8 de dez de 2008

SARTRE – PRIMEIRA PARTE

.


por Pedro Luso de Carvalho



Depois da publicação de Les Mots (As Palavras), pela Editions Gallimard, em 1964, ficou menos difícil escrever sobre o escritor Jean-Paul Sartre, pelo menos no que diz respeito a fatos biográficos. Nessa obra autobiográfica, Sartre conta como seu pai Jean-Baptiste conheceu Anne-Marie, como morreu, e como sua mãe enfrentou, aos vinte anos de idade, essa situação inesperada, e tendo que manter a si própria e ao filho, este recém saído de uma enfermidade, sem dinheiro e sem profissão:


“Jean-Baptiste quis ingressar na Escola Naval, para ver o mar. Em 1904, em Cherbourg, oficial da marinha e já roído pelas febres da Conchichina, conheceu Anne-Marie Schweitzer, apoderou-se da mocetona desamparada, desposou-a, fez-lhe um filho a galope, eu, e tentou refugiar-se na morte. Morrer não é fácil: a febre intestinal subia sem pressa; houve remissões. Anne-Marie cuidava dele com devotamento, mas sem levar a indecência a ponto de amá-lo (...) Não chegou a conhecer bem meu pai, nem antes nem depois do casamento, e por vezes devia perguntar-se por que aquele estranho optara por morrer entre os seus braços”.


Após a morte de Jean-Baptiste, em 1907, Anne-Marie vendo que não tinha meio pecuniário para manter-se com o filho mudou-se para a casa de seu pai, o austero Charles Schweitzer, em Meudon, perto de Paris. Aí o velho Schweitzer passaria a tratar a filha como a tratava quando criança, exigindo-lhe irrestrita obediência. Sob a rígida autoridade do pai e avô o relacionamento entre mãe e filho mais parecia o de irmãos, já que para o menino a imagem da mãe havia desaparecido. Agora, com o encargo de manter filha e neto, Charles Schweitzer passaria também a deter toda autoridade sobre eles, inclusive na educação do menino.
.

Sobre a morte de seu pai, Sartre revela que “A morte de Jean-Baptiste foi o grande acontecimento de minha vida: devolveu minha mãe aos seus grilhões e me deu a liberdade”. E mais esta sentença: “Não há bom pai, é a regra; que não se faça disso agravo aos homens e sim ao laço de paternidade que apodreceu. Fazer filhos, não há coisa melhor; tê-los, que iniqüidade! Houvesse vivido, meu pai ter-se-ia deitado sobre mim com todo o seu comprimento e ter-me-ia esmagado. Por sorte, morreu moço”. Sartre lembra que durante vários anos via no seu quarto o retrato de um pequeno oficial, seu pai, de olhos cândidos, com o crânio redondo e pelado, de grandes bigodes, retrato esse que desapareceu depois que sua mãe casou novamente.


Em Les Mots Jean-Paul Sartre lembraria sua infância: “Eu era uma criança bem comportada. Consinto gentilmente que me ponham as meias, que pinguem gotas no nariz, que me escovem e que me lavem, que me enfeitem e me esfreguem; não sei de coisa mais divertida do que bancar o bem comportado. Nunca choro, quase não rio, não faço barulho...” O menino passava horas no escritório do avô, envolvido com leitura de livros infantis e clássicos da literatura. Mais tarde explicaria que para ele existia unicamente um mundo imaginário, distante, pois, do mundo real.


Em 1911, a família Schweitzer mudou-se para Paris. Em 1917, Anne-Marie casou-se com um engenheiro naval que dirigia os estaleiros La Rochelle; assim o menino deixou Paris para ir morar com a mãe e o padrasto nessa cidade portuária, até o ano de 1924; nesse ano, aos dezenove anos, voltou a Paris para cursar a École Normale Supérieure (Escola Normal Superior), estabelecimento que, além de formar professores secundários, propiciava encontros para discussão filosófica e política. E, foi num desses encontros para debates, que Sartre conheceu Simone de Beauvoir, com quem se identificou, já no primeiro encontro, e disse-lhe: “A partir de agora eu tomo conta de você”. Essa ligação com Simone de Beauvoir, distinta do casamento burguês, seria para a vida inteira.


Nesses encontros, as palestras cingiam-se aos problemas que se relacionavam ao papel do homem e de suas idéias na história, ou da interação da sociedade com o homem, que afligiam e ao mesmo tempo animava a geração do pós-guerra – com os reflexos do primeiro conflito mundial (1914-1918), que gerou na juventude perguntas como: até que ponto o homem pode agir sobre a realidade e influenciar, com o seu pensamento, a marcha da história? Em que medida a realidade segue um caminho independente, esquivando-se ao controle dos indivíduos?


