23 de set de 2010

JAMES JOYCE – PARTE V



                 por Pedro Luso de carvalho

       
       Em trabalhos posteriores e subsequentes a este, continuaremos falando de James Joyce e de sua obra. Neste, apresentaremos a conclusão do ensaio de Ezra Pound sobre a criação mais importante do escritor dublinense: Ulisses. Antes, porém, lembramos o que disse Pound no seu ensaio – no término da última postagem: “(...) não consigo lembrar-me de nenhum outro prosador cuja situação relativa na panliteratura tenha permanecida inalterada pelo advento de Ulisses”.
       
        Diz mais, Ezra Pound: “James (H) fala com sua própria voz, tão bela, até mesmo quando, por vezes, suas criaturas deveriam usar as 'delas mesmas'; Joyce fala, senão com a língua dos homens e dos anjos, pelo menos com uma linguagem múltipla e miltiforme, de meninos, de pregadores ambulantes, de gente polida e impolida, de empregados de postos de gasolina e de agentes funerários, de Gertie DcDoewll e Mr. Deasey.       
       
        As pessoa lêem Proust – diz Pound – e o acham perfeito; Leêm H. J. [Henry James] e sabem que ele é também perfeito; começam a ler Ulisses e acham, talvez acertadamente, que Joyce não o é tanto; que, de qualquer forma, é menos elegante; e consideram com quanta perfeição tanto James como Proust transmitem suas atmosferas; no entanto a atmosfera do episódio de Gerty-Nausikaa, com suas ressonâncias de serviço vespertino, é indubitavelmente transmitida com um grau de certeza e eficiência que nem James nem Proust jamais excederam.
       
        E estirado em casa, quando nosso autor se está sentindo mais ou menos aliviado - prossegue Pound – por ter tirado dos ombros o peso do livro, descobrimos, se não talentos elegantes, pelo menos acrobacias tais, saltos e vôos de trapézio e proezas técnicas de tal ordem que pareceria temerário dogmatizar com relação às suas limitações. Por outro lado, o seu conjunto em bloco e de cambulhada, fica inteiramente fora do compasso e órbita de H. J. [Henry James], fora do circuito e órbita de Proust.
        Embora se possa alegar que ele conhece “aquele provincianismo que precisa estar sempre atardando-se em alusões a algum livro ou costume local” – avalia Pound -, é preciso admitir, também, que nenhum autor é mais lúcido ou mais explícito ao apresentar as coisas de tal maneira que o chinês imaginário ou um cidadão do século quarenta e um poderiam, sem recorrer a obras de referência, adquirir uma noção muito boa da cena e dos hábitos retratados.  
        Poynton com seus espólios , diz Pound, forma uma imagem menos vívida que a desejada residência de Bloom, com dois andares e acessórios. As recordações de In Old Madrid, seja como for, não são pedantes; o low back car é um regionalismo, creio eu. Mas, de modo geral, não acredito que as alusões regionalistas interfiram na compreensão geral.
       
        Neste super-romance, nosso autor também fez incursões na epopéia e, pela primeira vez desde 1931, ressuscitou os personagens infernais - lembra Pound; as suas fúrias não são figuras teatrais; por simples reversão, ele trouxe de volta as fúrias, suas flagelantes damas de Castelo. Telêmaco, Circe, todo o resto do bando da Odisséia, a ruidosa caverna de Eolo vão se situando gradualmente no espírito do leitor, com maior ou menor rapidez, segundo esteja ele ou não familiarizado com Homero. Essas correspondências fazem parte do medievalismo de Joyce e são antes de tudo problema dele, um travejamento, um recurso de construção, justificado pelo resultado e só por ele justificável. O resultado é um triunfo da forma, de equilíbrio, um esquema fundamental com arabescos e contínuo entrelaçamento.
       
