1 de mar de 2009

CLARICE LISPECTOR / Uma Entrevista



                 por  Pedro Luso de Carvalho



        Entre uma pilha petições e outra de processos findos, que pretendia encaminhá-los à lixeira, encontrei dois recortes da revista Manchete, amassados, amarelecidos e sem data, que reproduzia uma entrevista concedida pelo filho de Clarice Lispector, o economista Paulo Gurgel Valente, a Jorge de Aquino Filho. 

        Acho que um de meus filhos, no afã de ajudar-me no emaranhado de papéis, misturou uma coisa com outra. Nas fotos de Paulo Marcos, o filho de Clarice posa para a foto principal da entrevista. Na parede da sala, um quadro da escritora pintado por De Chirico. Na primeira página da entrevista, acima dessa foto, aparece a manchete: “Minha mãe Clarice Lispector”.

        Como a entrevista é longa, farei menção apenas a alguns trechos do que Paulo falou sobre sua mãe Clarice, deixando de reproduzir a pergunta do entrevistador, e passando diretamente à resposta. Pois bem, o texto da entrevista tem uma espécie de ementa (própria de acórdão de tribunais): “Mamãe era extremamente vaidosa. Jamais escreveu trancada num quarto com cachimbo na boca, como diziam”.

        No camarote da Gávea – diz o entrevistador, nesse intróito – a presença de Clarice Lispector está viva nos pequenos baús de prata e no potinho que enfeitam a grande arca de madeira. E prossegue descrevendo a sala em que se encontram: “Na parede, ela revive em seus retratos feitos por Scliar e De Chirico, mostrando fases da escritora nascida na Ucrânia, União Soviética (na época), a 10 de dezembro de 1925, mas desde um ano de idade tornada brasileira pelos pais que escolheram o Brasil como pátria”.

        No início dessa conversa, Paulo dizia-se emocionado ao falar de sua mãe, e contente por saber da importância de sua obra. Disse do agradável convívio que Clarice tinha com ele, Paulo, e com seu irmão Pedro: “Mamãe se preocupava muito com seus filhos. Nossos deveres escolares, nossas amizades, nossa alimentação tinham sempre sua supervisão. Ao mesmo tempo criou-nos com muita liberdade. A característica principal foi inspirar sempre muita criatividade. Jamais nos cerceou”.
       
        Quando o entrevistador perguntou-lhe se sua mãe reclamava quando era interrompida pelos filhos, respondeu-lhe que não, e que ela gostava de escrever rodeada de seus dois filhos. Lembrava-se dela com a máquina de escrever no colo. Foi assim – disse - que escreveu todos os seu romances. E mais: sua mãe, não gostava de escritório, e mesmo enquanto escrevia, não deixava de ser uma dona-de-casa. “Ora falava de empregada, ora fazia a relação de compras. Muitas vezes fomos juntos à feira. Escrever, para ela, era como fazer compras ou concluir qualquer tarefa doméstica – algo muito natural”.
       
        Mais adiante, na entrevista, ante a pergunta do que marcou mais no contato entre mãe e filho, Paulo respondeu que “foi quando ainda garoto, vendo-a a escrever sempre sentada no seu sofá preferido, um dia lhe perguntei: ‘Já que a senhora tanto escreve, por que não faz uma história só para mim?' Mamãe parou o romance que estava escrevendo e iniciou a história. Depois, guardou-a na gaveta. Passados quinze anos a história foi editada como seu primeiro livro infantil chamado O Mistério do Coelhinho Pensante. Paulo diz que esse livro foi o início da incursão de sua mãe na literatura infantil.

                                                                   
                                                               
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