22/07/2010

MANOEL ANTÔNIO DE ALMEIDA – Precursor do Realismo




por Pedro Luso de Carvalho


Manoel Antônio de Almeida, patrono da cadeira 28 da academia Brasileira de Letras, nasceu no Rio de Janeiro em 17 de novembro de1830 e morreu no naufrágio do vapor Hermes, quando se encontrava a trabalho para o Correio Mercantil, em Macaé, Estado do Rio, em 28 novembro de 1861. Ainda cursava medicina quando iniciou o seu trabalho de jornalista no Correiro Mercantil, do Rio de Janeiro. Forma-se mais tarde, mas não exerce a profissão de médico, mantendo-se fiel ao jornalismo, já que escrever era a sua verdadeira paixão. No Correio Mercantil, escreveu, em suas colunas, crônicas, reportagens, crítica literária.


No Correio Mercantil o escritor começou a publicar Memórias de um Sargento de Milícias que, como disse ÁLVARO LINS, o romance, passou quase despercebido no momento, e que de certa forma anuncia o realismo (escrito em 1852, quando o modelo ainda era o Romantismo) hoje constitui a glória de seu autor, e que lhe dá papel de relevo na história do romance brasileiro. Memórias de um Sargento de Milícias, 2 vols., 1854-1855, reeditado várias vezes, é um romance de costumes; o escritor enfoca de forma admirável a sociedade fluminense nos seus mais variados aspectos. Essa obra é importante como documentário e como crônica de uma época.


Obra importante sobre Manoel Antônio de Almeida foi publicada pela Graphia Editoria, Rio de Janeiro, 1991, intitulada Obra Dispersa, a qual contém peças do escritor, de crítica, crônica, correspondencia e teatro. É também uma antologia complementar com testemunhos de contenporaneos do escritor e juízos críticos pré-modernistas sobre Memórias de um Sargento de Milícias. Obra Dispersa contém introdução e notas de Bernardo de Mendonça. Encontramos nessa obra um artigo que Machado de Assis publicou na sua coluna Comentários da Semana', do Diário do Rio de Janeiro, sobre a morte de Manoel Antônio de Almeida.


MACHADO DE ASSIS (Rio, 21.06.1839; Rio, 29.09.1908) tinha dezoito anos quando conheceu Manoel Antônio de Almeida, em 1857, na Tipografia Nacional. Nessa época, Machado de Assis começara a publicar versos na revista de Paulo Britto, A Marmota, e mereceu os incentivos de Almeida. Este apresentou Machado a Francisco Octaviano, Quintino Bocaiúva e Augusto Zaluar. Com esses contatos, Machado conseguiu o seu primeiro emprego em jornal, o de revisor do Correio Mercantil. Em 1859 colabora no Espelho, revista criada por Zaluar, e dois anos mais tarde, já assinava os Comentários da Semana, para o Diário do Rio de Janeiro. (Nota de Bernardo de Mendonça em a Obra Dispersa.)


Machado de Assis escreveu na sua coluna Comentários da Semana do Diário do Rio de Janeiro: “Quero escrever e a pena se me acanha, vacila-me o espírito, e não acho uma palavra para começar. Bem errada é essa crença de que a intensidade do sentimento inspira o escrito, e que a impressão dá mais vigor à pena. (...) Pereceram, como é sabido, no naufrágio do Hermes em viagem para Campos, trinta e tantas vidas, bem perto de terra, aos clarões da madrugada. (...) Morreu ali um grande talento, um grande caráter e um grande coração”.


Prossegue Machado, no seu artigo: “No vigor dos anos, amado por todos, por todos festejado, alma nobre, espírito reto, abrindo o coração a todas as esperanças caiu ele para sempre, terminando por um naufrágio a vida que não se abalara nunca nos braços da fortuna. É essa a triste simetria da fatalidade. Pode-se afirmar que não deixou uma desafeição e muito menos um ódio. Os mais indiferentes sentiram essa perda que, afetando o país em geral, feriu particularmente o coração de seus numerosos amigos. Pertencia a essa mocidade ardente e cheia de fé, que põe olhos de esperança no futuro, e aspira contribuir com o seu valioso contingente para o engrandecimento da pátria.


