7 de set de 2010

JAMES JOYCE – PARTE III



          
               por Pedro Luso de carvalho


        Como nos ateremos, nesta postagem, a determinado trecho de um importante ensaio de Edmund Wilson sobre a obra de James Joyce, entendo ser importante falar um pouco sobre esse culto e inteligente escritor norte-americano, que era movido pela paixão do sentido: o mundo a política, a América, a literatura, Joyce, Henri James, Proust, as mulheres, como elaboração intelectual, como expressão literária e cultural. Wilson “foi simbolo de um mundo de graça, como diz Gore Vidal, na qual a literatura era talvez a maior atração”.

        Edmund Wilson nasceu em Red Bank, Nova Jérsey, 1895, USA, e faleceu em Talcottville, Nova York, em 1972. Foi contemporâneo de Hemingway, Fitzgerald e de William Faulkner, o último de uma geração educada, que se sustentava “quase que integralmente com jornalismo literário, coisa impossível, como diz Vidal, nos dias que correm, quando mais não fora porque, para todos os efeitos, o tipo de jornalismo literário não exite mais”.

        Wilson escreveu romances, contos e ensaios, mas foi no ensaio literário que se tornou mestre. Suas obras mais conhecidas são: Axel's Castle (O castelo de Axel), The Finland Station (Rumo à estação Finlândia), obras essas que se tornaram conhecidas no início dos anos 30. Escreveu para para The New Republic. Por curto período apoiou o Partido Comunista americano. Visitou a antiga União Soviética. “Mas, o que é fascinante ler-se hoje - diz Gore Vidal, in De Fato e de Ficção - não é o relato de Wilson sobre o que viu e fez, mas a maneira como ele se dedica a um assunto, um idioma, um mundo. É isso o que o singulariza dentre todos os outros críticos americanos. Ele faz questão de chegar à raiz das coisa”.

        Ulisses foi publicado foi publicado em Paris em 1922; nove anos depois, 1931, Edmund Wilson publica, nos Estados Unidos, Axel's Castle, quando ainda estava proibida a publicação da obra de Joyce (Ulisses), proibição essa que somente foi suspensa no final de 1933, mediante sentença judicial, na qual o juiz diz, na sua decisão, que o livro, embora “um tanto emético” não é “afrodisíaco”. No seu ensaio famoso sobre a obra de James Joyce, que integra O castelo de Axel, Edmund Wilson diz que:

        “Joyce nos conduz diretamente à consciencia de suas personagens, e, para fazê-lo, vale de métodos com que Flaubert jamais sonhou – os métodos do simbolismo. Em Ulisses, ele explora conjuntamente, como nenhum escritor cogitara fazer antes, os recursos do simbolismo e do naturalismo. O romance de Proust, conquanto magistral, representa talvez a decadência da ficção psicológica: ao elemento subjetivo é finalmente permitido invadir e mesmo arruinar mesmo aqueles aspectos do enredo, que, na realidade, deveriam ter sido mantidos em plano estritamente objetivo para que se pudesse acreditar que de fato estivessem ocorrendo.

        Mas o domínio que Joyce tem do seu mundo objetivo é total – prossegue Wilson: sua obra se firma inabalavelmente em alicerces naturalistas. Enquanto que em 'Em busca do tempo perdido' muitas coisas permanecem vagas – as idades das personagens e, por vezes, as circunstancias reais de suas vidas, como – o que é pior – a possibilidade de serem apenas pesadelos do herói -, Ulisses foi logicamente concebido e acuradamente documentado até o derradeiro pormenor: tudo quanto nele acontece é perfeitamente conseqüente, e sabemos com precisão o que vestem suas personagens, quanto pagaram por cada coisa, onde estiveram em diferentes horas do dia, que canções populares cantaram e cerca de quais acontecimentos leram nos jornais de 16 de junho de 1904.

        Todavia, quando somos admitidos à mente de qualquer uma delas – enfatiza Wilson -, vêmo-nos num mundo tão complexo e peculiar, e, por vezes, tão fantástico e obscuro, quanto o de um poeta simbolista; mundo que, por outro lado, nos é apresentado por meio de recursos similares de linguagem. Estamos mais à vontade nas mentes das personagens de Joyce do que possivelmente estaríamos, salvo após algum estudo, na mente de um Mallarmé ou de um Eliot, porque sabemos mais acerca das circunstâncias em que elas se encontram; deparamos, porém, a mesma espécie de confusão entre emoções, percepções e raciocínios, e provavelmente nos desconcertará a mesma espécie de hiatos de pensamento, quando certos vínculos na associação das idéias são deslocados para a mente inconsciente, obrigando-nos a adivinhá-los.


