3 de mar de 2008

PEDRO LUSO / AGORA, OS BENS!



                    por  Pedro Luso de Carvalho

        
      As providências dos filhos, após a morte de seus pais (passados os momentos em que se vêm às voltas com a doença que os acomete, com os cuidados a eles dispensados, e, por fim, com os procedimentos para o sepultamento ou cremação) estão relacionadas com a divisão dos bens patrimoniais que passaram a integrar o espólio.

        Então, sem perda de tempo contratam advogado para a abertura do inventário, depois da escolha, entre eles, de quem os representará no processo judicial; uma vez decidido, após algumas escaramuças, quem será o inventariante, um sentimento comum passa a dominar os herdeiros: a desconfiança.

        A partir daí passam a viver uma realidade completamente nova, dando a impressão, para quem os observa à distância, que essas pessoas (herdeiros) mudaram, fazendo crer que adquiriram um novo caráter, embora saibam da impossibilidade de tal ocorrência.

        Os herdeiros agora sentem (embora com relutância) que são pessoas ávidas e egoístas. Mas, usando o senso prático, partem em busca do que lhes pertencem, deixando pouco espaço para lembrança e saudade de quem, com sacrifícios, reuniu os bens que agora serão partilhados.

        E passam a preocupar-se com o andamento do inventário, com o sentimento de desconfiança sempre presente, tanto em relação ao advogado contratado como ao juiz do inventário, cujo tempo parece-lhes durar uma eternidade.

        Então um sentimento de pessimismo passa a acomodar-se no íntimo de cada um deles, que imaginam que nunca tocarão nos bens que receberam por herança; essa descrença somente deixará de existir quando tomarem posse dos bens partilhados.

        Agora, tudo resolvido, cada um deles já na posse dos respectivos imóveis e controlando as aplicações financeiras, ainda não se conformam com o que pagaram de impostos, honorários advocatícios e custas processuais.

        Resta a eles, por fim, a possibilidade da lembrança do pai (ou da mãe) nas pausas dos seus negócios; mas sempre poderá haver algum sentimento de culpa pelo que deixaram de fazer a quem legou esses bens: um carinho, uma palavra amiga etc.

        O certo é que, como o movimento da roda, mais tarde a situação se repetirá com eles, só que, dessa vez, o pólo será outro, e assim, sucessivamente, até o final dos tempos.