28 de ago de 2014

SUSAN SONTAG – Uma Entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

O primeiro livro de ficção de Susan Sontag, O benfeitor, foi publicado no Brasil em 1963 pela L&PM, com a tradução de Ana Maria Capovilla. Essa editora já havia publicado seus livros de ensaio e crítica: Contra a interpretação, Sob o signo de Saturno e A doença como metáfora. Sontag publicou ao todo 15 livros, entre eles os romances The Benefactor, Death Kit e The Volcano Lover; publicou também uma coletânea de contos e três coletâneas de ensaios.
Versátil, Sontag escreveu e dirigiu quatro filmes: Duets for Cannibals, Brother Carl, Promised Land e Unguided Tour (de 1969 a 1983). Também editou e apresentou textos de Antonin Artaud, Roland Barthes e Danilo Kis. Mais ainda: escreveu prefácios para os livros de Robert Walser, Marina Tsvetayeva, Machado de Assis e Juan Rulfo, entre outros, no período de 1982 a 1995.
Susan Sontag foi uma das mais importantes intelectuais dos Estados Unidos. Nasceu em Nova Iorque, em 1933, e criou-se no Arizona e Carolina do Sul, tendo-se formado em 1951 na Universidade de Chicago. Recebeu dois títulos de Mestre na Universidade de Harvard: Inglês, em 1954, e Filosofia, em 1955.
Sua vida acadêmica, como professora de Filosofia e de História da Religião, foi até o início dos anos 60. Viveu em Paris por um ano, depois passou a residir em Nova Iorque, com retornos frequentes à Europa. Dentre os prêmios que ganhou destaque-se: National Book Critics Circle Award, com Photography, em 1977.
Segue trechos da entrevista que Susan Sontag concedeu a Edward Hirsch para The Paris Review, entrevista essa que se estendeu por três dias, no seu apartamento em Manhattan, no mês de julho de 1994 (In Plimpton, George. The Paris Review. Escritoras e a arte da escrita. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001):
Hirsch pergunta se ela se incomoda se a chamam de intelectual.
SONTAG: Bom, a gente não gosta de ser chamada de coisa alguma. E essa palavra tem mais sentido para mim como adjetivo do que como substantivo, embora eu suponha que se refira sempre a alguém extravagante e sem graça – especialmente se for mulher. Isso me torna ainda mais engajada em minhas polêmicas contra os clichês comuns sobre os intelectuais que fala de coração versus cabeça, sentimento versus intelecto e assim por diante.
Que mulheres foram importantes para a senhora?
SONTAG: Muitas. Sei Shonagon, Jane Austen, George Eliot, Emily Dickinson, Virginia Woolf, Marina Tsvetayeva, Anna Akhmatova, Elizabeth Bishop, Elizabeth Hardwick… a lista não acaba. Do ponto de vista cultural as mulheres são uma minoria, e com minha consciência de pertencer à minoria, eu me regozijo com as contribuições das mulheres. Com minha consciência de escritora, me regozijo com quaisquer escritores que admire, sejam mulheres ou homens.
Hirsch diz-lhe que a sua impressão é de que sua ideia madura (Sontag) de uma vocação é mais europeia do que americana.
SONTAG: Não tenho tanta certeza. Acho que é minha marca particular. Mas é verdade que, vivendo na segunda metade do século XX, posso satisfazer meus gostos europeus sem propriamente me expatriar e ainda passar boa parte de minha vida adulta na Europa. Esse tem sido meu jeito de ser americana. Como Gertrud Stein observou: ‘Para que servem as raízes se você não pode carregá-las com você?’ Pode-se dizer que isso é muito judeu, mas é americano também.
Existe alguma coisa que a ajude a começar a escrever?
SONTAG: A leitura – que raramente está relacionada com o que estou escrevendo, ou desejando escrever. Leio muito sobre história da arte, história da arquitetura, musicologia, livros acadêmicos sobre vários assuntos. E poesia. Começar é, em parte, ganhar tempo, ganhar tempo lendo e/ou escutando música, o que me dá energia e também me angustia. Sinto-me culpada por não estar escrevendo.
Ficou antiquado pensar-se que o propósito da literatura é de nos educar sobre a vida?
SONTAG: Bem, de fato ela nos educa sobre a vida. Não seria a pessoa que sou, não compreenderia o que compreendo se não fossem alguns livros. Estou pensando na grande questão da literatura russa do século XIX: como se deveria viver? Um romance que merece ser lido é um aprendizado do coração. Alarga o sentido das possibilidades humanas, do que é a natureza humana, do que acontece no mundo. É um criador de vida interior.
A literatura provoca êxtase?
SONTAG: Certamente, mas menos confiável do que o da música e da dança: a literatura tem mais a ver com a cabeça. Precisamos ser rigorosos com os livros. Só quero ler o que vou querer reler – essa é a definição de um livro que vale a pena.
A senhora sempre volta atrás e relê seus trabalhos?
SONTAG: Só para rever traduções. Não, de modo algum. Não sou curiosa. Não sou apegada à obra que já está pronta. E também porque não quero reconhecer que tudo é sempre igual. Talvez eu sempre relute em reler qualquer coisa que tenha escrito há mais de dez anos porque isso destruiria minha ilusão de que estou sempre começando. É isso que é mais americano em mim: sempre sinto que é um novo começo.
No final da entrevista da qual foi transcrita apenas parte dela, como disse acima, Edward Hirsch, da The Paris Review, pergunta à escritora: A senhora pensa muito no público que vai ler seus livros?
SONTAG: Não ouso. Não quero. Mas, de qualquer modo, não escrevo porque existe um público, mas escrevo porque existe a literatura.
Susan Sontag foi casada com Philip Rieff (1950), sociólogo e crítico cultural, e professor das Universidades de Berkeley e Harvard, entre outras, e ficou conhecido pelos seus estudos sobre Freud e sobre a ética na cultural ocidental; do casamento, que durou nove anos, nasceu um filho, David Rieff, jornalista e analista de política internacional. A escritora morreu em Nova Iorque, em 28 de dezembro de 2004 - 19 dias antes de completar 71 anos.


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