        Entretanto, Joyce levou mais longe os métodos do simbolismo – afirma Wilson: não se contentou com meramente armar uma cena naturalista para nela representar diretamente os pensamentos de suas diferentes personagens em monólogos simbolistas [...] O fato é que de cada um de seus episódios Joyce tentou fazer uma unidade independente, na qual se fundissem os diferentes grupos de elementos componentes – os pensamentos das personagens, os lugares em que estão, a atmosfera à sua volta, a sensação da hora do dia.

        Em Retrato do artista – lembra Wilson -, já havia ele experimentado, como Proust, variar a forma e o estilo das diferentes partes para ajustá-los à diferentes idades e fases de seu herói – desde os fragmentos pueris de impressões de meninice, passando pelas revelações extáticas e pelos pesadelos aterradores da adolescência, até as notações tranquilas e seguras da mocidade. Mas em Retrato do artista Joyce apresentava tudo do ponto de vista de uma única personagem, Dedalus, ao passo que em Ulisses se ocupa de uma porção de personalidades diferentes, das quais Dedalus não mais é o centro; ademais, seu método, que nos possibilita viver no mundo delas, nem sempre se resume a uma questão de nos fazer mudar de ponto de vista de uma personagem para outra.

        Para compreender o que Joyce faz, no caso - pondera Wilson -, devemos imaginar um grupo de poemas simbolistas, que incluem personagens cujas mentes são representadas simbolicamente em função, não da sensibilidade do poeta, a desempenhar um papel absolutamente impessoal e a se impor, sempre, todas as restrições naturalistas no tocante à história que está narrando, ao mesmo tempo em que permite todos os privilégios simbolistas quanto à maneira de narrá-la. É pouco provável que os primeiros episódios de 'Ulisses' nos preparem para isso: são tão claros e sóbrios quanto a luz matinal da costa irlandesa em que decorrem: as percepções que as personagens têm do mundo exterior são, via de regra, distintas de seus personagens e sentimentos sobre elas.
      
        Mas no escritório do jornal, pela primeira vez – diz Wilson -, uma atmosfera geral começa a ser criada, para além dos pensamentos específicos das personagens, merc da inserção, no texto, de cabeçalhos de jornal anunciando os incidentes da narrativa. E na cena da biblioteca, que ocorre no começo da tarde, o cenário e as pessoas exteriores a Stephen começam a dissolver-se, na sua percepção, exageradas e toldadas por alguns tragos à hora do almoço e pela excitação intelectual da conversa em meio à obscuridade e tranquilidade da biblioteca: “Olhos oglintônicos, vivos de prazer, se ergueram ariscoluzentes. A olhar alegremente, jovial puritano, por entre a entrançada madressilva”.
       
        Aqui, todavia - prossegue Wilson - , vemos tudo através dos olhos de Stephen - através dos olhos de uma única personagem; na cena Ormond Hotel, porém, que ocorre algumas horas mais tarde – nossos devaneios absorvem o mundo à nossa volta progressivamente, à medida que a luz do dia se desvanece e as impressões do dia se acumulam – as visões, os sons, a vibrações emocionais e os apetites por comida e bebida ao fim da tarde, o riso, o cabelo loiro-ruivo das garçonetes, o tilintar do carro de Blazes Boylan a caminho da casa de Molly Bloom, o ressoar dos cascos de cavalos do cortejo vice-real que se faz ouvir pela janela aberta, a balada cantada por Simon Dedalus, o som do acompanhamento de piano e o tranquilo jantar de Bloom -, embora não sejam todos eles, de começo a fim, percebidos por Bloom, misturam-se, muito pouco naturalisticamente, numa harmonia de som claro, cor vibrante, aguda sensação indistinta e luz desfalecente.

        A cena do bordel – conclui Wilson esse trecho de seu ensaio -, onde é noite e Dedalus e Bloom estão bêbados , assemelha-se a um filme em câmara lenta, no qual a visão intensificada da realidade continuadamente se muda em visões fantasmagóricas; e o abatimento após a excitação disso tudo, a lassitude e esqualidez do abrigo de cocheiros para onde Bloom leva Stephen a tomar café, são expressos numa prosa tão sensabor, tão enfadonha e banal quanto os incidentes que narra. Joyce chegou, por métodos diferentes, a um relativismo similar ao de Proust: reproduz literariamente os diferentes aspectos, as diferentes proporções e texturas que as coisas e pessoas assumem em diferentes ocasiões e sob diferentes circunstancias”.

        Para acessar a primeira parte deste trabalho, clique em JAMES JOYCE - PARTE I
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REFERENCIAS:
  WILSON, Edmund. O Castelo de Axel. Tradução de José Paulo Paes. 2ª ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2004

VIDAL, Gore. De fato e de ficção. Ensaios contra a corrente. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia Das Letras, 1987.



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