24 de set de 2015

[Conto] TCHEKHOV – Um homem extraordinário


                        [PEDRO LUSO DE CARVALHO]
   

A obra de Tchekhov contém histórias de pessoas comuns da sociedade russa, pessoas simples que viviam em Moscou, nas pequenas cidades e vilas camponesas; cada uma dessas pessoas tinha no dia-a-dia de suas vidas, que vencer uma luta feroz contra as privações materiais que ameaçavam sua sobrevivência nas cidades, nas vilas e nos campos, onde a miséria os rondava; essa realidade foi, em grande parte, a matéria-prima de suas histórias.

Era tal o talento e o gosto de Tchekhov pelo conto e novela que nunca sentiu necessidade e inspiração para produzir obra mais alentada, como é o caso do romance; talvez Tchekhov tenha sido o único escritor russo de escol que nunca escreveu um único romance; não o fez simplesmente por ter seu interesse literário voltado para a narrativa curta, da qual foi mestre.

Anton Pavlovitch Tchekhov nasceu a 29 de novembro de 1860, em Taganrog, Rússia, e morreu em 1904, aos 44 anos de idade, em Badenweiler, Alemanha. Passou os últimos momentos de vida com sua esposa, a atriz Olga Knipper, sabendo que personagens e histórias que escreveu a ele sobreviveriam.

Segue na íntegra o conto de Anton Tchekhov, Um homem extraordinário (In Tchekhov/Um homem extraordinário. Tradução de Tatiana Belinky. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008, p. 90-95):


[ESPAÇO DO CONTO]


UM HOMEM EXTRAORDINÁRIO
[ANTON TCHEKHOV]



PASSA DE MEIA-NOITE. Diante da porta Mária Pietróvna Kóchkina, parteira-solteirona, para um senhor alto, de cartola e redingote de capuz. Na escuridão outonal não se pode distinguir nem o rosto nem as mãos, mas já na maneira de pigarrear e de puxar a campainha percebe-se seriedade, positividade e uma certa autoridade. Após o terceiro toque, a porta se abre e aparece a própria Mária Pietróvna. Por cima da saia branca, ela jogou um casaco masculino. A pequena lâmpada de abajur verde que ela tem nas mãos tinge de verde o seu rosto sardento, amarrotado de sono, o pescoço venoso e os cabelinhos ralos e aloirados que lhe escapam de sob a toca.

– Posso falar com a parteira? – pergunta o cavalheiro.

– Sou eu mesma a parteira. O que deseja?

O cavalheiro entra no vestíbulo, e Mária Pietróvna vê à sua frente um homem alto e bem–proporcionado, já não jovem mas de rosto bonito e severo e suíças felpudas.

– Sou o assessor colegiado Kiriákov – diz ele. – Vim procurá-la para a minha mulher. Mas o mais depressa possível, por favor.

– Está bem... – concorda a parteira. – Já vou me vestir, enquanto o senhor tem a bondade de me esperar na sala. A luz verde da lâmpada cai fracamente sobre a mobília barata coberta de forros brancos remendados, sobre as pobres flores, os batentes pelos quais sobem heras... Há um odor de gerânio e fenol. Um reloginho de parece tiquetaqueia timidamente, como que embaraçado diante do homem estranho.

– Estou pronta, senhor!  – diz Mária Pietróvna, entrando na sala uns cinco minutos mais tarde, já vestida, lavada e desperta. – Vamos indo?

– Sim, é preciso ir logo... – diz Kiriákov. – A propósito, uma pergunta necessária: quanto a senhora cobrará pelos seus serviços?

– Realmente, não sei... – sorri Mária Petróvna, encabulada. – Quanto o senhor me der...

– Não, dessas coisas eu não gosto – diz Kiriákov, fitando a parteira com um olhar frio e imóvel. – Não preciso do que é seu, nem a senhora precisa do que é meu. Para evitar mal-entendidos, será mais sensato que combinemos antes.

– Mas, realmente, eu não sei... Não há um preço fixo.

– Eu mesmo trabalho e costumo dar valor ao trabalho alheio. Não gosto de injustiças. Para mim será igualmente desagradável se eu pagar menos ou me cobrar a mais, e por isso insisto que a senhora me diga o seu preço.

– Mas se existem preços diferentes!

– Hum!... Em vista de suas hesitações, que me são incompreensíveis, devo eu mesmo fixar o preço. Posso dar-lhe dois rublos...

– O que é isso, por favor... – diz Mária Petróvna, recuando. – Eu fico até sem jeito... Para aceitar dois rublos, então já é melhor fazer de graça. Se quiser, por cinco rublos...

– Dois rublos, nem mais um copeque. Não preciso do que é seu, tampouco estou disposto a pagar em excesso.

– Como quiser, senhor. Mas por dois rublos eu não irei...

– Mas por lei a senhora não tem o direito de recusar.

– Pois não, eu irei de graça.
– De graça eu não quero. Todo trabalho tem de ser recompensado. Eu mesmo trabalho e compreendo...

– Por dois rublos eu não vou, senhor... – declara Mária Petróvna mansamente. – Se quiser, de graça...

– Neste caso lamento muito tê-la incomodado inutilmente... Tenho a honra de me despedir.

 – Como o senhor é, realmente... – diz a parteira, acompanhando Kiriákov até o vestíbulo. – Se faz tanta questão, pois não, eu irei por três rublos.

Kiriákov franze o cenho e pensa por dois minutos inteiros, olhando concentradamente para o chão, depois diz um “não!” resoluto e sai para a rua. A perplexa e constrangida parteira tranca a porta atrás dele e volta para o seu dormitório.

