6 de mai de 2009

DOSTOIÉVSKI / Vida & Obra - Parte I





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por Pedro Luso de Carvalho
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em Moscou, no dia 30 de dezembro de 1821. Foi o segundo filho do casal Mikhail Andierievitch Dostoiévski e Maria Fiódorovna. Nessa época, o casal morava no pavilhão do Hospital Marínski (em Moscou), onde Mikhail exercia a sua profissão de médico, no Regimento de Infantaria Borodínski. Maria Fiódorovna há muitos anos acometida de tuberculose, morreu no ano de 1837.
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Passado algum tempo, Mikhail Andiérievitch deixou de exercer a medicina para dedicar-se à administração de suas terras na localidade de Dorovoie, onde foi assassinado pelos seus servos, como vingança pelo cruel tratamento que recebiam. Quando soube da morte de seu pai, o escritor sofreu uma convulsão epilética. (Dostoiévski iria padecer do mal da epilepsia até os seus derradeiros dias.)

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No período que compreende os anos 1838 a 1843, Fiodor M. Dostoiévski freqüentou a Escola de Engenharia da Academia Militar, em Petersburgo, embora a literatura fosse a sua vocação. Tirando partido dessa Escola de Engenharia, ingressou no serviço público com a patente de tenente-engenheiro, cargo no qual permanceu por pouco tempo, até apresentar o seu pedido de exoneração. O chamado da literatura era inexorável. Dostoiévski voltava-se nessa época para os textos de Púshkin, Schiller, Byron, Shakespeare e Balzac. A sua primeira publicação deu-se com a tradução do romance de Balzac ‘Eugenie Grandet'. Quanto à publicação de seu primeiro romance, Pobres Gentes, foi recebido com grande entusiasmo, do crítico literário Vissarion Beleinski, inclusive. (Beleinski, estaria à disposição do jovem escritor para ajudá-lo no difícil ofício da literária.)



Fiodor M. Dostoiévski veria sua carreira de escritor sofrer uma trágica interrupção quando passou a integrar o grupo liderado por Petrachevski (Círculo de Petrashevski), que se reunia para discutir acontecimentos políticos, literários, temas relacionados com o socialismo, a censura, a abolição da servidão, entre outros; e seus participantes foram presos e acusados, em 1846, de estarem conspirando contra o tzar Nicolau I. Instaurada a ação penal (durante a sua tramitação, os acusados ficaram presos por mais de um ano), o juiz proferiu a sentença com a pena extrema: a morte para os acusados. Essa pena acabou sendo comutada pelo tzar para prisão com trabalhos forçados no Presídio de Omsk, na Sibéria. (Por manobra do tzar Nicolau I, os acusados só ficaram sabendo que não seriam executados, minutos antes da ordem de fuzilamento. Pode-se imaginar o terror sofrido por Dostoievski e seus companheiros, que se encontravam colocados frente ao pelotão de fuzilamento aguardando a ordem para atirar.)


Dostoiévski estava com 27 anos, quando, na véspera do Natal de 1849, foi conduzido com outros condenados, em trenós descobertos, com o frio de vinte graus negativos, para cumprir a pena na Prisão de Omsk, na Sibéria. Sobre essa prisão e sobre tratamento desumano que era dispensado aos prisioneiros, Dostoiévski fez alguns apontamentos:
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“Imaginem um velho barracão de madeira em ruínas. No verão asfixiávamos com falta de ar e no inverno o frio dilacera-nos a carne. O soalho era todo esburacado e cheio de imundícies; escorregávamos e caíamos a cada passo. O gelo cobria totalmente as vidraças, de modo que mal se podia ler durante o dia. A água pingava constantemente do telhado, e havia corrente de ar glaciais em todo lado. Estávamos comprimidos uns contra os outros como arengues numa barrica. Mesmo quando acendiam o fogão com chamas de lenha seca, mal amornávamos (o gelo derretia a muito custo) e ficávamos como que envenenados pela fumarada. Era assim que vivíamos todo o inverno (...) Cobríamos com peles de carneiro muito curtas, que me deixavam as pernas a descoberto. Tiritava de frio toda a noite. Havia milhões de percevejos, piolhos e carochas”.
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No Presídio de Omsk, Dostoiévski assistiu a terríveis espancamentos e torturas, e de tudo o que presenciou e sofreu resultaria na sua narrativa sobre esses anos cruéis, que passariam a integrar o seu livro Recordações da Casa dos Mortos, cujo trecho merece ser transcrito:

