18 de nov de 2016

MARIO VARGAS LLOSA – Quem Matou Palomino Molero?




 PEDRO LUSO DE CARVALHO


MARIO VARGAS LLOSA escreveu o romance Quem Matou Palomino Molero? em 1986. Nesse mesmo ano o livro foi publicado no Brasil pela editora Francisco Alves, com a tradução de Remy Gorga Filho. Bella Jozef disse sobre essa obra: “O narrador traça o quadro deprimente de uma realidade com o problema da injustiça e estratificação das classes sociais que divide e separa também as etnias, alternando a geografia física e psicológica”.
A história contada por Vargas Llosa se passa nos anos cinquenta, tendo por personagens centrais os policiais: Tenente Silva e Lituma. Lituma encontrou o corpo de Palomino Molero enforcado na velha algarobeira, com sinais em seu corpo de atos de tortura, como é narrado no início da obra:
Antes e depois de matá-lo haviam cortado seu corpo em tiras com uma crueldade sem limites: tinha o nariz e a boca cortados, coágulos de sangue ressequido, equimoses, queimaduras de cigarro, e, como se não fosse bastante, Lituma compreendeu que também haviam tentado capá-lo, porque os ovos pendiam até a entreperna. Estava descalço, despido da cintura para baixo, com uma camiseta em pedaços. Era jovem, magro, moreninho e ossudo (...). – Quem fez isto – balbuciou, contendo a náusea”.
O crime, que foi cometido no pequeno povoado do Peru, Talara, onde se encontrava instalada a International Petroleum Company, com seus escritórios e as casas dos gringos, e a Base Aérea de Piura, deixou o guarda Lituma abatido por pressentir que o assassinato de Palomino Molero poderia representar uma ameaça para ele, caso algum peixe grande da Base Aérea estivesse envolvido no crime, como disse a um interlocutor seu: “- Mas não posso tirar o magrinho da cabeça. Tenho pesadelos, parece que estão arrancando os meus ovos como fizeram com ele. Coitadinho: morreu com ele pelos joelhos e achatados como ovos fritos”.
A partir daí o Tenente Silva e o seu subordinado Lituma passaram à fase de investigação da autoria do crime, andando praticamente no escuro à busca de suspeitos. Aos poucos começaram a aparecer aqui e ali alguns elementos que resultavam em indícios, até que passaram a suspeitar do Comandante da Base Aérea, o Coronel Mindreau. Este recebeu os policiais em seu gabinete, pela segunda vez: “- Em que posso servi-los? – murmurou com uma urbanidade que sua expressão glacial contradizia. – Aqui estamos outra vez pelo assassinato de Palomino Molero – respondeu o Tenente, com todo respeito. – Para solicitar sua colaboração, meu Coronel”.
A investigação prosseguia com seus percalços e temores, principalmente por parte do guarda Lituma. Passaram então a dar maior atenção ao suspeito principal, o Coronel Mindreau, depois que receberam uma denúncia anônima, acusando-o da autoria do crime. E, para surpresa dos policiais, estes descobriram que o bilhete com a denúncia foi escrito pela própria filha do Coronel, Alícia Mindreau, namorada de Palomino Molero, com quem fugira para casar-se. O casamento só não se consumou pela ação do Coronel Mindreau.
A investigação prosseguia tensa à vista dos riscos para o Tenente Silva e para o guarda Lituma: o suspeito era pessoa influente e capaz de atos violentos. O dia-a-dia dos policiais somente era amenizado com a presença Dona Adriana, casada com o pescador Moisés, homem bem mais velho que ela. O Tenente Silva não escondia que sentia uma forte atração física por essa mulher gorda e bem mais velha que ele. Lituma não compreendia esse sentimento; não entendia por que ela lhe dava tanto tesão: “- Se continuar olhando assim para Dona Adriana, seus olhos vão gastar, meu Tenente” – disse-lhe Lituma.
Fora esses momentos de descontração na pensão de Dona Adriana, o resto do tempo os dois policiais passavam envolvidos com a investigação. O Tenente Silva esforçava-se para descobrir o assassino de Palomino Molero, não que estivesse obcecado para que fosse feita a justiça, mas sim pela curiosidade que o perseguia; queria saber a todo custo quem matou Palomino Molero. O guarda Lituma admirava o estilo do Tenente Silva, que sabia como arrancar os segredos das pessoas. Quando foi procurado por Alícia Mindreau, numa tarde em que espiava com um binóculo Dona Adriana banhar-se num lago, essa qualidade foi posta à prova.
O tenente Silva nesse dia foi surpreendido pela filha do Coronel Mindreau quando se deliciava com a nudez de Dona Adriana. Lituma ouviu o Tenente dizer a Alícia: “- É perigoso surpreender assim uma autoridade em seu trabalho, senhorita. E se, de ricochete, pega um tiro? – Em seu trabalho? – desafiou-o ela, com uma gargalhada sarcástica. – Espiar mulheres que tomam banho é seu trabalho?”.
Nesse dia, a investigação dos dois policiais chegou ao paroxismo quando Alícia Mindreau acusou seu pai, o Coronel Mindreau, de ser o responsável pela morte de Palomino Monlero. No Posto da Guarda Civil, Alícia contou ao Tenente Silva a conversa que tivera com seu pai: ele a procurou meio louco de susto e arrependimento: “- Sou um assassino Alicinha. Torturei e matei o recruta com quem você fugiu”.
A partir dessa altura da investigação tudo indicava que nada mais restava para ser esclarecido, o que não significava que haveria condenação do Coronel Mindreau, depois da conclusão do inquérito policial, pelo Tenente Silva. Não ficaria a dúvida sobre a autoria do crime, mas ainda não estavam esclarecidas as circunstâncias de tal ato, e, tampouco, não se poderia prever o que viria ocorrer com o assassino de Palomino Molero, O Coronel Mindreau. Alícia teria falado a verdade sobre as relações sexuais que dizia ser obrigada a manter com seu pai, o Coronel Mindreau?
Por outro lado, o Coronel, pai de Alícia, teria falado a verdade quando negou ter forçado a filha a manter relações sexuais com ele por muitos anos? As afirmações que fizera eram verdadeiras? O certo é que, na praia onde se encontravam, o Coronel Mindreau confessou ter matado Palomino Molero. E que, depois da confissão, pediu que os policiais o deixassem ali. E que, após terem se afastado, ouviram um estampido que indicava tratar-se de um tiro.
O leitor verá que a história de Vargas Llosa não tem como único clímax a descoberta do assassino de Palomino Molero; o ápice da narrativa vem depois da confissão do Coronel Mindreau de ser ele o assassino. Portanto, o desfecho da história não está unicamente na descoberta da autoria do crime, mas também com o que ocorre com o assassino de Palomino Molero e com Alícia, filha do Coronel.
Espero não ter tirado a curiosidade do leitor sobre o desenlace completo dessa história, por ter revelado o nome do assassino, já que restou ser contado o que aconteceu com o Coronel e com sua filha Alícia. O certo, no entanto, é que Quem Matou Palomino Molero? está colocado entre os melhores romances de Mario Vargas Llosa, que a cada livro seu vem confirmar ser ele um dos escritores mais importante da literatura sul-americana.




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