11 de fev de 2014

AFRÂNIO COUTINHO - Evolução da Crítica


 – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
Evolução da Crítica Shakespeariana foi o título da palestra realizada por Afrânio Coutinho no curso realizado pela Academia Brasileira de Letras, em 1964, por ocasião da comemoração do quarto centenário de Shakespeare. O mestre inicia-a dizendo que a crítica literária não se constitui um gênero literário que possa ser análogo com o romance, o lirismo, o drama, a crônica, que nascem da imaginação, enquanto a crítica literária constitui-se em produto da razão, que exige reflexão, o que a aproxima da filosofia.
Na crítica, o espírito atua sobre a matéria literária, em todos os gêneros imaginativos. Sua tarefa é, pois, de natureza racional, de forma específica, em relação aos gêneros da literatura: romance, novela, conto, crônica e poesia; do que é criado pela imaginação, em literatura, passa no que diz respeito à crítica, a ser analisado, interpretado, compreendido e julgado. Então, tem-se que a matéria específica da crítica literária, no campo da racionalidade, é meditar e definir o fenômeno literário, tais como aparecem na obra de arte da linguagem, em qualquer um de seus gêneros acima mencionados.
A crítica, criada por Aristóteles, às vezes olhada com desprezo por muitos escritores da literatura, há muitos séculos vem servindo de conselheira do leitor, sem o qual não se justificaria a existência dessa forma de manifestação artística, vem caminhando sem esmorecer, desde sua criação até os dias atuais, em defesa da arte das palavras. E, na medida em que a literatura apresenta suas mutações ao longo dos anos, também a crítica faz a sua adequação às novas épocas, com seus períodos estilísticos, escolas e escritores.
Da longa palestra sobre crítica literária, proferida por Afrânio Coutinho, na Academia Brasileira de Letras, a respeito da análise do estilo e da técnica usada pela crítica, em razão da especificidade da obra e da envergadura de seu autor, referindo-se de modo especial à obra shakespeariana, transcrevo apenas alguns trechos que considerei mais importante, como segue:
No espaço de perto de quatrocentos anos que a sua obra ocupa as atenções do mundo, ela é um constante desafio à argúcia explicadora e valorativa da crítica literária. Nenhuma outra obra, pelo seu volume e qualidade, pois é o maior e mais perfeito acervo literário ainda produzido pelo espírito criador da humanidade, tem oferecido oportunidades mais amplas à penetração e compreensão do fenômeno literário.
E, de feito, a resposta que a crítica há dado a esse desafio tem sido memorável. Pode-se afirmar, também, que se é grande a obra shakespeariana, não é menos valiosa a contribuição que a crítica literária universal tem dado, a partir da observação, do estudo, da análise, da interpretação daquele extraordinário acervo de arte da palavra. Debruçada sobre ele há quase quatro séculos, a mente indagadora da crítica tem retirado, por outra parte, conclusões percucientes sobre o que seja a literatura, sobre como opera no espírito do público, sobre a sua natureza e função.
Não há seguramente, maior matéria prima literária para sobre ela fazer atuar o espírito crítico: drama ou lirismo, tragédia ou comédia, personagens ou enredos, estilo ou linguagem, metáforas ou símbolos, sublime ou natural, fantasia ou realidade, humanidade comum ou tipos heróicos, amor e morte, infância e velhice, guerra e paz, o instante e o eterno, a cidade e o campo, o passado e o presente, a obra shakespeariana é o espelho da humanidade, um resumo da história do homem, é o próprio homem em seus variados aspectos de grandeza e miséria, diante da vida e da morte, do perigo e da alegria, do infortúnio e do triunfo, do amor e da maldade, dos poderosos e dos humildes.
Daí em diante, Afrânio Coutinho ocupa-se em fazer um levantamento da manifestação da crítica sobre a obra de Shakespeare, de sua repercussão e aceitação pelos leitores, mencionando que, em 1942, o bibliográfico William Jaggard afirmava que com exceção das Escrituras, nenhum outro assunto ou escritor havia despertado mais comentário crítico do que Shakespeare, aduzindo, que o acervo crítico, em razão do volume de suas publicações, não foi arbitrário e nem somente quantitativo, incluindo todas as escolas críticas, todos os métodos, todas as teorias, no andar da literatura ocidental.
Afrânio dos Santos Coutinho nasceu a 15 de março de 1911, em Salvador, Bahia. Foi ensaísta, crítico literário e educador. Formado em Medicina em 1931, tomou outro caminho: foi professor de Filosofia, História e de Literatura. Escreveu 29 livros, que foram publicados entre os anos de 1935 a 1994, dentre eles, Correntes cruzadas, Introdução à literatura no Brasil, A literatura no Brasil (16 tomos), Machado de Assis na Literatura Brasileira, Crítica e Poética, A tradição afortunadahistória literária. Em 17 de abril de 1962, passou a ocupar a Cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras. Faleceu em 5 de agosto de 2000, na cidade do Rio de Janeiro.


REFERÊNCIA
COUTINHO, Afrânio. Crítica e Poética. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1968.
KOOGAN LAROUSSE. Pequeno Dicionário Enciclopédico. Rio de Janeiro: 1979,  p.1.112.


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