23 de jul de 2009

SARTRE – SEGUNDA PARTE





                       
                 por Pedro Luso de Carvalho


        No texto anterior, sobre Jean-Paul Sartre, publicado neste espaço, escrevi: “Nas próximas publicações, continuaremos falando da obra de ficção de Sartre, de suas peças para o Teatro (que, segundo Maurois, foi onde encarnou suas idéias de maneira mais intensa), e mais: da sua atuação na política, da influência que exerceu sobre a juventude do pós-guerra, de sua recusa em receber o Premio Nobel de Literatura etc.” No entanto, senti que se fazia necessário falar um pouco mais sobre a filosofia de Sartre, que, diga-se, sobre ela muito há para ser dito, e que não comporta neste pequeno espaço. Mas, de qualquer forma, vamos mostrar, nesta postagem, a opinião de importante escritor francês, André Maurois, membro da Academia Francesa, sobre a filosófica de Sartre.

        Também escrevi no artigo anterior, que: Em 1928, Sartre termina o curso de Filosofia. Nesse ano, prestou o serviço militar em Tours, na função de meteorologista. Retornou a Paris em 1930, de onde sairia para a cidade portuária de Havre, para ensinar Filosofia numa escola secundária, e depois em Laon, no Nordeste da França. Numa de suas voltas a Paris, encontrou-se, num café de Montparnasse, com seu ex-colega da Escola Normal, Raymond Aron, que retornava de Berlim, onde fora estudar a doutrina fenomenologista do filósofo Edmund Husserl (1859-1938). Com eles, encontrava-se Simone de Beauvoir; em suas memórias, La Force de L’Âge ('Na Força da Idade'), a escritora relata esse encontro:

        “Está vendo, meu amigo, afirmava Aron apontando seu copo; "se você é femenologista, pode falar deste coquetel e estará falando de filosofia". Sartre empalideceu de emoção, ou quase: era exatamente o que ambicionava havia anos: falar das coisas tais como as tocava, e que isso fosse filosofia. Aron convenceu-o de que a femenologia atendia exatamente a suas preocupações: ultrapassar a oposição do idealismo e do realismo...” . A oposição era eliminada por Husserl, segundo essa assertiva: “Toda consciência é consciência de alguma coisa”. Para o filósofo alemão, idéias e coisas não podem ser separadas e constituem um único fenômeno.

        Depois de ter uma bolsa para estudar um ano em Berlim, em 1933, Sartre estudou, além das teorias de Hussrl, as teorias existencialistas de Heidegger, Karl Jaspers e Max Scheler (1874-1928), que aprofundavam as idéias de Kierkegaard sobre a angústia e o vazio da existência humana. O jovem filósofo Sartre sentia-se inclinado para uma nova filosofia, misto de existencialismo e femenologia. Foi na Alemanha que Sartre exprimiu essa posição no seu romance (não num texto filosófico) Mélancolie ('Melancolia'), que mais tarde teria outro título: A Náusea.

        Os primeiros trabalhos publicados de Sartre sobre Filosofia pura foram: L’Imagination (1939) e L’Imaginaire (1940). Segundo Maurice Cranston: “Sartre deixou-se influenciar por Hussrl e Heidegger, os quais, todavia, não os conheceu – e acrescenta - esses trabalhos devem-se mais a Hussrl, o fenomenologista, do que a Heidegger, o existencialista. Mas na obra filosófica mais substancial de Sartre, L’Être et le Néant (1943), conquanto subintitulada essai d’ontologie phénoménologique, existe mais do gênero de filosofia de Heidegger; e o livro é geralmente visto como um tratado, na realidade como um clássico do existencialismo. O próprio Sartre sempre gostou de ser conhecido como existencialista”.

       Vejamos, agora, o que escreve André Maurois sobre o Sartre filósofo: “Sartre é filósofo antes de ser romancista. Seus romances, suas novelas, suas peças são encarnações de sua filosofia. Foi através dela que 'conquistou' os homens do seu tempo. A idéia que o tornou um homem ilustre foi unir literatura e filosofia. Ele sempre considerou que em cada época existe apenas uma filosofia viva, a que exprime o movimento geral da sociedade (... ) Sartre não acredita na existência de Deus. “Deus está morto”, dizia Nietzche. Quanto a Sartre, recebeu Deus de sua família cristã.”

         Prossegue, falando sobre a Critica da Razão Dialética, obra recente para a época; escreve Maurois: “ Numa obra recente ('Crítica da Razão Dialética') Sartre estudou as relações entre o existencialismo e o marxismo. Educado num humanismo burguês, ele sentiu, muito cedo, a necessidade de uma filosofia “que o arrancasse à cultura defunta de uma burguesia que vegetava sobre o passado”. O marxismo parecia-lhe ser essa filosofia. “Estávamos convencidos, ao mesmo tempo, de que o marxismo fornecia a única explicação válida da história, e que o existencialismo era a única aproximação concreta da realidade.” Na juventude do seu pensamento as duas doutrinas pareciam-lhe complementares. No entanto os elementos de um conflito existiam. O marxismo é um determinismo. Ele ensina que o pensamento de cada época é condicionado pelos métodos de produção e de distribuição.”

        Nesta altura, Maurois aborda o aborrecimento de Sartre com relação ao socialismo, quando os bolchevistas assumem o poder, e sua ânsia em defender o pensamento original de Marx, no seu entender desvirtuado pelos integrantes do poder: “Hoje em dia quer-se obrigar os indivíduos e os fatos a entrarem em fôrmas pré-fabricadas. Por conservadorismo burocrático, pretendem reduzir as mudanças à igualdade.” E, completa Maurois: “Diante desse marxismo preguiçoso, diz Sartre, é legítimo apelar para o existencialismo”.

        André Maurois escreve: “Que se deve concluir? Não que Sartre rejeita o marxismo, mas que tenta recuperar o homem que vive no interior do marxismo. Sem homens vivos e determinados não há história. Hegel já demonstrara que as teses opostas são sempre abstratas, com relação a uma solução que é concreta. (Assim terminará, com uma solução concreta, a abstrata e obsoleta querela entre o liberalismo e o dirigismo). Sartre também aproxima-se muito mais da vida no seu teatro que na sua filosofia.”

        "Essa filosofia causou muito barulho; exerceu uma influência. Mas em geral foi pouco compreendida. O povo chamou de existencialistas moças e rapazes de cabeos compridos! Na verdade o existencialismo é uma filosofia da liberdade, grave, profunda, que Sartre expôs brilhantemente, mas que não inventou. Ela veio, como já dissemos, de Kierkegaard, de Husserl. O que fez, com sucesso, um grupo de escritores franceses (e principalmente Sartre e Simone de Beauvoir) foi transpor essa filosofia para romances e dramas aos quais levava um peso e uma ressonância, enquanto, reciporocamente, romances e dramas conferiam ao existencialismo, sobre os espíritos modernos, um poder que jamais teria tido sem essas encarnações.”

        Por ora, ficamos por aqui, para não nos alongarmos. E, como muito mais há para ser dito sobre a filosofia de Sartre, deixaremos essa tarefa para outra ocasião. Somente depois que passarmos pelo seu mundo filosófico é que passaremos para a obra literária de Sartre. [Para ler ao primeiro texto sobre Sartre, clique em:
Sartre - Primeira Parte.]





REFERÊNCIA:
MAUROIS, André, 'De Gide a Sarte'. Tradução de Maria Clara Mariani Lacerda e Fernando Py. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1966.