O que pela sua parte – diz Machado - podia dar era muito. O seu talento, aferido por um cunho superior, era de alcance grande e seguro; o seu espírito era observador; os seus escritos estão cheios das melhores qualidades de um escritor formado. Perdeu a pátria um dos seus lutadores, os amigos o melhor dos amigos, a família – duas irmãs apenas – um braço que as sustinha, e um coração que as amava. Para que escrever-lhe o nome? Todos hão de saber de quem falo. O seu nome tem sido lembrado com dor – Machado refere-se a Manuel Antônio de Almeida -, por quantos se têm ocupado com esse terrível desastre. Eu era seu amigo em vida; na sua morte dou-lhe uma lágrima sentida e sincera”.


Na mesma obra, Obra Dispersa, encontramos um artigo escrito por QUINTINO BOCAIÚVA, em 1863. Assim se expressa Bocaiúva: “O editor da Biblioteca Brasileira tem um compromisso de coração que há de cumpri-lo: - fazer uma edição especial das 'obras completas' de seu infeliz amigo Manoel Antônio de Almeida. Enquanto se reúnem os esparsos escritos, as trovas abandonadas, os artigos atirados a esmo, confundidos e perdidos entre tantas páginas soltas e efemeras, iremos dando ao prelo as que estão colecionadas e prontas. O romance que hoje começamos a publicar, apareceu a princípio sem o nome do autor. A edição pronta à venda esgotou-se ou pelo menos raros são os que possuem hoje um exemplar dela.


(...) Vários amigos de M. De Almeida nos tem prevenido – prossegue Quintino Bocaiúva - de que desejariam formar o préstito literário que deve conduzir a sua memória ao templo imperecedouro da admiração nacional. Pela nossa parte, que tão de perto o conhecemos e que lhe fomos irmão, só temos um receio, é de que nunca se chegue a avaliar devidamente o que valia aquela grande inteligencia e sobretudo aquele grande coração que teriam feito de Almeida um tipo se Deus não houvesse preferido faze-lo um mártir”.


Em Obra Dispersa encontramos ainda outro artigo de Machado de Assis sobre Manoel Antônio Macedo, que está assim redigido: “MACHADO DE ASSIS - 1863. “Com a publicação do IX volume de Biblioteca Brasileira, termino a parte literária da quinzena. Contém este volume a primeira parte do romance do meu finado amigo, doutor Manoel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de Milícias. A obra é bem conhecida, e aquela vigorosa inteligencia que a morte arrebatou de entre nós, bastante apreciada, para ocupar-me neste momento com essas páginas tão graciosamente escritas. Enquanto se não reúnem em um volume os escritos dispersos de Manoel de Almeida, entendeu Quintino Bocaiúva dever fazer uma reimpressão das Memórias, hoje raras e cuidadosamente guardadas por quem possui algum exemplar. É para agradecer-lhe esta piedosa recordação do nosso comum amigo.”

Outro importante intelectual, SÍLVIO ROMERO, escreve, em 1888, sobre Manoel Antônio de Almeida (in Obra Dispersa): “É o autor do famoso romance Memórias de um sargento de Milícias, um dos livros mais gabados das letras brasileiras. Esses gabos não são infundados, posto que não seja mister exagerá-los em demasia, como se faz geralmente. Os principais mérito do livro são: naturalidade na exposição, viveza no diálogo e nas cenas descritas, graça, espírito no dizer, o nacionalismo do assunto e das cores do quadro. O autor tinha em alta dose o talento de observar os costumes do povo e é por isso que seu livro lhe sobreviveu (...).”


Em 1900 o grande crítico literário JOSÉ VERÍSSIMO escreve um longo artigo sobre Manoel Antônio de Macedo e seu romance Memórias de um sargento de Milícias (in Obra Dispersa), do qual transcrevo o seguinte trecho: “ O enredo, entrecho ou fundo do romance de Manoel d'Almeida, é a desinteressante história de um menino travesso e rapaz extravagante e quase perdido no Rio de Janeiro do princípio deste século. Justamente quando esse menino, cujas travessuras ou maldades, como diziam as bem desenhadas velhas que com ele houveram de tratar, ocupam duas boas partes do livro, se faz homem e é feito sargento de milícias, o romance acaba, deixando injustificado o título, que devia ser antes memórias de um menino que foi sargento de milícias".