“É bonito, imponente, mas como é esquisito, por Deus...”, pensa ela, deitando-se.

Mas não passa nem meia hora, quando a campainha torna a soar; ela se levanta e vê no vestíbulo o mesmo Kiriákov.

 – Estranha desorganização! – diz ele. – Nem na farmácia, nem os policiais, nem os caseiros, ninguém conhece endereços de parteiras, e desta forma eu me vejo colocado diante da necessidade de concordar com as suas condições. Eu lhe darei os três rublos, mas... advirto-a de que ao contratar empregados e ao fazer uso de qualquer tipo de serviço eu combino de antemão que no ato do pagamento não haja conversa sobre acréscimos, gorjetas etc. Cada um deve receber o seu.

Mária Petróvna escuta Kiriákov faz pouco tempo, mas sente que já está farta dele, que ele lhe é repulsivo, que o seu discurso plano e comedido deita-se como um peso sobre a sua alma. Ela se veste e sai com ele para a rua. O ar está silencioso, mas tão frio e enfarruscado que mal se podem ver até mesmo as luzes dos postes de iluminação. Debaixo dos pés a lama soluça. A parteira fixa os olhos, mas não vê carruagem...

– Não deve ser longe? – pergunta ela.

 – Não é longe – responde Kiriákov taciturno.

Eles passam por uma travessa, outra, a terceira... Kiriákov marcha, e até no seu andar mostra-se a positividade e a autoridade.

– Que tempo horroroso! – puxa conversa a parteira.

Mas ele se cala solidamente e visivelmente procura pisar nas pedras lisas, para não estragar as galochas. Finalmente, após longa caminhada, a parteira entra no vestíbulo; dali vê-se uma grande sala, decentemente arrumada. Nos quartos, até mesmo no dormitório onde está deitada a parturiente, nem vivalma...Parentes e velhotas, que pululam em qualquer recinto de parto, aqui estão ausentes. Agita-se como uma condenada apenas uma cozinheira de cara obtusa e assustada. Ouvem-se gemidos altos.

Passam-se três horas. Mária Pietróvna está ao lado da cama da parturiente, cochichando alguma coisa. As duas mulheres já tiveram tempo de travarem conhecimento, de se reconhecerem, de tagarelarem, suspirarem...

– A senhora não pode falar! Preocupa-se a parteira, mas ela mesma não para de despejar perguntas.

Mas eis que se abre a porta e, quieto, ponderado, entra no quarto o próprio Kiriákov. Senta-se numa cadeira e alisa as suíças. Faz-se um silêncio... Mária Pietrovna lança olhares tímidos para o seu rosto bonito mas inexpressivo como madeira e espera que ele comece a falar. Mas ele permanece obstinadamente calado, pensando em alguma coisa. A espera é inútil, e a parteira decide ela mesma começar a conversa e pronuncia uma frase que geralmente se diz durante os partos:

– Pois é, graças a Deus, há um ser humano a mais no mundo!

 – Sim, é agradável – diz Kiriákov, conservando a expressão de madeira no rosto –, se bem que, por outro lado, para se ter filhos supérfluos, é preciso ter dinheiro supérfluo. Uma criança não nasce alimentada e vestida.

No rosto da parturiente surge uma expressão culpada, como se ela tivesse posto no mundo um ser vivo sem permissão ou por puro capricho. Kiriákov levanta com um suspiro e sai ponderadamente.

– Mas como ele é com a senhora, meu Deus... – diz a parteira à parturiente. – Tão severo e não sorri.

A parturiente conta que ele, o marido, é sempre assim... honesto, justo, ponderado, sensatamente econômico, mas tudo isso em dimensões tão extraordinárias, que os simples mortais sentem-se sufocados. Os parentes afastaram-se dele, os criados não param mais que um mês, conhecidos não há, a mulher e os filhos estão sempre tensos de medo com cada um dos seus passos. Ele não bate, não grita, tem muito mais virtudes que defeitos, mas quando ele sai de casa, todos se sentem mais leves e saudáveis. Por que razão isto é assim a própria parturiente não é capaz de compreender.

– É preciso limpar bem as bacias e guardá-las na dispensa – diz Kiriákov, tornando a entrar no dormitório.

– Estes vidros também é preciso guardá-los, podem vir a ser úteis.

O que ele diz é simples e comezinho, mas a parteira sente um estranho mal-estar. Ela começa a ter medo desse homem e estremece toda vez que ouve os seus passos... De manhã, preparando-se para partir, ela vê na sala de jantar o filho pequeno de Kiriákov, um ginasiano pálido de cabeça raspada, tomando chá... De pé, diante dele, está Kiriákov e fala com a sua voz pausada e igual:

– Você sabe comer, pois saiba também trabalhar. Agora mesmo você deu um gole, mas não pensou, decerto, que esse gole custa dinheiro, e o dinheiro se consegue trabalhando. Pois coma e pense...

A parteira olha para o rosto sem expressão do menino e parece-lhe que até o ar está pesado, e que mais um pouco as paredes ruirão, não suportando a presença opressiva do homem extraordinário. Fora de si de medo, e já sentindo um forte ódio por esse homem, Mária Pretróvna apanha suas trouxinhas e sai apressadamente.

No meio do caminho, lembra-se de que esqueceu de receber os seus três rublos, mas depois de parar e pensar um pouco, faz um gesto de desistência com a mão e continua a caminhar.



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REFERÊNCIAS:
TCHEKHOV, Anton. Um homem extraordinário. Tradução de Tatiana Belinky. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008, p. 90-95):
TCHEKHOV, Anton. In: As três irmãs e contos. Tradução e apresentação de Boris Schnaiderman. São Paulo: Abril Cultural, 1979.



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