7 de mar de 2010

ÉMILE ZOLA - PARTE II




por Pedro Luso de Carvalho


Como vimos na postagem anterior a esta, Émile Zola não negligencia os seus estudos no colégio Bourbon, em Aix; por seu esforço, ganha o concurso de melhor aluno do colégio, em 10 de agosto de 1853, entre outros prêmios. Os seus novos amigos, dentre eles Paul Cézanne, fazem-no sentir à vontade no colégio, que, como vimos, é freqüentado por filhos de pessoas de posses. Aí passa a dedizar-se à leitura de grandes escritores, e a dar os seus primeiros passos na arte da literatura, quando escreve a comédia Enfoncé le pion, e uma novela Les Grissettes de Provence.


Nessa época em que Émile obtém grande progresso nos estudos, sua família, que havia se mudado do beco Sylvacanne, para um pequeno alojamento na periferia, muda-se mais uma vez; agora, para uma casa muito pobre, de apenas dois cômodos, na rua Mazarine. Émilie Zola – mãe de Émile - vai à Paris, e aí, junto aos advogados tenta reverter a situação criada por Jules Migeon, que fora sócio de seu marido, no que respeita à dissolução da Sociedade do Canal. Em outubro de 1857, morre repentinamente a vovó Aubert, mulher forte e corajosa, mãe de Émilie e avó de Émile.


Enquanto Émilie Zola faz novas incursões à Paris, agora buscando ajuda do senhor Thiers, pessoa que sempre se mostrou atencioso para com François Zola, seu finado marido, Émile faz companhia ao avô, que se encontra abatido com a morte da esposa; mas, o jovem não exita em encontrar-se muitas vezes com seus amigos, principalmente com o que lhe é mais íntimo, Paul Cézanne. Émile gosta desse convívio com o seu amigo Cézanne, arrebatado e intratável, que sonha com a pintura. O pai de Cézanne, no entanto, faz séria objeção a essa amizade; o banqueiro não se conforma com o desnível social existente entre o seu filho e Émile. Tal objeção, no entanto, ajuda a estreitar mais ainda esse laço de amizade entre os dois jovens.


Aqui, abro um parêntesis para dizer algumas palavras sobre Paul Cézanne: pintor francês (Aix-en-Provence, 1839 – id.,1906) como seus amigos impressionistas, praticou a pintura ao ar livre, mas esforçou-se por fazer a pintura segundo sua própria expressão. Achava que a “reflexão modifica a visão”. É considerado um dos precursores da arte moderna. Paul Cézanne somente foi reconhecido em Paris, depois de muito tempo. Em vida do artista, poucas obras suas foram vendidas. Ao dizer, que, só às vésperas de sua morte podia vislumbrar a terra prometida, Cézanne perguntava-se: “Por que tão tarde e com tanta dificuldade?” Em 2001, o quadro Montanha de Santa Vitória, de Paul Cézanne, foi vendido no leilão da Casa Phillips, nos Estados Unidos, por cerca de 38 milhões de dólares. Fecho o parêntesis.


Em fevereiro de 1858, Émile recebe uma carta de sua mãe, que se encontra em Paris, que o deixa apreensivo, e que o faz antever a dor da separação dos seus passeios nas fontes de Aix e dos seus insubstituíveis amigos; diz na carta a senhora Émilie Zola: “A vida em Aix é insustentável, venda os quatro móveis que nos restam. Com o dinheiro, você terá como comprar seu bilhete de terceira classe e o do seu avô. Não demore. Espero por você.”