Prossegue Veríssimo: “O seu grande senão é a forma que não é nem artística em bela, que não tem nem as rebuscadas elegancias do estílo, nem essa espontaneidade que alguns espíritos de eleição sabem dar, por uma inspiração que é o dom do genio, à forma de que revestem a sua criação. (...) Ao seu tempo escrevia-se muito bem – diz Veríssimo -, e entre os seus contemporaneos contam-se esses primorosos escritores da grande época romantica: Magalhães, Francisco Octaviano, Alencar, Gonçalves Dias. Esse estilo incorreto, descosido e solto, de uma simplicidade que é trivial, de um caráter sem feição, nem relevo, não é à época imputável e sendo próprio ao seu autor é o maior demérito de um livro que, e nenhuma ironia encobre o meu pensamento, para ser um dos mais belos da nossa literatura só lhe falta ser bem escrito”.

Outro crítico literário importante escreve sobre Manoel Antônio de Almeida (in Obra Dispersa), qual seja, RONALD DE CARVALHO, em 1919: “Ao lado de Macedo e Alencar, destaca-se o nome de um escritor morto no princípio da sua carreira literária, quando ainda estava no primeiro livro. Referimo-nos a Manoel Antônio de Almeida (1830-1861) e as suas Memórias de um Sargento de Milícias. Há nessa obra a massa de um perfeito novelista, senhor dos assuntos que estudava, observador despreocupado, mas sagaz no meio em que vivia, sabendo conduzir com acerto e leveza as várias peripécias da intriga, desenhando com segurança os tipos arrancados à sociedade e ao meio circundante.


Manoel de Almeida é discípulo de Balzac – diz Ronald de Carvalho - não só pela felicidade com que desenvolvia as situações mas também pela exuberancia de seu temperamento (...). Quem quiser conhecer, porém, os costumes das nossas classes médias no alvorecer do século findo, folheando as páginas vivas e singelas de Manoel de Almeida encontrará copiosa matéria de flagrantes cenas, bem descritas, sem convencionalismos de escola, nem partis-pris de espécie alguma. As Memórias são como essas fotografias na primeira prova, desalinhadas do retoque muitas vezes desfigurador, sem artifícios, e, por isso mesmo, reais nas partes belas e nas feias”.


ANTÔNIO SOARES AMORA, assim se manifesta na sua obra História da Literatura Brasileira, sobre Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida: “Romance excelente, embora com deficiências de composição, e excelente pelo que tem de real, de densidade humana, de estilo leve e comunicativo, e pelo que reconstrói da vida carioca num plano social – o da gente pobre – pouco comum nos romances romanticos. As muitas edições, sobretudo atuais, da história do nosso endiabrado Leonardo, provam o exito póstumo desse médico por acaso, funcionário público por necessidade, e jornalista e romancista por decidida inclinação.


SERGIUS GONZAGA, professor da Faculdade de Letras da UFRGS, in Curso de Literatura Brasileira, Porto Alegre, Editora Leitura XXI, 2004, escreve sobre Memórias de um Sargento de Milícias, romance anti-Romantico: “A frieza com que a única obra ficcional de Manoel Antônio de Almeida foi recebida, inclusive por escritores que lhe votavam amizade, evidencia o quanto a mesma fugia dos padrões estéticos vigentes no país, na metade do século XIX. Diferentemente de seus contemporaneos, intoxicados com clichês romanticos, Almeida inovou ao fixar um mundo em que vigoravam certo relativismo moral e um cinismo simpático, além de uma condescedencia em relação às transgressões sociais, transformando pecados leves e pequenos crimes em situações irresistivelmente comicas e não em melodramas baratos. Ao anular a dicotomia entre o bem e o mal, tão ao gosto do Romantismo, o jovem romancista criou a obra mais original do período ”.




