11 de abr de 2011

DA CRÍTICA LITERÁRIA – PARTE IV (Final)

Aristóteles


                    por  Pedro Luso de Carvalho


       Ainda discorrendo sobre as teorias de Aristóteles, expostas na Poética e na Retórica , ensina Afrânio Coutinho (in "Crítica e Poética") que "Houve um lapso no conhecimento da Poética. Apesar de ter havido edições medievais em várias linguas, a influência da Poética nesse período foi diminuta, de jeito a se poder falar em 'descoberta' renascentista da obra (...)". 

        Mais adiante, Coutinho faz esta observação: "Há, todavia, um ponto importante a acentuar no que tange à interpretação da Poética pelos eruditos do Renascimento, interpretação essa que se prolongou até o século XVIII, dominando a crítica ocidental". 

        O mestre Coutinho diz que o Renascimento foi mais latino do que helênico, fato que "redundou em ter sido o espírito ocidental completamente imbuído das doutrinas romanas, e, no que concerne à literatura, da doutrina dos retóricos romanos e helenísticos, sobretudo de Horácio, Cícero e Quintiliano". Coutinho dá realce ao fato de que “obras gregas, como a poética, passaram para o mundo ocidental através do veículo romano, no caso do retoricismo horaciano, ao que se deve a deturpação das teorias aristotélicas”.  

       Coutinho aponta para outro fato importante, qual seja, a falsificação das teorias aristotélicas, em razão do veículo que propiciou essa passagem da Poética para o mundo ocidental, não pelo grego, mas pela condução do romano, com o historicismo horaciano. Também diz que no Renascimento essa fusão de Aristóteles e Horácio propiciou “uma união de doutrinas absolutamente contrária à natureza da cada uma”. Aponta para o ponto pacífico existente entre os os críticos renascentistas: “Horácio seguira Aristóteles, daí a amálgama de princípios que caracterizou a teoria literária do Renascimento”. 

       Afrânio Coutinho frisa, ainda, que Aristóteles saiu perdendo com essa fusão com Horácio, “pois o colorido predominante era dado pela teoria horaciana da literatura como 'ensinamento agradável', ou teoria didática e moral da literatura. Coutinho faz menção ao que exprimiu um dos críticos renacentista, Piccolomini, quando disse: “A finalidade da poesia é persuadir, aparentando deleitar”.

        Lembra ainda que as teorias ética e didática da literatura somente foram destronadas com o advento da Estética, advertindo, no entanto, encontrou defensores durante o século XIX, e até mesmo nos dias que correm. E diz que as bases da ciência da Estética deveu-se ao kantismo. E afirma: “Mas do século XVIII em diante, acompanhando o desenvolvimento da estética, foi criando vulto a concepção estética da literatura”. E enfatiza que “as idéias estéticas foram sendo aplicadas à poesia, desbancando as teorias ética e didática”. 

        O mestre Afrânio Coutinho diz que a concepção estética da literatura, que foi criando vulto nesse século, e dá relêvo ao surgimento da Estética na Alemanha e na Itália no ano de 1900, enquanto que na Inglaterra a clássica História da Estética é de 1892; realça também que “as idéias estéticas foram sendo aplicadas à poesia, desbancando as teorias ética e didática”. 

       Daí a possibilidade de se ver, com essas alternâncias, que nada tinha de didática a poética de Aristóteles; e mais: que esse sentido (didática) deveu-se aos horacianos do Renascimento. Então, tornou-se possível conhecer o caráter da concepção aristotélica, e com isso via-se dissociar-se Aristóteles de Horácio. 

        Coutinho menciona a publicação, em 1895, de uma nova edição da Poética, pelo crítico inglês Butcher, “com uma introdução que ficou clássica e que marcaria essa reinterpretação de Aristóteles consonte às estéticas”. Lembra também que a obra de Butcher teve influência decisiva, principalmente nos países de língua inglesa. 

        Lembra que a reinterpretação de Aristóteles “ainda está por ser feita nos países de lingua portuguesa, nos quais a literatura é sobremaneira marcada por um tom retórico e ético, devido sobretudo à influência dominante das teorias horacianas, de que não se libertaram completamente, mesmo depois do século XVIII, o grande divisor de águas no particular para as outras literaturas do Ocidente”. Menciona as dezenas de edições da Arte Poética de Horácio em português, enquanto que “só consta a existência de uma tradução, no século XVIII, da Poética de Aristóteles em vernáculo. 

       O escritor observa que, “mesmo quando conhecido, Aristóteles o era através de Horácio e dos comentadores de cunho horaciano”. E deixa claro que “O verdadeiro sentido do aristotelismo literário, a riqueza de idéias e a profundidade de persectiva, o conteúdo estético da Poética de Aristoteles estão por ser valorizados”. 

        Lembra que surgiu uma boa edição em português (Poética, de Aristóteles, ed. Eudoro de Souza, Lisboa, Guimarães & Cia. Editores, 1951), “enquanto há diversas edições francesas excelentes, como as da Livraria Garnier e da Associação Guilherme Budé (Les Belles Lettres), inglesas igualmente esplêndidas, como as clássicas de Butcher, Bywater, Hamilton Fyfe, as de Lane Cooper, as da Loeb Classical Library e da Everyman”. Fala ainda da edição italiana, de excelente qualidade, de Augusto Rostagni; e, também, da edição em lingua espanhola da Emece, de Buenos Aires.




REFERÊNCIA:
COUTINHO, Afrânio. Crítica e Poética. Rio de Janeiro: Livraria acadêmica, 1968, f. 20-23.