31 de jan de 2011

MANOEL CAETANO BANDEIRA DE MELLO – Outono Estação de Amor

Manoel Caetano



                    por  Pedro Luso de Carvalho


        O maranhense de Caxias, Manoel Caetano Bandeira de Mello, nasceu a 30 de julho de 1918 e faleceu em 2008, aos 90 anos de idade. Passou sua infância e adolescência em São Luís. Com a idade de 19 anos, o acadêmico de Direito muda-se para o Rio, no ano de 1938. Aí passa a colaborar nas colunas do semanário de letras Dom Casmurro. 

       Quando Manoel Caetano concluiu o curso de Direito já era profissional da imprensa. Durante a Segunda Guerra Mundial – 1939 a 1945 - trabalhou nas Agências Havas e Reuters. Após esse período, ingressou, mediante concurso público, no DASP, como redator, sendo lotado, depois, na Agência Nacional. Mais tarde, foi redator-chefe da Gazeta de Notícias (1951 a 1955), e, em O Jornal, órgão líder dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, passou a escrever a seção “Semana Internacional”.

        E nesta altura, encerramos a lista desses poucos dados pessoais Manoel Caetano Bandeira de Mello, para, agora, falar-mos de sua obra poética, como segue: 

        No ano de 1987 a Livraria José Olympio publica, em convênio com a Secretaria da Cultura do Estado do Maranhão, ”Outono Estação de Amor”, do poeta Manoel Caetano Bandeira de Mello. Manifestações de acolhimento ao livro são feitas por nomes importantes da literatura brasileira; a esses escritores, poetas e críticos literários, soma-se a contribuição do romancista Josué Montello, membro da Academia Brasileira de Letras, com a brilhante apresentação que faz à obra. Para não nos alongarmos, veremos a seguir o que pensam alguns desses nomes, quais sejam:

       ADONIAS FILHO: É possível que os temas, sempre eternos porque integrados na condição da criatura – a morte e o amor -, tenham imposto essa estrutura clássica no sentido do conteúdo universal no fundo do artesanato moderno. Já não aparecem, porém, como uma experiência. Em suas bases líricas, por vezes no plano da reinvenção, a exemplo da configuração valéryana, tudo de tal modo vem da carne e do sangue que a palavra exata é esta: nascida, a poesia nascida.

        OCTÁVIO DE FARIA: A forma que alcançou agora, depois de laborioso esforço, é de tal modo nova e forte, tão rica e segura de si, de tal maneira trabalhada e marcante, seus decassílabos são tão firmes e eufônicos, suas quadras marcham com o ritmo tão desenvolto e consciente de si, tão grande é a liberdade das rimas e das elipses, das sugestões verbais e das ousadias silábicas, que nos encontramos diante de um mundo poético, totalmente diverso do que se encontrava entre os pólos extremos, tanto do amor e da morte, como do soneto clássico e do verso livre.

        JOSUÉ MONTELLO (trechos da sua apresentação): Manoel Caetano Bandeira de Mello, a quem já defini como poeta de minha geração maranhense, está na fase em que o criador literário tem ao mesmo tempo o domínio de seu ofício e o domínio da vida.

        A vida, que é uma adivinhação na juventude - escreve Montello-, constitui um acervo de experiências profundas, sempre que entramos na maturidade. O que, ontem, era intuição, passa a constituir vivência acumulada, que se exprime dispensando a fantasia, para nutrir-se de recordações.

        O poeta romântico preferiu a intuição à experiência - prossegue Montello. Não esperou pela vida vivida para recolhê-la à concha do poema. Captou-lhe as vozes líricas, e pôde ser mestre ainda jovem, como Gonçalves Dias e Castro Alves. A imaginação fez o seu ofício, com tal poder de verdade permanente, que a “Canção do Exílio”, escrita aos 20 anos, ajusta-se a todas as idades, sem ter envelhecido com o rolar do tempo.

        (...) Manoel Caetano Bandeira de Mello também passou pela fase em que o poeta se deixa conduzir pela intuição da vida. No momento próprio, pôs em versos os seus desencantos de adolescente (...). 

        Os livros que Manoel Caetano Bandeira de Mello publicou até hoje – enfatiza Montello -, balizando o seu caminho da poesia lúcida, ficariam derrogados, após o aparecimento deste Outono estação de amor, se os livros anteriores não contivessem as raízes deste remate intencional.

        Com efeito – diz Montello -, já o poeta de ontem – hoje mais exigente, ontem mais espontâneo. E como a poesia atual é essencialmente técnica, sem prescindir de certa invenção matinal, que lhe confere juventude perene, ocorre que, neste momento, o grande companheiro de geração maranhense, que pretendeu traduzir Milton ao tempo do Liceu, vem dizer-nos com o testamento de seus melhores versos, que o Amor, a primeira matriz da poesia, contemporânea da Primavera, tem no Outono a sua estação adequada.

        Com trechos dessa peça rara, que é a apresentação da obra de Manoel Caetano, escrita por Josué Montello, e que ainda vai longe, nós ficamos por aqui, para a seguir mostrarmos os três primeiros sonetos dos trinta e sete que compõem o livro Outono estação de amor, de Manoel Caetano Bandeira de Mello: 


                        I

 No outono desta vida recomponho  
as horas que de novo viveria
se pudesse voltar aquele dia
que me semelha o espaço deste sonho.

É o passado de volta de seu sono
como o tempo de outrora voltaria.
Unido o cotidiano com a magia
o amor não muda na estação do outono.

Como se fosse outra primavera
a me trazer de novo ansiedade
agora temperada em experiências

que se não faz da gente o que antes era
nos deixa na lembrança a mesma idade
que ilumina de amor tamanha ausência
                   
                    II

Um encontro de olhares entre vento
e mares e azulejo e velha ilha
cabelos esvoaçantes pensamento
que a alma deste corpo maravilha

Um regresso na escada de outro tempo
as lembranças rolantes das meninas
que não sei se me vêem mas contemplo
ressurgidas diante da retina

Quanto calor de quem tanto à distância
se fascina com a chama que o atrai
e desconhece aonde lhe levam os passos

se para os umbrais de uma outra infância
que das fronteiras de minha alma sai
em viagem na noite dos espaços

                    III

Olhar de luz a me aquecer a face
quando comigo cruza aquele instante
passageiro, como eu, bem que não passe
amor já tão longínquo quanto o cante.

Naquela tarde luminosa diante
dessa criatura que talvez amasse,
sonho prendê-la em imaginário enlace
mas fujo do seu rosto radiante.

Se nunca ouvi tua voz eu a pressinto
a censurar, quem sabe, o amor covarde
que só em ver de longe se contenta

movido do poder daquele instinto
que ainda hoje como outrora arde
para erguer-me no vôo que sustenta

                                 
                                       (by Manoel Caetano Bandeira de Mello)