28 de nov de 2010

EDGAR ALLAN POE – Os Sinos

Edgar Allan Poe



             por Pedro Luso de Carvalho


        Quando publicamos o nosso primeiro trabalho sobre a obra de Edgar Allan Poe, qual seja, ANTOLOGIA DE CONTOS, falamos da importância de Poe na literatura, na poesia. E também isto: Charles Baudelaire lera algumas das suas histórias, e mais tarde dissera, ao lê-las, que “experimentara estranha emoção”. Nas revistas que chegavam dos Estados Unidos a Paris, Baudelaire procurava pelos contos e pelos poemas de Poe. Baudelaire escreveu certo dia em seu diário, que, dali em diante, iria orar todas as manhãs a Deus, ao seu pai e a Edgar Allan Poe (in Antologia de Contos - prefácio de Brenno Silveira -, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959). A sedução e o fascínio que Poe exerceu sobre Baudelaire levou o poeta francês a traduzir os contos e os ensaios do autor de A Queda da Casa de Usher. Depois dessas traduções, Baudelaire juntou-se ao célebre Mallarmé, que o ajudou a divulgar a obra de Poe, razão pela qual teve plena aceitação pela avant garde literária de Paris.

        Os poemas de Poe, que publicamos aqui no blog Panorama, foram: ANNABEL LEE, em setembro/2008; O CORVO - o poema imortal do poeta -, em julho de 2008; ULALUME, janeiro/2010; A CIDADE NO MAR, em maio/2010; A MARIE-LOUISE SHEW, em agosto/2010. Para esta publicação escolhemos o poema OS SINOS (in Edgar Allan Poe - Poemas e Ensaios, tradução de Oscar Mendes e Milton Amado. 3ª ed. São Paulo: 1999, p. 64-67).




OS SINOS


I


Escuta: nos trenós tilintam sinos
argentinos!
Ah! que mundo de alegria o som cantante prenuncia!
Como tinem, lindo, lindo,
no ar da noite fria e bela!
Vão tinindo e o céu inteiro se constela,
florescente, refulgindo
com deleites cristalinos!
Dão ao tempo uma cadência tão constante
como um rúnico descante,
com os tintinabulares, pequeninos sons, bem finos,
que nascendo vão dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
saltitantes, bimbalhantes, dentre os sinos.


II


Escuta; em núpcias vão cantando os sinos,
áureos sinos!
Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!
No ar da noite, embalsamado,
como entoam seu enlevo abençoado!
Tons dourados, lentas notas
concordantes...
E tão límpido poema aí flutua
para as rolas que o escutam, divagantes,
vendo a lua!
Volumoso, vem das celas retumbantes
todo um jorro de eufonia
que se amplia,
“O futuro é belo e bom!”
- clama o som,
que arrebata, como em êxtases divinos,
no balanço repicante que lá soa,
que tão bem, tão bem ecoa
na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos,
carrilhões e sinos, sinos,
no rimado, consonante som dos sinos.


III


Escuta; um longo alarma bradam os sinos,
brônzeos sinos!
Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!
Treme a noite, com pavor,
quando os ouve em seu bramido assustador,
Tanto é o medo que, incapazes de falar,
se limitam a gritar,
em tons frouxos, desiguais,
clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,
contendendo loucamente com o frenesi do fogo,
que se lança bem mais alto,
que em desejo audaz estua
de, no empenho resoluto de algum salto
sim! Agora ou nunca mais!),
alcançar a fronte pálida da lua!
Oh! Os sinos, sinos, sinos,
De que lenda pavorosa, de alarmar,
falam tanto?
Clangorantes, ululantes, graves, finos,
quanto espanto vertem, quanto,
no fremente seio do ar!
E por eles bem a gente sabe – ouvindo
seu tinido, seu bramido -
se o perigo é vindo ou findo.
Bem distintamente o ouvido reconhece
pela luta,
na disputa,
se o perigo morre ou cresce,
pela ampliante ou decrescente voz colérica dos sinos,
badalante voz dos sinos,
sim, dos sinos, sim, dos sinos,
do clamor e do clangor que vêm dos sinos!


IV

Escuta: dobram, lentamente, os sinos,
férreos sinos!
Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!
Na silente noite fria,
quando a alma se arrepia
à ameaça desse canto melancólico de espanto!
Pois em cada som saído
da garganta enferrujada
há um gemido!
E os sineiros (ah! essa gente
que, habitando o campanário
solitário,
vai dobrando, badalando a redobrada
voz monótona e envolvente...),
quão ufanos ficam eles, quando vão
tombar pedras sobre o humano coração!
Nem mulher nem homem são,
nem são feras: nada mais
do que seres fantasmais.
E é seu Rei que assim tange,
é quem tange, e dobra, e tange.
E reboa
triunfal, do sino, a loa!
E seu peito de ventura se intumesce
com o hino funerário lá dos sinos;
dança, ulula, e bem parece
ter o Tempo num compasso tão constantes
qual o rúnico descante,
pelos hinos lá dos sinos!
Ah! Dos sinos!
Leva o Tempo num compasso tão constante
como um rúnico descante,
pela pulsação dos sinos,
a plangente voz dos sinos,
pelo soluçar dos sinos!
Leva o Tempo em tal compasso, tão constante,
que a dobrar se sente, ovante,
bem feliz com esse rúnico descante,
com o reboar que vem dos sinos,
a gemente voz dos sinos,
o clamor que sai dos sinos,
a alucinação dos sinos,
o angustioso,
lamentoso, lutuoso som dos sinos!




(by Edgar Allan Poe)