3 de jan de 2010

[Poesia] EDGAR ALLAN POE / Ulalume



             por Pedro Luso de Carvalho
       
         Sobre o genial escritor Edgar Allan Poe (1809-1849) escrevi três textos, que se encontram postados neste espaço, quais sejam: Edgar Allan Poe e sua Antologia de Contos; O Corvo e Annabel Lee. Num desses textos, fiz menção ao seguinte fato: no ano de 1847, o escritor norte-americano tem algumas de suas histórias traduzidas para o francês, por Charles Baudelaire (1821-1867), dentre eles um dos famosos contos de Poe, qual seja, A Queda da Casa de Usher; Baudelaire também escreve o prefácio das obras de Poe. Eis um trecho do prefácio de Baudelaire:

        “Como poeta Edgar Poe é um homem à parte. Representa quase sozinho o movimento romântico do outro lado do oceano. É o primeiro americano que, propriamente falando, fez do seu estilo uma ferramenta. Sua poesia, profunda e gemente, é, não obstante, trabalhada, pura, correta e brilhante, como uma jóia de cristal. Edgar Poe amava os ritmos complicados que fossem, neles encerrava uma harmonia profunda”.

        Charles Baudelaire prossegue sua análise sobre os poemas de Poe, dizendo: “Há um pequeno poema seu intitulado Os Sinos”, que é uma verdadeira curiosidade literária; traduzível, porém, não o é; O Corvo logrou grande êxito. Segundo afirmam Longfellow e Emerson, é uma maravilha. O assunto é quase nada, e é uma pura obra de arte. O tom é grave e quase sobrenatural, como os pensamentos da insônia; os versos caem um a um, como lágrimas monótonas; No país dos sonhos tentou descrever a sucessão dos sonhos e das imagens fantásticas que assaltam a alma, quando o olho corpóreo está cerrado”.

        A consagração de Poe, dois anos antes de sua morte, deveu-se não apenas ao conto, mas também aos seus brilhantes ensaios e aos seus poemas magistrais. Efetivamente, a imaginação de Poe era extraordinária, qualidade que se somava a outra, qual seja, a de ter sido intransigente no tocante à excelência literária de sua obra. Mas, assim não entendiam os pseudos intelectuais da época, que não compreendiam a grandiosidade da obra de Poe. Para os críticos europeus, até o ano de 1847, quando Baudelaire traduziu Poe, os Estados Unidos tinham uma literatura de segunda categoria.
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        Julio Cortázar menciona os motivos da tardia aceitação da obra de Poe pelos norte-americanos, qual seja, de estarem os Estados Unidos atrelados à literatura do século XVIII, com “péssimos romances e poemas, ensaios triviais ou extravagantes, contos insípidos”; e mais: que entre os anos de 1830 e 1850 os Estados Unidos estavam iniciando sua história literária, e que os poucos escritores de talento eram: James Russel Lowell, Hawthorne, Emerson e Longfellow.

        Exemplo desse cuidado com sua obra é o seu imortal poema O Corvo, que foi traduzido inúmeras vezes para vários idiomas; para o idioma português, a tradução foi feita por dois mestres da literatura: o brasileiro Machado de Assis e o português Fernando Pessoa. As primeiras traduções de O Corvo, foram feitas pelos franceses Baudelaire e Mallarmé. Outros poemas, como Ulalume, Annabel Lee, Tamerlão, Os Sinos e Al Aaraaf, entre outros, gozam de igual celebridade. Para quem não conhece ULALUNE, esta é a oportunidade para ler esse excelente poema de Edgar Allan Poe.

            

         ULALUME


Era o céu de um cinzento funerário
e a folhagem, fanada, morria,
a folhagem, crispada, morria;
era noite, no outubro solitário
de ano que já me não lembraria;
ficava ali bem perto o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem perto, o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir.


Lá, uma vez, por um renque titânico
de ciprestes, vagueei, em desconsolo.
Era então o meu peito vulcânico
qual torrente de lava que no solo
salta, vinda dos cumes de Yaanek,
nas mais longínquas regiões do pólo,
que ululando se atira do Yaanek
nos panoramas árticos do pólo.


Tristonha e gravemente conversamos,
mas a idéia era lassa e vazia
e a memória traidora e vazia;
que o mês era de outubro não lembramos,
nem soubemos que noite fugia.
(Ai! A noite das noites fugia!)
Não recordamos a lagoa de Auber
(e já fôramos lá, certo dia);
não pensamos no charco úmido de Auber
nem no bosque assombrado de Weir.


Quando a noite ia já desmaiada
e as estrelas chamavam pela aurora,
pálidos astros apontando a aurora,
eis que surge, no extremo da estrada,
uma luz fluida, nebulosa; e fora
dela se ergue um crescente recurvo,
diadema de Astarté, que se alcandora.
“Menos fria que Diana é essa estrela”,
digo, “a girar num éter feito de ais.
Viu o pranto, que a mágoa revela,
nas faces em que há vermes imortais
e, por onde o Leão se constela,
vem mostrar o caminho aos céus, letais
caminhos para a paz dos céus letais;
a despeito do Leão, vem-nos ela
iluminar, com olhos triunfais;
das cavernas do Leão, vem-nos ela,
cheia de amor nos olhos triunfais.”


Mas diz Psique, tremendo de aflição:
“Dessa estrela, por Deus, desconfia!
Desse estranho palor desconfia!
É preciso fugir de luz tão fria!
Apressemo-nos! Voemos, então!”
E, perdidas de tanta agonia,
suas asas se inclinavam para o chão;
soluçava e, de tanta agonia,
as plumas rastejavam pelo chão,
tristemente roçando pelo chão.


“Isso”, falei, “é um sonho de criança!
Oh! sigamos a luz que facina,
mergulhemos na luz cristalina!
É um clarão de beleza e de esperança
o que vem dessa luz sibilina.
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança!
Guie-nos, pois, essa estrela, que ilumina
nossa estrada, com toda a confiança;
que nos guie para onde se destina.
Nessa estrela tenhamos confiança,
pois nas sombras, assim, volteia e dança!”


Dou um beijo a Psique, que a conforta,
impedindo que o medo se avolume,
que a dúvida, a tristeza se avolume,
e da estrela seguimos o lume
a té que nos deteve uma porta
de tumba, e uma legenda nessa porta.
“Doce irmã”, perguntei, “dessa porta
que tragédia a legenda resume?”
“Ulalume!” - responde-me. “Ulalume!”
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!”


E me vi de tristezas referto,
como a folhagem seca que morria,
a folhagem fanada que morria!
E exclamei: “Era outubro, decerto,
e era esta mesma, há um ano, a noite fria
em que vim, a chorar, aqui perto,
fardo horrível trazendo, aqui perto!
Nesta noite das noites, sombria,
que demônio me arrasta aqui tão perto?
Bem reconheço agora o lago de Auber,
na região enevoada de Weir;
bem vejo o pantanal úmido de Auber,
na floresta assombrada de Weir!”.



(Tradução de Osmar Mendes)