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“Aquele que, ao menos uma vez, exerceu poder ilimitado sobre o corpo, o sangue, a alma do seu semelhante, sobre o corpo do seu irmão, segundo a lei de Cristo, aquele que desfrutou a faculdade de vilipendiar enormemente outro ser feito à imagem de Deus, esse se torna incapaz de dominar as suas sensações. A tirania é um hábito dotado de extensão, pode desenvolver-se, tornar-se com o tempo uma doença. Afirmo que o melhor dos homens é suscetível de se insensibilizar até ser uma fera. (...) O homem e o cidadão eclipsam-se sempre no tirano. (...) Acrescentemos que o poder ilimitado da fruição seduz perniciosamente, e isso atua por contagio sobre a sociedade inteira.A sociedade que contempla tais atividades com indiferença já está contaminada até ao íntimo. Em suma, o direito de punir corporalmente, que um homem exerce sobre o outro, é uma das pragas da sociedade: um processo seguro de sufocar em si mesma qualquer germe de civismo, de provocar a sua decomposição”..
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski cumpriu a parte mais cruel de sua pena, na Sibéria, no presídio de Omsk, durante quatro intermináveis anos. A segunda fase da pena, prevista para mais cinco anos, deu-se de forma mais humana, cumprindo-a no destacamento militar de Semipalatinski, também na Sibéria, ao qual fora incorporado. Durante esse tempo escreveria cartas, bem como passaria a inteirar-se, na medida do possível, do que ocorria na literatura da Rússia. E voltaria a escrever, agora mais vivido e temperado pelo sofrimento. Muitas vidas tinha para retratar como vidas para serem criadas. De fato, depois do cumprimento de sua pena, o escritor viria criar obras literárias de incomensurável valor. Assim, a cada livro que escrevia firmava-se como romancista de excepcional talento, e mais tarde viria a ser reconhecido pelos críticos literários como um dos mais importantes escritores russos de todos os tempos.


.Com a morte de do tzar Nicolau I, sucedeu-lhe o tzar Alexandre II, que decretou, em 19 de fevereiro de 1861, a abolição da servidão na Rússia. Com sua permissão, Dostoiévski foi dispensado do serviço militar. Não tardou para que, acompanhado de Maria Dmitrievna, o escritor deixasse Omsk, passados pouco mais de nove anos de cumprimento da pena, tendo por destino a localidade de Tver, uma cidade com poucos recursos culturais, como bibliotecas, e sem acesso a informações. .
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Em Tver, Dostoiévski casou com Maria Dmitrievna, na Igreja Ortodoxa. Dmitrievna tinha 30 anos de idade e era viúva desde 1857. Em 1859, em entrevista com o imperador, o escritor obteve permissão para voltar a São Petersburgo. Nessa cidade, voltaria a editar o jornal literário ‘Vremia’ (O Tempo). Dostoiévski passaria a ter convulsões com freqüência nessa época, ocasionadas pelo mal da epilepsia. (Nos anos que se seguiriam, Maria Dmitrievna seria uma das causas de muitos sofrimentos pelos quais Dostoiévski viria passar.)
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F. M. Dostoiévski retornou a São Petersburgo no mês de dezembro de 1859. Desembarcou na estação ferroviária de Nicolaievski, juntamente com a esposa Maria Dmitrievna e com o filho que adotara na Sibéria, sem nenhuma cerimônia pública, contrariamente do que ocorreu dez anos atrás, quando foi detido juntamente com outros membros do chamado 'Círculo de Petrashevski', sob a acusação de serem conpiradores políticos, ocasião em que foram exibidos publicamente na enorme Praça Senovski, ordinariamente utilizada pelas autoridades para desfiles.
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Agora, Dostoiévski era aguardado por seu irmão mais velho Mikhail e por seu amigo Alexander Milukov. Mais tarde, Milukov viria declarar sobre esse encontro: “Fiódor Mikhailovitch, segundo minha observação, não havia mudado fisicamente, até parecia mais suadável que antes, e não havia perdido nada de sua habitual energia... Recordo que, naquela primeira ocasião, apenas trocamos algumas idéias e impressões, recordamos os velhos tempos, bem como nossos amigos comuns”.
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E aqui encerramos o texto FIÓDOR DOSTOIÉVSKI, VIDA E OBRA/PRIMEIRA PARTE. Outras partes serão escritas oportunamente, em homenagem a esse gênio da literatura russa (e, de resto, da literatura Universal).



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REFERÊNCIAS:
GROSSMAN, Leonid. Dostoiévski Artista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
MASON, Jayme. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Obejtiva, 1995.
MORAIS, Regis de. Fédor M. Dostoievski. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 19982.
FRANK, Joseph. Dostoievski. La secuela de la liberación 1860-1865. México: Fondo de Cultura Económica”, 1993.