        A melhor crítica de qualquer obra, a meu ver a única crítica de qualquer obra de arte que tem valor permanente ou mesmo moderadamente duradouro, vem do escritor ou artista criativo que executa a tarefa seguinte; 'e não', nunca dos jovens cavalheiros que elaboram generalidades em torno do autor, diz Pound. A Salomé de Laforgue é a verdadeira crítica de Salammbô; Joyce, e talvez Henry James são os críticos de Flaubert. Para mim, como poeta, as Tentations são jettatura, efeito da era de Flaubert; quero dizer que ele estava interessado em determinadas questões hoje inteiramente mortas porque viveu em determinado período; felizmente, ele deu um jeito de enfeixar esses assuntos em um ou dois livros e de deixá-los fora de sua obra sobre temas contemporâneos; ponho-os de lado, tal como se põe de lado o tratado de Dante De Aqua et Terra, como algo que só tem hoje valor arqueológico. Joyce, trabalhando no mesmo meio que Flaubert, faz a crítica inteligente: “Poderíamos acreditá-lo se Flaubert nos tivesse primeiro mostrado Santo Antônio em Alexandria olhando para as mulheres e para as vitrinas dos joalheiros”.
       
        Ulisses contém 732 páginas de tamanho duplo, o que significa que o seu tamanho é quase o de quatro romances comuns, e até mesmo uma lista de seus diversos pontos de interesse ultrapassaria provavelmente o espaço de que disponho, frisa Pound; no episódio dos Ciclopes, temos uma medida da diferença entre a realidade a realidade tal como é representada nas diversas formas elevadas de expressão; a sátira sobre os diversos maneirismos mortos da linguagem culmina na cena da execução, sangue e açúcar curtidos em clichês e retórica; exatamente o que merece o público e exatamente aquilo que toma todas as manhãs com o seu mingau de aveia, no Daily Mail e no jornalismo sentimental-teórico; talvez seja esta a peça mais selvagem de sátira que tivemos desde que Swift sugeriu uma cura para a fome na Irlanda. Henry James queixou-se de Baudelaire, “Le Mal, você se dá importância excessiva (...) nossa impaciência é da mesma espécie que (...) se para “As flores do Bem” alguém nos apresentasse uma rapsódia de torta de ameixas e e água de colônia”; Joyce se dispôs a fazer um inferno e o fez. 

        Apresentou a Irlanda sob o domínio Inglês – frisa Pound -, quadro tão verídico que um covarde de décima categoria como Shaw (Geo. B.) não se atreveu nem sequer a olhá-lo de frente. Por extensão, Joyce apresentou todo o ocidente sob o domínio do capital. Os pormenores do mapa urbano são locais, mas Leopold Bloom (né Virag) é ubíquo. Sua esposa Gea-Tellus, o símbolo da terra, é o solo do qual a inteligência luta por librar-se, e no qual retomba saeculum saeculorum. Como Molly, é uma cadela grosseira, não uma prostituta, uma adúltera, il y en a. Suas meditações finais não são censuradas (reverências à psicanálise fazem-se necessárias nesta altura). O “sensor” no sentido freudiano foi removido. Os pensamentos noturnos de Molly, diferentes dos que foram versificados no outrora ubíquo poema do Sr. Young são desvendados; ela acaba por dizer que seu corpo é uma flor; sua última palavra é afirmativa. As maneiras da sociedade polida onde ela vive não conseguiram penetrar-lhe a sua crosta, ela vive presumivelmente na Patagônia, assim como vive em Jersey City ou Camden.
       
        E o livro é proibido nos Estados Unidos, onde toda a criança de sete anos tem ampla oportunidade de absorver os pormenores do caso Arbuckle ou de duzentos outros casos igualmente nauseabundos nos 270.000.000 de exemplares dos 300.000 jornais que diariamente nos informam. Retomemos à pergunta dos Goncourt: “Deveria o povo permanecer sujeito a uma regulamentação literária? Serão essas classes destituídas de valor, serão por demais vis as desventuras, serão os dramas catástrofes por demais mal apresentadas, os horrores por demais destituídos de nobreza? Agora que o romance se desenvolveu, agora que se tornou a grande forma literária (...) a investigação social, para análise e pesquisa psicológica, exigindo estudos e impondo a seu criador os encargos da ciência (...) buscando fatos (...) deve ou não o romancista escrever com a precisão e, por conseguinte, com a liberdade do sábio, do historiador, do físico?”, interroga Pound. 