REFERENCIAS:
LINS, Álvaro. Buarque de Hollanda, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1966.
ALMEIDA. Antônio Manuel de, 1831-1861. Obra Dispersa/Manuel Antônio de Almeida. Introdução, seleção e notas , Bernardo de Mendonça. Rio de Janeiro: Graphia, 1991.
AMORA, Antônio Soares. História da Literatura Brasileira. 5ª ed. São Paulo: Edição Saraiva, 1965.
GONZAGA, Sergius. Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI, 2004.
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4 comentários:

  1. Bom dia
    Acabei de ler este seu trabalho resumindo a obra e o valor literário de um grande escritor brasileiro.
    Um documentário bem elaborado incluindo estudos de outros escritores.
    Reparei que conta com cerca de 400 seguidores e são poucos os que lêem e comentam os seus trabalhos.
    Alguma coisa estará errada...?
    Termino com saudações amigas.

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  2. Pedro venho aqui pedir-te desculpa pela minha observação.
    O teu Blogue é excelente e como fazes um resumo acessível sinto-me bem a ler e sempre a aprender.
    Fazia-me muita confusão as pessoas não comentarem quando sabemos que existem blogues sem interesse e com bastantes comentários.
    Esta foi a minha visão.
    Agradeço as tuas palavras e o altruísmo com que fazes tudo na vida. As coisas que não se vêem mas que nos enchem de satisfação por nos sentirmos úteis nesta sociedade.
    Obrigado por tudo.
    Aceita as minhas desculpas.

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  3. Muito interessante o modo como você abordou o tema.
    E esse colar feito de "contas" críticas fazendo brilhar (acender, apagar, acender...) o autor e sua mais importante obra.

    A crítica é sempre parcial, posto que nela estão contidas além de uma reação pessoal à obra, todo um contexto do período em que é elaborada.

    Hoje, ela é mais perigosa. Pois chega-nos através de um quarto poder, - que só aceita divulgar o pensamento que pretende dominante, - distanciando a crítica que navega o mar midiático do verdadeiro sentido das diferentes manifestações artísticas, que não pode excluir a subversão do olhar.

    Percebe-se nos diferentes pensares acerca da obra de Manoel Antônio de Almeida, o traçado (diverso) do caminho tão tragicamente interrompido.

    Impressionou-me o Bocaiúva:
    "só temos um receio, é de que nunca se chegue a avaliar devidamente o que valia aquela grande inteligencia e sobretudo aquele grande coração que teriam feito de Almeida um tipo se Deus não houvesse preferido faze-lo um mártir."

    (grifo meu)

    Bjs, Pedro. Inté!

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  4. Caro Luís Coelho,

    Compreendo a sua preocupação no que diz respeito às leituras de minhas matérias, e fico grato com sua atenção. Apenas gostaria de mostar ao amigo o angulo pelo qual vejo os meus blogues: sempre me senti grato pelo que recebi em matéria de cultura, desde o curso primário até a conclusão do curso de Direito, que fiz na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul. E sempre estive atento para outros brasileiros que não tiveram a oportunidade que tive, inclusive a de poder ter me dedicado não apenas ao Direito e à Literatura, mas também ao conhecimento de uma forma mais ampla, em diversas áreas. Então, o meu propósito, com os blogues, é procurar ajudar as pessoas de alguma forma, e isso venho tendo exito, no meu entender, pois no blog de Literatura tenho mais de 227 mil visitas em menos de 4 anos, e, nesse mesmo tempo, tenho perto de 300 mil visitas no blog jurídico (Gazeta do Direito). E mais, recebo diariamente um expressivo número de e-mails com pergundas de estudantes universitários, que sobre a matéria específica que é publicada, quer sobre pedido de sugestões sobre leituras. Sobre a matéria jurídica de meu blog Gazeta do Direito as consultas são ainda em maior número. Com isso tenho me sentido útil, e vejo que a cultura pode ser irmamente dividida sem receber nada em contraprestação.

    Quanto aos comentários, caro amigo Luís, aprendi nestes quatro anos de blog, que poucos são os leitores que se sentem confortáveis ao faze-los; tanto isso é certo que a consultas de estudantes ou não, que me são feitas, sempre se dão por quem não tem blog. As matérias publicadas nos blogues são lida mais pelas pessoas que consultam o Google, que não são blogueiros, do que por nossos seguidores.

    É isso, amigo, mais importante que os comentários são as leituras, mesmo que não sejam em grande número, mas que se prestem para ajudar a quem procura alargar seus conhecimentos.

    Um grande abraço,
    Pedro Luso.

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