
por Pedro Luso de Carvalho
Fernando Namora nasceu em 15 de abril de 1919, em Condeixa, Portugal, tendo-se formado em Medicina na Universidade de Coimbra. Em 1937 fez sua estréia nas letras com o livro de poemas Relevos e o romance Sete partidas do mundo. Em 1940 e 1941 publicou mais dois livros de poesia, Mar de Sargaço e Terra. Em 1959 sua obra poética foi reunida no livro As frias madrugadas. Em 1969 lançou Marketing, outro livro de poesia.
Fogo na Noite Escura (1943) foi o primeiro grande romance de Fernando Namora. A seguir publicou: Casa de Malta, novela, 1945; Minas de São Francisco, romance 1946 (Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa); Retalhos da vida de um médico (1ª série, em 1949 – Prêmio Vértice; as narrativas da 2ª série foram editadas em 1963); A noite e A madrugada, romance, 1950; Deuses e Demônios da Medicina, biografias romanceadas (1ª versão em 1952, 2ª versão em 1963, dois volumes); O trigo e o joio, romance, 1954; O homem disfarçado, romance, 1957; Domingo à tarde, romance, 1961 (Prêmio José Lins do Rego); Esboço Histórico do Neo-Realismo, ensaio, 1961; Aquilino Ribeiro apresentação e coordenação, 1963; Diálogo em setembro, crônica romanceada, 1968; Um sino na montanha, Cadernos de um escritor, 1971, e os Clandestinos, romance, 1972.
Fernando Namora tem seus livros traduzidos para o castellano, catalão, francês, inglês, alemão, italiano, romeno, checo, russo, esperanto, sueco, holandês, búlgaro etc. Fogo na noite escura é o oitavo livro de Fernando Namora editado no Brasil.
Domingo à tarde foi o primeiro livro que li de Fernando Namora; após a leitura desse romance saí em busca de outras obras do autor, e descobri Retalhos da vida de um médico, A noite e a madrugada e Fogo na noite escura.
Em Domingo à tarde, Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico. O escritor sabe lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam esse ambiente, impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança. Demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens; desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa. Melhor que falar, é mostrar um trecho do romance Domingo à tarde:
“A minha insociabilidade seria, pois, uma estratégia. De qualquer dos modos, fui conquistando regalias de exceção, que me permitiam escolher os doentes, espantando do hospital as tais baronesas histéricas e desocupadas, vindas ali se exercitar com as intimidades da consulta, os neuróticos, os maricas e toda essa legião de exploradores dos serviços de assistência médica gratuita, compadres ou compadres dos nossos amigos, para quem o nosso trabalho era, ao fim e ao cabo, uma mercê que, por intermédio deles, da sua sacrificada generosidade, nos fosse concedida. Ficavam-me os pobres, submissos e aterrados, os que pressentiam o desfecho como um castigo misterioso, telúrico, de que não se podia fugir, e me procuravam quase sempre apenas para ouvir uma palavra de conforto que em toda a parte lhes era negada, uma mentira mais, e pareciam rogar desculpas do seu próprio sofrimento. Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou de suas ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse ao lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que me pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida.
Sendo eu o tal sujeito bruto, de palavras aceradas, parecia estranho que eles me escolhessem entre os demais coveiros, embora nunca os tivesse seduzido com a minha compaixão. Vinha, no entanto, eles e as famílias, estabelecendo uma pertinaz e surda ronda a todos os meus passos. Eram cavalos viciados no chicote. Cavalos que mantinham de pé, por tenacidade e não por orgulho, a sua agonia. Talvez a minha dureza lhes soubesse a verdade. Talvez a preferissem às palavras embuçadas, aos afagos corrompidos, que deixam o travo duma fraude maior ainda”.
Aí está, pois, um pouco do talento desse escritor português. Depois de ler seu texto, como não concordar com o que diz Fernando Mendonça: Ler um texto de Fernando Namora é volvermos os olhos para imutável perfeição clássica da nossa língua. A sua elasticidade, o seu equilíbrio e simultaneamente as sua largas pinceladas impressionistas fazem desse texto uma lição permanente da língua portuguesa.
