18 de jan de 2009

AS MÃES DA PRAÇA DE MAIO



por Pedro Luso de Carvalho



Uma data para não ser esquecida: 31 de março de 2009, quando, numa terça-feira, a Justiça Argentina julgou e condenou à prisão perpétua o ex-capelão da Igreja Católica, Christian Von Wernich, de 69 anos, pela sua participação em sete homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros –, foi no caos da ditadura militar (1976-1983) que, com a dor pela perda de seus filhos, desaparecidos e mortos, nasceu um símbolo da resistência dos argentinos: a Associação das Mães da Praça de Maio, tendo como presidente a conhecida e respeitada senhora Hebe Pastor Bonafini. 


Para esse julgamento, que durou cerca de três meses, as portas do Tribunal foram abertas para o público, e também foi permitida a sua cobertura ao vivo, por emissoras de televisão. Na parte externa do prédio foi instalado um telão para que as pessoas pudessem acompanhar o julgamento. Os sobreviventes e familiares das vítimas, que participaram do julgamento na condição de testemunhas, disseram que o ex-capelão ouvia confissões nos locais onde eram torturados e informava aos militares o que ouvia. 


Antes desse julgamento, outro foi realizado, na província de Córdoba, para julgar o ex-general Luciano Benjamín Menéndez (81 anos), e, no dia 17 de junho de 2008, o Tribunal deu o seu veredicto: culpado. A pena que lhe foi imposta foi prisão perpétua, pela autoria da morte de quatro militantes de esquerda em um centro de torturas do Terceiro Corpo do Exército, sob comando do general. Centenas de pessoas festejaram a sua condenação.


Será que semelhante julgamento seria realizado no Brasil? Acho difícil, em que pese o Ministro da Justiça Tarso Genro venha demonstrando clara intenção de imitar os argentinos. Jornais publicaram esta manifestação de Genro: “É uma análise que deve ser baseada em uma visão universal: que é do extravasamento do mandato dado pelo Estado e a responsabilidade do agente que extravasa esse mandato e comete tortura”. Aguardemos os acontecimentos. 


No mês de junho próximo passado, tive a grata oportunidade de acompanhar uma conferência proferida por Hebe Pastor Bonafini, transmitida pela TV estatal argentina, na qual essa incansável lutadora pela causa dos filhos mortos por atos da Ditadura Militar daquele país, dizia que jamais deixaria de denunciar para o mundo tais crimes, e que, mais cedo ou mais tarde, veria outros responsáveis pela inominável matança de seus filhos sentarem nos bancos dos réus, e ouvir dos juízes a sentença de "culpado", para depois serem conduzidos à prisão para o cumprimento das penas que a eles serão impostas.