Em 1928, Sartre termina o curso de Filosofia. Nesse ano, prestou o serviço militar em Tours, na função de meteorologista. Retornou a Paris em 1930, de onde sairia para a cidade portuária de Havre, para ensinar Filosofia numa escola secundária, e depois em Laon, no Nordeste da França. Numa de suas voltas a Paris, encontrou-se, num café de Montparnasse, com seu ex-colega da Escola Normal, Raymond Aron, que retornava de Berlim, onde fora estudar a doutrina fenomenologista do filósofo Edmund Husserl (1859-1938). Com eles, encontrava-se Simone de Beauvoir; em suas memórias, La Force de L’Âge (Na Força da Idade), a escritora relata esse encontro:


“Está vendo, meu amigo, afirmava Aron apontando seu copo; "se você é femenologista, pode falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção, ou quase: era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas tais como as tocava, e que isso fosse filosofia. Aron convenceu-o de que a femenologia atendia exatamente a suas preocupações: ultrapassar a oposição do idealismo e do realismo...” . A oposição era eliminada por Husserl, segundo essa assertiva: “Toda consciência é consciência de alguma coisa”. Para o filósofo alemão, idéias e coisas não podem ser separadas e constituem um único fenômeno.


Depois de ter uma bolsa para estudar um ano em Berlim, em 1933, Sartre estudou, além das teorias de Hussrl, as teorias existencialistas de Heidegger, Karl Jaspers e Max Scheler (1874-1928), que aprofundavam as idéias de Kierkegaard sobre a angústia e o vazio da existência humana. O jovem filósofo Sartre sentia-se inclinado para uma nova filosofia, misto de existencialismo e femenologia. Foi na Alemanha que Sartre exprimiu essa posição no seu romance (não num texto filosófico) Mélancolie (Melancolia), que mais tarde teria outro título: A Náusea.


Os primeiros trabalhos publicados de Sartre sobre Filosofia pura foram: L’Imagination (1939) e L’Imaginaire (1940). Segundo Maurice Cranston: “Sartre deixou-se influenciar por Hussrl e Heidegger, os quais, todavia, não os conheceu – e acrescenta - esses trabalhos devem-se mais a Hussrl, o fenomenologista, do que a Heidegger, o existencialista. Mas na obra filosófica mais substancial de Sartre, L’Être et le Néant (1943), conquanto subintitulada essai d’ontologie phénoménologique, existe mais do gênero de filosofia de Heidegger; e o livro é geralmente visto como um tratado, na realidade como um clássico do existencialismo. O próprio Sartre sempre gostou de ser conhecido como existencialista”.
.

Além de ensaios acadêmicos comuns, Sartre voltou-se para outras formas de escrever - até por ser existencialista. Escolheu para isso a ficção. Simone de Beauvoir disse em suas memórias: “só a novela permite ao escritor evocar o jaillissement original da existência”. Talvez tenha sido por isso que Sartre fez seu nome primeiro como ficcionista.


E, com o êxito obtido com seus romances, ter abandonado esse gênero, aos quarenta anos de idade, causou justa surpresa. Sua trajetória na obra de ficção não teve aceitação imediata, mas no ano de 1937, quando, aos trinta e dois anos foi apresentado a Gaston Gallimard, o mais poderoso editor francês, este aceitou o seu primeiro romance, que tinha o título de Melancholia, mas, persuadido por Gallimard, mudou para La Nausée (A Náusea). A essa obra, seguiu-se a publicação de Le Mur (O Muro), pela revista La Nouvelle Revue Française, de um dos redatores de Gallimard.


Nas próximas publicações (subseqüentes) continuaremos falando da obra de ficção de Sartre, de suas peças para o Teatro (que, segundo Maurois, foi onde encarnou suas idéias de maneira mais intensa), e mais: da sua atuação na política, da influência que exerceu sobre a juventude do pós-guerra, de sua recusa em receber o Premio Nobel de Literatura etc. [Para ler o segundo texto sobre Sartre, clique em:
Sartre - Segunda Parte].



.
REFERÊNCIAS:
SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Tradução de J. Guinsburg. 6ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
CRANSTON, Maurice. Sartre. Tradução de Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
THODY, Philip. Sartre. Tradução de Paulo Perdigão e Amena Mayall. Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1974.
MAUROIS. André. de Gide a Sartre. Tradução de Maria Clara Mariani Lacerda e Fernando Py. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 197?
.