8 de jul de 2011

ALDOUS HUXLEY – Arte e Intelecto

Aldous Huxley





                por Pedro Luso de Carvalho



        Aldous Huxley nasceu a 26 de julho de 1894, em Godalming, Surrey, Inglaterra. A sua descendência contribuiu, sem dúvida, para que não tivesse muitos percalços na sua caminhada, já que descendia de duas das mais eminentes famílias vitorianas. Também a genética viria contribuir para que Huxley se tornasse um dos escritores mais importantes do século XX: herdou de seu avô, T. H. Huxley, a ciência, e de seu tio-avô, Matthew Arnold, as letras.

        Por outro lado, a sua saúde não lhe dava muita margem para dela vangloriar-se. Foi acometido de uma doença nos olhos, ceratite, que o deixou quase cego. Estudou no Eton College e no Balliol College. A falta de visão não lhe permitiu concluir os seus estudos. Retomou-os após alguns anos; munido de óculos, com grossas lentes, ingressou na prestigiada Universidade de Oxford, onde conluiu a faculdade de literatura inglesa.

        Um passo importante na vida de Huxley deu-se em 1919, quando se associou com J. Middleton Murry, editor da Athenaeum . E foi justamente nessa época que começou a escrever versos, ensaios e trabalhos históricos. Tais gêneros nunca seriam abandonados pelo escritor. A partir de 1920, a sátira social viria constituir-se em nota especial, e quase sempre presente em sua obra.

      Em 1937 Aldous Huxley mudou-se para os Estados Unidos, onde fixou residência em Los Angeles, Califonia, num subúrbio chamado Hollywooland. Aí dedicou-se a escrever mais sobre filosofia, história e misticismo, e menos romances. Escolheu Los Angeles para viver, e aí iria morrer.

       Com o seu livro Admirável Mundo Novo (Brave new world), editado nos Estados Unidos em 1932, Huxley ganhou a simpatia de muitos leitores jovens; por muito tempo constituiu-se na leitura favorita dos universitários intrangigentemente agnósticos, que nunca se preocuparam em ler nenhum outro romance do autor, como disse Jacqueline Hazard Bridgeman, no prefácio que escreveu para o livro de ensaios de Aldous Huxley, intitulado Huxley e Deus.
Jachie H. Bridgeman

       Jacqueline Hazard Bridgeman escreveu nessse prefácio (trecho): “Nos seus romances e ensaios dos anos 20, Huxley era sarcásticamente cético, descrente da religião e do recolhimento em que viviam fiéis devotos. Seus deuses eram vida, amor e sexo. Desdenhava a religião que negasse essa trilogia. Abominava as colocações de Swift, Pascal, Baudelaire e mesmo São francisco de assis! De acordo com Huxley, eles eram pessoas que odiavam a vida”. [É oportuno dizer que o escritor teve dois casamentos.]

       Bridgeman diz, também, que “Os primeiros mentores de Huxley foram os apaixonados amantes da vida - Robert Burns, D. H. Lawrence e William Blake. Usando suas palavras, ele era um adorador da vida. O seu Deus era o Deus da Vida. Ele acreditava na diversidade do ser humano; todos os desejos satisfeitos, mas temperados pela razão. A moderação pregada por Aristóteles. A filosofia da justa moderação era, como Huxley escreveu, uma questão de equilíbrio dos excessos balanceados.” 

     Místico - diz Bridgeman -, Huxley tornou-se devoto de Prabhavananda, monge da ordem de Ramakrishma, da Índia. Depois que o autor começou a fazer uso de mescalina e de LSD, viu-se obrigado a afastar-se da ordem, porque Prabhavananda não admitia o uso de drogas como atalho para aguçar a percepção espiritual. Prabhavananda dizia que “se o indivíduo se torna tolo quando entra no estado visionário induzido, permanece tolo quando retorna à consciência normal”. Huxley escreveu sobre a mescalina, As portas da percepção (The Doors of Perception), em 1954, que se tornou leitura obrigatória para a cultura emergente hippie e psicodélica dos anos 60. 

       Depois dessa experiência com Prabhavananda, Huxley foi atraído por Krishnamurt, mais próximo do Zem do que do Vedanta. Antes de ter se aproximado de Prabhavananda, Huxley havia pertencido à Sociedade Vedanta, da qual se afastou, mas continou a escrever seus ensaios para a revista.

       Huston Smith, professor de religião e de filosofia da Universidade de Siracusa e da Universidade de Berkeley, USA, conheceu Aldous Huxley quando tinha 28 anos. Quando Huxley morreu, disse Smith: “o mundo perdeu uma inteligência excepcionalmente criativa. Mais concretamente, perdeu uma mente enciclopédica. Quando um importante jornal concluiu que a décima quarta edição da Enciclopédia Britânica devia sofrer uma revisão, ninguém ficou surpreso quando pediram a Huxley que o fizesse”.

        O professor Huston Smith realça ainda importantes traços do caráter de Aldous Huxley e seu interesse pela religião: “Mais marcante do que o nível de sua mente, entretanto, eram sua simpatia e interesse. Poucas notáveis inteligências, desde Williams James, foram tão abertas. O respeito de Huxley pelo misticismo era conhecido à força de ser quase notório. O que alguns deixaram de perceber foi o seu igual interesse pelo mundo cotidiano e suas exigências: paz, explosão populacional e conservação de nossas reservas naturais”. (Huxley escreveu a respeito dos horrores da guerra nuclear, O macaco e a essência (Ape and Essence), em 1948).