        Se a única classe que, nos Estados Unidos, precisa pensar deve ser obstada por uns poucos maníacos, quem não poderá, e não se atreverá a interferir com as exibições de pernas na Broadway? Irá alguém, por causa de duas ou três palavras que todo garoto vê escritas nas paredes das privadas, se embrenhar nas duzentas páginas sobre a consubstanciação ou o aspecto biográfico de Hamlet? E deveria um relato que marca época, pergunta Pound, acerca da condição do espírito humano no século XX (primeiro da nova era), ser falseado pela omissão dessa meia dúzia de palavras, ou por uma pretensa ignorância de atos extremamente simples? O dia de Bloom não é censurado, muito bem. A análise de fezes, no hospital ali da esquina, não é censurada. Ninguém, salvo um presbiteriano, contestaria a utilidade da exatidão da última. Uma grande obra-prima literária é feita para inteligências tão sérias quanto as que se consagram à ciência da medicina.O antropólogo e o sociólogo têm direito a documentos igualmente exatos, a relatórios e generalizações igualmente sucintos, que raramente obtêm, considerando-se a complexidade do assunto em questão, e a idiotice das superstições correntes.
        
        Um relatório fabiano sobre o leite tem, para o legislador – argumenta Pound – menos utilidade que o conhecimento contido em L'Education Sentimentale ou em Bovary. Supõe-se que o legislador cuide de assuntos humanos, ocupe-se da civilidade das aglomerações humanas. Le beau monde gouverne – ou governou outrora – porque tinha acesso ao conhecimento condensado; a Idade Média era governada por aqueles que sabiam ler; uma aristocracia recebeu o tratado de Maquiavel antes dos cervos. Uma plutocracia muito limitada recebe agora as novidades, uma fração das quais (não muito susceptível de lançar luz excessiva sobre os mercados vizinhos) é posteriormente publicada nos jornais. Jefferson talvez tenha sido o último servidor público americano a ter algum senso geral de civilização. Molly Bloom julga Griffth sarcasticamente pela “sinceridade de suas calças”, e a edição parisiense do 'Tribune' nos conta que o congresso dos alfaiates declarou ser o Pres. Harding o mais elegante Primeiro Magistrado.
       
        Longe de mim a intenção de depreciar as vantagens de se ter um presidente capaz de enfrentar com igualdade de termos calçais paradigmas indumentários como o Sr. Balfour e de Lord (ex Mr.) Lee de Fareham (e Checquers), mas fique igualmente distante de mim menosprezar a utilidade pública da precisão de linguagem – advoga Pound – que só se pode colher da literatura, e que o sucinto J. Cesar, ou o lúcido Maquiavel, ou o autor do Code Napoleon, ou Th. Jefferson, para citar um exemplo local, de maneira alguma teriam desprezado.


        Evidentemente, é cedo demais para saber se nosso dirigente atual se interessa por essas questões; sabemos apenas que o falecido pseudo-intelectual Wilson não se interessava, assim como não se interessavam o falecido bombástico Teddy, e Taft, McKinley e Cleveland, e que, remontando tão longe quanto nos permite a memória, nenhum presidente americano jamais pronunciou uma só palavra que implicasse o menor interesse pela, ou consciência da, necessidade de vitalidade intelectual ou literária nos Estados Unidos. Algum senso de estilo poderia ter salvo os Estados Unidos e a Europa de Wilson; teria sido proveitoso para os nossos diplomatas, O mot juste é de qualidade pública. Eu nada posso fazer.


        Não estou apresentando este fato como um calmante para os estetas que pretendem sejam todos os autores fundamentalmente inúteis. Nós somos governados por palavras, as leis são gravadas em palavras, e a literatura é o único meio de manter vivas e precisas essas palavras. O espécime de fungo apresentado em minha ampla carta de fevereiro mostra o que acontece à linguagem quando cai nas mãos de especialistas analfabetos.
       
        Ezra Pound conclui o seu ensaio sobre Ulisses, dizendo - depois de ter atacado os políticos norte-americanos pela insensata proibição de sua publicação na América do Norte: Ulisses fornece assunto para um simpósio, mas do que para um só carta, ensaio ou resenha”.
      
          Para acessar a sexta parte deste trabalho, clique em: JAMES JOYCE - PARTE  VI 




REFERÊNCIAS:
POUND, Ezra. A arte da poesia. Tradução. de Heloysa de Lima e José Paulo Paes. São Paulo: Editora Cultrix, 1975, pp. 131-139.



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