19 de nov de 2008

ÓPERA, MÁRQUEZ, NAIPAUL, QUASIMODO E UNGARETTI

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por Pedro Luso de Carvalho



O Jornal literário LEIA, editado em São Paulo, manteve-se até que suas forças fossem vencidas. Afinal, para que servem os jornais tradicionais, que diariamente contam todas as bandalheiras de autoridades dos Poderes Administrativo, Legislativo e Judiciário? E as revistas de cunho jornalístico, para que servem? Para que servem as revistas que se alimentam da vaidade de uns e da curiosidade de outros, alimentando-os com artigos e notícias sobre artistas de televisão e de endinheirados colunáveis e os emergentes? Então, o que importa aos brasileiros os jornais e revistas que divulgam literatura? (O brasileiro lê apenas um livro por ano, em média, com exceção dos gaúchos, que lêem quatro livros-ano, o que ainda é pouco.)


De qualquer forma, vamos lembrar o que LEIA publicou no mês de fevereiro de 1987 - notícias interessantes como as que se referem a V. S. Naipaul e sobre a publicação de um livro sobre a ópera merecem ser lembradas. As outras notas que seguem, quais sejam, as que se relacionam com a Ditadura de Pinochet e com o fascismo de Mussolini, não tem nada de agradável recordar, mas, por outro lado, é nosso dever manter vivas essas tristes experiências, para que saibamos impedir que tais desumanidades se repitam. Passemos, pois, ao que LEIA publicou:


“PINOCHET ESPERNEIA – O governo chileno continua inimigo dos bons livros. Cerca de 15 mil exemplares de Miguel Littin: uma aventura clandestina no Chile, de Gabriel Garcia Márquez, forma apreendidos e queimados pela polícia do General Augusto Pinochet. A obra conta a aventura de Littin, cineasta exilado que retornou ao Chile, clandestinamente em 1985, para filmar o documentário Atas de Chile exibido (e aclamado) recentemente no Fest-Rio (a referência é de 1987).


Os livros estavam armazenados num depósito de Valparaíso, mas a história da filmagem contada por Garcia Márquez já havia sido publicada em capítulos numa revista de esquerda, no primeiro semestre do ano passado (1986). O ódio dos mandatários do regime chileno a Garcia Márquez é bem antigo. Provavelmente porque todos devem ter-se identificado com o protagonista de O outono do patriarca.


MUSSOLINI E OS POETAS – Os documentos do Ministério da Cultura Popular do governo de Benito Mussolini ainda despertam enorme interesse na Itália, e estimulam debates cada vez mais ácidos sobre a relação entre os intelectuais e o Estado fascista. Apesar de encontrados há oito anos (1979), só recentemente os documentos foram franqueados a estudiosos e jornalistas. São fascículos, cartas e documentos reservados, escritos entre os anos vinte e trinta (1920 e 1930), contendo nomes de jornalistas, escritores, maestros e atores que colaboravam e recebiam subsídios do regime.
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Foram listados quase mil nomes, entre os quais aparecem os poetas Salvatore Quasimodo, Prêmio Nobel de Literatura em 1959, e Giuseppe Ungaretti. Através da leitura dos documentos é possível perceber que o relacionamento entre os intelectuais e as autoridades fascistas não era de um só tipo. Havia adesão, convicção, medo, indiferença, e até fome. Entre as cartas descobertas há uma de Quasimodo pedindo ajuda por encontrar-se em condições insuportáveis de miséria.


PASSAGEM PARA TRINIDAD – Serão publicados ainda este ano no Brasil três romances daquele que é considerado, ao lado de Graham Greene e Anthony Burgess, um dos três maiores escritores vivos (1987) da língua inglesa: V. S. Naipaul, nascido em Trinidad, filhos de pais indianos e educado na Inglaterra. A Companhia das Letras anuncia para 1987, The mimic men, A house for Mr.Biswas e Querelles.


Os personagens de Naipaul, ex-ministros coloniais moradores de um esquálido subúrbio londrino, exilados sul-africanos, indianos, criaturas assinaladas pelas ambigüidades e contradições do estatuto colonial, habitam esse "no man’s land" político e cultural deixando quase fantasmagoricamente na esteira do colonialismo, um tema recorrente na melhor ficção de língua inglesa deste século (século XX), de Nadine Gordimer e E. M. Forster (Uma passagem para a Índia).


ÓPERA NO LIVRO – Com a colaboração de Fernando Bicudo, direto do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Editora Salamandra vai publicar cinco volumes sobre as óperas que serão apresentadas no Teatro Municipal este ano (1987), começando com O navio fantasma de Richard Wagner. As publicações fogem do esquema de transcrição pura e simples dos libretos, incluindo a história de como foi criada a peça, uma análise da obra, discografia disponível e cronologia do autor”.
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