quizília que se ia fazendo preconceito quando o Senhor Rio Branco tratou de “eleganciar” o Brasil. Isto não se prova, sei bem; mas se não tenho provas judiciais, tenho muito por onde concluir. Porque aí, em São Paulo, e em Campinas também, há sociedades de homens de cor? Hão de ter surgido devido a algum impulso do meio, tanto que no resto do Brasil não as há”. Quanto a não haver sociedades de gente de cor fora de São Paulo e de Campinas, como diz Lima, este não poderia dizer o mesmo se tivesse vivido em torno dos anos 50 em diante, quando essas sociedades eram, e talvez ainda sejam, encontradas em outros Estados da União, como, por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
 Luiz Ricardo de Leitão, autor de Lima Barreto, o rebelde imprescindível, Editora Expressão Cultural, São Paulo, 2006, faz uma interessante comparação entre Machado de Assis e Lima Barreto, na apresentação de seu livro, e, a certa altura do texto, faz referência à cor e ao preconceito, pelo fato de que ambos os escritores eram mulatos; diz Leitão: “No entanto, não deixemos que os preconceitos turvem a nossa visão: em um país que só reverencia a casa-grande, os dois mulatos simbolizam em suas raízes a ironia maior da jovem nação, cuja cultura mais refinada nasce sob o signo da miscigenação. Antonio Francisco Lisboa, dito o “Aleijadinho”, na plástica; padre José Maurício, na música; Machado e Lima, na prosa de ficção: todos eles nos revelam que, sem o sincretismo, as elites de Pindorama não teriam do que se orgulhar no grande palco do mundo ocidental...”.
Voltemos à obra de Lima. Quando Lima Barreto publicou Recordações do Escrivão Isaías Caminha já havia concluído o romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Portanto, poderia ter publicado qualquer um desses romances, mas deixou este último para mais tarde, preferindo fazer sua estréia com o primeiro (Recordações do Escrivão Isaías Caminha), com essa motivação: “Era um tanto cerebrino o Gonzaga de Sá – diz Lima -, muito calmo e solene. Pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo, não que ele te escandalize, mas que te desagrade. Como contigo, eu terei grande desgosto que isso aconteça a outro amigo”.
 Lima Barreto prossegue explicando o por que de sua preferência pelo Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para sua estreia como romancista: “Espero que esse primeiro movimento, muito natural seja seguido de um outro de reflexão em que vocês considerem bem que não foi só o escândalo, o egotismo e a charge que pus ali. Peço que não te esqueças daqueles versos que pus no alto do primeiro capítulo, quando o comecei a publicar:
        Mon coer profond ressemble à ces voûtes d'église
        Où le moindre bruit s'enfle em une immense voix,
e então hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples fatos não dizem, segundo o nosso Taine, de modo a esclarecê-los melhor, dar-lhes importância, em virtude do poder da forma literária, agitá-los porque são importantes para o nosso destino. Querendo fazer isso e fazer compreender aos outros que há importância na questão que eles tratam com tanta ligeireza, não me afastei da literatura conforme concebo e perpetuam os nossos mestres Taine e Brunetièro, mas temo que não tivesse conseguido bem o escopo e tu hás de me perdoar o desastre pela ousadia e tentativa”.
Podemos compreender, com o texto supra, que o escritor não estava interessado na arte pela arte; tampouco em seus artifícios verbais; ao contrário, a sua literatura tinha um endereço certo, qual seja, ir ao encontro do público, provocando-o para que este lhe dissesse sobre drama íntimo de cada um. Lima Barreto queria conhecer todos os sentimentos que envolvem a sociedade, suas quizilas todas, com o objetivo de analisar esse fenômeno social. Como ele próprio dizia, buscava “a solidariedade humana, mais do que nenhuma outra coisa, interessa o destino da humanidade”.
Sobre a má qualidade das edições das obras de Lima Barreto temos o depoimento do conceituado crítico literário, Francisco de Assis Barbosa, que escreveu o prefácio para o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, 7ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1978:
“É bem de ver que Lima Barreto – escreve Barbosa -, tanto em vida, como depois de morto, por vários fatores, que não vem a pelo comentar, foi maltratado pelas edições das suas obras. Daí o grande problema que tínhamos pela frente, apresentar o escritor tal como ele foi, e não mutilado ou deformado, como vinha sendo, dando azo às críticas injustas, feitas de boa ou de má fé, pelos que fingem ignorar ou insistem em desconhecer a mensagem renovadora do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Ao cabo de um trabalho penoso é nosso dever reconhecer, com uma ponta de orgulho, não nos termos equivocado na escolha de nossos colaboradores”.
Os colaboradores, a que se refere Assis Barbosa, para o plano de publicação das obras de Lima Barreto, cuja coleção abrange dezessete volumes, são: o filólogo Antônio Houaiss e o professor de português Manoel Calvalcânti Proença. E, para cada uma das obras que integram a referida coleção, foi escolhido, por Barbosa alguns dos escritores brasileiros mais importantes para escrever o respectivo prefácio. Portanto, ficamos muito a dever ao homem culto que foi Francisco de Assis Barbosa e aos seus ilustres colaboradores (Houaiss e Proença), bem como aos ilustres escritores que aceitaram escrever os prefácios para cada uma das obras de Lima Barreto.
Os dezessete volumes, que compõem a referida coleção das obras de Lima Barreto, são: I - Recordações do Escrivão Isaías Caminha, prefácio de Francisco de Assis Barbosa; II - Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance, prefácio de M. De Oliveira Lima; III - Numa e Ninfa, romance, prefácio de João Ribeiro; IV - Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance, prefácio de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde); V - Clara dos Anjos, romance, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda; VI - Histórias e Sonhos, contos, prefácio de Lúcia Miguel Pereira; VII - Os Bruzundangas, sátira, prefácio de Osmar Pimentel; VIII - Coisas do Reino de Jambon, sátira, prefácio de Olívio Montenegro; IX - Bagatelas, artigos, prefácio de Astrogildo Pereira; X - Feiras e Mafuás, artigos e crônicas, prefácio de Jackson de Figueiredo; XI - Vida Urbana, artigos e crônicas, prefácio de Antônio Houaiss; XII - Marginália, artigos e crônicas, prefácio de Agrippino Grieco; XIII – Impressões de Leitura, crítica literária, prefácio de M. Cavalcanti Proença; XIV - Diário Íntimo, memórias, prefácio de Gilberto Freire; XV - O Cemitério dos Vivos, memórias e fragmentos, prefácio de Eugêgio Gomes; XVI - Correspondência, ativa e passiva, primeiro volume, prefácio de Antônio Noronha Santos; XVII - Correspondência, ativa e passiva, segundo volume, prefácio de B. Quadros.


REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
LEITÃO, Luiz Ricardo. Lima Barreto, o rebelde imprescindível. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2006.
LIMA BARRETO. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Prefácio de Francisco de Assis Barbosa. 7ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.




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