2 de jun de 2008

[Ensaio] PEDRO LUSO / Não à Franqueza



  
NÃO À FRANQUEZA
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]



Desde muito cedo as pessoas aprendem a conviver com a franqueza – melhor dizendo, com a suposta franqueza. O primeiro estágio dessa experiência dá-se bem cedo, no seio da família; depois se transfere para a escola, e, mais tarde, para o trabalho. Na família, todas aquelas palavras ofensivas, que foram ditas pelos pais com o propósito de educar – escondendo outros sentimentos –, são as mais significativas; palavras que poderão ecoar bem além da infância, com sérios prejuízos para a formação do caráter de seus filhos.

Na família, os pais fazem a revelação aos seus filhos do que seja a suposta franqueza – na prática –, com a carga ofensiva contida nas palavras que lhes dirigem, para admoestá-los. Embora procurem justificar essa atitude – depois de passada a tempestade –, com palavras como, por exemplo, “fiz isso para o bem de vocês”, os filhos não acreditam no que dizem os pais. Inteligentes e observadoras, as crianças sentem que ouviram críticas agressivas, que as deixaram intimidadas.

As crianças sabem distinguir uma palavra agressiva de um gesto de carinho. De nada adianta tergiversar, as crianças sabem quando uma palavra não transmite sinceridade. O melhor será, pois, os pais agirem com honestidade ao invés de se esconderem atrás de palavras que pensam ser de franqueza, quando são, na realidade, palavras com conteúdo altamente agressivo; nesses casos, quase sempre transmitem aos seus filhos tratamento semelhante ao que receberam de seus genitores, sem se aperceberem disso, o que, aliás, é quase regra.

Enquanto esse círculo vicioso não for cortado pelos pais, que também sofreram esse tipo de tratamento na infância, as novas gerações seguirão confundindo agressividade e mal trato com franqueza [qualidade de quem diz o que pensa]. Por isso, as crianças que aprendem que podem dizer o que pensam, como regra, serão adultos falastrões e inconvenientes. Eles serão críticos ferrenhos dos atos que julgarem errados, na presença da pessoa, alvo da critica, que esteja disposta a ouvi-los.

Um exemplo desse ato de franqueza: um homem e sua mulher são recebidos pelo casal anfitrião. Terminado o jantar o convidado diz não ter gostado nem da comida nem do vinho. Depois o homem deixa a mesa e passa a olhar os quadros na sala de visitas, e, igualmente sem cerimônia, diz, ao casal anfitrião, que nenhuma dessas pinturas é de boa qualidade. O que dizer dessa inominável grosseria?

Isso me fez lembrar uma conferência sobre literatura proferida no salão nobre do Senado, por Ariano Suassuna. A certa altura de sua fala, o mestre diz com a simplicidade própria das pessoas sábias, que um dos defeitos que não consegue suportar nos seus semelhantes é a franqueza. Diz não gostar de quem aponta seus defeitos. Suassuna deixa claro que não se importa que falem mal dele, desde que não o façam na sua presença.

O que pode acontecer de mais grave pela ação de adultos – acostumados que são em dizer o que pensam sobre quem não lhes pediu opinião ou conselho –, é o ataque incontrolável à honra de quem é reconhecidamente honrado. E mal sabem eles que por trás dessa capacidade incontida de usar da suposta franqueza para criticar as pessoas – a que se dão ao direito e com a qual se comprazem –, encontra-se escondido em algum canto da alma um perverso sentimento de inveja, que tentam dissimular.

Encaixa-se no que foi dito acima, ou seja, no sentimento de inveja – suposta franqueza –, dissimulado pelo espírito crítico, um trecho de As Sete Mulheres de Barba Azul, romance de Anatole France:

O talento é o que menos se perdoa. O mundo pouco se importa com a vileza da alma e a deslealdade do coração. Aceita os perversos e os covardes. A própria riqueza desperta pouca inveja porque é sempre considerada imerecida. Até a glória de um homem comum não ofende ninguém. Mas há no talento uma soberba que deve ser expiada com ódios violentos e calúnias pérfidas.


(In: As Sete Mulheres de Barba Azul/Anatole France, 
Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983.)



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