        Malcolm Cowley, responsável pelo prefácio para The Paris Review, deu sua impressão sobre Aldous Huxley: “Nas maneiras e no falar, é muito gentil. Onde se poderia esperar encontrar o satírico mordaz ou o vago místico, a gente, em lugar disso, se impressiona, de um lado, ao ver quão tranquilo e delicado é ele e, de outro, como é sensível e voltado para a terra. Suas maneiras refletem-se em seu rosto magro, cinéreo, emaciado: ele é atencioso, reflexivo e, quase sempre, sério. Ouve, pacientemente, enquanto os outros falam e, então, responde com deliberação”.
Henry James

        Nessa entrevista que concedeu à The Pais Review, Huxley falou, entre outras coisas, de religião, do método que usa para escrever seus romances, de suas obras, de crítica, de escritores e de como eles escrevem. 

        O entrevistador perguntou a Huxley se é um romancista nato, ele responde que não. “Tenho grande dificuldade, por exemplo, em inverter enredos. Certas pessoas nascem com um dom surpreendente para contar histórias; é um dom que jamais possuí. (...) A grande dificuldade, para mim, foi sempre criar situações”. Nessa altura da entrevista, Huxley enaltece Alexandre Dumas: “Santo Deus, como é bom o Conde de Monte Cristo".  
    
        Huxley dá realce ao talento de Dumas para contar histórias, mas, para ele, “isso não constitui a última palavra. Quando se encontra um narrador que executa – diz -, ao mesmo tempo, uma espécie de significado que se assemelha a uma parábola (como se tem, por exemplo, em Dostoiévski ou no melhor de Tolstói), isso é algo extraordinário, julgo eu. Fico sempre pasmo quando releio algumas das coisas curtas de Tolstói, como A Morte de Ivan Ilyich. Que espantoso trabalho é esse! Ou algumas das narrativas breves de Dostoiévski, como, por exemplo, as Notas do Subterrâneo”. 

       Ainda falando à revista The Paris Review sobre os escritores que foram importantes para ele, Huxley disse que quando era estudante lia os romancista franceses, dando destaque para Anatole France, que o considerava antiquado (na época da entrevista), e que não o lia há mais de 40 anos. Disse também lembrar-se de ter lido “o primeiro volume de Proust em 1915, e de ter ficado muito impressionado por ele. Relio-o, não faz muito, e senti-me curiosamente decepcionado”.

       Huxley disse também ter lido Gide naquela época. O entrevistador então pergunta-lhe se sofreu influência de Gide e de Proust, e o escritor respondeu: “Suponho que alguns de meus primeiros romances sejam vagamente proustianos. Não creio que jamais torne a fazer experimentos (...)”. 
Virginia Woolf

        A The Paris Review perguntou a Huxley se ele havia sido muito influenciado por Joyce; e esta foi sua resposta: “Não... jamais o fui muito. Jamais obtive muita coisa com a leitura de Ulisses. Penso que é um livro extraordinário, mas parte muito grande do mesmo consiste em demonstrações um tanto extensas de como não se deve escrever um romance.

        O entrevistador perguntou a opinião de Huxley sobre os escritos de Virginia Woolf, e o escritor disse-lhe que “Suas obras são bastante estranhas. São belas, não são? Ela vê com incrível clareza, mas sempre como se o fizesse através de um anteparo de vidro; jamais toca em coisa alguma. Seus livros não são diretos. São bastante intrincados para mim”.

        A o entrevistador da revista (The Paris Review) quis saber ainda o que o escritor pensa sobre Henry James. Huxley deu sua opinião de forma bastante sucinta: “James deixa-me bastante frio. É evidentemente, um romancista admirável”. 

        Além de romances, Aldous Huxley escreveu poesia, teatro, ensaios, livros de viagem, biografia e história. Dentre suas principais obras, destam-se: 

        ROMANCES: Crome Yellou, 1921; Geração devassa (Antic Way), 1923; Folhas inúteis (Those Barren Leaves), 1925; Contraponto (Point Counter Point), 1928; Admirável mundo novo (Brave New World), 1932; Sem olhos em Gaza (Eyeless in Gaza), 1936; Também o cisne morre (After Many a Summer Dies the Swan), 1939; O macaco e a essência (Ape and Essence), 1948; O gênio e a deusa (The genius and the goddess), 1955; A ilha ( Island), 1962; 

       NÃO-FICÇÃO: Os demônios de Loudum (The demons of Loudum), 1952; As portas da percepção (The Doors of Perception), 1954; Céu e inferno (Heaven and hell ), 1956.

       Aldous Huxley morreu no dia 22 de novembro de 1963, aos 69 anos, em Los Angeles, EUA. No seu leito de morte, a mulher do escritor atendeu ao seu pedido, aplicando-lhe doses de LSD. Nesse mesmo dia ocorreram duas coincidências, o assassinato de John F. Kennedy e a morte do escritor irlandês C. S. Lewis. 




REFERÊNCIAS:
HUXLEY, Aldous. Huxley e Deus. Tradução de Murilo Nunes de Azevedo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 7-10; 12-13.
COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Tradução de Brenno Silveira. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1982, p. 212- 213; 226-228.