Atendendo o pedido de sua mãe, Émile e seu avô chegam a Paris, cidade que pouco conheceu na sua infância. Suas ruas cinzas e frias, são muito diferentes das ruas ensolaradas de Aix; Émile teme não poder adaptar-se em Paris, onde passa morar com sua mãe Emilie e o avô, na rua Monsieur-le-Prince, 63. Sua mãe diz que fez sua matrícula , como meio bolsista, no venerável liceu Saint-Louis, na seção de ciências. Émile está com dezoito anos. A sua adaptação aí seria muito difícil, já que teria que conviver com jovens burgueses zombeteiros, elegantes, que lêem jornais e acompanham as novidades da política, das atrizes, e tudo o que acontece na sociedade parisiense. Sente-se incomodado por ser mais velho que a maioria dos seus colegas, parecendo-lhe ser intelectualmente inferior.


Émile não perde o contato com Aix, para onde retornaria em suas férias, junto com sua mãe, para o convívio com os amigos. Escreve e recebe cartas de Cézzane, Baille e Marguery. A estes, Émile fala de seus projetos literários, de suas leituras, da solidão e das mulheres. Essa correspondência absorve-o a ponto de negligenciar os estudos. Émile não é mais o aluno aplicado de Aix. Interessa-se apenas pela literatura francesa, principalmente Hugo e Musset. Interessa-se também por Rabelais e por Montaigne. Prefere os escritores românticos – esses escritores são livres das amarras político-sociais -, aos tediosos clássicos. Termina o ano escolar apenas com o prêmio de segunda colocação, em francês.


Dois fatos deixa-o prostrado ao retornar à Paris, depois de suas férias em Aix: a febre tifóide, que o acomete, e o despejo do apartamento em que mora com a mãe e o avô, na rua Saint-Jacques, 241, por falta de pagamento do aluguel. Émile sente que terá de obter uma posição que lhe dê uma boa remuneração. Passar no vestibular para o curso de Direito, será o primeiro passo, para depois tornar-se advogado. É o que diz em carta ao amigo Baille, em 23 de janeiro de 1859: “... É apenas um meio de chegar, é o trabalho... Eu digo, por algum tempo, adeus aos meus belos sonhos dourados, certo de vê-los, em profusão, acolhendo-me quando minha voz vier a chamá-los, de novo, numa época melhor”, conclui.


Émile tinha razão, quando disse que os sonhos dourados não o abandonariam. A literatura atrai-o, enquando a ciência o confunde. Fala sobre esse sentimento ao amigo Marguerry, na carta que lhe escreve: “Não sou mais o Zola que trabalhava, que amava a ciência, que seguia como podia rumo ao abismo do ensino universitário. Você é um amigo, posso lhe contar muitas coisas: ora, saiba que me tornei um preguiçoso incorrigível, a álgebra me dá dor de cabeça, e a geometria me passa um horror tal que me arrepio só de ver um inocente triângulo... Tudo isto é uma trajetória para lhe dizer que, não fazendo nada, não serei aceito para o exame de bacharelado”.


Quanto às provas de exame vestibular, que faria na Sorbonne, Émile previra que não seria aprovado, em razão das dificuldades que tinha nas matérias de física, química e matemática. Mas, para sua surpresa, encontra o seu nome na lista dos aprovados, na fase escrita. Na prova oral, no entanto, Émile erra ao responder a data da morte de Carlos Magno. Depois, perde-se na resposta sobre obra de La Fontaine; e, na prova da língua alemã, demonstra pouco conhecimento. Então, os membros da mesa examinadora decidem, para a perplexidade de Émile, reprová-lo em literatura.


Em postagem anterior, editamos a primeira parte da vida e da obra de Émile Zola. Depois desta segunda parte, voltaremos a contar a história desse importante escritor francês. (Para ler a primeira postagem, clique em: ÉMILE ZOLA – PARTE I.)




REFERÊNCIAS:
TROYAT, Henri. Zola. Tradução de Maria das Graças L. M. Do Amaral. São Paulo: Ed. Página Aberta, 1994.
DERENGOSKI, Paulo Ramos. Olhar brasileiro sobre grandes pintores. Lages: Editora Inês, 2004.
PETIT LAROUSSE. Dictionnaire Encyclopédique pour tous. 24ª tirage. Paris: Librairie Larousse, 1966.