Fogo na Noite Escura (1943) foi o primeiro grande romance de Fernando Namora. A seguir publicou: Casa de Malta, novela, 1945; Minas de São Francisco, romance 1946 (Prêmio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa); Retalhos da vida de um médico (1ª série, em 1949 – Prêmio Vértice; as narrativas da 2ª série foram editadas em 1963); A noite e A madrugada, romance, 1950; Deuses e Demônios da Medicina, biografias romanceadas (1ª versão em 1952, 2ª versão em 1963, dois volumes); O trigo e o joio, romance, 1954; O homem disfarçado, romance, 1957; Domingo à tarde, romance, 1961 (Prêmio José Lins do Rego); Esboço Histórico do Neo-Realismo, ensaio, 1961; Aquilino Ribeiro apresentação e coordenação, 1963; Diálogo em setembro, crônica romanceada, 1968; Um sino na montanha, Cadernos de um escritor, 1971, e os Clandestinos, romance, 1972.
Fernando Namora tem seus livros traduzidos para o castellano, catalão, francês, inglês, alemão, italiano, romeno, checo, russo, esperanto, sueco, holandês, búlgaro etc. Fogo na noite escura é o oitavo livro de Fernando Namora editado no Brasil.
Domingo à tarde foi o primeiro livro que li de Fernando Namora; após a leitura desse romance saí em busca de outras obras do autor, e descobri Retalhos da vida de um médico, A noite e a madrugada e Fogo na noite escura.
Em Domingo à tarde, Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico. O escritor sabe lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam esse ambiente, impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança. Demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens; desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa. Melhor que falar, é mostrar um trecho do romance Domingo à tarde:
“A minha insociabilidade seria, pois, uma estratégia. De qualquer dos modos, fui conquistando regalias de exceção, que me permitiam escolher os doentes, espantando do hospital as tais baronesas histéricas e desocupadas, vindas ali se exercitar com as intimidades da consulta, os neuróticos, os maricas e toda essa legião de exploradores dos serviços de assistência médica gratuita, compadres ou compadres dos nossos amigos, para quem o nosso trabalho era, ao fim e ao cabo, uma mercê que, por intermédio deles, da sua sacrificada generosidade, nos fosse concedida. Ficavam-me os pobres, submissos e aterrados, os que pressentiam o desfecho como um castigo misterioso, telúrico, de que não se podia fugir, e me procuravam quase sempre apenas para ouvir uma palavra de conforto que em toda a parte lhes era negada, uma mentira mais, e pareciam rogar desculpas do seu próprio sofrimento. Esperavam de mim, cúmplice da doença, da morte ou de suas ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie ambígua de solidariedade que os fizesse sentir apoiados até por quem estivesse ao lado do executor no minuto final; ou mesmo a solidariedade do carrasco e da vítima quando o mundo se fecha sobre os dois. Mentiras era o que me pediam, sempre mentiras, logros mendigados de mão estendida.
Sendo eu o tal sujeito bruto, de palavras aceradas, parecia estranho que eles me escolhessem entre os demais coveiros, embora nunca os tivesse seduzido com a minha compaixão. Vinha, no entanto, eles e as famílias, estabelecendo uma pertinaz e surda ronda a todos os meus passos. Eram cavalos viciados no chicote. Cavalos que mantinham de pé, por tenacidade e não por orgulho, a sua agonia. Talvez a minha dureza lhes soubesse a verdade. Talvez a preferissem às palavras embuçadas, aos afagos corrompidos, que deixam o travo duma fraude maior ainda”.
Aí está, pois, um pouco do talento desse escritor português. Depois de ler seu texto, como não concordar com o que diz Fernando Mendonça: Ler um texto de Fernando Namora é volvermos os olhos para imutável perfeição clássica da nossa língua. A sua elasticidade, o seu equilíbrio e simultaneamente as sua largas pinceladas impressionistas fazem desse texto uma lição permanente da língua portuguesa.
2 comentários:
Deixei este livro numa prateleira da hospedaria Independencia em Mendoza (Argentina). Só espero que alguém lhe pegue e possa saborear a belíssima tristeza que impregna esta obra.
:)
http://aospapeis.blogspot.com
Li este livro quando era adolescente. Quando acabei, enfiei-me debaixo da cama e chorei, chorei. Livros assim, sentidos e dolorosos, depois deste, só os do Michael Cunningham (Sangue do meu Sangue é o mais pungente) e o "Autópsia de um Mar de Ruínas", do escritor português João de Melo, sobre a guerra colonial em Angola.
Antes do "Domingo à Tarde", a tristeza poética de "Os capitães da Areia e "O meu Pé de Laranja Lima"- mas aí eu era ainda criança...
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