19 de set de 2013

[Cartas] ALBERT EINSTEIN & Sigmund Freud





[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


As cartas, de pessoas ligadas aos mais variados ramos do conhecimento, constituem-se em documentos importantes para a História da Ciência e das Artes, como para a História da Civilização, uma vez que o missivista relata fatos de uma determinada época sobre a existência de acontecimentos, como ocorre com os documentos oficiais (institucionais), que, igualmente, se prestam, como ensina Jolivet, para o estudo dos fatos do passado que influíram na evolução das sociedades humanas.

Sendo assim, pode-se entender por que são tão valorizadas as cartas que foram trocadas entre Albert Einstein, gênio da Ciência, e Sigmund Freud, criador da Psicanálise,

Segue, pois, a carta que Einstein escreveu a Freud, no mês de abril de 1936:



CARTA DE EINSTEIN PARA FREUD

Princeton. 21.4.1936,
Verehrter Herr Freud:

Sinto-me contente de que esta geração tenha a boa sorte de poder valer-se da oportunidade para expressar-lhe o seu o seu respeito e a sua gratidão, na qualidade de um dos seus maiores educadores. Indubitavelmente, o seu trabalho não criou facilidades para as pessoas leigas, marcadas pelo ceticismo, viessem a formular um julgamento independente a respeito. Até a bem pouco tempo podia eu aprender tão-somente o poder especulativo de suas concepções, juntamente com a sua enorme influência sobre a Weltanschauung da era presente, sem achar-me em condições de formar uma opinião conclusiva acerca do grau de verdade que nelas se continha.

Não há muito tempo, no entanto, tive a oportunidade de ouvir umas poucas coisas, em si mesmas não muito importantes, que, segundo o meu juízo, excluem qualquer outra interpretação que não seja a oferecida pela teoria da repressão. Senti-me satisfeito em ter dado com essas coisas, já que é sempre encantador quando uma grande e bela concepção prova a sua harmonia com as coisas da realidade.
Seu A. Einstein.

No final da carta, que escreveu para Sigmund Freud, em post scriptum, Albert Einstein pediu-lhe: “Por favor, não responda a esta carta. Meu prazer em valer-me da ocasião para escrever-lhe já me é suficiente”. Tal pedido, no entanto, não foi atendido por Freud, que a respondeu quase em seguida, em abril de 1936.

Segue a resposta de Freud à carta de Einstein:



RESPOSTA DE FREUD A EINSTEIN

Viena, 3.5.1936,
Verehrter Herr Einstein:

São vãs as sua objeções para que eu não responda à sua amável carta.

Efetivamente preciso dizer-lhe quão satisfeito fiquei da alteração havida no seu julgamento – ou, pelo menos, início de alteração. Sem dúvida que eu sempre soube que você me “admirava” por uma questão de cortesia e que acreditava muito pouco em quaisquer das minhas doutrinas, embora frequentemente eu me perguntasse a mim mesmo o que, na verdade, havia nelas para ser admiradas, se não fossem a expressão da verdade, isto é, se não contivessem uma larga medida de verdade.

Incidentalmente, não acredita você que eu teria sido mais bem tratado se as minhas doutrinas contivessem uma porcentagem maior de erros e de extravagâncias? Você é tão mais moço do que eu que posso esperar contá-lo entre meus “seguidores” quando atingir a minha idade. Uma vez que, então, não poderei certificar-me disso, antecipo agora o prazer dessa possibilidade. (Você bem sabe o que se passa na minha cabeça: ein Vorgefühl von solchem Glück geniesse ich, etc.)

In herzlicher Ergehenheit und unwandelbarer Verehrung,
Ihr Freud.

Sigmund Freud nasceu em 6.5.1856, em Příbor, República Checa, e faleceu em 23.9.1939, em Londres, Inglaterra. Albert Einstein nasceu em 14.3.1879, em Ulm, Alemanha, e faleceu em 18.4.1955, em Princeton, EUA. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. A correspondência entre Sigmund Freud e Albert Einstein (Por quê da guerra?), foi publicada em 1933, na Europa e nos Estados Unidos.




REFERÊNCIAS:
JOLIVET, Régis. Vocabulário de Filosofia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1975, p. 110.
JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Tradução de Marco Aurélio de Moura Mattos. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 743-744.



*  *  *